XVII

Ao cabo de tres semanas, Antonio de Almeida ergueu-se convalescente. As

melhoras de D. Angelica augmentavam por egual com as d'elle; mas uma

outra qualidade de soffrimento lhe amargurava a alma: era a saudade, o

anceio de falar-lhe, a necessidade de recompensa'-lo dos perigos da

morte com as suas lagrimas.

Almeida, porém, não lhe escrevia, não lhe dizia, ao menos, que o seu

amor não succumbira á terrivel catastrophe, que a sua amizade, ao menos,

venceria todos os estorvos.

«Que mal te fiz?

Diz D. Angelica em uma carta que lhe escreve.

«Uma grande desgraça aconteceu; mas essa desgraça foi de nós ambos,

Almeida.

«A bala que te matasse, matar-me-ia. O risco em que a tua vida esteve,

queres tu que eu t'o pague com a minha? A morte repelle-me.

«Quem me dera, meu Deus, quem me dera morrer, se ainda posso

deixar-te de mim uma lembrança triste, meu amigo!

«Este teu silencio dóe-me tanto como se te houvesse perdido, e chorado

na sepultura. Assemelha-se ao desprezo a tua frialdade. Bem sei que não

pódes vir a esta casa, á casa de minha filha; mas que não faria eu para

te encontrar, Almeida?

«Pois é possivel este desfecho de uma paixão que tantas lagrimas me ha

custado! Soffrer vinte e dois annos, envelhecer agradecendo-te os

tormentos e os remorsos que me empeçonharam a mocidade, para agora assim

ser despedida da tua alma, sem que ao menos me digas até que ponto sou

culpada no teu infortunio?

«Oh meu amigo, que infortunios seriam necessarios, que flagellos

inventaria o inferno para me fazer deixar-te!

«Eu tinha d'antes noites desveladas de continuos remorsos--se tinha!...

vós o sabeis, Deus meu!--e, ao cabo d'esse martyrio, sondando-me,

Almeida, sentia-te mais dentro do meu coração, mais senhor da minha alma!

«Conspirassem todas as forças d'este mundo contra mim, fosse eu chamada

para dar conta da minha honra, proferiria o teu nome com orgulho,

offerecendo o rosto para todos os ferretes da ignominia. Isto assim era

amor, amor insensato de mulher que faz da sua deshonra um heroismo!

«E tu pagas-me tão cruelmente, meu amigo! Adivinhas que em tres semanas

os meus cabellos se fizeram brancos? Assusta-te a presumpção de que

a minha face envelheceu? Não pódes já ver em mim signaes desvanecidos da

Angelica dos dezoito annos? Tens razão, Almeida; estou velha, mas o

coração, unica belleza que eu tinha, unico dote que fazia a minha

vaidade de merecer-te, esse, meu amigo, aperfeiçoou-se através de vinte

e dois annos, está hoje como não estava quando te assenhoreaste d'elle,

aperfeiçoou-se em contacto com os dons sublimes do teu, encheu-se de

amor que o ha-de matar, porque já não tenho peito que possa conter tanto

fel!

«Não estou assim repulsiva que te afugente, Almeida. Não imagines o que

fui, nem repares no que sou. Lembra-te só do perdido amor que te dei,

mova-te só a lembrança do muito que a minha alma te quiz; acceita-me na

velhice uma amizade, que te não será pesada agora, nem embaraçosa para

tua felicidade. Diz-me só que o teu silencio não é desprezo nem

esquecimento. Poupa-me á horrivel morte que me faz tremer. Se tudo

perdi, resta-me o recurso da tua commiseração. Imploro-a de joelhos.

Amor, esse sei eu que se não supplica; mas engana-me, Almeida,

engana-me, por piedade. Diz-me que uma dedicação de tantos annos não

póde acabar com o desprezo.»

_Ingrato homem!_ é a exclamação natural com que as leitoras sensiveis

exprimem o seu dó.

Pois decidem de leve, e accusam com a costumada injustiça. Antonio de

Almeida é tão digno de lastima como Angelica. Ora, vejam a seguinte

carta que Ludovina lhe escreveu, antes da sua partida para Celorico:

«Lembra-me que, sendo eu creancinha, sentava-me no collo do meu amigo,

anediava-lhe os cabellos, fazia-lhe muitas meiguices de coração e de

astucia, para no fim lhe pedir um brinquedo, um passeio, uma qualquer

cousa que o meu amiguinho me não sabia negar.

«A creança fez-se mulher, já não sabe ameigar antes de pedir; mas essa

falta vem de eu me esquecer das maviosas e candidas palavras que sabia

então. O coração é bom como era, a affeição maior e mais entranhada, a

confiança de ser bem recebida em meus rogos é mais solida: o que me

falta, como já disse, é o tom carinhoso, a meiguice seductora da

innocencia.

«Não importa. Eu vou pedir ao meu amigo um favor, favor immenso; empenho

para alcança'-lo da sua generosa alma todo o amor que me teve, todas as

recordações doces que o trazem desde o berço de Ludovina até estes dias

tristes que vamos vivendo.

«Peço-lhe, meu amigo, que tire da sua virtude as forças que o coração

não tiver para cumprir uma supplica que vou fazer-lhe em poucas palavras.

«Seja mais forte que a minha pobre mãe. Se vir que ella cáe, sustente-a.

Trabalhe comigo para que o segredo d'aquella noite horrivel se não

descubra á curiosidade infamadora do publico. Não peço que lhe dê

consolações frivolas. Lições de virtude, suspeito que não aproveitam a

minha mãe, sendo dadas pelo meu amigo. A razão está muito longe do

coração. Penso que minha mãe tomaria como esquecimento, ou

desamparo os seus conselhos.

«Conhece bem a situação de minha mãe, sr. Almeida? Siga o que a sua

honra lhe inspirar. Veja que novas desgraças podem seguir-se. Avalie o

que eu tenho feito por ella, e medite na extensão da minha dôr se tudo o

que fiz e faço fôr perdido.

«Não sei dizer o que me está na alma. Pode ser que eu dissesse o mais

confusamente que é possivel o meu pensamento. Lá está o seu nobre

espirito para aclarar a obscuridade d'essas palavras.

«É necessario grande animo para me obedecer? Soffra, meu amigo, soffra

comigo. Olhe que me ha de abençoar, e gloriar-se do seu sacrificio.

«Eu parto hoje para Celorico. Meu marido é digno de pena. Vou ajuda'-lo

a combater os remorsos que o tem levado ao infortunio da demencia.

«Olhe que vida esta, meu amigo! Sirva-lhe o meu exemplo para a

paciencia, e para o heroismo. Adeus. Sua amiga _Ludovina_.»

Esta carta explica o silencio de Antonio de Almeida. Comprehendeu-a com

o juizo prudencial dos quarenta annos. Meditou-a com tanto respeito como

admiração. Recolheu as palavras d'ella com religiosa austeridade, e

violentou a alma a aceitar o juramento da observancia, com pena de

deshonra e villania, se rescindisse alguma vez a alliança que fizera com

a que elle, no intimo de seu coração, chamava filha.

Eu sei de mais que os amadores, em romance de boa escola, não

costumam assim accommodar-se, e obedecer aos ditames da razão. Estas

cousas, como ahi se contam, são naturaes e observadas, e sentidas; por

isso mesmo desagradaveis, em novella, onde o bom é o inverosimil, e o

que mais captiva é o que mais repelle o coração bem formado.

Estes amores de Antonio de Almeida e D. Angelica, tractados por

imaginação de mais pulso, davam para muito brilhar. Estou a ve'-lo a

elle, pelo prisma phantastico dos mestres, erguer-se da cama com a mecha

ainda na aberta chaga, um par de pistolas de doze tiros, nas algibeiras,

entrar, entrar de cabellos hirtos e rosto livido, no quarto de Angelica,

e semi-desfallecido nos braços d'ella, dar largas á parlenda, e

vociferar, por entre amorosas phrases, esconjuros odientos contra o

genero humano, contra a instituição do matrimonio, e contra os deveres

conjugaes! Agora se me afigura vêr Melchior Pimenta assumar no limiar da

porta, e embasbacar petrificado diante do grupo escandaloso. Ha gritos,

injurias, investidas, até que alfim, levados á puridade para um recanto

da casa, ahi combinam um duello de morte, no dia seguinte. Medonha

figuração me avulta agora na imaginação de emprestimo Melchior Pimenta,

após a detonação de dois tiros, cambaleia sobre as pernas, leva a mão ao

seio que espirra golfos de sangue, põe os olhos annuviados no céo

impassivel, que contempla o quadro feio, e expede o derradeiro halito,

nos braços dos padrinhos.

Quantos capitulos desgrenhados cuida o leitor que dava esta

parvoiçada imaginativa? Dois volumes em oitavo com seiscentas paginas,

afóra o subsidio das reticencias, que, na minha opinião d'outro tempo,

foram inventadas para definir a mulher; e na minha opinião d'agora,

inventou-as o primeiro litteratico ôco de idéas.

Ora, que fiquem com Deus os mestres que tão vistosos de zarandalhas nos

embelecam; e, pelo caminho direito, mas escabroso da verdade, vamos

entrar na ultima jornada d'esta historia.

O que fazem mulheres: Romance philosophico · 第 38 / 46 题