Mulheres são os melhores juizes de mulheres.
Disseram philosophos e moralistas, uns, grandes santos como S. Paulo, e
outros, grandes atheus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante
de sensibilidade, e apoucado de raciocinio.
D'ahi vem o denegarem-lhes accesso ás sciencias abstractas, ás
politicas, aos parlamentos, ao magisterio, ás regiões intellectivas do
machinismo social, e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca.
Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é
um ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e
sentenciamos, segundo a razão, sendo as suas culpas demasias de sentimento?
A injustiça é flagrante e odiosa.
Privam-nas de razão para as excluirem das funcções que a requerem;
sentenceiam-nas pela razão, se o sentimento, seu dom essencial, as
desvia do piso demarcado por ella.
Isto é uma tyrannia, uma inquisição, uma crueza turca.
A mulher não pode ser julgada por nós. Somos os senhores feudaes da
razão. A nossa alçada respira a prepotencia do baraço e cutello. Estamos
em insurreição permanente contra o santissimo apostolado de Jesus, que
baixou seu divino braço por igual sobre o homem e mulher.
Não podemos superintender no fôro do coração, porque a nossa
jurisprudencia é toda de cabeça, e o nosso codigo em pleitos da alma é
estupido ou hypocrita.
Quem é o juiz da mulher? O homem que a despenha do abysmo, onde a lançou
o amor, ao abysmo do opprobrio.
É o homem, que lhe entalha o ferrete da ignominia na face onde imprimira
o beijo da perdição.
O altar onde se adora uma mulher é ao mesmo tempo a ara onde ella se dá
em holocausto. Peccadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando
nos abre céos e céos de alegria e gloria, abrimos-lhe nós o inferno dos
desenganos, e o supplicio extremo do descredito. O mundo não as exila,
mas affronta-as; o coração não as encrimina, mas agonisa na horrivel
soledade para onde a razão o desterra.
E somos nós os juizes, porque entramos n'uma herança usurpada pela força
primeiro, e legalisada depois pelo sophisma escripto.
A mulher foi escrava do braço, antes de o ser da superioridade moral.
Quando o homem chamou a sciencia a dar um testemunho falso da sua
primazia, a mulher, quebrantada pela escravidão do braço, não pôde
remir-se com as forças do espirito.
Ainda assim, o tyranno, receoso da emancipação, fez em redor da escrava
as trevas da ignorancia, para que a razão da mulher não pudesse conceber
da luz o germen que a rehabilitasse.
Pegou de formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde
o sol não podia coar uma restea reanimadora.
Esta machinação arteira sobreviveu a todas as borrascas sociaes. Os
fautores, e ainda os martyres da egualdade perante Deus e perante a lei,
nunca proferiram uma palavra, nem verteram gotta de sangue para o
resgate moral da mulher.
O Filho de Maria disse que a mulher era egual ao homem, e levou para o
céo o segredo da sua emancipação.
Ficamos nós cá, os açambarcadores do entendimento escrevendo livros, que
sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e n'elles
demarcamos a profunda raia que extrema RAZÃO de SENTIMENTO. A razão para
nós, o sentimento para ellas. Se, todavia, o sentimento claudica nos
preceitos da razão pautada e insoffrida, condemnamos a mulher pela culpa
de se deixar perder na escuridade, á mingua de uma lampada que lhe
negáramos.
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Não sei se rasgue estas cinco paginas do manuscripto. Se alguem me
assegura que entre vinte mil leitoras (orça por isto o numero das
senhoras que compram livros em Portugal) se me asseguram que entre as
vinte mil ha duas que me entenderam a parlenda, e me ficam desejando
muita saude e graça para servir a Deus, não rasgo as paginas, embora os
homens me mandem, em portuguezissima phrase, bugiar.
Quando comecei o capitulo, tinha de olho dizer, á quarta linha, que,
ácerca de culpas de mulheres, já mais consulto homens.
Mulheres são os melhores juizes de mulheres.
A respeito de D. Angelica, consultei uma sua amiga de infancia, tão
virtuosa como indulgente; mas virtuosa--não me afiram lá a palavra pelo
elucidario caseiro--virtuosa amando muito e com muito despego de pecos
empecilhos, atravancados pela impostura.
Disse-me ella o seguinte:
«D. Angelica é das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um
titulo ao respeito das mulheres que sentem o coração pela dôr.
--Ao respeito!--atalhei eu, com fumos de juiz, vicio do sexo ingrato,
onde por desventura me encontro.
«Sim, ao respeito, porque D. Angelica amando vinte annos um homem,
juro-lhe que não teve uma hora de consciencia quieta, nem intrepidez
para sacrificar o coração ao repouso da consciencia.
--Vinte annos! pois era amor de vinte annos o do tal Almeida que o barão
de Celorico arcobuzou?
«Mais seria, talvez. Angelica era filha segunda de um fidalgo pobre do
Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lazaro.
Passava as festas do anno em casa de um doutor, que tinha filhas, e um
filho que se formava n'esse tempo. Esse filho era o Antonio de Almeida,
que o senhor conhece, e D. Angelica amou desde os quinze annos, com o
amor immenso das sympathias contrariadas.
O doutor descobriu a affeição do filho, e impoz-lhe um violento termo,
prohibindo-o de vir ao Porto nos dois ultimos annos da formatura.
As cartas de Antonio de Almeida recebia-as eu, e Angelica relia-as, ao
cabo de dois annos de ausencia, com paixão cada vez mais entranhada.
O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico.
Melchior Pimenta era filho bastardo de um conego opulento, e litigava a
herança paterna, com a certeza do vencimento.
Angelica saíu do recolhimento sem saber para que fim saía. Friamente
avisada de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou
como tolhida, e desmemoriada do amor que alimentára tres annos.
Quando o coração reviveu do lethargo, a indiscreta menina escreveu ao
pae de Antonio de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pae para casar
com seu filho. Que innocencia!
Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que não podia dar-lhe
o coração.
O doutor, se ella lhe conviesse te'-la ía. Angelica era pobre.
Melchior Pimenta não respondeu á carta, nem deminuiu as instancias.
O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denuncia,
e accelerou o desfecho.
Angelica não soltou um gemido na presença do pae; sei que apenas lhe
disse: «A historia de muitas mulheres desgraçadas começa como a minha.»
Disse, e pôz a cabeça no altar do sacrificio. Ao marido apenas perguntou
se recebera uma carta d'ella...
Participei a Almeida o casamento de Angelica. Respondeu-me elle que não
acreditava a infamia emquanto a perfida não tivesse o cynismo de lh'a
dizer. Modifiquei as palavras d'esta carta, contando-as á minha amiga.
Ella soluçou nos meus braços muito tempo, e disse com vehemente
resolução: «Pois sou eu que lhe vou dar parte do meu casamento, e
offerecer-lhe a minha casa.» Que fazes tu, menina?--repliquei eu, longe
de suspeitar a resposta: «Faço á prepotencia de meu pae o sacrificio da
minha dignidade, e castigo um homem que me comprou.»
Julguei-a desvairada pela angustia, e reservei para melhor ensejo os
conselhos que os meus vinte e cinco annos, já apalpados por amarguras de
coração, podiam dar-lhe.
Effectivamente, Antonio de Almeida voltou formado, e frequentou a casa
de Melchior Pimenta, que dava bailes, e figurava na primeira plana a
favor de antecipações que fazia sobre o penhor do seu patrimonio.
Deixei de ser a confidente de Angelica, mezes depois. As suas
cartas não eram confidencias: eram lagrimas, queixumes vagos contra a
sua sorte, chagas de consciencia que só a morte podia cicatrisar.
Entendi tudo, e fiz o que faz, ou o que raras vezes faz uma amiga:
consolei-a na queda, como a aconselhára á beira do abysmo. Disse-lhe que
mandasse a consciencia ao pae, e que ficasse ella com o coração. Não lhe
falei em Deus, nem na Virgem, porque no infortunio de Angelica, não
havia que vêr com cousas sobrehumanas.
O doutor farejava um casamento rico para o filho; achou-o, e marcou-lhe
o prazo para se realisar. Antonio de Almeida rejeitou-o com toda a
ousadia da desobediencia. Choveram maldições ás duzias, abriram-se os
cancellos do inferno aos pés do obstinado moço. Peor que tudo isso, o
castigo de Almeida foi ser expulso de casa, sem pão, nem habilitações
promptas para ganha'-lo.
Angelica soube tudo por mim, e por uma carta do doutor, que a
responsabilisava pela desgraça do filho. Vendeu algumas joias que tinha
de sua mãe, e pediu-me a entrega do producto, como dadiva minha, a
Almeida. O brioso moço, não sei como, soubera onde as joias paravam.
Acceitou o dinheiro, comprou as joias e pediu-me que as entregasse a
Angelica.
Duas almas assim nunca se separam. As ligações mais duradouras são as do
crime, quando as virtudes do sacrificio reciproco chegam a esquecer-se
da sua má origem.
Antonio de Almeida trabalhou dia e noite, até ser um advogado de fama.
Melchior Pimenta, ao cabo de quatro annos de casado, tinha perdido a
demanda, e estava pobre. Antonio de Almeida cortou ás suas primeiras
necessidades para emprestar a Melchior o fausto da casa. Angelica
soube-o tarde; mas, sabendo-o, conheceu a pobreza de seu marido, e a
delicada generosidade do seu amigo.
Fecharam-se as portas da sala, acabaram bailes e theatros, resumiu-se a
vida de Angelica ao amor a sua filha, á adoração mais intima do amante,
e aos respeitos affectuosos por seu marido.
Antonio de Almeida acatou o melindre de Angelica. Inventou pretextos
para melhorar-lhe a vida, que ella não desejava melhor. Conseguiu fazer
despachar Melchior Pimenta para a alfandega, comprando o despacho por
alto preço.
Nem este mesmo sacrificio desconheceu Angelica. Os jornaes annunciaram a
corrupção, e a minha atilada amiga adivinhou a causa. Melchior Pimenta,
não. Esse perguntava se os seus merecimentos não eram demasiada
recommendação para o despacho.
Sabe agora a vida de Angelica?
Se alguma vez o seu sestro linguareiro o levar a pôr em romance esta
historia, accrescente que D. Angelica, ao despedir-se de Almeida para
visitar o berço da filha, lavou-lhe muitas vezes o rosto com lagrimas.
Diga que, outras muitas, o amante de Angelica, farto de a esperar na
sala, e já receoso de algum successo triste, procurando-a, ia
encontra'-la ajoelhada ao pé d'esse berço. E, depois que Ludovina se
lançava aos braços de Almeida, com fervor mais de filha que de
creança affeita a mimos e carinhos, o rosto de Angelica incendiava-se de
pejo, como se o affecto e a virgindade do coração travassem peleja.
Em resumo, snr. romancista, acabo por onde principiei, e do que vou
repetir faça uma maxima, por minha conta; mas não a enfileire a par da
do commendador João José Dias:
HA MULHERES QUE PODEM FAZER DO SEU CRIME UM TÍTULO AO RESPEITO DAS
MULHERES QUE SENTEM O CORAÇÃO PELA DOR.
D. Angelica está julgada e punida.........................................
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Entretanto foi Jesus para o monte Olivete:
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Então lhe trouxeram os escribas e os phariseus uma mulher que fôra
apanhada em adulterio: e a puzeram no meio.
E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adulterio.
E Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar estas taes. Que dizes tu logo?
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Jesus, inclinando-se, escreveu com o dedo na terra.
E, como elles teimavam em interroga'-lo, ergueu-se Jesus, e disse-lhes:
O que de entre vós está sem peccado seja o primeiro a apedreja'-la.
E, tornando a curvar-se, escrevia na terra.
Elles, porém, ouvindo-o, saíram um a um, sendo os mais velhos os
primeiros; e ficou só Jesus e a mulher que permanecia, no meio, em pé.
Então ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde estão os que te
accusavam? ninguem te condemnou?
Ninguem, Senhor;--respondeu ella. Então, disse Jesus: Nem eu tão pouco
te condemnarei: vae e não peques mais.
O SANTO EVANGELHO DE JESUS CHRISTO, SEGUNDO S. JOÃO--Capitulo VIII.