Ludovina disse um dia a sua mãe:
--Estou casada ha treze mezes, e sinto-me velha. Até aqui obedeci como
creança, a minha mãe, a meu pae, e a esse homem, que entrou na nossa
familia com certa auctoridade que me intimidava. Eu fui sempre docil,
docil até á pusillanimidade. Se a violencia não fosse tamanha, este
homem que chamam meu marido, teria feito a escravidão da minha alma para
sempre. Assim não póde ser. Sinto-me outra; perdi os costumes de
creança; envelheceram-me com os desgostos continuos, e por isso hão de
soffrer-me agora emancipada.
--Que vem tudo isso a dizer, Ludovina?
--Que quero a minha liberdade, que hei de passar por cima da oppressão á
custa de tudo.
--Ludovina! que linguagem é essa?
--É a da desesperação, e da justiça. Não pratiquei sombra de mau acto,
por onde mereça este amargo viver que me dão. Quero saber porque vivo
apartada das minhas amigas, e dos recreios, d'onde a minha reputação
saíu sempre sem mancha.
--A quem o perguntas, a mim?
--Sim, á mãe, ao pae, e depois pergunta'-lo-hei ao dono d'esta casa, ao
dono dos meus vestidos e dos meus braceletes. Se este me disser que a
minha liberdade é o preço d'essas cousas, deixo-lh'as, e peço a meu pae
a subsistencia que me dava d'antes. Se m'a negarem, Deus me inspirará o
destino que me convém. Isto ha de decidir-se hoje. Ninguem soffria tanto
tempo, por amor proprio, ou pela virtude da paciencia.
--Tens direito a interrogar teu marido, Ludovina; mas sê prudente;
vence-o com razões moderadas, por não dizer humildes.
--E se elle, por maldade ou por ignorancia, suspeitar da pureza das
minhas intenções?
--Fala-lhe como deve falar uma senhora, e confundi'-lo-has.
Veiu o commendador cortar o colloquio. Nunca tão achamboada e trombuda
se mostrára a lerda physionomia do personagem. N'essa occasião, o
achaque intestinal era veridico, segundo o testemunho do semblante. Era
o ideal da fealdade, então, o sr. Dias!