Acredita que os anjos tambem soffrem
N'esta mansão de dores,
E não olhes o mundo lacrimoso,
Quando o vires despido de fulgores.
Mal sabe a rosa, ao vecejar lasciva
Em plena primavera,
Que é passageira a quadra, que apoz ella,
Se despovoa o prado e a morte a espera.
O terreno, que pizas n'esta vida,
Occulta um precipicio;
O caminho, onde ao fim vemos a gloria,
Quantas vezes termina no supplicio!
Eu já vi, junto a um tumulo isolado,
Um grupo de crianças,
Dando as mãos e travando em chão de morte,
Com risos infantis, alegres danças.
Vi-os tambem sorrirem descuidados
Se piedoso viandante
Parava pensativo e, murmurando
Uma humilde oração, passava adiante.
Assim tambem sorris, se melancolico
Eu penso no porvir,
Quando uma sombra vem turbar-me a fronte,
Tu, como elles, contemplas-me a sorrir.
Mas olha, quer's saber a historia triste
D'esses tres innocentes,
Que, sobre as cinzas frias d'uma campa,
Se entregavam a jogos complacentes?
Á noite a mãe, beijando-os, estranhou-lhes
Da face a pallidez,
E um presagio sentiu ao alvor do dia...
Eram frios cadaver's todos tres.
É que os ares do tumulo dão morte
Em afago homicida,
N'esse ar infecto em que se extingue a chamma
Tambem arqueja e expira a luz da vida.
Teme pois tambem tu, candida virgem,
O ar que aqui respiras,
E não perguntes mais ao viandante,
Que pensamentos d'amargor lhe inspiras.
Transparece d'estes versos,--senão os primeiros, uns dos primeiros de
_Julio Diniz_,--a luz pallida d'uma alma triste. Em todas as composições
posteriores, que litterariamente valem muito mais, especialmente as
ultimas, prevalecem as cadencias melancolicas, que fazem lembrar o
_Cahir das folhas_ de Millevoie e as _Azas brancas_ de Garrett.
No quinto numero do mesmo volume veem novas estrophes suas, que teem
estreita relação com as que acima deixamos transcriptas. Intitulam-se
_Apparencias_. _Julio Diniz_ extranha o teimoso sorriso nos labios da
pessoa a quem se dirige:
Sempre o riso em teus labios! N'essa fronte
Nem uma sombra apenas!
Nem uma nuvem só, lá no horizonte
A ameaçar-te com futuras penas?!
Presente-se uma alma de poeta em completo antagonismo com outra alma,
que ou nasceu fadada para estranhas alegrias ou, menos sincera, sabia
concentrar em si mesma o segredo das suas maguas.
Quem sabe! Quantas vezes é mentida
Dos labios a alegria?
Quantas vezes no peito comprimida
Nos devora latente uma agonia!
Ainda na collecção do mesmo anno vem uma terceira poesia de _Julio
Diniz_, cujo assumpto é estranho ao das duas precedentes. Todavia o
poeta, sempre delicado, compraz-se em cantar os primeiros
estremecimentos d'um coração de mulher, e intitula o seu canto--_O
despertar da virgem_.
No quarto volume (1862) da _Grinalda_ sahiram duas poesias de _Julio
Diniz_. Intitula-se a primeira--_A noiva_. É ainda o coração da mulher o
assumpto,--da mulher que está sentindo alternadamente os jubilos e os
sobresaltos do noivado. É, podemos dizel-o, um estudo psychologico
escondido n'uma tradição da idade-media. A noiva está prompta, toucada,
anciosa...
A noite passára em vela.
E que noiva a dormiria?
E, ao desmaiar das estrellas,
Alvoroçada se erguia
E a alva flôr da larangeira
Ao véo de neve prendia.
Estas alegrias nupciaes não podiam deixar de ser anuveadas pela
inspiração melancolica do poeta. Passam-se as horas, e o noivo não
chega. Em compensação, vem a noticia de ter sido morto em combate. A
noiva succumbe
E a alva flôr da larangeira
Com ella á campa descia.
A segunda poesia denomina-se _Thereza_, e na ideia tem alguma coisa
d'aquella suavidade dolorida dos versos de Soares de Passos. O ninho
querido onde o poeta modula os sens carmes é o coração da mulher.
_Thereza_ é a historia d'uma creança pallida e triste, d'aquella
tristeza scismadora das almas fadadas para o soffrimento, que só tem
sorrisos nos labios no dia em que presente a morte...
Era uma criança loira
Quando a vi na sepultura;
Da açucena tinha a alvura,
Teve o seu curto durar.
...............................
Folheando o quinto volume da _Grinalda_ encontramos tres poesias de
_Julio Diniz_. A primeira é uma versão de Henri Heine, que de certo
Gomes Coelho escolheu pela delicadeza peculiar das legendas allemãs, que
a caracterisa. A segunda,--_No altar da patria_--é uma formosa
composição realmente, em que o coração da mulher lucta entre duas forças
igualmente poderosas,--o amor da patria e o amor de mãe.
--«Ó mãe, da-me uma espada.
Ouço da patria a voz»
--«Eil-a! É immaculada.
Era a de teus avós.»
--Pura a trarei, voltando...
Se não morrer alli.»
--«Vai», disse a mãe, chorando,
«Eu rezarei por ti.»
E trava-se o combate, e sibila a metralha, mas o soldado não volta.
É ainda,--e sempre,--a ideia da morte que inspira o poeta. A terceira
poesia, que tem por titulo--_A despedida da ama_--e é offerecida ao snr.
José Joaquim Pinto Coelho, é igualmente inspirada pelo coração feminino
em lucta com as praxes sociaes, com o despotismo da superioridade. São
lagrimas d'uma mulher que se deixou amar como se fôra mãe uma criança
que não era seu filho.
Puz, á volta do teu berço,
Todo o amor, que um seio tem,
E arrancam-te dos meus braços
Porque eu não sou tua mãe?
De anno para anno são sensiveis os progressos do poeta. A fórma
desenvolve-se, torna-se flexivel á inspiração, e o colorido vai ganhando
em mimo o que jámais á ideia faltou em sentimento.
_Os paes da noiva_, poesia publicada no sexto volume da _Grinalda_,
valem muito não só pela correcção metrica, que é irreprehensivel, como
pelo thema, que é terno, mavioso, commovente. Tudo é festa em derredor
da noiva. Só duas pessoas, os paes, teem lagrimas nos olhos. Quando a
rapariga parte sob uma chuva de flores, recolhem-se os dous velhos para
chorarem em segredo a sua profunda saudade. Está de lucto o lar; a
velhice saudosa é peior do que a morte. Seis dias volvidos é tristemente
verdadeiro o lucto. Os paes da noiva não poderam com o fardo de tamanhas
tristezas. Succumbiram ambos.
Do mesmo volume quizera poder transcrever na sua integra a poesia--_A
esmola da pobre_--que é uma delicadissima composição, em que duas
creanças, uma rica e outra pobre, soccorrem uma velha mendiga, a rica
dando-lhe esmola, a pobre beijando-lhe a mão...
No primeiro dos folhetins que em 1864 publicara no _Jornal do Porto_ sob
o titulo de _Impressões do campo_ veem estes formosos versos que são, a
meu vêr, um modelo de naturalidade e singeleza: