Em quanto D. Angelica dormita os somnos curtos e sobresaltados da febre,
a baroneza despertou o pae, chamando-o á ante-camara.
Melchior Pimenta, estremunhado e como ebrio dos aturdimentos da
morphina, extranhou á filha a extraordinaria madrugada, e perguntou se o
barão fizera alguma nova loucura.
--Não podemos continuar a existir n'esta casa, meu pae--disse Ludovina,
sem saber ainda como sahir-se bem de lance tão perigoso para sua mãe.
«Então que houve? esse alarve que fez? será necessario amarra'-lo?
--O necessario é sahirmos; mas a mãe está muito incommodada...
«Que tem ella?!
--Os meus desgostos affligiram-n'a a tal ponto que está ardendo em
febre, e não sei se poderá transportar-se.
«Vamos vê'-la.
--Pois sim vamos, mas não perca tempo. Um medico é o mais urgente
agora. Veja-a; se ella estiver descançando, não a desperte, e vá dispôr
as cousas em nossa casa para nos mudarmos logo, sim, meu pae?
«Mas que fez o bruto?! A gente ha de sair d'aqui sem dar uma satisfação
á opinião publica? Não vês que esta saida precipitada auctorisa a
maledicencia a calumniar-te como o barão te calumnia?
--Não tratemos agora da opinião publica, nem do barão. O pae saberá
tudo. Venha ver a mãe, e vá depressinha, sim?
Melchior Pimenta entrou na camara de sua mulher. Tateou-lhe a testa que
transpirava o suor da febre, sondou-lhe o pulso, afastou-lhe os cabellos
dos olhos, e murmurou:
«Isto é doença séria, Ludovina!...
--Talvez não, meu pae... São afflicções que se curam com o socego da
nossa casa. Não se demore. Vá por casa do medico e mande-o já. Se vir o
barão não lhe diga nada, promette-me?
«Eu sei cá o que farei! Ao despedir-me, tenciono dizer-lhe que me não
codilhou. Tu tens escriptura de dote. Quando quizeres, levantas vinte
contos de réis...
--Pois sim, meu pae, esses negocios não são para agora. O que eu quero é
a saude de minha mãe. Vamo-nos d'aqui embora, que eu torno a ser
feliz... Se é meu amigo, não se demore; tire-nos d'este purgatorio.
Melchior Pimenta ia scismando no divorcio, e nos vinte contos, quando o
barão lhe surgiu na extremidade do corredor.
--Bons dias, sr. Melchior.
«Bons dias, sr. barão.
--Isso hoje foi madrugar!
«Assim é preciso.
--Se não tem muita pressa, dê-me aqui uma palavra.
«Não posso, sr. barão, vou com pressa.
--Olhe cá, sr. Melchior, é preciso que nos entendamos.
«A que respeito?
--A respeito d'estas poucas vergonhas que aqui vão.
«Que chama o senhor poucas vergonhas?
--Homem! vamos falar claro; eu sei tudo, e o senhor, se o não sabe,
saiba-o, e tome tento na sua vida.
«O sr. barão é que já perdeu o tento da sua. Essa cabeça está desmanchada.
--Desmanchada está a sua, e bem desmanchada, sr. Melchior. Entre cá, e
ha de agradecer-me o que eu fiz, vingando a sua honra.
«A minha honra não póde ser offendida nem vingada pelo sr. barão.
--Estou a ter pena do sr. Melchior! Venha aqui dentro que eu conto-lhe
tudo.
«Que ha de o senhor contar?!--disse Melchior entrando na sala.--Quer
contar-me a historia do charuto?
--O charuto! o charuto agora já me não serve a mim; é ao senhor; veja lá
se o quer, que eu dou-lh'o de boa vontade.
«É para isso que me chama, sr. barão? De que me serve a mim esse
ridiculo instrumento com que o senhor está representando perfeitamente o
papel de doudo?!
--Doudo quer o senhor fazer-me, mas ha-de-lhe custar... digo-lh'o eu...
Sente-se ahi, e dê-me attenção, que o caso é muito serio...
Melchior Pimenta sentou-se impacientado. O barão de Celorico proseguiu,
cerrando a porta da sala:
--O senhor tem vivido enganado com minha sogra, acho eu.
«O que?
--Tenha mão, não se atrigue, sr. Melchior. As desgraças são para os
homens, e o remedio é atura'-las quando ellas chegam. Sua mulher não lhe
tem sido fiel.
«O senhor está doudo, e, se não está doudo, é um infame
malvado!--exclamou Melchior erguendo-se com arrebatamento.
--Sente-se, homem; eu não lhe tenho medo, nem metto a fala no bucho.
Ouça, e faça o que quizer; creia ou não, saiba ou não saiba, o que eu
lhe digo é que sua mulher tinha um amante, e eu dei esta noite um tiro
n'esse homem cuidando que era o amante de minha mulher.
«O sr. barão sabe o que está dizendo? Se tem algum resto de juizo,
desdiga-se da affronta que fez á minha honra.
--Affronta?! essa não é má! Pois eu vinguei a sua honra, sem saber o que
fazia, e o senhor ainda diz que o affronto! Ora, meu amigo, o senhor é
que me parece doudo! Acredite o que lhe digo, sr. Melchior. Este
charuto era do amante de sua mulher, que entrava no meu jardim pela
porta do muro, e vinha a esta casa todas as vezes que queria.
«Quem, sr. barão? diga quem, quando não um de nós ha de morrer.
Ludovina entrou precipitadamente na sala.
«Quem?! então não diz quem é o amante de minha mulher--repetiu Melchior,
em quanto a baroneza cravava os olhos no semblante subitamente
desfigurado do marido.
--Que indecentes palavras escuto, meu pae!
«Primeiro as ouvi eu a este miseravel que m'as disse!
--A meu marido? Desculpe-o que elle tem o juizo perturbado. O sr. barão
não disse taes palavras com intenção de offender os pais de sua mulher,
não é verdade? Essa calumnia foi, um desatino, uma irreflexão, não foi
meu amigo? Dê uma satisfação a meu pae, que está afflicto como vê, ou
então crave-se um punhal no seio, antes de repetir na minha presença que
minha pobre mãe está infamada.
«Tens razão, Ludovina--murmurou o barão, com as lagrimas nos olhos--Eu
estou doudo; o que disse é uma mentira; se fôr necessario, eu peço
perdão ao sr. Melchior, e á sr.ª D. Angelica.
--Ouviu, meu pae? Vá, agora vá. Assim fez o que lhe pedi?
«Foi elle que me arrastou para esta sala... Sabe que mais, sr. barão? O
senhor o que deve fazer é recolher-se a um hospital, antes que as
auctoridades o amarrem. Eu vou requerer um exame ás suas faculdades
intellectuaes...
--Meu pae!--murmurou afflictivamente Ludovina--pelo amor de Deus lhe
peço que se retire, quando não, vê-me cahir aqui morta.
«Eu vou, menina.
E sahiu, reatando a meditação no divorcio e nos vinte contos.
--Não lhe disse eu já, sr. Dias--continuou Ludovina baixando a voz com
maviosa brandura, e assumindo ares de penitente--não lhe disse eu já que
o homem ferido pelo senhor era meu amante? que a mulher da janella do
jardim era eu? que a culpada, a adultera, a infame, a digna de morte ou
do seu desprezo é sua mulher?
«Mentes, mentes, Ludovina! eu ouvi tudo o que tua mãe te disse no quarto.
--Que importa o que o senhor ouviu? Tudo quanto meu marido disser contra
mim, tudo o que a sociedade inventar contra a minha dignidade, hei-de
certifica'-lo com o meu silencio, e com o meu divorcio. Tudo o que o
senhor disser contra minha mãe, hei-de desmenti'-lo em publico, pondo em
mim as nodoas que o senhor puzer na reputação d'ella. De maneira que meu
marido, quando cuida salvar a sua honra, sacrifica-a, e provoca o
escarneo do publico. Vê quaes são as minhas tenções, meu amigo?
«Tu não fazes isso, Ludovina!--rugiu iracundo o deploravel homem--Se
fazes tal... Ludovina, se fazes tal...
--Que se ha-de seguir?
«Eu sei!... tu queres matar-me, mulher! mata-me, mas deixa-me a honra,
que eu estimo mais que tudo. Dou-te tudo quanto tenho, deixo-te em
liberdade, torno para o Brazil; mas não digas que me foste infiel; não
digas que esse homem era teu amante. Peço-te isto de joelhos, Ludovina.
Era feio o espectaculo, mas fazia dó a postura humilde do barão.
Ludovina, apiedada ou aborrecida da attitude, pôz-lhe as mãos nas
espaduas, pedindo-lhe, affectuosa, que não estivesse assim.
E continuou:
--Entre nós ha só uma reconciliação possivel. Vou fazer-lhe uma
proposta: se o senhor a acceita, retiro-me contente de sair por um
contracto; se a não acceita, vou de sua casa como fugitiva. O sr. Dias
não dirá a alguem que deu um tiro em Antonio de Almeida; não fará
suspeitar pelo mais pequeno indicio que Antonio de Almeida foi ferido,
quando entrava no jardim d'esta casa; não proferirá o nome de minha mãe,
contando ou ouvindo contar essa desgraça acontecida esta noite. Estas
são as suas obrigações do contracto que lhe proponho; as minhas são as
seguintes: sairei de sua casa, com minha mãe, porque o amor que tenho a
minha mãe é incomparavel ao simples respeito que o sr. Dias me inspira;
sairei, calando o segredo do seu crime, para que ninguem desconfie de
que o senhor me surprehendeu com um amante. Auctoriso e quero que meu
marido diga ás pessoas admiradas da nossa separação que o meu genio
era intractavel, que a minha educação era pessima, que as minhas
impertinencias de rapariga eram insoffriveis. Diga tudo o que lhe
lembrar, em meu desabono, que eu com o meu procedimento desmentirei
alguma desconfiança injuriosa que possa haver. Eu não levo d'esta casa o
valor de um ceitil. Os meus bahus irão como saíram do meu guarda-roupa
de solteira. O senhor fica na posse livre de tudo que tinha, menos de
uma mulher que o ha-de infallivelmente flagellar. Essa mulher sou eu,
sr. Dias, porque o não amo, nem se quer estimo. Respeito-o, temo-o,
d'aqui a pouco hei-de odia'-lo. O homem que o senhor feriu ou matou
creou-me nos braços, foi o primeiro rosto extranho que vi ao pé do meu
berço, ha quinze annos que o via todos os dias, da amizade que lhe tinha
ao amor que se pode ter a um homem delicado, generoso, e confidente das
alegrias e maguas da minha familia, não ia grande distancia. Eu choro
esse homem, sr. Dias, não é só a minha desgraçada mãe que o chora. Se
ella era amante d'elle, eu, como filha, não tenho direito a censura'-la;
como mulher de coração creio que lhe perdoaria. Tenho dito mais do que
devo, e importa ao sr. Dias. Entendeu-me bem, quer que eu repita por
outras palavras o que disse?
--Não é preciso... entendi bem...
--Qual é a sua resposta?
--É necessario pensar, Ludovina.
--Não lhe dou tempo a demoradas reflexões. Eu hei-de sair d'aqui logo
que meu pae volte.
--N'esse caso, faz o que quizeres; mas eu hei-de dizer em toda a parte
que Antonio de Almeida era o amante de tua mãe.
--E eu direi que era o meu amante; darei em publico quantas provas puder
dar para o desmentir; hoje mesmo irei ser a enfermeira d'esse homem, se
elle não tiver morrido. O sr. Dias será tido na conta de assassino, e
assassino ridiculo, que mata o amante de sua mulher, e denuncia adultera
sua sogra, para que se supponha que os seus merecimentos não podiam ser
vencidos por um rival.
--Tu és uma serpente, mulher!--bradou o barão, fazendo com os braços e a
cabeça as azas d'um alambique--És um dragão! foste o demonio que me
appareceste em corpo e alma! Vae-te para as profundas do inferno, e
nunca descanço tenhas noite e dia em quanto me não vieres pedir perdão
de quereres deshonrar teu marido, que te deu palacios, e quintas, e
carruagens, e tudo quanto cobre o sol. Vae-te para onde quizeres,
ingrata mulher, e quando souberes que eu morri doudo vem tomar conta de
tudo isto que é teu, porque o que vocês querem todos é acabar comigo,
para ficarem com isto que eu ganhei com honra a trabalhar como um mouro!
Ludovina voltára as costas ao berreiro virulento de João José Dias.
Entrou no quarto de sua mãe, que não resurgira ainda do torpor febril. A
creada, que lhe assistia, entregou á baroneza uma carta, sobrescriptada
a D. Angelica. Era-lhe conhecida a letra de Antonio de Almeida.
Alvoroçada com a aprazivel certeza de que Almeida vivia, Ludovina abriu
a carta sem reflectir. Apenas viu no topo do papel «Angelica»,
simplesmente «Angelica», estremeceu, caindo em si. Era uma carta do
amante, do amante de sua mãe. Repugnava-lhe o le'-la, mas a amizade
instigava-a, desprezando os escrupulos de uma virtude intempestiva.
Leu o seguinte:
«Angelica, fui ferido com um tiro quando entrava no jardim d'essa casa.
O segredo do meu assassino morrerá comigo. O meu ferimento dizem ser
mortal. Não importa. Morro amando-te. Esperava assim morrer. Mas a tua
honra, minha amiga? Não bastará a minha vida para salva'-la? Dá um beijo
a tua filha, ao nosso anjo que eu não verei jámais. Sacrificamo'-la
ambos, ao verdugo de... A febre deu-me este intervallo. Adeus, até ao
céo dos desgraçados.--_A. de A._»
Ludovina rompeu em gemidos, e caíu de joelhos orando com o fervor da
desesperação. Nada mais triste n'este mundo que o espectaculo d'aquelle
quarto! Não é preciso grande coração e poder de phantasia para acceitar
um quinhão de tamanha angustia. A alma de pedra estala de encontro a
este conflicto que esmorece na pintura. Cada lagrima ardente de Ludovina
bastaria a reaccender a luz de piedade apagada no coração humano. Já
imaginastes uma vida com este immenso horto de agonia? Na previsão
de todos os infortunios, concebeu alguem as torturas d'aquella mãe, e da
filha que acceita a deshonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da
esperança e de Deus, cobrae alento nas dores com que não podeis,
agradecei ao vosso anjo mau os supplicios vindos, pedi-lhe mais,
pedi-lh'os todos, menos o calix de Angelica, e Ludovina, porque ha ahi o
succo de todos os venenos provados n'este inferno da vida, obra prima de
uma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a creação dos
astros, do mar, e do homem.
A minha grande prova de Deus, da justiça, e da condemnação é este
inferno. O outro... é inferior á Omnipotencia que deixou, no seio da
creatura, aberta a garganta do abysmo, onde a alma se despenha a
devorar-se.