--Queres dar a Rosa--disse uma occasião a viscondessa a sua filha--uma
educação e instrucção superiores á sua posição na sociedade, e não
receias que isso para o futuro lhe cause embaraços e dissabores?
--Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mãi, a bondade de
ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia:
«O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é alcançar bastante
instrucção e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz
podendo dizer ás minhas discipulas: era uma aldeã muito ignorante e
rustica; uma boa menina, a snr.ª D. Julia, filha da snr.ª viscondessa do
Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua protecção e de me ensinar.
É a ella, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se me
amaes, deveis igualmente amar a snr.ª D. Julia, minha bemfeitora; e
então ellas vos renderão graças, assim como eu vol-as rendo agora.»
--Não te torno a dizer mais nada--disse a viscondessa--Continua, minha
filha, pois Rosa é digna dos teus cuidados e desvelos, e para que elles
se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a.
A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. Julia,
dava as lições a Rosa.
Estes estudos não fizeram pôr de parte a preparação de Rosa para receber
dignamente a primeira communhão. Foi com uma piedade exemplar que ella
cumpriu este solemne acto, e o futuro provou não ter sido esteril para o
seu coração.
D. Julia passou o verão entre as alternativas de melhoras e recahidas
nos seus padecimentos, que tinham uma successão quasi regular e
periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou d'uma cadeira de
braços, para onde a levavam, lhe era possivel; outras vezes chegava a
poder dar uns pequenos passeios pelos campos das visinhanças. Aos
proprios medicos custava a comprehender como ella vivia.
D. Julia, porém, não se illudia sobre o seu estado de saude. Quando sua
mãi a entretinha fazendo projectos, ou, como ordinariamente se diz,
_castellos no ar_, para o futuro, ella sorria-se e respondia: que ainda
faltava muito tempo para a sua realisação, e que não chegava a vêl-os
confirmar.
A sós com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a proxima terminação da
sua existencia, e então ella supplicava-lhe com instancia, que
repellisse da sua imaginação tão sinistras idéas.
--Não posso crêr,--dizia ella--que Deus nosso Senhor me queira tirar
d'este mundo todos os meus protectores: não sei que crime tenha
commettido, que mereça semelhante castigo.
--Resta-te ainda minha mãi, minha Rosinha--respondia D. Julia--que estou
certa nunca te ha-de desamparar.
Rosa terminava esta penosa conversação abraçando D. Julia e procurando
distrahil-a por todos os meios possiveis.
O que a dedicação mais sincera e real póde suggerir de mais bello, tudo
Rosa executava, recebendo, por galardão, ou recompensa a mais grata, um
terno sorriso de D. Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os
merecer faria o impossivel se necessario fosse.