Esta inquietação damnificou a vida menos má do commendador, e o socego,
apparentemente feliz, de Ludovina. A paz existia; era, porém, como a
serenidade presagiosa de trovoada.
O marido recebia os convites para bailes, e queimava, á surrelfa, as
cartas. Ludovina admirava o esquecimento, sem aventurar uma pergunta.
Estes rebuços são a desgraça das familias, e o rastilho de polvora que
espera uma faisca.
Ao theatro iam raras vezes. O commendador adoecendo quasi sempre no dia
da recita, supportou no estomago muitas papas de linhaça, sem precisão.
O seu achaque postiço era uma inflammação intestinal.
D. Angelica censurava o procedimento do genro; mas calava-se, para não
dar anso á filha de romper em queixumes, que abafava com a esperança de
melhor vida, ou desafogava em carpir-se sósinha. Melchior Pimenta achava
que tudo ia bem, e dava-lhe mais cuidado a esperançosa apparição de
um neto que a irritação de entranhas do capitalista.
Acabára-se o palacete, e fez-se a mudança. O commendador não convidava
os sogros para viverem com elle. Ludovina, reagindo contra a tyrannia
simulada disse que não saía da casa onde nascera, sem levar seus paes.
João José acreditou na resolução, e disfarçou o intento, dizendo que
nunca tivera outro.
Ludovina queixava-se á mãe da reclusão em que vivia cheia de
aborrecimento e tedio; perguntava se era aquella a felicidade que dava o
dinheiro; dizia que a pobreza e o ar livre eram preferiveis ao goso de
cincoenta vestidos que se traçavam no guarda roupa, e da luxuosa mobilia
que ninguem admirava.
D. Angelica, já aborrecida tambem, prometteu á filha entender-se com o
genro, e muda'-lo por meios suaves.
--Que motivo ha, snr. commendador--disse D. Angelica--para se encerrar
n'esta casa, cortando as suas relações com a sociedade que tão bem o
tratava?
«Eu vivo assim melhor.
--Viverá!... não creio. O senhor, quando estivemos em Celorico,
divertia-se nas sociedades, e já no Porto parece que folgava de que o
vissem com sua mulher em toda a parte...
«Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflammação de
entranhas não me deixa. A saude está em primeiro logar.
--Tem razão; mas n'este mundo só se vive bem, sacrificando-se a gente
uma á outra. O senhor é casado com uma menina habituada aos
innocentes prazeres da sociedade, e eu, se me dá licença, dir-lhe-hei
que não consentiria um casamento entre genios tão contrarios, se
previsse o que está acontecendo.
«Então que é?
--É que minha filha não póde assim viver contente.
«Agora não! ella não se queixa: a senhora é que toma as dôres por ella.
--Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma sancta. O
peor será quando ella se queixar... Isto assim vae mal, sr. Dias; mude
de vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de
offender a sua dignidade.
«Não duvido; mas estou melhor assim, e ella tambem não está mal, acho
eu. Quem casa vive para seu marido, e para os filhos, se os tem. Isso de
andar de bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que
andam á pesca de marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar
com um homem que lhe pega pela cinta, e anda alli com a cara ao pé da
d'ella. Nada de bailes, sr.ª D. Angelica. Minha mulher, se quer passear
tem ahi uma carruagem e eu estou prompto a acompanha'-la para toda a parte.
--Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações da
nossa casa. Ludovina tem amigas, que extranham muito a vida encarcerada
que ella passa. Porque não ha-de sua mulher visitar e receber as visitas
de suas amigas?
«E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as outras não dizem
cousa boa. O melhor é cada um em sua casa.
--Que razão essa tão... tão singular!
«A final de contas, sr.ª D. Angelica, eu estou em minha casa, e entendo
que faço bem. Não se lucra nada em apparecer. O mundo está uma pouca
vergonha. Eu já sei como está o Porto, e como se vive por ahi. Não quero
que minha mulher ande nas bôcas do mundo. Se Ludovina não fosse ao
baile, onde lhe appareceu o tal namorado que ella teve, não tinhamos
todos a zanga com que sahimos de lá. Em casa, em casa é onde se está
melhor.
--Eu não me responsabiliso pelas consequencias, sr. Dias. Ludovina tem
brios e pundonor; se ella desconfia que v. s.ª a encerra em casa, por
suspeitar da lealdade d'ella, teremos grandes desordens e não terei
poder para accomoda'-las.
«Eu não desconfio de minha mulher; se não vou aos bailes, é porque não
quero que os outros desconfiem, e acabou-se.
O dialogo ficou aqui; mas ha ahi duas linhas que fazem honra á
intelligencia equivoca de João José. Merecem ter segunda edição de
versaletes:
EU NÃO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NÃO VOU AOS BAILES É PORQUE NÃO
QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM.
Isto é uma grande idéa, das quatro idéas grandes que apparecem em cada
seculo, e que, por engano, entrou na cabeça inhospita do commendador.
Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou João José, e verão
que as melhores d'este livro são ellas.
O marido, que me está lendo, se tem cincoenta annos, e espreita os vinte
de sua mulher, através do vidro embaciado que a experiencia lhe vendeu
caro, não deve já agora perder a esperança de dizer, no auge do seu
ciume, alguma cousa que possa ler-se em lettra redonda.
A indignação fazia os versos de Juvenal; porque não ha de o ciume fazer
as prosas toleraveis dos maridos?
A idéa de João José, se fosse minha, ninguem me aturava a vaidade. Rogo
aos escriptores contemporaneos, e aos futuros sabios, alinhavadores de
remendos alheios, que se escreverem a seguinte maxima:
_Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes para
que os outros não desconfiem;_ escrevam por baixo--_O commendador_ JOÃO
JOSÉ DIAS.
As pessoas que melhores idéas engendraram, não teem sido as mais
felizes. O commendador pertence ao martyrologio dos grandes pensadores.
Os fados, os estupidos fados hão de castiga'-lo por essas poucas
palavras com que elle arranjou um nicho, pôdre de barato, no templo da
memoria.
O castigo começa.