Nunca olharam as nuvens, nunca as viram, esses mármores ao v

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em 1920.

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ANTÓNIO PATRÍCIO

SERÃO INQUIETO

CONTOS

LIVRARIAS AILLAUD E BERTRAND--PARIS-LISBOA

SERÃO INQUIETO

DO AUCTOR

OCEANO (versos).

O FIM (história dramática em dois quadros).

SERÃO INQUIETO (contos), 2.ª edição.

PEDRO O CRU (drama em 4 actos), 2.ª edição.

DINIS E ISABEL (Conto de primavera).

_Em preparação:_

POEMAS.

O REI DE SEMPRE (Tragedia Nossa).

SHEHÉREZADE (contos).

CINCO DIÁLOGOS DE SONHO.

Composto e impresso na Tip. da Empresa Diário de Notícias

Rua do Diário de Notícias, 78

ANTÓNIO PATRÍCIO

SERÃO INQUIETO

CONTOS

2.ª EDIÇÃO

LIVRARIAS AILLAUD E BERTRAND

PARIS--LISBOA

LIVRARIA CHARDRON

PORTO

LIVRARIA FRANCISCO ALVES

RIO DE JANEIRO

1920

A

ANTÓNIO CÂNDIDO

Ecris avec du sang et tu apprendras que le sang est esprit.

_Ainsi parlait Zarathoustra._

F. NIETZSCHE.

DIÁLOGO COM UMA ÁGUIA

Diálogo com uma águia

Fui jantar hontem ao palácio. Estava lindo! Felizmente ninguêm. Tudo

deserto. Quando eu desci do restaurante, a accender um Laferme com

preguiça, caía a tarde de outono em vitrais ricos p'ralêm das ramarias a

despir-se. Passeei algum tempo na avenida, e sem saber porquê, indo ao

acaso, fui estacar nesse recanto triste onde mora engaiolada uma águia

velha. Há que tempos conheço êste mostrengo, num abandono de asilo, de

ar pedinte, com asas que diríeis paralíticas, de um tom coçado e neutro

de miséria!... Uma águia isto, êste espantalho! A decadência reles de

estas asas que tanta vez olhei com indiferença, nem eu sei bem

porquê, impressionou-me. Um animal de fábula, de mito, um ser que bebeu

sol de olhos abertos, curvava as garras frouxas num poleiro, e depois de

carnagens e aventuras, encolhido, misérrimo, com fome, acabava a aspirar

a um meio-bife, como um vadio à porta de um café. Coitada! Teve uma

forma assim aquela águia que saboreou Prometeu numa montanha!

A gaiola está sórdida, está imunda. Antes estivesse empalhada num museu,

ou no quarto de trabalho de um zoólogo, sócio da Academia, homem de

estudo, que ao voltar da rua ou da glória, lhe pendurasse do bico o

chapéu alto. Coitada! Coitada! E notei com um calafrio, que pronunciara

alto êste «coitada», com uma voz que a mim mesmo surpreendeu pela

inflexão perturbante de quinto acto. Olhei a águia. Vi-a encolher-se

tôda, contrair-se, enclavinhar as garras no poleiro, como a uma dor

aguda que a varasse. Encarou-me por fim, olhou-me todo, fazendo-me corar

dos pés ao côco, e com uma voz que não era a voz da fábula, sem nada

de lendário, sem estranho, com uma voz normal de velha beata, arrastada

e roufenha, quasi gaga, cacarejou num tom de dor e mofa:

--Ao que eu cheguei! Ao que eu cheguei! Já tem pena de mim _isso_ aí

fora... Antes estar morta e podre, antes estar podre...

Estarreci. Não era o impossível realizado dessa carcassa de águia a

falar alto, a falar como eu, que me empedrava: nem sequer o estranhei

naquele instante; mas o dolorosíssimo desprêzo com que ela me chamou

_isso aí fora_, com que ella ouviu que um _isso_ a lamentava. Deitei

fora o cigarro bruscamente, compus um momo frio de desdêm escondendo a

irritação que me excitava, e premindo a bengala contra o queixo,

retorqui-lhe benévolo e grosseiro:

--Não percebo o seu desprêso, não me atinge. Eu não disse «coitada» p'rá

ofender. É sempre triste ver uma águia presa, mas numa gaiola, assim, é

lamentável. P'ra mais, conforme vejo no letreiro, foi um comendador

que a ofereceu... E a gaiola...

--Que tem? Falta de estilo?

--Está cheia de excrementos. Está indecente.

--Já não diria isso se os visse cair de alto, no deserto, sôbre o

granito cariado duma esfinge... Scenários, digo-lho eu, literatura...

Eu então requintei de pedantismo, e perguntei-lhe a rir de que alta

estirpe, de que águias reais, de que família, ela veio a cair neste

poleiro onde agora a ouvia perorar num claro entardecer de intimidade,

com idilios de guardas e criadas, raros bebés jogando às escondidas e um

homem a varrer as fôlhas sêcas. Coçava-se a hesitar, com o bico baixo.

Sacudio as longas asas poeirentas e com uma voz de sono, começou:

--De alta estirpe, sim, de uma família de águias antiquíssima. Uma das

minhas ancestrais, como agora se diz, fêz viagens épicas na Judeia, e

num crepúculo de assombros, abrindo com as garras uma cordilheira de

nuvens, vio pregado na cruz o Hebreu Doce, e logo desceu ao morro numa

gula tão doida, que ensanguentou no ar de sêda as asas bravas... Rasgou

o peito magro do Homem-Deus, e ficou doida para sempre, doida, doida, na

alucinação dêsse manjar patético, de martírio divino e desespêro. Porque

ela ouviu a confidência do Heroi meigo... Mas não posso contar-lha, nem

mais pio! É um segrêdo de família, é o meu segrêdo.

Amuei, retorqui num tom mimalho:

--Mas então, se não podia contar, p'ra que me falou nisso? Eu sou de uma

curiosidade feminina. Já não saio daqui sem que mo diga.

--Mau! O senhor é uma criança. Que tolice! Dezenas e dezenas de avós

meus, gerações e gerações de águias marinhas, levaram o segrêdo herdado

e não traído, que nem ao sol, que é o deus das águias, revelaram. E

quere agora o senhor com um papelzinho que lhe custou uns cobres (se o

pagou) violar o murmúrio que tem séculos, e é a última vibração

daquele espírito que vestiu de nebulosas tôda a Vida... Sabe que mais?

Estou já arrependida de falar.

--Não se zangue. Juro-lhe, juro-lhe que não digo nada a ninguêm. Se

soubesse o que eu sei!... Segredos de família, dramas... dramas...

Esperei um instante ansiosamente. A águia inteiriçou-se, sem me olhar,

bicando longes de memória, de saudade:

--Não sei que tenho hoje. Velhice, morte próxima talvez,

pressentimentos... Quando essa avó longínqua cravou as garras no peito

d'êsse Réu, e lhe bicou o coração e bebeu sangue, sentiu que

enlouquecia, que era outra... Como se ferisse uma irmã, teve remorsos;

fixou os olhos bêbedos de sol nos olhos d'Êle, refrescou-lhe com as asas

a cabeça, empastada em suor, de um verde lívido...

A cruz que estremecia, ficou hirta. E foi então, foi então que Êle lho

disse...

--Mas o quê? O quê? Diga depressa.

--O segrêdo, senhor, o meu segrêdo.

--Mas qual é afinal? Quere torturar-me...

--Renegou-se a Si-mesmo. Retractou-se! Disse o remorso de não ter

vivido, a tristeza infinita, o desespero e o mal sem remédio de ser

virgem, de morrer no corpo morto de uma árvore, único corpo que sentiu,

o de um cadáver... As estrêlas que nasciam no céu dúbio eram pr'ó Moço

Hebreu pólen doirado, e a sua alma moribunda abria tôda como os hortos

ideais da Galilea... O peito arqueou-lhe mais, contracturado... Queria

largar a cruz p'ra poder dar-se, à terra dêsse cerro, a alguma forma, a

um corpo de mulher, a alguêm, a alguêm...

A voz da multidão pela ravina era um marulho de ressaca mui confuso, e

Êle sentiu entre pragas e risadas, entre os lamentos e os insultos que

silvavam, sentia vozes de mulher... ouviu, ouviu-as... Só elas Êle

ouviu, ouvia sempre... Queria falar ainda, quis falar-lhes e pedir-lhes

perdão do que lhes disse, com parábolas mentirosas de doçura e com

olhos de lago sem desejo... Esvaía-se em sangue, ia azulando. Foi então

que a minha avó num voo lento, lhe emmoldurou nas asas côncavas a

Face... e que ela ouviu, senhor, e que ela ouviu...

Calou-se um instante imóvel no poleiro. Reparei. Era o guarda que passava.

--Já não sei onde ia. Estou com febre. Ah! No que ouviu a minha avó

naquele instante... Quando eu penso nisso, quando penso... Imagine, se

pode, ora imagine... Êle que era um Adivinho, Êle o Vidente, num dêsses

instantes de génio que abrem séculos, previu, previu bem claramente,

como se mentiria à Vida em nome d'Êle, a morte da Beleza e da Alegria, a

Tristeza e a Doença em nome d'Êle, séculos e séculos de vida envenenados

por o sangue de amor que Êle vertera, e iria embebedar os homens muito

tempo, para sempre talvez, talvez p'ra sempre. Sentiu então que a querer

salvá-los, os perdera... Certo, êsse instante de dor sempre ignorado

foi o maior de dor que alguêm viveu. E como Êle a diria, como...

--Em que língua falou? Foi em hebraico?

--Foi na língua das asas que Êle o disse. Não lha posso ensinar, já me

não lembro. Quando me engaiolaram, esqueci-a. Mas que impressão lhe faz

o meu segrêdo? Se os homens o soubessem, seria Êle na verdade o Redentor...

--Sim, sim. É bem justo o que me grasna. Shelley tê-lo-ia amado como

irmão, e Nietzsche, o próprio Nietzsche...

--Bem sei. Êsse afirmou com pompa lá p'rò Norte, que Êle decerto se

teria retractado se tão cedo o não crucificassem. Foi minha mãe que o

disse a Zaratustra. Zaratustra ouviu mal, não disse tudo. A verdade é

assim, como eu lha conto. Parece que os homens riram do filósofo,

acharam tudo isso uma tolice...

--Acharam...

--E afinal êsse Hebreu crucificado, no instante supremo de tortura,

quando p'ralêm das nuvens o esqueciam, chamava só por Pan, o grande

Pan! Se os homens soubessem isto e o entendessem, teria o grande Pan

ressuscitado. Seriam brancas estas pobres asas.

--Brancas? Porquê?

--Durante séculos tivemos asas brancas, todas nós, águias da minha

estirpe. Foi só depois que Pan morreu, que elas ficaram pretas, como

luto. Quem se lembra de Pan por êstes tempos?...

--Os que sabem amar, os que ainda amam.

--Os que sabem amar!... Êsse Hebreu mesmo só conheceu o Amor no alto da

cruz. Viveu como um fantasma transparente, com sonho nas artérias e nos

olhos... Só escoado em sangue, no madeiro, viu nos olhos da minha avó

sanguissedenta, dois espelhos do Amor, irmão do sangue...

--Conhecem lá o amor aves de presa!

A águia crispou as garras no poleiro e casquinou um riso muito sêco, que

soava sem timbre, como tosse. Depois mudou de aspecto. Começou a

tremer, tôda friorenta, as asas como andrajos mais pendidas, e nos olhos

de febre, muito fitos, uma grande saudade que varava.

--O amor das águias... o amor das águias...

--Que tem? Está comovida. Conte-me o seu amor. Sou todos ouvidos.

--O meu amor... o meu amor... Já me não lembro. Já não posso dizer-lho.

Vai tão longe!... Sou uma velha tonta, sem memória, um farrapo de penas

para escárnio. Nem olho o sol em face há muito tempo. O meu amor... o

meu amor... Já me não lembro. Coisas sem forma... nuvens... nostalgias...

Fêz uma pausa. Parecia mais adunca, mais mirrada.

--No convés de um navio abandonado, amei no mar do Norte, aos vagalhões,

noites e noites, bêbeda de espuma... Havia a bordo um marinheiro morto.

Lembro-me bem. Que noites! Que mar alto!...

Tive um ninho e filhos pequeninos, num jardim vago, ao sol da

meia-noite... Que silêncio! Sentia-o a passar por entre as garras...

Ensandeci de gôzo no deserto... Ouvi a Esfinge falar, ouvi a Esfinge,

quando o sol lhe fendeu todo o granito, pôs ranhuras de dor nos olhos

átonos, e escancarou a bôca em rictos duros... O que eu ouvi à pobre?

Soluçava!... Eis o inigma afinal, o grande enigma, à hora das miragens,

do delírio, quando o sol enraivece, é só desejo, e o deserto urra no

silêncio, e as areias escaldam e o ar zune... Amei... amei... amei na

terra tôda... Desfraldei o desejo, cravei garras. Olhei o mar saciada e

compreendi-o.

--Tem saudades do mar, aí na gaiola?

--Como um marinheiro preso... doidamente... O que eu viajei, o que eu

viajei por sôbre a espuma!... Sei as lendas do mar como ninguêm.

Contou-mas numa rocha um corvo antigo. Como sabe, os corvos vivem

séculos... Sabia-as todas êsse velho amigo... naufrágios e terrores...

dramas da névoa... O mar! O mar! O que eu amei no mar! Mas o senhor não

compreende, o senhor não sabe. Que sabem do Amor os homens todos?... Foi

êsse Hebreu, sem querer, que os desgraçou. Fizeram ao Desejo o que fazem

às águias quando podem... Está como eu o Desejo: engaiolaram-no! Fizeram

do Amor isto... um dever! Um dever... um dever... um dever triste!

Empalaram-no em leis, codificaram-no. Até fizeram isso... o casamento! E

vivem em gaiolas, os seus lares! Raça de escravos! Se êsse Hebreu os

visse...

--A senhora é uma águia, não percebe... Eu não posso explicar-lhe a

Sociedade...

A águia olhou-me com um desprêso frio.

--O quê? Não sei? Sei mais do que Balzac. Eu li-o todo em casa de um

burguês. Vivi lá dez anos de amarguras. Estive presa primeiro no

quintal. Depois cortaram-me as asas e soltaram-me. Soltaram-me

mutilada pelas salas... Canalha! O que eu odeio os homens... As

crianças, veja o senhor os anjos!... arrancavam-me as penas,

espetavam-me o corpo com agulhas, e um dia um criado, na cozinha, tentou

picar-me os olhos às risadas, a rir, a rir... como só riem homens. Sofri

dez anos entre essa canalha. Era uma gente séria, muito séria. Vi a

Família, a Tradição, vi tudo. Não queira argumentar, não diga nada. Sou

uma águia, mas conheço os homens.

--De acôrdo. Eu não duvido. Não quero discutir, não argumento. Mas

falamos do Amor, e apenas digo que há ainda quem ame sôbre a terra...

gente da minha espécie... homens... homens... O amor, há-de a senhora

concordar, não é um monopólio de asas nómades... Um bípede implume

tambêm ama. É raro, eu sei, amor genuíno, é raro. Mas existe ainda,

afirmo-lho eu, existe ainda...

--Que novidade! Pois não lhe disse já que li Balzac? E viajei, e

vivi mais do que pensa.

Parou um instante, o olhar scismático, sem foco:

--... Uma vez, num céu da Andaluzia, vi num jardim mourisco dois

amantes. Senti o cio encrespar-me as asas largas e desci p'rós ver de

perto na luz de ouro... Era na paz de uma cidade morta. Pousei num dos

ciprestes do jardim. Tinha uma taça de alabastro esverdinhada, e uma

água glauca que cheirava a febre. Era junto da taça que se amavam, sob a

garra do sol, loucos de raiva. Fiquei quêda a aspirá-los muitas horas.

Que corpos fortes! Eu achava-os lindos. Dormi na torre da igreja, numa

gárgula, e de manhã voltei p'rós ver ainda. E assim dias e dias... Uma

vez demorei-me, vim mais tarde, e encontrei-os imóveis e enlaçados.

Tanto tempo os vi assim e tão imóveis, que pensei: _estão talvez mais

que adormecidos..._ Desci. Bati-lhes com as azas nos cabelos. Cravei as

garras devagar nos seios dela... Estavam mortos! Julguei então

enlouquecer de gula. Devorei, devorei, até à noite... Lembro-me que

sorvi os olhos dela. Estavam secos de amor. Eram cinzentos...

--Que horror! O que a senhora fêz!...

A águia ergueu as asas num espanto e tornou a fechá-las lentamente.

Depois, com grande enfado, foi dizendo:

--Que absurdos macacos são os homens! São os animais mais torpes que eu

conheço. Como tudo que vive, como todos, só pensam em gozar, gozar a

vida... e com esta obsessão a estorcegá-los, prendem-se os braços,

castram os desejos, adoentam-se, torcem-se... progridem. Querem morder,

morder bem fundo... e beijam-se; sentem calor e andam ao sol vestidos;

amordaçam o instinto, os imbecis!... Encerram o desejo nas alcovas, onde

não entre sol, sombra de lua... Tem estatutos, cláusulas, parágrafo. Não

fecundam a amar, são fabricados: são produtos de indústria os homens de

hoje! Chamam a isto Civilisação. Não vivem por viver: tem deveres a

cumprir, obrigações... E tudo isto em códigos, sistemas, em religiões,

teorias, em morais!... P'r'ós que tentem ser homens a valer, há prisões,

há leis, ha tôda a Ordem! Existem já na terra há muitos séculos, e ainda

não começaram a viver... ou, se viveram, foi na Pre-História ou na

Pre-Lenda! Que macacos absurdos! Que macacos!

--Mas pare um instantinho, oiça, oiça...

--Não me mace, senhor, não me interrompa... O que mais os consome e os

faz grotescos, e os enche de vaidade, é a Consciência, o Espelho, o

Guia, o grande Guia, que os levou a isso que são hoje...

Atalhei, como quem aponta um cumplice:

--A culpa foi dêsse Hebreu de quem falámos. Talvez se o seu segrêdo se

soubesse...

--Não foi só d'Êle, foi de muitos outros... Antes d'Êle e depois..., de

muitos outros.

Tremeu-lhe o corpo todo. Arrepanhavam-se-lhe as penas. Estava outra.

Via-a transfigurar-se com espanto.

--O senhor é bem um homem. Não se pode nutrir sem illusão. Quando há

pouco lhe disse o meu segrêdo, dei-lhe a entender que se êle se

soubesse, havia na verdade um Redentor, os homens viveriam sôbre a

terra. Tive pena de si que é um desgraçado. Sempre lho digo agora: era

inútil! Conheço bem os homens por meu mal. O segrêdo do Hebreu que lhe

contei, não é um caso único: é de sempre. _Á hora de morrer--a uma

águia, aos lençois ou ao travesseiro, todos os homens tem como êsse

Hebreu, um segrêdo supremo a revelar. É apenas isto: a confissão de que

morrem sem viver._

Continuou depois com o bico alto:

--Os homens são uma espécie condenada. _São bastardos de planta e de

fantasma._[1] Quem disse isto? Não sei... estou sem memória.

Raça de escravos vis, raça de escravos! E p'ra fugir à Vida o que

inventaram! Como trabalham, suam e tressuam!... Dissecam tudo, árvores e

pedras, fecham-se em quartos a estudar micróbios... E cada dia são mais

desgraçados, mais fracos, mais inquietos e mais tristes!... Cada dia se

embrulham mais em roupas, põem mais vidros nos olhos, tem mais mêdo... E

cada dia fogem mais à vida! Que imbecis! Que imbecis! Que espécie torpe!

Sentia-me exaltado, nervosíssimo. A voz saíu-me estrangulada, rouca, em

sobressaltos, brusca, sem fluência:

--A senhora diz coisas que me espantam, que por vezes são justas e

terríveis, mas há outras tambêm que não entende, que não pode entender,

sim, que não pode. É natural. A senhora é de outra espécie. Tem vivido

com os homens mas é águia... e águia ficará até morrer.

Parei. Sentia-me vazio, em suores álgidos, quási incapaz de articular

palavras. Ela então, com a plumagem toda crespa, transfigurada

agora, agora outra, já com metal na voz, interrogou-me:

--O quê? O quê? O que é que eu não entendo?

Sem recursos, nulo, desvairado, atirei-lhe êste lugar comum, como se

estivesse a falar com um jornalista:

--Por exemplo: o Sentimento, a Beleza moral que há no Universo!

Vi-a saltar do poleiro, esvoaçar, bater asas de fúria nos arames, e

recaír depois na mesma pose, a arquejar, asmática de raiva. Ficou assim

sem fala ainda algum tempo. Apeteceu-me fugir. Tive vergonha. A voz dela

por fim veio em arestas, ferindo o meu orgulho já ulcerado:

--A Beleza moral!... O Sentimento! Que fizeram com isso?... Que fizeram?

A Harmonia social, êsse concerto que é de rasgar os olhos e os ouvidos.

A fome, a revolta, o desespêro... A raiva de saber, de analisar, de

fechar em teorias toda a Vida... A Dúvida, a loucura metafísica, e o

culto da dor, êsse onanismo!... A impotência em tudo, a

impotência... E por paródia à luta de viver, uma luta sem garras,

enluvada, um ódio triste e covarde, corrosivo; a intriga e a cilada pela

fôrça; a caridade que é o egoísmo doente, e o culto dos ídolos, os

cultos, a escravidão aos deuses e às ideias... A Harmonia social... essa

gaiola onde vivem a uivar os homens todos!

Dava gritos estrídulos, sarcásticos: as penas erriçavam-se de fúria.

--Oh! O ódio dos homens, que grotesco! E há classes opressoras e

oprimidas, com fórmulas, com cláusulas, com leis!

Não é o ódio celular, contracturante; não é o ódio animal todo de

instinto; não é o ódio de todos quantos vivem! O ódio dos homens foi

canalizado, por seitas, por classes, por partidos, em dogmas,

preconceitos, covardias. Nos outros animais o ódio é orgânico! Todo o

combate é sempre pela Vida. O dos homens é anémico, missérrimo, e

defende o dever, o preconceito, as taras de domínio e servidão, e até

mesmo na revolta é miserável, pautando a Vida, sistematizando. É o

ódio da paródia de viver, do fantasma de Vida que êles vivem!...

Parou. Eu estava como tonto, desvairado. Tinha decerto endoidecido essa

águia velha, delirava, dizia só loucuras; mas eu não achei nada para

opor-lhe, p'rà aniquilar nêsse silêncio de fadiga. De súbito lembrei-me:

a Arte, a Arte, tôda a minha quimera de mãos postas!

Sentindo-me desta vez irredutível, gritei-lhe p'rà gaiola:

--E a Arte? A Arte? Consolação suprema de viver...

Teve farpões de escárneo ao responder-me:

--A Arte!... A Arte é a expressão da Vida. São os homens que o dizem,

não é assim? Ora se êles não vivem, se não vivem, se parodiam a Vida a

cada instante, se fogem mais e mais da grande Vida, a Arte é uma paródia

de paródia, um espectro de espectro... miserável! Querem com tintas

imitar o céu, e transcrevê-lo em lonas, em madeiras!... O céu bebe-se

aos haustos, com os olhos; olha-se por olhar, sem intenção;

recebe-se nas pupilas extasiadas, que se alargam mais com sêde dêle... É

o que faz um sapo a olhar os astros! É o que os homens não compreendem

nunca! Toda a terra é feliz se o sol a doura; tudo germina, as pedras e

as sementes... Só os homens que se cobrem p'ra evitá-lo; que nas cidades

gastam horas a vestir-se; que tem por céu só um paninho côncavo a que

chamam guarda-chuva ou guarda-sol; que o filtram nas igrejas por

vitrais, que usam lunetas, que o receiam sempre; que tem medo da morte

às suas garras, deslumbramento e orgulho de águias soltas; só os homens,

absurdíssimos macacos, querem copiá-lo em lonas, em madeiras, com

tintas, com carvões, com paus de côr!...

Que macacos absurdos, que macacos!

Bem quis interrompê-la, não podia. Vibrava de loucura negadora,

hierática, estranha, convulsiva.

--E nem poupam o mar nem as searas, as penedias trágicas, as rosas!

Metem o mar nuns centímetros de lona, e com medo que as marés vão

sufocá-los (a águia ria, ria como louca) mandam emoldurá-lo,

encaixilhá-lo!...

Prendem-no assim nas salas, nas alcovas. Oh! A Arte dos homens! Coisa

imensa! A paródia da Vida... paralítica! Mas vá alguêm dizer-lho! Vão

dizer-lho! Ainda os antigos cegavam as estátuas... Êstes abrem-lhes

olhos, bem abertos, a reflectir... o quê? A vida dêles, a paródia de

vida que êles vivem e que andam a imitar ainda por cima!...

A noite começava a entrar nas coisas. Um grito de pavão varou o parque,

assustou os jardins que adormeciam, e um instante no ar, teve

saudades... Uma angústia sem nome andava esparsa, caía das árvores

grisalhas, que pareciam à escuta, com terror. Em frente o chorão vergava

mais, quási rasava a terra com doçura, em curvas de um encanto nazareno.

Uma sereia aguda de vapor, já a sair a barra certamente, mugiu como um

agouro de naufrágio. A treva ia afogar tôda a gaiola. Não via bem a

águia, mal a via. Só os olhos e as asas muito vagas... Era um fantasma

de águia àquela hora, mas crescia em mim desmesurada, como um ser de

fábula e tragédia, oráculo sarcástico e sinistro, lendo o horóscopo num

poleiro reles, como se rasgasse a esperança com as garras. Afinal era eu

a sua presa, e ouvia-a passivo a torturar-me.

--A Arte dos homens! Que mentira triste! Em vez de serem belos como

estátuas, derrancam mais os corpos para erguê-las! Até modelam sonhos e

quimeras!...

Nunca olharam as nuvens, nunca as viram, esses mármores ao vento,

fluctuando... E o vento! O vento! Sabem lá ouvi-lo! Tanto não sabem que

quando êle prega, durante o inverno em que êle é todo génio, metem-se em

casas grandes, bem fechadas, p'ra ouvir sons, sons, imensos sons...

Chamam a isso Música. Conheço-a. Desde que vivo com os homens,

perseguiu-me. Nem aqui na gaiola eu lhe escapei. Toca aos domingos

horas, no coreto. Enche-me mais de raiva e de miséria. A música das

águias como é outra!... Quem a ouviu como eu quando era águia, antes de

ser esta carcassa reles! Nas montanhas, no mar, na névoa móvel!...

Sobretudo no mar, no grande mar... O que eu viajei nos temporais a

ouvi-la! Ás vezes partíamos no vento em turbilhões, asas e asas,

nómades, pairantes... Regougos de ondas, nuvens a rasgar-se, e os nossos

gritos, bêbedas de espuma!... E mil vozes de formas nunca ouvidas, a voz

de tudo, tudo, a voz de Pan! E o silêncio, o silêncio... Certos

instantes únicos, supremos, em que êle se ouve, o temporal hesita, e um

pânico arrepanha as asas todas... Como é agudo, agudo, êsse silêncio!...

Nas meias-noites de estio... o que eu gostava de despertar no éter

melodias, ferindo-lhe o teclado luminoso, numa alma de voo,

sereníssima... Punha medo com o rumor das minhas asas às nuvens que

dormiam extasiadas, e auscultava a noite pelo céu, até ouvir a manhã

vibrando tôda, quando o ar é uma orquestra miriadaria e os homens dormem

nas alcovas mornas...

Estendeu por minutos seculares o seu monólogo patético de velha, essa

arenga evocativa de fantasma, lapidando o meu ser com ironias, em que

memórias épicas passavam, como o granizo aos pobres em dezembro. Todo o

meu senso crítico se foi na rajada feroz dos seus desprezos: era uma

fúria aguda de vingança, de esfrangalhar essa carcassa oráculo,

varar-lhe os olhos com a ponteira da bengala, acabá-la de vez,

estrangulá-la. Retorqui-lhe então com a voz dura, pondo raivas de morte

nas palavras:

--Sim, sim... Diga ainda mais... o que quiser. Cante à sua vontade,

minha amiga! Insulte os homens, ria, desgraçada. Nem me dou ao trabalho

de a esmagar. Só lhe pergunto isto, apenas isto: quem a tem aí bem presa

na gaiola? A si e a êsse mocho seu vizinho? Ao leopardo, ao lobo, a

essas feras? Quem lhe dá por esmola bifes podres, e faz de si o riso das

crianças, e a há-de empalhar depois de morta?... Você é uma águia tonta,

dementada, que a escravidão ensandeceu de vez. Melhor, melhor! Assim

faz-nos rir mais. Grasne p'raí; rebente a divertir-nos!...

Parei pr'a tomar fôlego, cansado; mas o relevo imóvel dessa ave, a sua

forma heráldica de bronze, alheavam-na tanto desta cólera, do desespero

besta em que eu tremia, que me pareceu inútil continuar e me senti um

títere grotesco. Era o mais infernal dos casuístas, essa águia

impossível de ferir, feita de sombra, emoldurada em sombra, presa nessa

gaiola e mais distante que se esgarçasse as asas nas estrelas. Emquanto

assim pensava, ei-la que fala:

--Bem certo, sim, bem certo o que me diz! O Homem alastra pela terra

como um cancro, pervertendo a vida, corroendo. Reduziu-me a mim, asas e

garras, a um animal grotesco de capoeira, meio tonto de dor e de

miséria. E as feras!... Exibem-nas nas feiras e nos circos, em gaiolas

de ferro, à luz eléctrica, ante o pasmo alvar das multidões, rindo da

força mutilada e doente. Cortam as jubas aos leões, abrem-lhes

risca, dão-lhes chicote e bifes, civilizam-nos! E quando os tem nas

jaulas, sonolentos, sem força e sem instinto, entorpecidos, com as

pupilas de oiro marasmadas, com as garras inúteis já sem preza, acham-se

heróicos porque os chicoteiam, mesmo quando êles tremem de sezões, mesmo

quando êles morrem de saudade!... Não há amor de asas num rochedo à

névoa, que o terror dos homens não errice!... Antes disto, porém, já os

adoraram. No Egipto, em tardes de colheita, o voo das íbis riscava no ar

do Nilo curvas em que êles viam profecias... E outros como Isis, como

Anúbis, sucumbiram no tédio de ser deuses, e depois das pompas rituais,

de oferendas, de orações, de sacrifícios, são os servos misérrimos do

homem, domesticados já, civilizados!

Mutilam as árvores, deformam-nas; exilam certas plantas nas estufas, com

saudades do húmus e do sol, e trazem na lapela rosas mártires, que

abriam de desejo como noivas, à espera do pólen bem-amado! Não entendem

o sangue nem a seiva: vão pervertendo tudo, corroendo! Até que um

dia, não mais florestas, catedrais a Pan! A terra será calva como um

sábio, e cordilheiras, montes e ravinas serão assassinadas, cavacadas,

p'ra que os homens mobilem os palácios, p'ra que tenham poleiros nas

gaiolas... Os areais, as deserteiras ruivas onde o mar espadana e se

extasia, terão motores, instalações fabris p'ra utilizar a raiva das

marés, em quê, deus-sol?... a enriquecer indústrias... Todo o azul será

viuvo de asas, e os filhos das águias e das feras nascerão em gaiolas e

em jaulas! Ah! Mas tambêm nada haverá mais triste do que os filhos dos

homens, as crianças... A inocência, essa graça animal, de flôr e de ave,

que êles chamam divina... os imbecis! não mais existirá nos filhos

dêles, reflectindo nos olhos já doentes, a farça de viver, como nos

velhos... Será assim um dia, será assim. Onde irão depois refugiar-se?

Nos braços do amor, do amor dêles, em que um olhar de mulher lembra um

naufrágio, e faz que, cada trança, por mais loira, venha a ser

sempre a fôrca de um destino! A terra será a catedral do sofrimento, fim

da farça sinistra que êles vivem, a inventar anestésicos e dores!

Certo, o farrapo de penas que hoje sou, é bem obra dos homens. Certo,

certo... Mas aqui mesmo, num poleiro reles, garras em cotos, quási

paralítica, consola-me pensar que nenhum dêles será nunca o que eu fui,

asas e garras, vivendo pr'ó Desejo pelo instinto, e em nomaderias de

vertigem, amando tudo, tudo, a terra tôda, na luxúria suprema e

inconsciente, de viver, de viver só por viver!

Fêz uma pausa. Tive a visão daquela vida fulgurante, evocada em gritos

de delírio, por essa pitonisa de asas longas que cortava com o bico o

meu destino.

Foi então que eu ouvi estas palavras, que eram mais que um soluço, que

um crocito, uma espécie de guincho em que houve lágrimas.

--Iriam cair nas mãos dos homens os meus filhos!...

Lambeu-me um calefrio de vertigem.

Era demais, meu Deus, era de mais! Não era já o meu orgulho em chaga,

enovelado como um trapo nessas garras: o que eu agora queria, o que era

urgente, era mostrar a essa águia, a essa mãe, que o seu dolorosíssimo

terror era uma apreensão de louca, uma injustiça: o que eu agora queria

de alma tôda, era mostrar-lhe o coração dos homens p'ra que ela o visse

bem e tão patente, como se lhe pendesse a sangrar do bico curvo. Pr'à

convencer daria tudo, tudo. Procurava um meio, sem achar. Sentia a

inanidade das palavras. Com uma idea súbita falei-lhe:

--Vou abrir-lhe a gaiola. Vai ser livre.

Era decerto o pasmo que a gelava, porque não saiu da treva uma palavra.

Eu continuei numa emoção crescente em que vibrava a ânsia de a soltar:

--Vai ser livre, livre como outrora. Acorde as suas asas esquecidas.

Diga adeus a essa gaiola imunda. Olhe mesmo daí: que encanto de hora! A

noite arqueia ao pêso das estrelas... Uma palavra sua e abro-lhe a

porta. Não duvide. Sou forte. É num instante...

O seu recorte altivo de águia em bronze amezendou: fôsse fadiga ou

tédio. E num becejo vago, interrogou-me:

--Vai abrir-me a gaiola... mas p'ra quê?...

--P'ra quê?! P'ra que antes de morrer domine o espaço... p'ra sentir a

vertigem do infinito...

--Eu?!... repetiu numa fleugma desdenhosa. Eu?!... Saír dêste poleiro,

da gaiola? Não sou doida varrida por emquanto. Saír da minha casa, do

conforto pr'á incerteza da noite, p'rò mistério?... Sou uma águia mas

vivi entre homens. Já estou civilizada, meu senhor... E se o vento me

arranca as asas velhas? E se chover, e se chover? Já pensou nisso? Nem

com as garras enluvadas eu me atrevo... Nem que me cubra as asas de

impermeáveis...

Nem com um _water-proof_, nem assim...

A águia ria, ria doidamente. Crispei as mãos nos arames, exasperado,

e com uma voz enrouquecida fui dizendo, num tom de confissão, quási febril:

--Imagina talvez que a não entendo, que sou um homem como os outros,

imagina...

É natural... é natural. Não me conhece... Mas eu quero dizer-lhe: oiça!

oiça!

Há em mim um não sei quê de águia marinha. A sua sorte comove-me,

acredite. Quero tambêm dizer-lhe o meu segredo, quero desabafar,

contar-lhe tudo...

Bateu as asas com um ruído sêco, e num timbre fatídico de corvo, com uma

voz de sibila, crocitante, atirou-me estas palavras derradeiras:

--_É cedo, é cedo ainda. Imite os outros. Diga isso ao morrer ao

travesseiro._

Esse sarcasmo último transiu-me; e como quem se agarra ainda á

esperança, pus-me a gritar p'rà gaiola, tontamente:

--É o convívio dos homens que nos perde. O seu destino é irmão do meu,

escute... Queria ser forte e belo, queria...

Falei, falei, falei... Não sei que disse.

Sandices e quimeras e desejos, larvas de ideas, raivas, desesperos.

Parei por fim.

Já nem lhe via os olhos. Decerto cerrara as pálpebras com tédio. Só o

vulto de sombra sôbre a sombra se alongara mais, estava maior. Ouvi

então uma sineta banalíssima, a pôr-me fora sêcamente: era já tarde.

Olhei ainda a gaiola, despedi-me, atirei-lhe p'ra lá um «adeus» surdo.

Ao passar na jaula do leopardo, senti um cheiro mau a carne podre.

Vi-lhe o vulto enigmático de esfinge, a cabeça nas patas dianteiras, os

olhos de oiro fulvo, fuzilando. Se aquele me falasse, o que diria!...

Atravessei o parque silencioso, como numa balada, com terror. Vi nas

acácias os pavões adormecidos, olhei o céu filtrado por folhagens onde

um langor de outono se esfolhava, e à saída já, p'ra me calmar, molhei

as mãos febris numa das taças e passei-as nas fontes consolado.

Achei-me emfim na rua, longe dela.

Um rapaz namorava mesmo em frente, a patrulha descia compassada,

disse-me adeus um côco conhecido: dobrava a esquina um eléctrico

apinhado. Tinha ainda no ouvido a voz da águia, quando saiu de uma

janela aberta uma ária roufenha de fonógrafo.

Comuniquei feliz com a vida reles. Depois disto, é evidente, não posso

mais falar-lhe. Ainda bem! Levava-me ao suicídio essa águia velha.

O PRECOCE

A João de Barros

O precoce

Desde que o Emílio estava doente, todos os dias, ao anoitecer, se

reuniam no seu quarto e assim ficavam algumas horas, numa intimidade

meiga, como se dessa cabeça de precoce, ungida de sossêgo, dos seus

olhos de adivinho, de um veludo grande e calmo, se exalasse paz, uma paz

clara, em que tudo se perdoasse e se esquecesse.

Tinham já lugares marcados. A mãe à cabeceira, logo ao pé a tia Olívia,

p'ra contar histórias; os outros em redor, e aos pés da cama, em frente

ao doentinho, o busto nobre do tio Eduardo, já grisalho, a sua máscara

fina um pouco vaga, como a de todos os que vivem no silêncio como

outrora se vivia num convento. O pequenino era assim uma figurinha de

mito familiar, e nas suas palavras lentas, de intuição e de carícia,

todos se ouviam como o mar nas conchas. Tinha uma voz de sombra amiga.

Adoravam-no. Mas agora, martirisado de dores, a consumir-se dia a dia,

as mãozitas transparentes, entravam no terror de o ver pior. E se um

móvel estalava, um farrapo de luar batia os vidros, ou ao cair da noite,

a sombra vinha,--tremiam no silêncio, tinham medo, como se

disfarçadamente a Morte entrasse, viesse de mansinho p'ra gelá-lo.

Às vezes, nas pausas de algum conto ou da conversa, se alguêm se

voltava, logo os outros inquietos o seguiam; e era vulgar olharem a

porta de soslaio, como se esperassem alguêm, uma visita...

Todos falavam em surdina, velando a voz um pouco opressa, e assim as

coisas mais banais tinham um não sei quê de estranho; as palavras caíam

como fôlhas sêcas e nos olhos de todos havia uma expressão de adeus.

Nem todos, nem todos! A mãe radiava fé. Bastava ver-lhe as mãos correndo

a dobra do lençol, de veias altas, entumecidas de ternura, e poisarem

numa geada de beijos nas mãos do seu filhinho, para sentir a emoção

louca, religiosa, tendo ressurreições em cada gesto, sarando num olhar,

numa oração. É que essa creança era a sua própria alma, presa naquele

leito como um passarito enfêrmo, abrindo p'ra ela olhos enormes, como

p'rá decorar bem, antes de partir; e dizendo de quando em quando: «mamã,

minha mamã», num rumor de asa cansada.

Era muito moreno, tinha a testa alta, um pouco bombeada, bôca de lábios

finos, mento curto, bosselado em covinhas, que a magreza já quási que

delira. Mesmo quando tinha saúde, ria pouco; não sabia brincar e

qualquer coisa, o mais simples aspecto, o distraía como numa visão

inconsciente.

Tinha um ar de quem se lembra. Uma vez foi ao colégio. Voltou com febre,

doente, a tremer todo, e quando o pai o interrogou, só pôde dizer

«que não era nada, que não tinha nada». Mas à noite, quando a mãe ia a

deitá-lo, rompeu a beijar-lhe as mãos, num chôro brusco, e mal pôde

pedir entre soluços, de mãos postas, p'ra não voltar... p'ra não voltar

mais ao colégio.

--Sossega, meu filhinho. Quem te fêz mal? Que te fizeram? Não voltas

mais, não voltas mais. Que te fizeram?...

--Vi bater num menino.

E outra vez o chôro o sufocou, em bagas grossas, torcendo o seu corpinho

de arbusto à ventania. Nessa noite teve febre, delirou, e os pais

resolveram que tão cedo não voltava. Pediu então à mãe que o ensinasse.

Ao caír das tardes, com a costura no regaço, ela dava-lhe lição, e em

pouco tempo, por entre confidências que eram beijos, êle aprendeu

maravilhado a ler. O seu amor cresceu ainda, como regado de gratidão.

Dizia «mamã» como quem reza.

Adorava-a. Nas tardes de sol, os irmãos brincavam no quintal;

chamavam-no, e como êle era o mais pequeno, faziam-lhe mimos, numa

grande ternura protectora. Êle não ia, desculpava-se. Preferia ficar

junto dela, na varanda de pedra, a vê-la bordar.

--Não queres brincar, Milinho? Vai, vai brincar com os manos.

Êle erguia os seus olhos de veludo:

--Deixe-me estar ao pé de si, mamã. Não há nada tão bom p'ra mim.

Raro saíam. Ás vezes, com a mãe, ia às tardes à Foz p'ra ver o mar.

Voltavam ao anoitecer. Falavam pouco.

--Gostas do mar, Milinho?

--Muito, mamã, muito. É a coisa mais linda que há.

Foi ao voltar de um passeio assim, numa tarde de novembro, que o

pequenino teve tosse e cuspiu sangue.

--Que te dói? Dói-te o peito?

--Pouco, mamã. Não se aflija. Não há-de ser nada.

O médico veio, aconselhou cautela, receitou. Teve depois com o pai uma

conferência larga. E foi então que o terror abriu sôbre ela as asas

concavas, geladas. Não podia dormir. Levantava-se a cada instante, p'ra

ver se estava bem coberto, se tomara o remédio, p'ra senti-lo. A tosse

dêle feria-lhe tambêm o peito; transia-a tôda, como um dobre. Vestia-se

à tôa, sem cuidado. Tudo o mais lhe era indiferente. Marido, os outros

filhos, família, governo da casa, visitas, os outros... que lhe

importavam agora, se o seu filhinho estava mal?

E extenuada, adormecia às tardes à cabeceira do doentinho, que a olhava

a sorrir, muito feliz, como se fôsse um ser de conto preso num lindo

encantamento. Pouco a pouco, apesar de ninguem o achar melhor, foi-se

esvaindo o terror dela, e uma grande loucura, a loucura divina da

esperança, galvanizou-a de coragem, deu-lhe fé. Amava-o com tôda a carne

e tôda a alma.

O casamento tinha sido, p'rá sua índole delicada de romântica, uma

decepção dolorosíssima a que pouco a pouco se adaptara. Não teve crises,

não sofreu violentamente. Foi um esperecer lento da ilusão; todo o

seu sentimento que morria como uma planta à sêde; e ela curvara a

cabeça, aceitava a vida que lhe davam, com uma resignação de fraca que

se esquece. Teve dois filhos. Criou-os. E uma paz de maternidade um

pouco animal, foi-a calmando; o seu passado de sonho estava longe, nas

águas mortas da memória; e ia vivendo assim, anestesiada, sem os

sobressaltos de nervos de outros tempos, uma vida normal e clara, no seu

lar, entre os seus. Era uma renúncia sem tortura, inconsciente.

Passaram alguns anos, uniformes, que só a doença de um filho ou do

marido vinham alvoroçar de longe a longe, e que por fim se sumiam na

memória, na mesma cinza neutra, pardamente. Vivia como se fôsse a

própria sombra. Já não esperava ter mais filhos. Quando soube que ia ser

mãe ainda uma vez, teve a emoção maior da sua vida. Certo, ela foi

sempre boa mãe: amava os seus dois filhos muito e muito. Mas agora era

diferente, era outra coisa. O que viria era mais, bem mais que os

outros: era o filho dela e do seu _sonho_... Ressuscitou em si

mesma: renasceu. O seu sangue resava nas artérias promessas que antes

não lhe ouvira, e começou a parecer-lhe que êsse filho era a compensação

que Deus lhe dava, quási um milagre, a flôr inesperada em que o seu

sonho redivivo iria abrir.

A sua vida banal, desencantada, murchando dia a dia, sem interesse, num

automatismo frio e resignado, fôra uma provação, tinha passado: e os

seus nervos de histérica, despertos, com todo o amor que a vida

sufocara, calcado em resignação, morrendo à sêde, renasciam a vibrar de

esperança, davam-lhe uma beatitude transcendente.

O seu filho (estava certa que era um filho) seria um pequenino

abençoado, com um destino que só ela e Deus sabiam, e no primeiro olhar

que êle lhe desse, pressentiria um evangelho novo como um beijo a

correr-lhe tôda a alma... Tudo mudou na vida dela, tudo. Mal falava aos

filhos, ao marido, que interpretava a estranheza dos seus modos como a

mudança de carácter, os caprichos que muitas mulheres tem naquele

estado. Se a olhavam insistentemente ou lhe faziam perguntas, alusões,

isolava-se, desaparecia de repente, como alguêm que vive p'ra um segrêdo

e receia que os outros lho desvendem. Parecia mais alta, elanguescida,

com grandes olhos sempre a olhar p'ra dentro, como teem certas aves e os

mármores.

Em solteira, nunca fêz confidências às amigas. Tecia a sua teia no

mistério. Todos lhe achavam qualquer coisa de dormente: não compreendiam

bem o seu carácter. Mas como era modesta e era boa, esquecida de si

mesma e sem vaidade, deixavam-na viver no seu silêncio como um nelumbo

de pureza à flôr de um lago. Mesmo no seu isolamento da província, onde

vivera com os pais até casar, lia pouco e sempre os mesmos livros: vidas

de santas, lendas de conventos. Exaltava-se com êles, tinha fé em

qualquer coisa que Deus lhe reservava. Durante os serões lentos,

costurando, scismava que nascera para freira. Toda a sua energia, a

sua força, abrasava o seu sonho, era interior: e quando batiam à porta

da sua alma, ela saía distraída, resignada, a obedecer aos seus

passivamente. Esperava contudo _um não sei quê_. O Destino dissera-lhe

um segrêdo. E sem contar a ninguêm o que pensava, vivia como uma eleita:

estava à espera... Os seus vinte anos em flôr eram p'ra êle.

Foi debruçada a esta ogiva de mistério, que a vieram chamar para a

casarem. Depois a decepção, o sofrimento: mais tarde a renúncia, a

anestesia na sonolência banal dos seus cuidados.

Apesar de não casarem por amor, outra qualquer, no seu lugar, era feliz.

Êle era forte, delicado e bom. A sua vida de engenheiro absorvia-o.

Quando viu que aquela rapariga, que conhecera na província vaga e meiga,

continuava nos seus braços abstraída, com um olhar desencantado e quási

triste, compreendeu que fizera mal em ir buscá-la como quem colhe um

lindo fruto: erguendo o braço. Tentou então insinuar-se pouco a

pouco, interessá-la nas suas coisas, diverti-la. Por fim resignou-se,

desistiu. Como não era um sentimental, um romanesco, e a sua profissão o

apaixonava, contentou-se em ter nela uma amizade, um ser de lialdade e

de doçura, desdenhando teatros e convívios pela paz transparente do seu

lar, e vivendo p'ra êle, para os filhos, e para aquela vida inviolada

que desfocava os seus olhos noutros céus... Como porêm tudo mudara agora!

Dia a dia, a exaltação dela ia crescendo. Uma noite mesmo teve febre, e

o médico lembrou que p'rà calmar, era melhor uma mudança de ares, uma

temporada na aldeia ou à beira-mar. Partiu então p'rò Minho, para a

quinta, e como nem o marido nem os filhos podiam nesse tempo

acompanhá-la, levou consigo apenas as criadas, dizendo que preferia

ficar só na grande paz do campo, a sossegar.

Era na Páscoa. Nessa ressurreição da primavera, ao abrir a janela do seu

quarto, aspirou no perfume dos lilases a esperança que subia com as

seivas, vibrando já nas asas migradoras e no pólen que doirava o ar.

Enternecia-a tudo: as relvas novas, ver os rebanhos beberar às tardes

quando os montes violáceos se concentram, os pássaros felizes no pomar,

e à hora das regas, ao crepúsculo, a alegria das águas borbulhantes,

quando as estrelas vem, tudo descansa, pelos atalhos vão chiando carros,

e nos paúis, pobres poetas liricos, os sapos piam comovidamente. Nunca

sentira tanto a natureza.

E foi nesta atmosfera de pomar que ela esperou misticamente a hora

suprema, querendo sofrer, feliz, extasiada, como uma nuvem alta da manhã

que o sol rompesse p'ra descer aos homens...

Davam Trindades. A tia Olívia contara um lindo conto. Ao sair dos

palácios de feeria por onde a voz dela o ia levando, o Emílio ficava a

olhar as jóias, os anéis, a pedras preciosas esparsas na sua mesa de

doente e luzindo em sortilégio, na penumbra. Eram olhos de fadas,

encantados...

Não tiveram remédio senão dar-lhos: por quanto tempo, meu Deus, por

quanto tempo?... P'rò distrair, há dias, o tio Eduardo tirou os anéis e

deu-lhos, e como o viram ficar muito contente, os outros deram-lhe

tambêm os que traziam. Mas quando iam nessa noite a despedir-se, êle

ficou tão triste ao entregá-los, que o tio Eduardo propôs que lhos

deixassem e todos imediatamente consentiram.

--Fica com êles, Milinho, guarda-os, guarda-os.

--Mas não são meus, não quero... Assim, não quero...

--São todos teus, são todos teus, meu filho.

Então em roda todos confirmaram a mentira damor que o alegrava.

Daí por diante, sempre àquela hora, vivia num delírio de gandezas. Mas

nesta tarde, ou porque o conto mais o impressionasse, ou porque

estava mais fraco e com mais febre, a excitação do Emílio era maior. Os

seus olhos de mago, muito abertos, dois veludos de febre ainda mais

negros, maguavam-se fitando as pedrarias, êsse baile de côres e de

reflexos que pareciam mais vivos na penumbra, e como se a febre dêle os

contagiasse, tinham fulgurações de um brilho agudo. Abria, abria os

olhos fascinado.

--Que lindo, mamã, veja que lindo!

Toda a sua carita consumida desaparecia no clarão dos olhos, mais pretos

que asas de andorinhas, ao tremerem no ar em despedida. Outro sino mais

longe deu Trindades, numa voz de prata e de fadiga, como se lhe custasse

a vibrar até ao quarto. Todos estavam opressos, sem falar. E êle,

erguendo os braços de repente, deixou-os ir cahindo sôbre as jóias,

cobriu-as com as palmas das mãosinhas, puxando-as contra o peito

avaramente:

--São todas minhas, não é? São todas minhas...

--Todas, Milinho, disse a mãe transida. Vergou-se então sôbre elas com

esfôrço, como se fôsse p'ràs beijar, branco de cera, e repetiu ainda

extasiado:

--É lindo, lindo... lindo. Não dou nenhuma a ninguêm. São todas minhas.

Espalhou-as um pouco sôbre a mesa, pôs de parte os anéis, ficou a

olhá-los, e sorrindo à idea que tivera, disse baixinho:

--Vou pô-los nos meus dedos. Começou a enfiá-los com cuidado nos

dedinhos ossudos, só falanges, mas deixava-os cair a cada instante,

largos de mais, em fugas de reflexos. Já ia na terceira tentativa, num

desespero mudo, a arfar cansado, quando o tio Eduardo e a mãe o

ajudaram. Levantaram-lhe as mãos quentes de febre, e enfiaram-lhe os

anéis nos dedos ósseos, que êle ergueu quanto pôde, deslumbrado.

--Mamã! Estavam a dar Trindades. Vou rezar uma avé-maria, vou rezar.

Na penumbra da alcova, de mãos postas, escorrendo em reflexos irisados,

a sua vòsinha disse a avé-maria num timbre muito fino de carícia,

como um adeus que punha os olhos rasos, num veludo expirante de

palavras, dêsses que tem no outono, a horas mortas, certas fôlhas de

arbusto a despedir-se. Nem o tio Eduardo se conteve. Brilhavam-lhe já

lágrimas nos olhos. Ninguêm tinha coragem para falar.

A lua, que agora vinha muito cedo, batia na varanda, brancacenta. Êle

tirou os anéis devagarinho, como um ser de conto, a sorrir sempre, e

deitou-se p'ra baixo fatigado.

--Dê-me as suas mãos, mamã, quero senti-las.

E ficou a beijar-lhas muito calmo. No enleio de uma emoção religiosa,

todos queriam quebrar êsse silêncio, feito de sonho e de apreensões de

morte, que avançava talvez na luz do luar. Foi o tio Eduardo que falou:

--Esteve hoje um dia lindo, quási quente. Temos à porta a primavera.

Dentro em pouco, Milinho, estás mais forte; já podes dar à tarde o teu

passeio.

--Logo que possa, mamã, vou ver o mar. Consigo, sim?

--Se Deus quiser, meu filho, havemos de ir. E ainda antes, has-de ir

para o quintal brincar com os manos. Sabes que a _tua_ árvore, a

magnólia, já está cheia de flores muito brancas?

--Ó mamã, mamã, deixe-ma ver,--pediu êle erguendo a cabeça de repente.

--Mas vais apanhar frio, meu filhinho. Amanhã, amanhã, agora não.

Tanto insistiu, que o levaram ao colo até à janela, embrulhado em

cobertores, muito contente, e ficou assim alguns instantes, a carinha

colada contra os vidros, no deslumbramento da magnólia, da _sua_ árvore,

erguendo o tronco negro e lívido de lua, e nos ramos implorantes e

afilados, as flores mais brancas que há na terra.

Serão inquieto : contos · 第 1 / 7 段