XII.

D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que

interiormente não sentia, por que receiava muito a chegada do outono,

época, que os medicos tinham marcado, a mais longa a que poderia chegar.

A anciedade, pois, que todos soffriam pela aproximação d'esse termo

fatal, era geral.

Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas vezes

apresenta, a molestia não offereceu n'esta estação alteração alguma.

A esperança, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal doença,

começou a penetrar em todos os corações, e até no da propria enferma.

Rosa chegou a dizer á viscondessa, que tinha uma convicção firme de que

D. Julia não morreria, por que Deus Nosso Senhor era bom e não a havia

de privar da sua protectora.

A viscondessa, que até ahi estava convencidissima, de que sua filha não

passaria além do termo marcado pelos medicos, vendo-o passar sem que a

sua fatal predicção se realisasse, começou a crêr que se tinham

enganado, e que D. Julia ainda lograria saude.

Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os criados,

que não amavam só, mas que veneravam D. Julia, por que era sempre boa e

affectuosa para elles, crendo que a sua joven ama, não tendo morrido na

época marcada, estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem;

tal foi a alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta

esperança e crença.

Estas demonstrações respeitosas de sympathia e amisade, que os criados

lhe deram, penhoraram e commoveram muito D. Julia. A todos agradeceu com

reconhecimento esta nova prova d'affecto.

Porém, de todas as felicitações, a da sua discipula e de sua avó, foi a

que mais a impressionou.

Quando Rosa, conduzindo sua cega avó, se ajoelhou com ella junto da cama

de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e ingenuidade, a alegria e

prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e os votos, que faziam a Deus,

para que o seu restabelecimento fosse real e breve, não pôde soffrear a

sua commoção, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas faces, agradecendo

a Deus o prazer que tinha gosado com a felicitação que acabava de lhe

ser dirigida.

Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia soffresse

alteração sensivel.

Com a chegada da primavera D. Julia recomeçou os seus passeios pelos

campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua inseparavel Rosa, a

que algumas vezes se aggregava tambem a viscondessa.

Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento da

communhão, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a sua protegida

progredisse nos seus estudos, pediu a sua mãi que lhe escolhesse uma

professora.

A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha.

Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob recommendação e

abono do abbade de S. Cosme, uma joven senhora, a quem ha pouco acabava

de ser concedido o titulo de capacidade.

Rosa esforçava-se por todos os meios possiveis para corresponder

dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua mãi, lhe estavam

constantemente prodigalisando; procurando sempre não dar o mais leve

desgosto ás suas protectoras; comtudo, é preciso dizer que Rosa não era

perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a

impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter algumas

faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta facilidade os seus

erros, e mostrava-se tão arrependida e desejosa de os emendar, com tanto

afinco e perseverança, que era impossivel tratal-a com rigor por muito

tempo.

Rosa dava as suas lições, umas vezes no quarto de D. Julia, quando o seu

estado de saude o permittia; outras vezes no da viscondessa, que sentia

um verdadeiro e sincero prazer em observar os progressos da predilecta e

querida de sua filha.

D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu

dignamente á confiança, que a viscondessa n'ella tinha depositado,

confiando-lhe a instrucção da sua pupilla.

O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direcção experimentou,

foi grande, dando já signaes de que em breve a discipula se tornaria uma

excellente professora.

Rosa, assim que as suas obrigações e deveres estavam terminados,

dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua avó. Esta, desde que viera

viver para casa da viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã, e

ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu

viver.

Tinha já decorrido parte do anno; o outono estava quasi findo, e o

estado de saude de D. Julia não denunciava signal algum de peoramento; a

molestia, porém, que até então estivera encubada, reappareceu com grande

violencia, e em oito dias as crises succederam-se tão proximas umas das

outras, que pozeram a enferma em estado de se não conceber esperança

alguma de a salvar.

A illusão, que até ahi existira em todos, desappareceu completamente: já

não esperavam senão o golpe final... Rosa, nem um só momento desamparava

a sua querida protectora, e juntamente com a viscondessa, cuidava e

tratava de D. Julia; não consentiam que mais ninguem lhe prestasse o

mais insignificante serviço, chegando até a ter zelos uma da outra.

Tanta dedicação e amisade teriam feito com que Deus revogasse a fatal

sentença dada a D. Julia, se o Creador, na sua alta sabedoria, não

tivesse resolvido chamar á sua presença, a receber o premio das suas

virtudes, aquelle anjo de bondade e resignação.

D. Julia, já moribunda e quasi expirante, pediu a sua mãi, como ultima

graça que lhe fazia, que não abandonasse Rosinha, a sua querida

discipula e amiga; que se não affligisse, nem desanimasse, porque em

Rosa lhe deixava, estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada,

que havia de substituir no seu coração o lugar que ella deixava vasio, e

a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua mãi, por que n'ella

encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga.

Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado;

abraçou sua mãi, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e minha

mãi... expirou, voando a sua candida alma á presença de Deus a receber a

glorificação de suas virtudes.

Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido breve para

o mundo, fôra longa pelas boas obras, que sempre praticára, e pela

pureza em que sempre vivera.

Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento · 第 67 / 70 题