Em Gomes Coelho tão identificados andavam o homem e o litterato, que não
havia surprehendel-os na menor contradicção. O mesmo é lêr os seus
versos, os seus romances sobretudo, e descortinar para logo a limpidez,
a tranquillidade, a nobreza d'aquella alma. Os quadros que devemos á sua
penna são placidos, azues e luminosos, e estes serenos esplendores que
lhes davam animação partiam directamente, sem jámais atravessarem um
meio viciado, do foco intimo e puro,--do seu grande e nobilissimo espirito.
Eu folgo muitas vezes de, seguindo o rumo da critica moderna, estudar o
_eu_ subjectivo no homem material e nas suas mil relações com a
sociedade. É um trabalho duplamente interessante, e tão curioso estudo
em ninguem mais dará tão promptos e satisfactorios resultados como
em Gomes Coelho.
Julio Cesar Machado, escrevendo ha pouco tempo ainda do popularissimo
doutor Thomaz de Carvalho, perguntava singela e intencionalmente:
Conhecem o quarto? Gabinete de estudo, e museu de amador, tanto mais
interessante que reflecte por alguma maneira o caracter, habitos,
genero de predilecções de quem o constituiu com o gosto e cuidado
inseparaveis de sua indole. Ha alli muito da sua individualidade; é
tudo d'elle e por elle alli; uma especie de transfiguração de sua
pessoa; como que o sobretudo d'aquelle espirito multiplice e
fecundo. Ao mesmo tempo, quarto modesto e reservado--como convem
para o estudo, não tendo sequer a indiscrição de olhar para as ruas.
Ora eu lembro-me de ter em 1868 visitado Gomes Coelho na casa em que
então morava no largo de S. João Novo. Entrei para o seu quarto,
modestamente mobilado, e pela elegante singeleza que reinava alli, pela
regularidade systematica, e pela graciosa disposição dos seus papeis e
dos seus livros recordava-se a gente subitamente dos romances de _Julio
Diniz_.
Devia de ser traiçoeiro aquelle quarto para os que não soubessem que o
mesmo homem absorvia as duas individualidades...
Coração d'ouro, affectuoso, impressionavel, caracter honesto, justo,
incapaz d'uma ligeira offensa, a si mesmo se daguerreotypa
involuntariamente nos seus romances, nos seus personagens admiraveis de
candura e pureza, porque em todos elles havia alguma coisa da sua alma.
«Eu encarno-me nos meus personagens--dizia elle a alguem da sua
familia--antes de os desenhar. Supponho-me elles, faço-os pensar o que a
mim me parece que pensaria em tal caso, obrigo-os a dizer o que eu diria
por ventura em identidade de circumstancias.»
Outros escriptores terão colorido mais vivo, mais pittoresco até; poucos
lograrão vencel-o na observação escrupulosa, na moralidade dos quadros,
na doçura dos assumptos, e finalmente no desenvolvimento dramatico da
acção, circumstancia importantissima, porque o romance é
simultaneamente narração e drama, dialogo e descripção, como observou
Pelletan.
Realista, porque elle o era em litteratura, jamais se occupou em
reproduzir os quadros negros da sociedade, as paixões revoltas e baixas,
as enormidades do crime, os typos ridiculos ou hediondos.
Suppondo mesmo que o não sabiamos, facilmente conheceriamos que o
espirito de Gomes Coelho fôra educado na leitura do romance inglez. Os
seus personagens, pelo menos em alguns dos seus livros, se não são tão
humildes, se não professam officios mechanicos, como os de George
Elliot, são typos escolhidos na galeria rustica do campo.
As suas novellas são chronicas d'aldeia, como elle mesmo as denominava.
Nos _Fidalgos da casa mourisca_ está completamente photographada a
indole do romance moderno que os inglezes adjectivam de sociologico.
Qual é o fim d'este romance? Que problema se propõe resolver? O
professor Buchner, da faculdade de lettras de Caen, escolheu ha pouco
tempo para assumpto d'uma conferencia interessantissima a nova direcção
que a litteratura britanica tem dado ao romance depois de Dickens e
Thackeray, «os heroes da satyra e do bom humor», como elle mesmo lhes
chama. Não bastavam as zombarias humoristicas d'estes dois romancistas,
as suas verberações violentas á burguezia e á nobreza para implantarem a
nova reforma social. Era preciso mais alguma cousa do que censurar o
mal;--era preciso apontal-o, sondal-o, e cauterisal-o. D'esta missão
humanitaria e prestimosa se encarregou o romance sociologico,
occupando-se primeiro que tudo da educação nacional, como fez Bulwer no
_Pelham_, e passando da familia, onde as creanças lhe merecem sérias
attenções, a combater na sociedade os velhos preconceitos, os monopolios
escandalosos, as tradições classicas, antigas inimigas da verdadeira
liberdade. Tudo isso se presente nos primeiros romances de _Julio
Diniz_, nas _Pupillas do senhor reitor_, por exemplo, onde a medicina
moderna, representada em Daniel, tem de fazer rosto á velha sciencia
hyppocratica de João Semana, e tudo isso se manifesta claramente nos
_Fidalgos da casa mourisca_, onde a aristocracia, ciosa dos seus
pergaminhos, lucta e porfia com a nobreza do trabalho, onde a
civilisação antiga digladia com a sociedade moderna, n'um combate
proficuo á humanidade.
Os romances de _Julio Diniz_ resentem-se portanto da sua educação
litteraria e, a meu vêr, compartilham das virtudes e dos defeitos do
romance sociologico inglez. Reflectidamente accusa o professor Buchner
os modernos romancistas da Inglaterra de descurarem um pouco a fórma por
attenderem demasiadamente á materia; finalmente de uma exuberancia
extrema de pormenores, e até de personagens, exuberancia esta que por
mais d'uma vez abafa o centro de gravidade, o verdadeiro heroe do romance.
De resto não ha ahi litteratura mais doce, mais consoladora, mais
orvalhada de lagrimas refrigerantes para os que na lucta ficam vencidos,
e mais cheia de serenas alegrias para os que, vencedores, recolhem os
louros do triumpho.
Na esphera do _realismo_, visto esta palavra andar hoje em voga, Gomes
Coelho está no polo opposto ao dos irmãos Goncourts, Zola, Gaboriau,
Feydeau, e muitos outros. Nós, «entendendo _realismo_ do unico modo por
que póde admittil-o a consciencia e confessal-o a razão, julguemol-o só
observador consciencioso, reproductor discreto» para nos servirmos das
palavras de Mendes Leal, e veneremos em Gomes Coelho, no _amavel
moralista_, como lhe chama o mesmo escriptor, essas qualidades que elle
possuia em grau eminentissimo.
Não é nosso intento, nem o comportam as exiguas dimensões d'um esboço
biographico, fazermos uma critica especial sobre cada livro de _Julio
Diniz_. Propozemo-nos simplesmente estudar-lhe a _maneira_, fazer sentir
a sua individualidade exclusivista, e com isso nos contentamos.
Céo limpido, atmosphera pura, montanhas vagamente esbatidas no
horizonte, campinas cobertas de flores e esmaltadas por aguas
scintillantes e suspirosas, a amenidade da aldeia n'uma palavra, a
natureza rude mas casta,--n'isto se resumia a _mise-en-scene_ dos
seus dramas. Os seus personagens não eram os pastores anachronicos de
Gessner ou Virgilio, os pegureiros ignorantes das alturas de Barroso.
Eram, como já deixamos vêr, os corações formosamente singelos, como as
flores d'entre as serras, o reitor, o herbanario, o camponez abastado, o
cirurgião, o fidalgo, e as mulheres cujos corações desabrochavam para
florir na primavera perpetua do bem. A mulher! oh! essa nobilitava-a
elle sempre, modelando-a pelo seu ideal de formosura e bondade,
pondo-lhe no coração balsamos para todas as chagas, conforto e
ensinamento para todos os obcecados pela paixão infrene. Destacam-se
sobre um horizonte azul, como a vela branca na amplidão das aguas
dormentes, os seus incomparaveis typos de mulher, ou estudemos a
Margarida das _Pupillas do senhor reitor_, ou a Jenny da _Familia
ingleza_, a Magdalena da _Morgadinha dos canaviaes_ e a Bertha dos
_Fidalgos da casa mourisca_. Sempre a mesma doçura, a mesma bondade
intelligente, a mesma elevação, a mesma pureza de ideias e sentimentos!
Notaremos de passagem uma circumstancia muito para significar até onde
ia a magnanimidade de Gomes Coelho.
Aproveitando o typo do velho cirurgião, mais experiente do que
instruido, com maior peculio de anecdotas do que de conhecimentos
scientificos, dando-nos aquelle interessante e completo João Semana das
_Pupillas do senhor reitor_, não foi para fazer d'elle a caricatura do
proto-medicato, um personagem grotesco e risivel, senão para nos obrigar
a estimarmol-o e a respeitarmos a sciencia antiga apresentada n'um homem
de nobilissimo coração. O mesmo não aconteceu a Silva Gaio, escriptor
eminente é certo, mas critico incisivo e quasi sempre apaixonado,
mormente em assumptos historicos, que fez do João Marques, do _Mario_, a
caricatura cruelmente verdadeira do charlatanismo medico.
Os romances de _Julio Diniz_ foram profusamente apreciados pela
imprensa. Além do seu valor real offereciam certa novidade para o
publico portuguez,--nacionalisavam o moderno romance britanico,
desconhecido em Portugal. Na vanguarda dos admiradores de Gomes Coelho
collocou-se espontaneamente o snr. Alexandre Herculano e, após elle,
muitos talentos distinctos da nossa terra sahiram a festejar o modesto
romancista portuense, para quem a justa gloria que lhe outorgavam era
mais um gravame pesado de que um galardão para a consciencia.
Obriga-nos a nossa qualidade de chronista a consignar um senão apontado
pela critica mais illustrada, sempre respeitosa e enthusiasta,
especialmente pelo snr. J. M. de Andrade Ferreira, na _Gazeta litteraria
do Porto_--era que _Julio Diniz_ falseava a cada passo a linguagem dos
seus personagens, recrutados na população dos campos, quando esta
linguagem devia ser singela, chan e rude para soar verdadeira e natural
aos ouvidos menos exigentes.
Pouco é o que do romancista temos dito, mas n'esta rapida apreciação,
assim exigida pela natureza d'um esboço biographico, concentramos as
nossas opiniões, que por menos contrahidas, não se alterariam n'um
estudo de mais latas dimensões.