Ludovina ajoelhou com ella, e n'este momento abriu-se a porta.
Era o barão de Celorico.
--Ouvi tudo--exclamou elle--Perdôa-me, Ludovina, pelas cinco chagas de
Christo. E foge d'essa mulher, que é a causa de eu ser um matador.
--Tem razão; vae, minha filha--disse D. Angelica, afastando-a de si.
--Sr. barão--disse Ludovina--eu não deixo uma mãe culpada para
seguir um assassino. Saia da minha presença, que o detesto. Apenas
romper a manhã, deixo esta casa, deixo-lh'a para que o senhor caiba
n'ella com o seu remorso. Matou um homem, sr. barão, um homem que não
conhecia; matou-o a sangue frio, e será capaz de praticar uma crueldade
menor matando-me a mim.
D. Angelica arrancou-se aos braços da filha com furioso impeto, e
postou-se terrivel diante do barão, exclamando com uma toada de voz
soturna e tremula:
--Com que direito assassinou um homem, scelerado, carniceiro?
O barão tremeu, recuou, e pendeu o queixo inferior relaxado pelo espasmo.
--Responda á amante do homem que matou; á mulher que acceita
voluntariamente a infamia da sua culpa, para ter o direito de pedir
contas ao assassino de Antonio d'Almeida. Querias, com essas mãos tintas
de sangue, tocar em minha filha, miseravel algoz, que és tão estupido
como sanguinario!
Ludovina, cingindo a cintura da mãe, arrastou-a para longe do barão, que
parecia, ao passo que ella falava, ir-se petrificando.
A vehemencia da ira decaíu subitamente em syncope. D. Angelica encostou
a face desfallecida ao seio da filha, que a levantou nos braços, e
deitou no leito.
E voltando-se para o miserando homem, cujo rosto confrangido accusava os
pungimentos do remorso, a baroneza, em tom de cólera mal reprimida, disse:
--O senhor não ha de ser mais feliz que as pessoas a quem deu a
morte, e a eterna vida de lagrimas. Pediu-me perdão? eu já lhe havia
perdoado as suspeitas, as desconfianças, os insultos, as vergonhas a que
hontem me expoz na presença dos seus creados. Tudo lhe perdoei, em
quanto o suppuz demente; hoje, que o considero um criminoso de morte, e
que não tenho quem me defenda das suas mãos póde matar-me, que o não
chamarei á presença de Deus para ser julgado.
--Ludovina--balbuciou o barão, com o rosto coberto de lagrimas--eu matei
esse homem cuidando que era elle o teu amante...
--Era a mim que devia matar-me, senhor.
--Não podia ainda que quizesse, porque a minha tenção era matar-me e
deixar-te viva, para que tu ao menos te lembrasses de mim com pena,
quando já me não visses n'este mundo. Esse homem ainda não morreu,
Ludovina; póde ser que se cure, e eu vou-me ajoelhar aos pés d'elle a
pedir-lhe perdão, e, se tu quizeres, pedirei tambem perdão a tua mãe.
--Não fale n'essa infeliz a ninguem, snr. Dias, a ninguem. Aqui a
deshonrada sou eu. Se o descobrirem como assassino de Antonio de
Almeida, diga, se quer que eu o não amaldiçôe, diga que esse homem era o
meu amante; mas não fale em minha pobre mãe...
«Que dizes tu, Ludovina? Pois tu queres que se diga que eu fui
deshonrado por ti?
--Deshonrado está o senhor, desde já, desde que matou, ou quiz matar por
uma suspeita um vulto desconhecido...
«Elle vinha entrando para o jardim, Ludovina, e tua mãe estava na
janella...
--Cale-se! isso é mentira! minha mãe estava deitada na sua cama...
«Não estava, Ludovina...
--Estava, snr. Dias; não me contradiga, que eu juro contra as suas
palavras em toda a parte.
«Então quem estava na janella, senão tua mãe?
--Era eu; já lhe disse que a deshonrada sou eu; esse homem que matou era
o meu amante; sabe-o todo o mundo; sabia-o o senhor quando o matou; sou
eu a causa de meu amante ser um cadaver, e meu marido um assassino. Sou,
portanto, uma infame mulher que deve saír debaixo d'estas telhas.
Ámanhã, ámanhã ha de fazer-se uma separação eterna entre nós. A sua
honra fica assim completamente desaffrontada. Todos dirão que meu marido
me expulsou com a ponta do pé de sua casa. Todos hão de admirar os brios
do snr. barão que matou o rival, e não desceu á cobardia de matar uma
mulher... Esta resolução é inalteravel; acabou-se tudo entre nós, menos
a vergonha, a infamia, o escandalo que vae fazer dos nossos nomes um
espectaculo para a irrisão de uns, e para a piedade de outros. Eis aqui
a sua obra; a mim, como sua mulher, compete-me acceitar metade da
responsabilidade...
D. Angelica sentou-se no leito, afastou, como em delirio, os cabellos
que lhe cobriam as faces, e pediu uma gota d'agua, com supplicante
instancia, proferindo os nomes das creadas da casa. Ludovina
ministrava-lhe a agua, que ella repelliu com ira. Permaneceu
estarrecida alguns segundos, com os joelhos a prumo entre as mãos;
depois, caíu de chofre sobre o travesseiro, e murmurou longo tempo
palavras inintelligiveis.
O barão tinha saído imperceptivel. D. Ludovina debruçou-se, debulhada em
lagrimas, sobre o leito.
Melchior Pimenta, no quarto immediato, espreguiçando-se fazia com os
abrimentos de boca uma toada em falsete, rispida como o uivar do mastim.
Abençoados quatro grãos de morphina que lhe povoastes o somno de
deleitosas visões!
Melchior Pimenta, eu, quando quero phantasiar um marido bemaventurado,
lembras-me tu.
Se vejo algum, desconcertado como as velleidades da metade que se
despega, para entrar como excrescencia no complemento de outras
existencias, que se reputam inteiras, dá-me vontade de lhes perguntar se
já experimentaram a morphina.
Eu tenho visto a suprema felicidade dos minotauros.
Havia dois que espiritavam a galhofa de Melchior Pimenta; um, que
repudiando, timbroso e austero, a esposa tentada pela cobra d'este
paraizo terreal, onde as cobras inçam como em matagal bravio, recebe uma
carta de dama d'alta estirpe, onde se lhe censura o burguez despique de
peccadilho tão corrente em gente fina. O marido acceitára a correcção e
a mulher incorrigivel. Melchior ria até caír.
Outro, amante da paz caseira e fricassés acirrantes, conhece no aspecto
carrancudo da mulher, e no aguado dos molhos, os desvios do amante:
inventa pretextos para aproxima'-los e ameiga os arrufos com um jantar
campestre.
Outro... Melchior conhecia outro, e eu conheço-o a elle, e mais dez
exemplares que Brantome não archivou,[4] todos aporfiando em
delicias sublunares.
Mas o ditosissimo, o que vive e morre sem sentir na consciencia o toque
despertador, o _momento_ da predestinação cumprida, esse é um só no meu
catalogo.
Melchior Pimenta, se quizeres um dia erigir estatuas aos deuses
tutelares da tua prosperidade, lembra-te de Ludwig que farejou no opio a
morphina; de Seguin que a descreveu; e de Sertuerner que aperfeiçoou o
processo da extracção.
Sem a morphina, não serias mais feliz que Octavio, que Cicero, que
Domiciano, e tantos grandes e sabios do paganismo que podem, sem
vergonha, apparecer diante de outros não menos sabios, e grandes
senhores da christandade.
Nasceste n'um folle, Melchior Pimenta!
[4] Veja _Vies des dames galantes_, por le Seigneur _de
Brantome--Discours premier_.