Os padecimentos de Gomes Coelho aggravaram-se sobremodo desde 1868,
especialmente depois de escripto um pouco afadigosamente o romance
_Morgadinha dos canaviaes_.
Nem a ida a Lisboa, nem as distracções e passeios que os seus amigos
lhe proporcionavam, poderam suster o curso progressivo da doença,
accidentada no mez de setembro d'esse anno por uma dor nevralgica. A 20
d'outubro, dia em que se celebrava intimamente a festa natalicia do snr.
J. J. Pinto Coelho, assistiu, como tinha de costume, ao jantar de
familia, se bem que visivelmente incommodado. Os dias que se seguiram
foram para Gomes Coelho de verdadeira reclusão. No mez de novembro
augmentaram os padecimentos, e a pneumo-hemorrhagia foi mais violenta do
que precedentemente havia sido.
Em janeiro do anno seguinte (1869) resolveu-se a ir passar uma temporada
a Lisboa, hospedando-se n'uma casa da rua Direita da Graça, á Cruz dos
quatro caminhos, onde se conservou cerca d'um mez.
A vida de Gomes Coelho na capital foi triste e concentrada, chegando a
passar dias inteiros sem fallar com outras pessoas além das que estavam
de portas a dentro. Aconselhado pela medicina, cremos que pelo doutor
May Figueira, tomou a rapida resolução de partir para a Madeira. Tirou
passagem no vapor d'Africa e sahiu o Tejo no dia 5 de fevereiro. A cento
e sessenta leguas do continente, n'essa pyramide de terreno vulcanico
que se estende de leste a oeste sobre o oceano occidental,--a
Madeira--como disse o desventuroso Arnaldo Gama,[1] devia de
encontrar Gomes Coelho a pittoresca realidade d'esse formoso quadro que
traçara na _Flor d'entre o gelo_, «d'essa collina elevando-se graciosa
do meio de uma amplissima e vicejante bacia», onde uma constante chusma
de invalidos ia pedir allivio á piedade da milagrosa _Senhora da Saude_
e á profunda sciencia do doutor Jacob Granada.
A maior parte d'estas casas (as que alvejavam por entre a verdura da
encosta)--dizia elle--era habitada por uma população fluctuante de
valetudinarios ou convalescentes que procuravam vigorar forças,
respirando a pleno seio o ar purificado e livre das montanhas e dos
bosques.
Pela manhã, quando as névoas principiavam a dissipar-se e, por entre
a folhagem das arvores, o sol penetrava mais fomentador de vida e ia
evaporar o orvalho que ainda rociava as hervas dos caminhos, viam-se
subir a collina, a passos vagarosos e com frequentes pausas, esses
pallidos doentes, que pareciam renascer só ao receberem aquellas
auras embalsamadas pelos perfumes das flores, e suavisadas pelos
primeiros calores da manhã.
Era o velho quebrantado e tremulo, parando a meio caminho da ladeira
que subia, a fitar o céo, como se d'antemão procurasse decifrar o
problema que em breve teria de resolver; o mancebo, inquieto e
pensativo, de aspirações ardentes e subidas e em tão alto gráo que
no empenho de as realisar lhe falleceram as forças e no forte da
lucta sentia-se succumbir; a virgem, meiga e melancolica, como uma
das mais ideaes creações ossianicas, errante por entre as arvores
seculares ou pendida á borda das correntes, escondendo uma lagrima
ou simulando um sorriso, manifestações diversas na apparencia e
ambas denunciadoras tantas vezes d'uma grande tristeza interior; a
mãe joven e doente, em torno á qual brincava um bando de creanças
alegres e cheias de vida, ignorando, os innocentes, que todo o seu
destino, que as suas alegrias ou as suas dores no futuro dependiam
agora d'aquellas arvores, onde se balanceavam risonhas, d'aquellas
virações que lhes açoutavam os cabellos soltos e annelados.
Assim pois o luctar da vida e da morte era o que por toda a parte se
via. Contrastes de esperança e de desalento, antitheses de sorrisos
e de lagrimas formavam a feição mais caracteristica do quadro.»
Esta devia de ser a realidade do seu poetico ideal, ideal dizemos, se
bem que as almas privilegiadas pelo talento possuam a excepcional
intuição de lerem atravez do futuro os caracteres do seu mesmo destino...
Em maio d'esse anno, regressou Gomes Coelho da ilha da Madeira, posto
que bastante enfermo, relativamente muito melhor. Conservou-se no Porto,
tomando parte nos trabalhos escholares, e nos principios d'outubro
partiu para Lisboa, sahindo para a ilha no dia 15 do mesmo mez.
Regressou em maio do anno seguinte (1870) e nos primeiros dias d'outubro
tornou a embarcar para a Madeira, voltando á patria em maio de 1871.
Cumpre notar que em 1870 sahiram em volume, editados pela casa
Moré, e sob o titulo de _Serões da provincia_, os quatro
romancezinhos--_Apprehensões de uma mãe_,--_O espolio do senhor
Cypriano_,--_Os novellos da tia Philomella_, e--_Uma flor d'entre o
gelo_.
Durante as tres epochas que demorou na ilha foi que _Julio Diniz_
escreveu o seu ultimo romance--_Os fidalgos da casa mourisca_,--posto
que das duas ultimas alternasse os trabalhos de redacção com estudos de
economia politica. Em maio, como já dissemos, regressou ao Porto,
gravemente doente, atacado, além dos seus padecimentos chronicos e
fataes, d'uma dor sciatica.
Então devia já ter-se feito noite n'aquelle grande espirito, e a ideia
da morte havia de interpor-se, cada vez mais intensa e melancolica,
entre o presente e o futuro.
Declinava o sol; o occaso estava proximo.
Que dolorosos pungimentos de saudade lhe não havia de dar a cada momento
a memoria,--aquella vivaz e fiel memoria dos phtysicos,--ao recordar-se
dos tranquillos dias da sua mocidade, das suas excursões a Aveiro, a
Felgueiras, a Leiria, sempre rodeado d'amigos, sempre querido d'elles,
agora que, por uma barreira invencivel, se via, e para sempre,
distanciado d'um amigo que sinceramente o estimava,--o publico!