D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que
interiormente não sentia, por que receiava muito a chegada do outono,
época, que os medicos tinham marcado, a mais longa a que poderia chegar.
A anciedade, pois, que todos soffriam pela aproximação d'esse termo
fatal, era geral.
Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas vezes
apresenta, a molestia não offereceu n'esta estação alteração alguma.
A esperança, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal doença,
começou a penetrar em todos os corações, e até no da propria enferma.
Rosa chegou a dizer á viscondessa, que tinha uma convicção firme de que
D. Julia não morreria, por que Deus Nosso Senhor era bom e não a havia
de privar da sua protectora.
A viscondessa, que até ahi estava convencidissima, de que sua filha não
passaria além do termo marcado pelos medicos, vendo-o passar sem que a
sua fatal predicção se realisasse, começou a crêr que se tinham
enganado, e que D. Julia ainda lograria saude.
Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os criados,
que não amavam só, mas que veneravam D. Julia, por que era sempre boa e
affectuosa para elles, crendo que a sua joven ama, não tendo morrido na
época marcada, estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem;
tal foi a alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta
esperança e crença.
Estas demonstrações respeitosas de sympathia e amisade, que os criados
lhe deram, penhoraram e commoveram muito D. Julia. A todos agradeceu com
reconhecimento esta nova prova d'affecto.
Porém, de todas as felicitações, a da sua discipula e de sua avó, foi a
que mais a impressionou.
Quando Rosa, conduzindo sua cega avó, se ajoelhou com ella junto da cama
de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e ingenuidade, a alegria e
prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e os votos, que faziam a Deus,
para que o seu restabelecimento fosse real e breve, não pôde soffrear a
sua commoção, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas faces, agradecendo
a Deus o prazer que tinha gosado com a felicitação que acabava de lhe
ser dirigida.
Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia soffresse
alteração sensivel.
Com a chegada da primavera D. Julia recomeçou os seus passeios pelos
campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua inseparavel Rosa, a
que algumas vezes se aggregava tambem a viscondessa.
Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento da
communhão, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a sua protegida
progredisse nos seus estudos, pediu a sua mãi que lhe escolhesse uma
professora.
A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha.
Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob recommendação e
abono do abbade de S. Cosme, uma joven senhora, a quem ha pouco acabava
de ser concedido o titulo de capacidade.
Rosa esforçava-se por todos os meios possiveis para corresponder
dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua mãi, lhe estavam
constantemente prodigalisando; procurando sempre não dar o mais leve
desgosto ás suas protectoras; comtudo, é preciso dizer que Rosa não era
perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a
impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter algumas
faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta facilidade os seus
erros, e mostrava-se tão arrependida e desejosa de os emendar, com tanto
afinco e perseverança, que era impossivel tratal-a com rigor por muito
tempo.
Rosa dava as suas lições, umas vezes no quarto de D. Julia, quando o seu
estado de saude o permittia; outras vezes no da viscondessa, que sentia
um verdadeiro e sincero prazer em observar os progressos da predilecta e
querida de sua filha.
D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu
dignamente á confiança, que a viscondessa n'ella tinha depositado,
confiando-lhe a instrucção da sua pupilla.
O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direcção experimentou,
foi grande, dando já signaes de que em breve a discipula se tornaria uma
excellente professora.
Rosa, assim que as suas obrigações e deveres estavam terminados,
dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua avó. Esta, desde que viera
viver para casa da viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã, e
ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu
viver.
Tinha já decorrido parte do anno; o outono estava quasi findo, e o
estado de saude de D. Julia não denunciava signal algum de peoramento; a
molestia, porém, que até então estivera encubada, reappareceu com grande
violencia, e em oito dias as crises succederam-se tão proximas umas das
outras, que pozeram a enferma em estado de se não conceber esperança
alguma de a salvar.
A illusão, que até ahi existira em todos, desappareceu completamente: já
não esperavam senão o golpe final... Rosa, nem um só momento desamparava
a sua querida protectora, e juntamente com a viscondessa, cuidava e
tratava de D. Julia; não consentiam que mais ninguem lhe prestasse o
mais insignificante serviço, chegando até a ter zelos uma da outra.
Tanta dedicação e amisade teriam feito com que Deus revogasse a fatal
sentença dada a D. Julia, se o Creador, na sua alta sabedoria, não
tivesse resolvido chamar á sua presença, a receber o premio das suas
virtudes, aquelle anjo de bondade e resignação.
D. Julia, já moribunda e quasi expirante, pediu a sua mãi, como ultima
graça que lhe fazia, que não abandonasse Rosinha, a sua querida
discipula e amiga; que se não affligisse, nem desanimasse, porque em
Rosa lhe deixava, estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada,
que havia de substituir no seu coração o lugar que ella deixava vasio, e
a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua mãi, por que n'ella
encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga.
Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado;
abraçou sua mãi, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e minha
mãi... expirou, voando a sua candida alma á presença de Deus a receber a
glorificação de suas virtudes.
Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido breve para
o mundo, fôra longa pelas boas obras, que sempre praticára, e pela
pureza em que sempre vivera.