Sabem a historia triste
Do bom reitor?
Misero! toda a vida
Levou com dor.
Fez quanto bem podia...
Mas... a final
Morre e na pobre campa
Nem um signal.
Nem uma cruz ao menos
Se ergue do chão!
Geme-lhe só no tumulo
A viração.
Vedes, alem... na relva...
Junto ao rosal
Flores que ha desfolhado
O vendaval?
Cobrem-lhe a lousa humilde;
A creação
Paga-lhe assim a divida
De compaixão.
Pobres, que amava tanto,
Nunca, ao passar,
Choram, curvando a fronte
Para rezar.
Nunca, ao romper do dia,
O lavrador
Pára e lamenta a sorte
Do bom reitor.
As criancinhas nuas,
Que estremeceu,
Já nem sequer se lembram
Do nome seu.
No salgueiral visinho,
Ao pôr do sol,
Vai-lhe carpir saudades
O rouxinol.
Lagrimas... pobre campa!
Ai, não as tem.
Só da manhã o orvalho
Rocial-a vem.
Da solitaria lua
A triste luz
Grava-lhe em vagas sombras
Estranha cruz.
E elle repousa, dorme...
Vive no céo;
Dorme, esquecido e humilde
Como viveu.
Ha n'esta vida amarga
Sortes assim.
Vive-se n'um martyrio,
Morre-se emfim...
Sem que memoria fique
Para dizer
Ás gerações que passam
Nosso viver.
Quem me escutar, se um dia
Ao prado for,
Ore pelo descanso
Do bom reitor.
Quem sabe se a inspiração d'estes versos, que se nos afiguram escriptos
muito antes de serem publicados, foi ainda o germen de que desabrochou,
recendente ao perfume das serras e colorido com as tintas mimosas das
flores do campo, o romance _Pupillas do senhor reitor_? Cremos que sim.
O grão que o semeador deixa cahir na leiva é na primavera flor, no
outomno fructo, e no inverno riqueza.
Assim tambem a ideia, que o espirito recebeu um dia, póde florir ámanhã,
fructificar depois, e opulentar para todo o sempre os celleiros onde se
apascenta a intelligencia humana. Toda a primavera foi botão, e o mesmo
sol, que ao meio-dia deslumbra, primeiro se mostrou dilucúlo...
No _Almanach das senhoras para 1871_ appareceu uma poesia de _Julio
Diniz_ epigraphada--_A folha solta do ulmeiro_--uma formosa
allegoria em que o coração da mulher, sedento de liberdade, é comparado
á folha do ulmeiro que, anciosa de desprender-se do tronco, voa um dia,
após as borboletas, impellida pelo ar, até que, depositando-se na terra,
fica perdida no monturo...
Virgens, gravae na memoria
Este conto verdadeiro;
Que póde ser vossa a historia
Da folha solta do ulmeiro.
Outros versos escreveria _Julio Diniz_ de que não obtivemos noticia; e
alguns deixou elle ainda por corrigir, motivo por que não podem e não
devem ser publicados.
Além d'estes, outros se encontram disseminados pelos seus romances, como
a lenda da _Cabreira_ e a _Trigueira_, nas _Pupillas do senhor reitor_;
o _Tabaco_ na _Familia ingleza_; e especialmente aquellas formosas
quadras da _Flor d'entre o gelo_, uma das quaes, em que o poeta
apostropha ás andorinhas,
Só eu, que vos sigo com vistas saudosas
Ao vosso desterro, dos mares além,
Já quando ao prado brotarem as rosas,
Talvez não reviva co'as rosas tambem,
parecia encerrar uma prophecia que infelizmente já se converteu em
realidade.