Dous annos se passaram já, depois que foi conferido a D. Rosa de Jesus e
Sousa o seu titulo de capacidade.
Estamos em fins d'Outubro, n'uma casa caiada de branco, que se encontra
ao entrar na freguezia de S. Cosme, do lado de S. Pedro da Cova. Na
frente ha um pateo largo e espaçoso. Sobre o muro pendem os ramos
verdejantes de dous chorões. Nas trazeiras da casa ha um pequeno jardim,
muito bem tratado, com as ruas areadas com saibro, e que termina por um
caramanchãosinho, que, pelo bem cerrado que está, indica que no verão
deve alli haver uma frescura agradavel, auxiliada pela corrente d'uma
levada, que corre proximo. Na sala que fica ao nivel do jardim ouve-se
um murmurio confuso. Entremos, para examinar a que elle é devido. Que
vemos? Grupos de lavradeirinhas, ao todo umas trinta, pouco mais ou
menos, vestidas de branco, e tendo todas na mão um raminho de flôres do
campo, com um laço de fita. Ao fundo da sala vê-se uma rica imagem de
Nossa Senhora da Conceição, collocada sobre um altar, bem adornado com
castiçaes de prata, velas de cera e jarras com flôres.
N'um dos lados da sala ha quatro cadeiras de braços; n'uma d'ellas está
sentada a viscondessa do Candal, a quem D. Rosa, de pé, junto d'ella,
está dizendo os nomes das suas discipulas.
A viscondessa passeia a vista por todas ellas, e conhece-se-lhe na
expressão do rosto, que aquelle espectaculo a regosija e encanta.
O modo, porque todas dirigem as vistas para a porta e pelas janellas,
indica que se espera alguem.
O abbade da freguezia e o administrador do concelho entram n'este
momento pelo portão.
Um sorriso alegre se vê deslisar em todos os rostos. Eram as pessoas por
quem se esperava.
A viscondessa e a sua pupilla vieram recebel-os á porta, e
conduziram-nos ás cadeiras que lhe estavam destinadas.
As crianças tomaram os seus lugares, e restabelecido o silencio, o
abbade da freguezia tomou a palavra, e fez o seguinte discurso:
«Sinto, minhas meninas, um prazer immenso por vos vêr aqui reunidas para
a celebração do primeiro anniversario da installação d'esta escóla,
devida á muita philantropia e caridade christã da exc.ma viscondessa do
Candal, e á dedicação exemplar da vossa digna professora a snr.ª D. Rosa
de Jesus e Sousa. Julgo desnecessario o rememorar-vos, que um tal
sacrificio merece um eterno reconhecimento, por que entendo que entre
vós, minhas filhas, não ha ingratas. Vós respeitaes e veneraes a exc.ma
viscondessa, e amaes com um verdadeiro amor a vossa professora, não é
assim? É, assim o creio. Mas ha ainda uma pessoa, para quem deveis ter
uma saudosa recordação, e que tambem deveis encommendar a Deus nas
vossas orações. Prestai-me attenção, que vos vou dizer quem é essa
pessoa, cuja recordação vos deve ser grata. Ha pouco mais ou menos doze
annos, que uma pobre lavradeirinha ganhava a sua vida fazendo cestinhos
de juncos, e ramos de flôres silvestres. Uma joven e nobre senhora, que
reconheceu n'ella amabilidade, modestia e humildade, sympathisou com
ella, e encarregou-se de a educar e instruir. Como a sua bemfeitora a
achou sempre digna dos seus beneficios, encarregou-se tambem da sua
posição futura. Essa joven senhora, de que vos fallo, é a exc.ma snr.ª
D. Julia, filha da exc.ma viscondessa do Candal, e essa lavradeirinha, a
quem ella dispensou os seus carinhos e a sua affeição, é a vossa douta
professora. Ha já alguns annos, que a alma da exc.ma snr.ª D. Julia voou
á presença do Deus eterno a receber o premio das suas virtudes e das
boas obras, que praticára n'este mundo; uma das quaes ainda existe, que
foi o deixar-vos a vossa professora e amiga.
«Mostrai-vos, meninas, sempre merecedoras dos beneficios, que vos fazem,
porque isso é o unico desejo das vossas bemfeitoras e a unica
recompensa, que recebem da sua dedicação, que estou muito convencido
sempre fareis por merecer.
«Não quero, porém, retardar por mais tempo o momento de receberem o
premio e galardão, que merecem pela sua applicação ao estudo e amor ao
trabalho, áquellas que d'isso se tornaram dignas; e ás que d'esta vez
não são galardoadas resta-lhes a esperança e o meio de, pela imitação
das suas condiscipulas, se tornarem dignas de o merecerem para o anno
futuro.
«Vamos por tanto proceder á distribuição dos premios.»
Um sussurro d'alegria acolheu as ultimas palavras do digno sacerdote.
A conferencia dos premios foi esplendida.
Os premios consistiam em livros religiosos e d'instrucção, que tinham
sido cuidadosamente escolhidos pela viscondessa, e sua filha adoptiva,
todos ricamente encadernados. Era interessante e bello vêr a alegria,
que se deslisava no rosto das que tinham sido contempladas na
distribuição.
Terminada a conferencia dos premios teve lugar debaixo do caramanchão um
bem servido _lunch_.
--Como é magnifico o espectaculo, que apresentam estas crianças, alegres
e satisfeitas--disse a viscondessa--Recordar-me-hei sempre d'este dia,
como o mais grato e feliz da minha vida. Tu, minha querida Rosa,
attrahes as bençãos do céo sobre nós, e sobre a memoria da minha
querida, e chorada Julia.
--Ah! senhora,--disse Rosa com os olhos rasos de lagrimas--que a vossa
prophecia se realise, e a minha mais cara aspiração ficará satisfeita.
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O desejo de Rosa realisou-se. A escóla está cada vez mais florescente, e
a freguezia ufana-se pela possuir. Todos os moradores do lugar ainda
hoje bemdizem os nomes da viscondessa do Candal, de sua filha e de D.
Rosa, modêlo raro d'um coração verdadeiramente grato e reconhecido aos
beneficios que recebera.