De 1862 a 1863 escreveu Gomes Coelho o romancezinho--_Novellos da tia
Philomella_, que principiou a ser publicado no _Jornal do Porto_ em 22
de janeiro d'este ultimo anno.
Foi em Ovar, onde o deixamos em patriarchal tranquillidade, que planisou
e traçou os primeiros capitulos das _Pupillas do senhor reitor_. O seu
espirito, refocillado nos ocios d'uma convalescença despreoccupada,
comprazia-se nas variadas scenas com que a imaginação poderosa do poeta
anima um mundo phantastico que para si creou. Assim se explica a
espontaneidade com que não só encetou o romance _Pupillas do senhor
reitor_, mas com que tambem foi trabalhando simultaneamente n'esse
formoso esboceto--_Uma flor d'entre o gelo_--, cuja publicação começou
no _Jornal do Porto_ em 21 de novembro de 1864, apparecendo pela
primeira vez o seu nome--Gomes Coelho.
Em maio de 1864 sahiram no mesmo jornal dois folhetins, creio eu, com o
titulo de _Cartas ao redactor do Jornal do Porto ácerca de varias
coisas_, rubricadas com o pseudonymo de _Dianna de Avelleda_. Facil foi
reconhecer-se então sob aquelle véo transparente a individualidade
litteraria de Gomes Coelho. Entrelembro-me que a maior parte de um
d'esses folhetins era consagrada á memoria de Rodrigo Paganino, talento
que, pela sua extrema delicadeza e o seu amor aos assumptos campesinos,
tinha estreita affinidade com o de _Julio Diniz_. Em agosto d'esse anno
publicou com o mesmo pseudonymo, e no mesmo jornal, alguns folhetins,
poucos foram, sob a epigraphe--_Impressões do campo, a Cecilia._
Em 1867 appareceram ainda com igual pseudonymo, no jornal litterario
_Mocidade_, umas _Cartas á vontade, a Cecilia_, devidas á penna sempre
modesta de Gomes Coelho.
As _Pupillas do senhor reitor_ não vieram completas, quando o author
regressou ao Porto, e a causa de só começarem a ser publicadas no
_Jornal do Porto_ em maio de 1866 foi de certo o ter de se preparar para
concorrer pela segunda vez em janeiro de 1864 ao logar de demonstrador
da secção medica da Eschola.
No anno seguinte, apresentou-se pela terceira vez candidato ao mesmo
logar, e n'esse mesmo anno foi despachado.
Já que estamos fallando da sua carreira cathedratica, diremos que por
decreto de 27 de julho de 1867 fôra promovido a lente substituto da
mesma secção, e que por decreto de 27 d'agosto do mesmo anno
recebera a nomeação de secretario e bibliothecario da mesma Eschola.
Em maio de 1866, como já dissemos, principiaram a sahir em folhetins as
_Pupillas do senhor reitor_, que em outubro do anno seguinte se
publicaram em livro. D'este romance, o primeiro volume que se brochou
offereceu-o _Julio Diniz_ a seu primo e amigo, o snr. José Joaquim Pinto
Coelho, como brinde natalicio, sendo esta uma das mais intimas festas de
familia a que não costumava faltar.
O romance _Pupillas do senhor reitor_ conta já tres edições successivas.
No _Jornal do Porto_, de 7 de fevereiro d'este anno (1872) appareceu a
seguinte noticia:
JULIO DINIZ.--O rasto luminoso que o talento de Julio Diniz deixou
na liiteratura portugueza não se apagará jámais.
O dito d'Horacio não é,--ainda bem!--uma palavra vã--_Non omnis
moriar_. Julio Diniz começa a reviver na posteridade, e o _Diario de
Noticias_ do dia 5 mais nos entalha na alma esta profunda convicção
com a seguinte noticia:
«Lord Stanley of Alderley está preparando a versão para inglez do
lindo romance--_As Pupillas do senhor reitor_, de Julio Diniz.
Dá-nos esta interessante noticia o _The Athenaeum_, jornal de
litteratura que se publica em Londres, e do qual é correspondente em
Lisboa o snr. Soromenho.»
A 2 de maio de 1867, afoitado pelo successo d'este romance, encetou a
publicação da sua estreia litteraria--_Uma familia de inglezes_,--que no
anno seguinte sahiu á luz em volume com o titulo de _Uma familia
ingleza, Scenas da vida do Porto_.
Este livro já teve duas edições.
A _Morgadinha dos canaviaes_ foi escripta com extrema rapidez e começou
a publicar-se no _Jornal do Porto_ a 14 d'abril de 1868, sendo
reimpressa em volume logo depois.
Em março d'esse anno subiu á scena em Lisboa o drama que o snr. Ernesto
Biester extrahiu do romance _Pupillas do senhor reitor_. Gomes Coelho
foi a Lisboa, acompanhado pelo seu amigo o snr. José Augusto da
Silva, no proposito de assistir como simples e obscuro espectador á
estreia do drama. Estava elle no theatro da Trindade, pensando de certo
em gozar a modesta tranquillidade do incognito, quando o snr. Henrique
Nunes, distincto photographo portuguez, que o conhecia do Porto, o
denunciou como author das _Pupillas_. A noticia circulou com a rapidez
da electricidade, e para logo proromperam as plateias em enthusiastica
ovação, sendo Gomes Coelho victoriado pelo publico e cumprimentado por
alguns litteratos distinctos que estavam presentes.
O _Diario Popular_, de 24 de março de 1868, escreveu mais
circumstanciadamente do assumpto, quando pela terceira vez se
representaram no theatro da Trindade as _Pupillas do senhor reitor_:
O exito d'esta peça correspondeu ao muito que esperavam d'ella os
que prezam as boas lettras e se occupam com interesse de novidades
theatraes. E na realidade é tão raro vêr sobre a scena portugueza
dramas puramente nacionaes, que não podemos deixar de applaudir a
apparição de uma comedia que pelo desenho dos costumes, pela
contextura, e pela linguagem honra o magro repertorio dramatico do
nosso paiz. Dividida em sete quadros, resume a comedia todas as
principaes scenas e peripecias, que dão vida ao romance com que o
snr. Gomes Coelho enriqueceu a litteratura moderna, e cuja primeira
edição foi esgotada em menos de um mez.
Como os leitores sabem já, as _Pupillas do senhor reitor_ foram
representadas no sabbado em beneficio da actriz Delfina. A mais
escolhida sociedade occupava os camarotes, balcões e plateias.
El-rei D. Luiz, não querendo deixar de honrar com a sua presença a
festa da distincta actriz, foi primeiro do que a nenhuma outra
parte, provar a Delfina o muito apreço que liga ao seu talento.
Desde o final do primeiro acto até que o pano baixou terminando o
espectaculo, os applausos repetidos e enthusiasticos testemunharam o
prazer com que era recebida a producção, que o snr. Biester com
tanta habilidade desentranhou d'aquella chronica d'aldeia, que n'um
só dia deu nome ao que a havia escripto. Na primeira representação o
publico chamou no fim do terceiro quadro o snr. Biester, que veio á
scena agradecer. Quando novamente foi chamado no fim do sexto
quadro, sabendo já que o celebre author do romance, o snr.
Gomes Coelho (Julio Diniz) se achava na plateia, veio ao palco o
snr. Biester, pediu silencio, e disse pouco mais ou menos as
seguintes palavras:
«Aquelle que realmente merece os vossos applausos está entre nós. Eu
não fiz mais que apresentar debaixo da fórma dramatica um dos mais
notaveis livros que se tem publicado n'este paiz. A esse escriptor
já coroado dos applausos publicos peço eu agora a honra de
permittir-me que o apresente n'este logar ao publico que o deseja
vêr.»
A plateia levantou-se para applaudir o snr. Biester e o snr. Gomes
Coelho, que se recusou a subir ao palco. Veio buscal-o á plateia o
snr. Biester, e, mal appareceram ambos no palco, o enthusiasmo do
publico chegou ao delirio. A todos commovia a modestia dos dois
escriptores; um escondendo-se na plateia e furtando-se aos
applausos, outro pretendendo que toda a gloria coubesse ao snr.
Gomes Coelho.
Os actores que ainda estavam em scena abraçaram o snr. Gomes Coelho
que profundamente commovido mal podia proferir uma palavra.
O correspondente de Lisboa dizia na sua carta para o _Jornal do Porto_
no mesmo dia e mez de março de 1868:
O Porto teve dois triumphos em Lisboa nos ultimos dias--o da opera
_Arco de Sanct'Anna_, do snr. Noronha, e o das _Pupillas do senhor
reitor_, do snr. Gomes Coelho (romance transformado em drama pelo
snr. Biester.)
Ambos estes filhos do Porto foram victoriados delirantemente, o
primeiro no theatro de S. Carlos, e o segundo na Trindade.
O drama agradou, e o desempenho foi bom por parte dos actores
Taborda, Izidoro, Queiroz, Emilia Adelaide e Rosa: pelos outros
apenas supportavel.
Quanto ao merecimento do drama, consignemos de passagem que não satisfez
a critica litteraria senão por ser um reflexo, ainda que pallido, do
romance de _Julio Diniz_.
Pinheiro Chagas revelava-o em folhetim do _Jornal do Commercio_, poucos
dias depois da primeira representação:
A luz do proscenio,--escrevia elle--digamol-o emfim, é uma luz
mentirosa; a perspectiva do theatro tem condições especiaes. Ponham
os frescos de Raphael recortados nos bastidores, e eu lhes juro que
não produzem metade do effeito de quatro borrões espraiados na lona
pelo snr. Procopio.
Em 6 de julho do mesmo anno, estando no Porto a companhia do theatro da
Trindade, pôz em scena o drama _Pupillas do senhor reitor_. Copiemos
ainda do _Jornal do Porto_ o que no dia seguinte escrevia a tal
respeito:
É muito difficil adaptar bem á scena o entrecho d'um romance. Para
que qualquer obra litteraria se considere absolutamente boa é
preciso que os factos que n'ella se expressam, debaixo de nenhuma
outra fórma se manifestem melhor. Um bom drama feito com o mesmo
assumpto que inspirou um romance, seria a condemnação d'este, e
equivaleria a dizer o dramaturgo ao romancista: «As tuas trabalhadas
descripções e a esmerada pintura dos teus typos estavam de mais nas
trezentas e sessenta paginas do teu livro: aqui tens os mesmos
effeitos n'um só dialogo em tres actos.»
A razão de não ser mais perfeito o drama que vimos hontem consiste
em ser muito bom o romance que lemos ha poucos mezes. A unica culpa
de Ernesto Biester é Julio Diniz.
E mais abaixo:
A sala estava inteiramente cheia. Pela manhã já não apparecia um
bilhete de plateia inferior. De tarde pedia-se libra e meia por um
camarote de terceira ordem.
V
Já seria occasião de estudarmos a _maneira_ do romancista. Todavia,
attendendo a que _Julio Diniz_ primeiro se revelou ao publico poeta que
romancista, corre-nos obrigação, por amor da chronologia, de primeiro o
avaliarmos, consoante nossa opinião, nos seus versos, que nas suas
novellas.
A pagina 40 do terceiro volume (1860) da _Grinalda_ apparece pela
primeira vez o pseudonymo _Julio Diniz_ rubricando uma poesia que se
intitula _A J..._ Quem fosse _Julio Diniz_ não se sabia então; não o
sabia o mesmo redactor da _Grinalda_, Nogueira Lima, que recebera os
versos pelo correio.
Gomes Coelho, apesar de o conhecer pessoalmente, porque Nogueira Lima
era tambem amigo dos seus mais intimos amigos, os snrs. A. A. Soares de
Passos, Custodio José de Passos, Augusto Luso, José Augusto da Silva e
outros, não ousara, por excesso da sua peculiar modestia, impôr-se
delicadamente como collaborador da _Grinalda_, procurando o redactor e
proprietario, e entregando-lhe os seus versos. Não fizera assim.
Enviara-lh'os cautelosamente e, por mais d'uma vez, escutara em silencio
Nogueira Lima sobre o merecimento d'uma ou outra composição poetica á
medida que pelo correio as ia recebendo com a rubrica _Julio Diniz_.
A inicial que serve de epigraphe á poesia publicada em 1860 na
_Grinalda_ envolve de certo um segredo intimo do poeta, e por
conseguinte insondavel. Gomes Coelho morreu celibatario, viveu sempre na
solidão amiga dos seus livros e, não obstante, em todos os seus versos,
em todos os seus romances, modelava o typo da mulher por um formoso
ideal de perfeições quasi divinas.
O que é certo é que na sua alma havia a tristeza temperada dos poetas
que, como Lamartine, nascem para cantar e soffrer. As paixões revoltas
de Byron e Espronceda não as conhecia elle. Era portanto o poeta da
solidão, que vivia do seu ideal, longe do bulicio da sociedade, onde
outros iam afinando a lyra pela excitação febril dos sentidos.
É justo que transcrevamos na sua integra os versos de que vimos
fallando, não só por este destino mysterioso que elle lhes dava, como
por serem os primeiros que sahiram publicados com o seu habitual
pseudonymo: