Não averiguei miudamente o que disse Ludovina a seu marido. Um dos dois
medicos chamados ás sete horas da manhã para examinarem a supposta
demencia, a pedido do Melchior Pimenta, disse-me que encontrára o barão
febricitante, mas sem o menor suspeito symptoma de loucura. Accrescentou
que o enfermo lhes dissera, que bebessem elles a tizana que receitaram;
e lhes mandára pagar a visita, com recommendação de o darem por curado.
Ás nove horas já o barão tinha sahido, sem dizer a Ludovina o seu
destino, nem acceitar o almoço.
Saíra pela porta principal, e entrára na rua para onde olhava a janella
do jardim. Em frente d'essa janella, na margem esquerda da rua, estava
com escriptos uma casa terrea. O barão perguntou, na vizinhança, quem
era o proprietario da casinha, encontrou-o perto, alugou, pagou a casa,
e recebeu a chave.
D'alli foi ao largo de S. Bento. Entrou n'uma loja de ferragem, e
comprou uma clavina trochada, e um par de pistolas de coldres; e,
n'outra parte, as munições de fogo.
Tornou a casa ao meio dia, pediu o almoço, e comeu á tripa fôrra. A
baroneza, e D. Angelica assistiram ao almoço, e não conseguiram
arrancar-lhe tres palavras. Quem o servia era o negro, que o acompanhára
do Rio, e o adorava com o fervor nativo da sua raça. O barão chamou-o no
fim do almoço, e disse em segredo:
«Esta chave é d'aquella casa baixa que tem o numero doze, defronte da
janella do jardim. Vae á loja de ferragem no largo de S. Bento, com este
bilhete. Hão-de entregar-te umas armas, e um embrulho. Pega em tudo
isso, de modo que ninguem cá de casa te veja, fecha-o no tal casebre, e
entrega-me a chave depois.
O barão foi passear no jardim, e recolheu o seu espirito em meditabundas
reflexões.
Poucos dias antes, tinha elle ouvido uma historia que toda a gente sabe.
Era aquelle conto de uma mulher adultera, que o marido inexoravel matára
sem pau nem pedra, pondo-lhe diante dos olhos uma moeda de prata ao
almoço, ao jantar, á cêa, a toda a hora, em todas as situações, até que
a matou. Esta historia entalhára-se na memoria do barão com indeleveis
traços. Contou-a a sua sogra, que a classificou de indecente para se
dizer a senhoras. Contou-a a sua mulher, que não desculpou a victima,
mas reprovou a fereza do verdugo. João José Dias fez a apologia do
verdugo, e disse que «a honra de um homem só assim se vingava.» Ludovina
fitou-o com espanto, e acreditou que o ciume seria capaz de
desenvolver os instinctos ferozes de seu marido.
Era aquella historia o ponto convergente das meditações que o
reconcentraram, por espaço de tres horas. D'esta longa e dolorosa
encubação do pensamento deve-se esperar um parto, um monstro, uma
façanha, mais ou menos plagiaria, da medonha expiação da adultera.
Chamaram-n'o para jantar: disse que jantaria em mesa á parte com sua
mulher. Desceu ao jardim a baroneza, e perguntou-lhe a causa de tal
exquisitice.
--Não dou satisfações--respondeu--Quero jantar, e almoçar sósinho comsigo.
--Isso é o mesmo que...
--Não me replique! tenho dito.
Fazia medo a cara do homem. Esverdinharam-se os refegos da papeira; as
ventas fumegavam soluçando; testa e palpebras, tinham o escarlate da
penca do perú assanhado.
Ludovina estava atterrada, e julgou-se em risco, ali, sósinha. Recuára
para se evadir com dignidade, honrando a retirada, quando o barão lhe
disse:
--Olhe, senhora!
A baroneza voltou-se, e viu o braço do barão erguido em attitude
prophetica; e lá em cima no cucuruto da mão cebácea... o CHARUTO!...
--Que é isso?!--perguntou ella com mais curiosidade que espanto.
--Não sabe o que isto é? chegue-se cá!
Ludovina, indo receosa, disse:
--É um charuto... pois não é?!
--É um charuto! é um charuto! mulher traidora!--ululou o bordalengo com
a grenha irriçada.
Ludovina recuou tres passos, tolhida de medo. O barão crescia sobre
ella, com o braço no ar, arvorando o charuto. A pobre menina temeu as
furias de um doudo, e chamou com afflictivo grito a mãe.
Acudiu D. Angelica, já quando o barão, mettendo as mãos nas portinholas
da japona, á laia de idolo chinez, voltava as costas a sua mulher.
--Isto que é?!--exclamou D. Angelica.
--Está doudo rematado, minha mãe!--disse, a meia voz, a baroneza.
--Vae-se chamar teu pae, que chegou agora. Nós não podemos viver com um
demente...
--Janta-se, ou não se janta?--disse o barão, caminhando para ellas com
socegado semblante.
--Que desordem foi esta, sr. barão?
--Desordem! ora essa é fresca! Aqui, que eu saiba, não houve desordem
nenhuma... Foi sua filha que viu uma cousa que a fez gritar... A culpa é
d'ella.
--Que viste, Ludovina?
--Eu vi um charuto na mão d'este senhor; mas gritei porque elle me deu
berros medonhos, e correu para mim com ares ameaçadores.
--Deixe-a falar, sr.ª D. Angelica--replicou o barão, sorrindo de um modo
que confirmava a demencia--A cousa é outra... Vamos jantar, e, se minha
mulher tem medo de mim, jantaremos todos juntos á mesma mesa.
Melchior Pimenta, informado da desordem, foi ao encontro do grupo que
entrava em casa. D. Angelica, com um só dedo, fez-lhe dois gestos: um ao
longo do nariz, para que se calasse, outro no centro da testa, para que
as protegesse de um doudo furioso.
Sentaram-se á mesa, espionando os menores movimentos do barão. Viram-no
tirar a mão da algibeira, extender o braço por sobre a mesa, e deixar
caír, ao pé do prato da baroneza o charuto.
Ludovina lançou-o ao chão com a faca, dizendo:
--Olhem que porcaria!--E voltando-se para o creado que servia a sôpa:
--Atire isto lá fóra!
--Não atires!--bradou o barão.
--Porque não ha de atirar?!--Disse Melchior Pimenta.
--Porque não quero! e porque sou dono d'esta casa! e porque quero
despicar a minha honra!... e porque vae tudo com mil diabos, ouviu?
Os talheres, os calices, as bandejas, e os pratos, resaltaram duas
pollegadas acima da superficie: tamanho fôra o murro que o barão baixára
sobre a mesa.
Ergueram-se todos. D. Ludovina fugiu por uma porta; D. Angelica por
outra; Melchior Pimenta, enfiado, amarello, sem gota de sangue,
antevendo um violento embate na sua cara com a terrina, seguiu a mulher,
colorindo a retirada com a prudencia.
O barão embolsou o charuto, chamou o preto, e disse-lhe:
--Senta-te ahi, Simão; janta ao pé de mim, que és o unico amigo que eu
tenho.
Ha, n'este lance, motivo para nos condoermos.
O barão não come, apesar do esforço. O bocado entala-se-lhe na garganta,
comprimida pelos soluços. Depõe o garfo, e descáe o rosto, coberto de
lagrimas, sobre as mãos. O preto, que não ousára sentar-se, vendo chorar
o amo, cujo pão comera em liberdade, no espaço de vinte annos, chora
tambem, e pergunta a medo a causa d'aquella afflicção. Responde-lhe em
gemidos o bemfeitor, e ergue-se extenuado, e vacillante, como se os
sentidos o desamparassem. O preto quer conduzi-lo ao quarto; mas o
barão, um momento indeciso, pede o chapéo e sae.
As angustias d'este homem condemnam Ludovina?
Não. Ludovina é innocente como os anjos.
A peçonha mortal, que espedaça o coração d'este homem, tem-na elle na
algibeira: é o charuto de Francisco Nunes.
X
É meia noite e um quarto no relogio da Lapa.
A casta lua dá a sua luz poetica a muitas impudicicias, e tolera o
escandalo resignada. Casta lhe chamam os poetas, e é bem posto o
epitheto. Só ella seria capaz de manter-se pura com tantos exemplos de
corrupção. De mim creio que a tem salvado a distancia que a separa dos
bardos que a namoram; e, se não é a distancia, é a impertinencia das
cartas rimadas que lhe mandam. Muitas mulheres, menos castas que a lua,
teem sido salvas pelo mesmo theor. Os poetas, que amam em verso, são uns
puros desinfectantes da putrida impureza. Se todos fizessemos versos, e
nos amassemos em oitava rima, eu lhes asseguro que este globo era um
viveiro de anjos. A theoria de Hobbes seria uma calumnia, e a de Maltus
um absurdo. Não andariamos travados em permanente lucta, nem a
exuberancia da propagação assustaria os economistas. Havia só o risco de
nos matar a fome; mas cada cysne teria um canto derradeiro com que
esforçar a guerra á prosa que inventou os cereaes, o boi cozido, as
acções do banco e a troca de um romance por quinhentos réis.
Isto occorreu naturalmente da castidade da lua.
Era, pois, meia noite e um quarto no relogio da Lapa, e fazia luar como
de dia.
Ás dez horas e meia, tinha entrado para a casa numero 12, da rua *** um
vulto sinistramente rebuçado: era o barão de Celorico de Basto. A casa
tinha uma janella tosca de madeira, que se abriu cousa de meio palmo,
depois que o encapotado entrou. De vez em quando, um raio da luz, caíndo
sobre a fresta das duas portadas, resvalava no nariz do barão, dando-lhe
o colorido de uma cidra avelada.
Soára o quarto depois da meia noite, quando a janella interior da grade
do jardim se abriu cautelosamente.
Um objecto branco sobresaía na sombra: devia ser o lenço de uma mulher.
Cinco minutos, depois, n'uma extrema da rua appareceu um vulto
encapotado, que fumava, caminhando cosido com o muro do jardim. A figura
da janella desappareceu, e em seguida ouviu-se o ranger subtil da
lingueta de uma chave. Era a porta do jardim que se abria ao
avizinhar-se o vulto.
A distancia de tres passos da porta, o homem que fumava ouviu o ruido de
uma janella que se abria, e parou, voltando-se para a janella. O que
elle viu foi o lampejo da detonação de um tiro, e levou a mão ao hombro
esquerdo. Seguiu-se um pulo incrivel do barão fóra da janella, a fuga
precipitada do vulto, e um segundo tiro, que redobrou a força
motriz do fugitivo.
Apitára uma patrulha ao cabo da rua, duas, tres, vinte patrulhas
apitaram. A cem passos de distancia do local dos tiros, encontraram um
homem extendido na rua, e disseram em voz alta, que o barão
ouvira:--parece que está morto.
O barão, sem apressar o passo, entrou na porta do muro, e deu volta á
chave. Olhou ao longo do jardim, e viu, por entre as sombras dos
arbustos, contiguos á casa, perpassar um vulto, e sumir-se.
Abriu-se outra vez a janella da grade, ao tempo que as janellas das
casinhas fronteiras se abriam. Alguns soldados perguntavam onde se deram
os tiros. Respondiam unanimemente que foram dados alli, e mostrava-se
uma bucha ainda fumegando, no meio da rua.
--Quem está ahi n'essa janella?--bradou um soldado ao barão, que
estivera calado.
--Sou eu, sou o dono d'esta casa.
--E quem é o senhor?
--É o senhor barão--responderam os vizinhos.--Não, d'alli de certo não foi.
--Os tiros?--perguntou o barão.
--Sim, senhor, dois tiros que se deram aqui agora.
--Eu tambem, os ouvi, e por isso cá vim. Mataram alguem, ou foi patuscada?
--Não foi má a patuscada! Está alli adiante um sujeito extendido nas
pedras, e, se não está morto, pouco lhe falta.
--Quem é? conhecem?
--Estão lá dois camaradas que o conhecem. Dizem que é um doutor de uma
casa rica, chamado... lembras-te, 38?
--Acho que elle disse... Almeida.
--É isso, Almeida. O sr. barão conhece-o?
--Não me lembro d'esse nome. Elle ainda lá está? Eu vou lá ver se o
conheço...
O barão seguiu a patrulha, até parar n'um grupo de soldados e paizanos,
que rodeavam uma cadeira, onde estava assentado o ferido. Era coragem de
cynico, ou desatino de demente? Mais que tudo isso: era o ciume!
--Eu conheço este sujeito--disse o barão com admiravel placidez.--E elle
tambem me ha de conhecer, se estiver vivo. Olé, sr. doutor! Está aqui o
barão de Celorico, conhece-me?
O ferido abriu a custo os olhos, e fez um aceno affirmativo,
--Eu offerecia-lhe a minha casa, mas a d'elle é perto d'aqui, acho eu.
--Nós sabemos--disseram os soldados.
--Pobre homem!--proseguiu o barão em tom compadecido.--Ainda a noite
passada elle esteve n'um baile que eu dei...
Agglomeravam-se na rua os curiosos, quando o barão entrou em casa. Não
ouviu o mais leve rumor. Entrou no quarto de sua mulher, e viu-a dormindo.
Parou ao pé do leito, e vascolejou nas mandibulas, alvares uma
gargalhada estrondosa. A baroneza acordou, sentou-se no leito
estremunhada sem saber o que ouvira, nem o que via.
O barão tirou da algibeira o charuto, chegou-lh'o ao pé dos olhos, e
bradou:
--O tal patife não fuma outro.
--Que diz?--exclamou Ludovina.
--Faz-te de novas, mulher perdida! resa-lhe por alma, que a minha honra
está vingada. Agora que digam o que quizerem.
E saíu do quarto, deixando apavorada a pobre senhora, que o julgou n'um
terceiro ataque de loucura.
Ludovina vestiu-se apressadamente, e correu ao quarto da mãe.
Encontrou-a vestida, prostrada sobre o tapete do guarda cama, com a face
caída sobre os degraus do leito. Ajoelhou ao pé d'ella, chamou-a,
ergueu-a, agitou-a com a força da afflicção, e caíu com ella sobre a cama.
D. Angelica abriu os olhos pavidos, e vendo a filha, escondeu a face nas
mãos, exclamando:
--Jesus, meu Deus!
--Que teve, mãesinha, isto que foi
--Nada, infeliz; foi um accidente...
--Por causa dos meus desgostos? ouviu o que aquelle homem me disse?
--Não, minha pobre martyr... imagino o que te diria... Oh... deixa-me
ver se consigo chorar, senão estalo... mas não chores tu, filha, não
quero que nos ouçam... É preciso que eu te salve, antes que a morte me
leve com o encargo da tua reputação infamada...
--Eu não a entendo, minha mãe!
--Não pódes entender-me, Ludovina, não pódes... ai! deixa-me respirar,
que eu não vivo uma hora assim...
A baroneza amparou a mãe até á janella, que abriu. D. Angelica rasgava
com as mãos os espartilhos compressores do collete, e fincava entre os
cabellos os dedos com vertiginoso desespero. N'este frenesi, susteve-se,
comprimindo a respiração, para escutar as vozes que vinham da rua
contigua ao muro do jardim.
Uma dizia:
--Ia morto.
Outra:
--A bala entrou-lhe no peito.
Outra:
--Pobre familia, que bocado tão amargo!
--Aquillo que é?--perguntou D. Angelica espavorida.
--Eu não sei, mãe!
--Esse malvado que te disse?
--Chamou-me mulher perdida; mostrou-me o charuto, dizendo que o patife
não fumava outro; e que lhe resasse por alma...
D. Angelica expediu um grito, um ai vibrante, de uns que o seio
arremessa de si, como se n'esse esforço expellisse um espinho arrancado
ao coração.
Ao grito de Angelica succedeu o terror confuso de Ludovina.
N'este intervallo de silencio a lastimavel mãe concebeu um designio
atroz. Deu um salto para precipitar-se da janella, e achou-se travada
nos braços da filha, que pedia soccorro, a altos brados, repuxando-a
para o interior do quarto, com a força miraculosa da angustia.
Ouviram-se passos no corredor. Ludovina exclamou:
--Entre quem é.
Abriu-se a porta, e surgiu o barão.
D. Angelica lançou-lhe um olhar torvo, e fulminante; fugiu, de um
repellão, aos braços da filha; correu para elle com a sanha de uma
possessa, e atirou-o fóra do quarto com o choque dos punhos furiosos,
exclamando:
«Assassino! assassino!
Ninguem me soube dizer a qual genero do sublime truanesco pertencia,
n'este conflicto, o barão de Celorico. Eu tambem me não cancei em
averiguações, porque o resultado d'ellas seria sujar com salmouras
despicientes um quadro de angustias, que não é novo na vida, mas
afouto-me a dize'-lo que é novo no romance. Melchior Pimenta não
apparecia, sendo o seu quarto paredes meias com o de sua mulher.
Deliciava-se nas profundezas de um somno do qual só podia emergir,
quando a ultima molecula de tres grãos de morphina se perdesse através
dos philtros nervosos. O dormir do somnolento empregado da alfandega
explica-se com as vigilias aturadas de D. Angelica. Vá sem reticencias.
Para nós é mais comprehensivel o espanto da baroneza do que estava sendo
para ella o desespero de sua mãe. Se a pobre senhora suspeitasse que a
demencia do marido era contagiosa; tinha desculpa. Tamanha
afflição, descompostura tal de contorsões, de gemidos, de
arremessos para a janella, chamando a morte, não podia ser procedente do
amor maternal exaltado até á ira da leôa.
Ludovina ajuizava assim; mas não atinava com a razão possivel de
effeitos tão extraordinarios no caracter inalteravel, e quasi duro de
sua mãe.
Instava, supplicando-lhe o desafogo da sua agonia. D. Angelica
apertava-a contra o seio com arrebatada e insolita ternura. Promettia
dizer-lhe tudo, quando pudesse falar, na certeza de que a sua ultima
palavra fosse um adeus a este mundo, e uma confissão de que dependia o
credito de sua filha.
Foi um raio de luz para Ludovina estas palavras, cortadas por gemidos;
esse raio de luz, porém, queimou-lhe o coração. Se Angelica reparasse na
pallidez da filha, demasiado castigo seria da sua falta essa mudança. A
parte da sua dôr, que até alli fôra remorso, seria depois vergonha, e
vergonha de sua filha, tortura mil vezes mais pungente que a mordedura
do remorso para a que soube ser mãe, e affrontou os deveres de esposa.
A baroneza mudou de semblante e de carinho, sentiu-se gelada e inerte ao
pé da mãe, logo que meia luz do enygma lhe aclarou o entendimento.
«A mãe precisa descançar--disse ella com affectado gesto de
carinho--Deite-se, que eu ajudo-a a despir-se, e ficarei ao pé da sua cama.
--Não, filha; eu não tenho descanço n'este mundo, nem no outro. Se ainda
tenho algum direito á tua obediencia, deixa-me só; preciso de
chorar lagrimas que nunca Deus permitta o teu coração as chore. Não
pódes respeitar esta agonia, porque não a comprehendes, innocente
martyr. Se soubesses... poderias abominar-me agora, para te compadeceres
depois.
«Sei, mãe.
--Que sabes tu, Ludovina?! exclamou Angelica, abraçando-a convulsivamente.
«O meu silencio responde-lhe, mãe... Não soffra pela minha deshonra.
Deus sabe tudo; não me importa o mundo; a Providencia fará vêr a verdade
a meu marido, sem que o nome de minha mãe seja sacrificado. Cale-se, por
quem é. Não diga nada ao barão, e poupe meu pae. Eu sinto-me com forças
para não vergar a um peso de infamação que me não cáe sobre a
consciencia. Se o meu amor a póde consolar, não diga o seu segredo a
ninguem; não diga porque eu não sei qual dos dois descreditos é mais
afflictivo para mim...