CONCLUSÃO

O barão de Celorico parecia uma creança atemorisada ao pé de Ludovina.

Se a perdia um momento, davam os espectros com elle, e lá ia o pobre

homem gritando, até se acocorar ao pé d'ella, escondendo-se com a roda

do vestido.

Bastava a presença de Ludovina para socegar-lhe os accessos de loucura,

manifestados em exclamações desatadas, quasi sempre seguidas da

apparição do charuto cuja historia elle contava a sua mulher, pelo theor

ridiculo que já lhe ouvimos.

Acudia Ludovina com o inutil remedio da razão, despersuadindo-o da morte

de Almeida. O barão abria a bocca attenciosa, parecia dar mostras de

entender e acreditar; o desfecho, porém, do silencio sereno com que a

escutava, era ver um novo avejão, que o vinha aterrar por cima do hombro

da mulher.

Os primos compadecidos, e os facultativos aconselhavam á baroneza o

emprego dos meios violentos para o curarem. A grande idéa therapeutica

era o caustico e a sangria. A contristada senhora annuiu. Por sua

parte, fez-lhe até carinhos para o induzir a deixar-se sangrar. O barão

replicava que o queriam matar, e de joelhos pedia á mulher que não o

deixasse morrer ás mãos dos seus inimigos, que o perseguiam para lhe

roubarem a esposa.

Resolveram empregar a força. Dois robustos camponios tomaram a peito a

ardua empresa. O cirurgião armado de lanceta esperava o ensejo propicio.

O officioso abbade da freguezia encarregára-se de cingir-lhe um lenço

sobre os olhos. O juiz ordinario pegava na bacia. Varios primos formavam

o corpo de reserva, e a baroneza fugira para não presenciar os

extrebuxamentos do infeliz.

--Agora!--disse o facultativo.

Á palavra _agora_ o barão estava entalado entre quatro braços

cabelludos, e o abbade, á rectaguarda do preso, lançava o lenço com mão

certeira. O barão arquejava, sem comtudo barafustar entre os membrudos

braços. Tudo promettia um propicio resultado, quando o antigo hercules

da rua dos Pescadores sacode um solavanco, e dispara dois murros

simultaneos nas ventas vizinhas. Umas eram as do abbade, o proprietario

infeliz das outras ventas era o juiz ordinario. Investiram de novo

contra elle os athletas: cara lhes foi a façanha, porque apararam um

choveiro de sôcos tremebundos, indo um d'elles por engano, estoirar na

lombada do cirurgião. Rarearam as fileiras. O abbade, o juiz, e os

homens de péga, parte dos primos, e o cirurgião coaram-se

cabisbaixos pela primeira porta que lhes franqueou a fuga atropellada.

N'esse conflicto appareceu Ludovina. O doudo baixou as armas

contundentes, os braços iteriçados que vibravam o ar como duas

mangueiras de malho. Correu para ella, como a pedir-lhe soccorro,

ouviu-lhe as reprehensões com o tremor do medo, e cahiu prostrado da

lucta sobre uma cadeira, apegando-se á saia da baroneza.

Aqui está o viver da deploravel senhora, no espaço de um mez, em

Celorico de Basto. Aquella vida, e as dôres profundas de outras causas,

eram o preço por que se fizera, ou a fizeram opulenta aos olhos da

sociedade, que, ainda assim, a invejava.

O barão desmedrára a olhos vistos. Do antigo João José Dias restava o

arcabouço proeminente de angulos osseos. A panda physionomia, tão rubida

de nediez chorumenta, chupára-se, entanguira-se, cousa de fazer lastima.

Diziam todos que a baroneza, um mez depois, seria uma formosa e rica

viuva. Já dois dos primos, morgados empenhados, botavam suas medidas, e

porfiavam a conquista. As damas, com palavras francamente grosseiras,

iam dando os parabens á baroneza. As que ousaram feri'-la assim, ouviram

resposta que lhes fechou para sempre as portas de sua casa.

A idéa que dominava o barão era a morte de Antonio de Almeida. Ludovina

perdera a esperança de afugentar o phantasma, empregando razões tão

convincentes da vida de Almeida como eram mostrar-lhe cartas

d'elle, que o barão ouvia ler com o sorriso do idiotismo, percursor de

nova berraria.

A ultima que Ludovina lera, quasi certa de que seu marido não a

percebia, foi a seguinte:

«Minha amiga. É já bastante o numero dos infelizes que põem os olhos

lagrimosos no abrigo consolador de Ludovina. Somos já muitos os

desamparados da esperança e da alegria. D'aqui até ao fim da vida é

soffrer, e chorar de modo que o mundo nos não veja as lagrimas: é

preciso que o coração as verta e as absorva; é necessario suffocar os

gemidos, e entreter as dôres, cavando a sepultura.

«Curta será a minha existencia. Quarenta e quatro annos, e a saude

alquebrada, e o coração feito pedaços, é um bom agouro, não é? Mas, para

Ludovina será extensa a estrada da amargura. Tem vinte annos, minha

amiga; vejo-a na aresta do precipicio, a contemplar-lhe a profundeza, e

ahi se lhe hão de prolongar as horas como as do desterrado. Meu pobre

anjo! quem lhe vaticinaria ha dez annos este infortunio?

«A santidade do seu viver devia ser recompensada aqui; mas a fé, a

religião dos desgraçados, ensina que o premio das grandes virtudes não

póde ser dado n'este mundo porque não ha mãos puras que possam tecer a

corôa do martyrio. Espere, Ludovina, com os olhos no céo, e a mão sobre

o seio para esmagar os impetos do coração, que tem accessos de raiva

blasfema.

«Obedeci-lhe, Ludovina.

«Comprimi, abafei, matei a essencia da minha vida, o sentir que m'a

fazia preciosa. Sou para sua mãe uma memoria. D'ella tenho só o nome

escripto no coração, como o epitaphio do affecto que ali morreu recalcado.

«Deu-me um calix, Ludovina. Bebi-o de um trago. Se tem outro,

offereça-m'o; toma'-lo-hei de joelhos.

«Pergunta-me qual é o meu viver?

«É isto, minha amiga. Não sei dizer-lhe que turbação afflictiva me

embaça o animo. Em redor, todos os meus horisontes são tenebrosos. A

mesma sepultura perdeu para mim os encantos de repouso, esse acabar que

é o porto seguro de todos os naufragos d'este horroroso pego.

«Poderei fazer-lhe entender, Ludovina, um quadro triste da minha

imaginação cançada de soffrer? Vejo dois vultos em pé, taciturnos,

sombrios, com os olhos cerrados, travando-se as mãos com a gelida

immobilidade de duas estatuas. Parou a vida externa n'estes dois entes.

Uma tremenda agonia lhes despedaçou a maior parte do coração; o

remanescente são fibras de ferro que resistem ao veneno e á morte. Ao pé

d'elles está a sepultura de ambos, e o anjo da consolação, sentado

n'ella, alimenta ahi a alampada da esperança.

«Adeus, minha santa amiga.»

Esta carta reclamaria notas explicativas, se o entendimento do leitor

não traduzisse a singelo o que ahi se esconde no figurado da linguagem.

A alliança de Antonio de Almeida e Ludovina, sobre um contracto de honra

tão melindrosa, não podia ser tractada com mais recato e pejo, de ambas

as partes. Entende-se o melancolico debuxo que attribulava o

espirito de Almeida. Angelica era a companheira d'esse homem que lhe

dava as mãos á borda da sepultura. A alampada da esperança alimentada

pelo anjo da consolação, era o fito da morte d'onde ambos não desfitavam

os olhos, como a naufragos succede, se no horisonte se lhes recorta um

rochedo salvador.

Ludovina entendeu o viver de sua mãe, e pungidas lagrimas essa carta lhe

desentranhou do coração. Chamou-a para si com grandes demonstrações de

saudade. Pediu-lhe que fosse alliviar-lhe o peso da cruz á qual já não

bastavam seus hombros. Dava-lhe paciente conta do seu viver ao pé do

barão que noite e dia bramava contra os espectros, e já dava aos

facultativos receio de morrer desvariado, a mais acerba de todas as mortes.

D. Angelica, fechada em seu quarto, realisava a imagem que a phantasia

de Almeida adivinhára. Sombria, inerte, reconcentrada, impassivel a

cuidados, carinhos, e desvelos de Melchior Pimenta, apenas dizia que

estava esperando a morte, e repellia com desabrido enfado os lenitivos

de quem quer que fosse.

Nunca mais escrevera a Almeida, e á filha eram mais as lagrimas que as

lettras. Não era a sua uma d'essas dôres que desabafam. Sentia-se tomada

de vergonha, se o coração a mandava abrir-se em desafogados prantos com

Ludovina. Sentia-se ferida de aborrecimento, se não odio, quando o

marido, mais simulado que dorido, lhe repetia as consolações frivolas de

quem não comparte as penas.

Á saudosa carta que a chamava a Celorico, D. Angelica respondera que já

não tinha vigor que a levantasse do seu leito. Supplicava a Ludovina que

lhe perdoasse a ella como causa dos seus tormentos, e lhe acceitasse

como reparo do seu pouco amor maternal os amargos transes que lhe

estavam desfazendo o coração fibra por fibra.

No entanto, disseram os medicos á baroneza que a apparição d'esse homem,

que o barão julgava sua victima, poderia recobrar-lhe a razão,

desopprimindo-a de phantasmas e remorsos, causas principaes da demencia.

Ludovina communicou a Almeida as esperanças dos medicos, sem pedir-lhe o

sacrificio de se verem.

Almeida foi a Celorico de Basto, e encontrou ao pé da baroneza Melchior

Pimenta.

Ludovina turvou-se da surpresa, e assim denunciou aos olhos do pae o

sobresalto em que a puzera a apparição do amante.

Melchior Pimenta, forte da sua indignação, insultou Almeida,

exprobrando-lhe a pertinacia da infamia, e ameaçando-o com a morte, se

elle não sahisse immediatamente d'aquella casa.

Ludovina cobrando forças, disse que só ella tinha direito de expulsar

alguem d'aquella casa. Encruou-se a sanha de Melchior, vociferando

injurias contra a filha, e provocações ao hospede silencioso. E saíu

escandecido de raiva. Almeida quiz segui'-lo, com sereno gesto, sem

assomos de colera, nem proposito de vingança. Impediu-o Ludovina com

lagrimas e gemidos que irritavam as iras paternas. Bem se via que

não estava ali um pae; e, se estava, não era por certo Melchior Pimenta.

Este conflicto atalhou-o o barão. Seguiu-se uma scena de effeito

dramatico. O barão recuava diante de Almeida que lhe extendia a mão.

Ludovina segurava o marido, pedindo-lhe que acceitasse a reconciliação

que Almeida lhe offerecia. Este com palavras afectuosas lhe pedia a sua

estima, e o esquecimento da passada offensa. O barão, ora espavorido,

ora risonho, alternava os olhos entre Almeida e Ludovina.

O leitor já sabe como no theatro se recupera o juizo. Se é mulher a

douda, rigorosamente desgrenhada esfrega os olhos, atira com as madeixas

para traz, e dá fricções seccas ás fontes com frenesi; se, homem, abre a

bocca, espanta os olhos, soleva o peito em arquejantes haustos, despede

o grito agudo obrigado a ambos os sexos, e está pessoa de juizo, capaz

de casar, que é quasi sempre a peor das doudices em que os auctores

fazem cahir os seus doudos, restaurados para a razão.

Pois o barão de Celorico não se curou por esse theor. Os áditos da razão

estavam cerrados de modo que levou longo tempo a despedaça'-los. A

continua assistencia de Almeida ao pé do leito, e as continuadas

insinuações de Ludovina, conseguiram rehabilitar-lhe o juizo, mas

vagarosamente. O barão parecia emergir d'um pesadello atroz quando

reconheceu Almeida. Não houve exclamações nem abraços de pé atraz,

_secundam artem_. Lagrimas, sim, as da baroneza, cujo contentamento

desmentia as conjecturas dos primos que a imaginavam lograda nas

suas ancias de viuvez. O custoso, depois, foi rebocar os estragos que a

demencia fizera no corpo do barão. Foi longa a convalescença. Almeida

quiz despedir-se; mas o enfermo erguia as mãos supplicantes pedindo-lhe

que o não deixasse.

Melchior Pimenta, de volta de Celorico, contou a sua mulher o escandalo

que presenceára. Repetiu contra Ludovina as injurias que lhe dissera em

face. Protestou esbofetear e apunhalar Almeida na presença de

testemunhas que depuzessem no processo da sua honra, e impoz, com

auctoridade, a sua mulher a sahida immediata da casa da adultera.

O que fazem mulheres: Romance philosophico · 第 39 / 46 题