--A adultera sou eu!
--Que dizes, Angelica?!--bradou Melchior.
--Adultera sou eu. Ludovina encobriu a minha deshonra com a sua virtude.
Os nomes insultuosos que lhe dás, repara bem, Melchior, e ve'-los-has
estampados no meu rosto. Se queres lavar com sangue estas manchas,
arranca-m'o do seio!
E assim falando, tirava o lenço que lhe velava os hombros, offerecendo o
peito.
--Endoudeceste, minha querida Angelica?--exclamou Pimenta--Faltava-nos
esta desgraça! Estás douda! maldita seja tua filha que te levou a esta
situação!
«Não estou douda, Melchior! não estou douda! Estou moribunda, e não
quero deixar infamada a teus olhos a minha filha. Se eu te pedisse
perdão do meu crime, acreditar-me-ias?
--Não, não. Tu és uma esposa virtuosa, Angelica! Diz o que quizeres para
salvar Ludovina, que eu não te creio. Reprovo essas demasias de amor,
que ella te está pagando com o amante ao pé de si.
«Melchior!--disse Angelica com firmeza e gravidade--A tua filha está
innocente; a amante de Antonio de Almeida sou eu! Não me perdôes, vinga
em mim a tua deshonra, porque o perdão não t'o peço. Sabias, quando me
acceitaste como tua, que eu não podia pertencer-te. Collocaste ao meu
lado o homem que me fazia odiosa a tua baixeza. Nunca me perguntaste se
era verdadeira a carta que te escrevi em solteira, pedindo á tua
commiseração que me deixasses. A mulher que fez isto, não pede perdão.
Revolta-se com a coragem do desespero, e deixa-se morrer. Confesso o
crime para salvar minha filha. Julga-me tu agora, mas vae pedir perdão
áquella santa que quiz poupar tambem a tua dignidade.
Melchior Pimenta saíu do quarto de sua mulher.
Para se armar do punhal de D. Jayme de Bragança, e do infante D. João?
Para se dar um tiro no ouvido?
Para mergulhar da ponte-pensil, ou despenhar-se dos Arcos-das-Virtudes?
Para scismar e endoudecer?
Não, senhores.
Melchior Pimenta foi para a Alfandega, jantou no hotel de Miss
Mery, e jogou o voltarete até ás onze horas na Assembléa Portuense.
No dia immediato, visitou sua mulher, e recommendou-lhe que desse um
passeio no jardim que estava o dia agradavel. Ás tres horas procurou-a
para jantar ao pé d'ella. Disseram-lhe que a senhora tinha sahido n'uma
cadeirinha, e deixára uma carta para seu marido.
Não vi esta carta, mas infiro o contheudo pelos successos subsequentes.
D. Angelica obteve, vinte e quatro horas depois, licença de seu marido
para entrar n'um convento, situado n'um ermo do Minho. D'ahi escreveu a
sua filha, pedindo-lhe uma esmola para sustentar-se, visto que o
trabalho não bastava para as suas pequenas necessidades.
Ludovina apressou a sua volta para o Porto. Obteve licença para visitar
sua mãe, e demorar-se no mosteiro por tempo indeterminado. Acompanhou-a
o marido e deixou-a com a certeza de a trazer comsigo passados dias.
São decorridas dois annos. A baroneza de Celorico ainda não sahiu do
convento. O barão soffre resignado a certeza de que sua mulher não
sahirá jámais.
A opinião publica diz que Ludovina merece louvores por não ter o
descaramento petulante de apresentar-se como outras muitas, incursas no
mesmo peccado, e declara a alta virtude de D. Angelica, mãe amorosa que
deixa a sociedade para se inclausurar com a filha desamparada.
Melchior Pimenta está bom, e é commensal do barão.
Antonio de Almeida encetou, ha dois annos, uma longa viagem d'onde não
voltou ainda.
O bacharel Ricardo de Sá comprou mais tres bengalinhas, e dá a ultima
demão ao seu SECULO PERANTE A SCIENCIA.
São hoje 15 de fevereiro de 1858.
O unico personagem morto d'esta historia é Francisco Nunes. Expirou ao
cabo de uma violenta apostrophe, expedindo o derradeiro golfo de sangue
com o epitheto mais fulminante que a sua cólera lhe suggeria. Matou-o o
contracto do tabaco.