Eu costumo reunir alguns peritos em letras magras como estas, e
leio-lhes alguns capitulos dos meus romances, com adoravel modestia e
exemplar submissão. Recito-lhes sempre um preambulo improvisado que
estudo cinco horas, no qual os convido, com humildade de aprendiz
inexperto, a que me corrijam as hyperboles desgrenhadas, me desbastem as
excrescencias da taramelice a que sou atreito, e me recomponham os
desatavios da fórma em que me descuido, se a imaginação desfila comigo
pelos prados floridos do inverosimil.
Tão atilado é o arrolamento que faço dos meus arbitros, que raro de
entre elles se desacredita admoestando ou corrigindo as perfeições que
me escorregam do bico da penna, com primores de fundição esmerada. Esse
raro, porém, se encalha em elegancia que não percebe e deturpa, cá o
inscrevo no meu canhenho de pascacios, e nem sequer desaggravo o meu
talento offendido com resposta comedida. A minha docilidade chega até
este ponto, e não ha ahi que ver mais lhano e brando do que eu sou
á opinião cortada dos meus amigos, que me fazem o obsequio de trazer da
rua quatro superlativos encomiastas, antes de saberem que pabulo vou
dar-lhes á sua admiração faminta.
Ha pouco acabei eu de ler os doze capitulos passados a quatro luzeiros
do orbe litterario, e um d'elles, acabada a girandola dos elogios, teve
a descocada impertinencia de me dizer uma cousa assim:
--Os teus romances do meio em diante adivinham-se.
--Ora essa!
--Adivinham-se, e coxeiam por isso. O sexto sentido do romancista é o
invento da surpresa. A concatenação logica e natural dos successos
damnifica a peripecia, e aguarenta a curiosidade do leitor.
--O leitor é que não é capaz de entender-te essa linguagem
assaralhopada. Tu calumnias o gosto dos meus leitores. Sou informado
pelo orgão da opinião publica, o orgão que eu mais respeito, o meu
editor, que o bomsiso dos consumidores escolhe o romance verosimil,
amalgamado com arte e discernimento, escripto de modo que seja o reflexo
da sociedade, e que possa de per si reflectir tambem na sociedade,
amoldurando-se nas fórmas costumeiras e exequiveis.
--Enfreia lá os impetos, modesto escriptor! não soltes a parlenda
inexoravel. Concordo com o bom senso publico. O natural e o reflectido
da vida apraz e captiva o leitor; mas a previdencia dos capitulos
advenientes esfria o empenho, e dessabora a curiosidade.
--Acceito a correcção, e tu acceita a aposta. Se adivinhares o
enredo dos capitulos subsequentes, eu prescindo dos meus titulos de
Henri Heine, Alphonse Karr portuguez, e escrevo repertorios de hoje em
diante. Se não adivinhares, escreve-me uma critica litteraria em que
has-de provar aos incredulos basbaques que eu alojo na cabeça um d'esses
lobinhos cerebraes que chamam «genio» os galiparlas da nossa terra.
«Acceito, e ahi vae o desenvolvimento do teu romance, nos pontos
essenciaes: D. Angelica póde morrer de uma congestão cerebral, ou de um
typho. Não questiono a morte; é certo que a matas brevemente, e a fazes
pedir, na hora derradeira, perdão do escandalo á filha, e da traição ao
marido. Antonio de Almeida já nos disse que morria, e elle que o diz é
porque o sabe, e tu já o sabias antes d'elle. D. Ludovina vae para a
casa paterna, e, a pedido de Melchior Pimenta, enxuga as torrentes
caudaes do pranto que a saudade maternal lhe arranca, mas teima em não
querer nada do abominado marido. O barão de Celorico, atassalhado pelo
remorso, dispara apostrophes sem grammatica ao espectro de Antonio de
Almeida, pega-lhe a febre socia predilecta dos romancistas pathologicos,
solta quatro urros estridulos ao despegar-se-lhe a alma do sêbo
corporal, e vê'-lo que morre boçalmente, sem deixar nada ao _Hospital do
Terço_, nem ás _Velhas da Cordoaria_! A tua crueldade para com este
homem irá ao extremo de lhe negares até um necrologio na gazeta,
ignominia posthuma com que rematarás a biographia de um homem que teve o
infortunio de ser cevado de enxundias, em quanto tu espirras ossos
por todos os póros. D. Ludovina toma conta da herança, e...
--E, sabendo que tu és um portento de esperteza--atalhei eu--digno de
substituir João José Dias, manda-te convidar pelo seu procurador para
tomar chá ás quartas feiras; namora-te, casa comtigo, e o auctor é
padrinho de primeiro pequeno. Ora, meu amigo, outro officio. Desquito-te
da promessa do elogio; já nem «genio» quero ser á custa do teu estylo
assoprado. Eu já disse em mais de um livro que não escrevo de phantasia.
A verdade e a observação dispoem-me as situações como tu as não
inventas. A natureza, que tu conheces, é tôla, meu amigo.
Disse.