Já decorreram seis annos depois das scenas descriptas no capitulo
antecedente.
Não deixaremos, porém, a nossa muito conhecida casa, perto de S. Cosme,
pertencente á viscondessa do Candal, por que é no caminho, que a ella
conduz, que tem lugar o que passamos a contar.
Uma senhora ainda joven, e outra já de mais idade caminham em silencio,
e commovidas.
A mais idosa é a nossa muito conhecida viscondessa do Candal.
O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito. O rosto
tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os cabellos
embranquecidos antes do tempo.
A sua companheira é uma joven que figura ter dezesete para dezoito
annos, d'apparencia ingenua e modesta; é a nossa Rosa, a pequena dos
ramos e cestinhos.
A viscondessa caminha apoiada no braço da sua companheira. Depois
d'alguma hesitação Rosa decidiu-se a dirigir-lhe a palavra.
--Receio, minha querida senhora--disse Rosa respeitosamente--que esta
visita vos cause uma grande commoção e vos prejudique a saude. Por que a
não deixaes para quando estiverdes mais restabelecida?
--Não, Rosa, não. Ha oito dias, que não vim visitar a campa onde jaz a
minha Julia, e oito dias já é um espaço muito longo. Sinto-me hoje
melhor, não despresarei portanto esta occasião que se me offerece, por
que, quem sabe se recahirei?
--Não penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que ainda haveis de ter
muitos annos de vida; tenho fé, que Deus vos não roubará á minha ternura
e reconhecimento.
--Se as orações d'um anjo, Rosa, podessem deter a morte, conheço que as
tuas me preservariam d'ella. Mas, ai de mim, a morte da minha sempre
lembrada Julia despedaçou-me o coração. Não estou eu só n'este mundo?
Bertha não me abandonou logo que casou? Que faço então aqui n'este ermo,
a que chamam mundo?
--Ah! senhora, esqueceis então a pobre Rosa, que vos estima e ama, e que
vos é tão dedicada como se fôra vossa filha?
Estas palavras, pronunciadas com um accento de submissão, penetraram até
o imo do coração da viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os
braços recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas.
--Sou uma ingrata, Rosa, bem o reconheço,--disse a viscondessa cingindo
Rosa ao coração. Recebo com indifferentismo os teus cuidados e carinhos,
e a tua inexcedivel dedicação. Perdôa-me, minha filha, minha querida
filha. Conheceste Julia, e melhor que outra qualquer sabes quanto era
merecedora da minha ternura e amisade, e quanto é digna de ser
pranteada. Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia,
para me servires de consolação e allivio na minha dôr. Abraça-me Rosa,
minha filha querida.
Rosa, por unica resposta, abraçou com ternura a sua bemfeitora.
As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e eloquentemente,
o que a commoção lhe embargava nos labios.
Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao cemiterio.
A viscondessa do Candal, como tributo á memoria de sua filha,
mandára-lhe levantar um lindo e rico mausoléo de marmore branco, no qual
ella tambem queria ser encerrada á sua morte. Em volta das grades
viam-se alegretes em que haviam violetas, geranios e rosas amarellas,
que Rosa cultivava e cuidava com muito esmero, como recordação das
flôres com que enfeitára o cestinho, que fôra causa da intima união, que
se estabelecera entre ella e D. Julia.
A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre a campa
d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que tanto choravam na
morte.
Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e pés de
flôres, um por um, para que os insectos, ou a seccura os não
estiolassem, dirigiu-se á viscondessa.
--Deixo-vos, senhora--lhe disse ella--por um instante. Vou rezar junto
da campa de minha avó.
--Tambem quero acompanhar-te--replicou a viscondessa.
Não muito distante do mausoléo de D. Julia se elevava uma cruz simples.
Era ahi que jazia, havia dous annos, a pobre cega. Terminára os seus
dias socegadamente, bemdizendo a ternura de sua neta, e a caridade
affectuosa da sua bemfeitora.
Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com
diversas flôres, semelhava um jardimsinho.
Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e devoção por algum
tempo, levantou-se, e dando o braço á viscondessa retiraram-se, fazendo
ainda uma ultima visita ao tumulo de D. Julia.
Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga professora
D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi por dous mezes se
havia de proceder aos exames d'habilitação para os titulos de
capacidade, por isso, se ainda estava decidida a propôr-se a exame, que
enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos.
Rosa apresentou esta carta á viscondessa.
--Sempre estás decidida a propôr-te a exame?--lhe disse ella.
--Sim, minha senhora. É o meu mais fervente e afanoso desejo. Quero,
senhora, que a instrucção e saber, que vos devo, e a vossa querida e
chorada filha, aproveite ás crianças, que a pobresa retem na ignorancia
e na rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma só d'entre
ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu trabalho!
--Tinha a esperança de te conservar sempre na minha companhia---replicou
a viscondessa.--Occuparias para sempre o lugar do anjo, que Deus me
levou, da minha Julia. Não queres, Rosa, ser minha filha?
--Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai além da minha
ambição. Mas recordo-me que era uma pobre rustica, e que só aos vossos
beneficios devo a minha instrucção, e a cultura da minha intelligencia.
Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os vossos
cuidados não foram perdidos, mas com isso não me devo tornar vaidosa,
por que faltaria assim aos meus deveres. Serei sempre para vós uma filha
adoptiva, carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao vosso
lado, esforçando-se por pagar a sua divida de gratidão e reconhecimento:
Recebendo e aceitando a vossa affeição e amisade, para mim preciosa e
apreciavel, não me devo esquecer da classe onde nasci. O meu lugar é
mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao meu coração,
quando me recordo do bem, que posso fazer a essas infelizes crianças,
que vivem na bruteza, ensinando-lhe o que sei e que é obra vossa! Ha
muito que concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa filha: «Ás
pobres rapariguinhas das aldéas--lhe disse eu--farei o mesmo que a snr.ª
D. Julia me fez. Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a sorte, que Deus
lhes destinou n'este mundo; cultivarei o seu coração e o seu espirito, e
por unica recompensa não quererei mais do que ouvil-as bem dizer os
nomes da exc.ma viscondessa do Candal e de sua filha.»
--Rosa, minha querida Rosa--disse a viscondessa abraçando-a, e com os
olhos rasos de lagrimas,--que Deus te pague a felicidade, e prazer, que
me fazes nascer no coração com as tuas palavras.
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Dous mezes depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa comparecia
perante o jury nomeado para proceder ao exame das concorrentes ao
professorado. O titulo de capacidade, em grau superior, foi-lhe
concedido por unanimidade e com distincção.