Estamos no anno seguinte.
Rosa escreveu á viscondessa do Candal e a sua filha uma carta tão
affectuosa e consoladora, que fez despertar em D. Julia um vehemente
desejo de tornar a vêr a sua querida discipula e protegida.
Os dias, que faltavam para Rosa poder abraçar a sua amiga, pareciam-lhe
seculos. Esperava com uma impaciencia impossivel de descrever, a chegada
da primavera, porque então é que devia, e podia estreitar ao coração a
sua querida amiga e preceptora.
Raiou finalmente o dia tão anciosamente almejado. A primeira pessoa que
D. Julia avistou foi Rosa, que, louca d'alegria, viera esperar a sua
amiga querida, para lhe apresentar um cestinho, igual ao que tinha
estabelecido e sido causa das relações e intima união, que existia entre
ellas.
D. Julia ao vêl-a deu um grito, e quiz immediatamente descer do coupé;
mas não pôde fazel-o, por que estava tão magra, fraca e desfigurada que,
quem a via, só a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na
verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e
desvelos, de que a cercava a viscondessa.
Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e protectora.
D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria saber
minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se tinha
retirado para o Porto.
Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu
immediatamente a sua mãi, que recebesse em sua casa Rosa e sua avó.
A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno desejo,
ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora.
Rosa e sua avó vieram portanto morar para casa da viscondessa do Candal,
que foi pessoalmente dar parte d'esta sua resolução á snr.ª Maria da
Gandra.
--Estou satisfeitissima, minha senhora--disse a snr.ª Maria da
Gandra--pela felicidade de Rosa; mas ao mesmo tempo sinto um grande
pesar, e é com difficuldade que me separo d'ella. Nunca mais encontrarei
uma pequena, que seja tão humilde e trabalhadeira.
A viscondessa em seguida quiz satisfazer á snr.ª Maria da Gandra toda a
despeza, que Rosa e sua avó tinham feito em sua casa; mas a honrada e
digna aldeã não quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa,
e respondeu--Que Rosa havia ganho o que ella e sua avó tinham
despendido.
A despedida de Rosa e da snr.ª Maria da Gandra foi pathetica, e só a
muito custo se desprenderam, chorando, dos braços uma da outra,
promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que a
snr.ª Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma ingrata se lhe
não tributasse um profundo reconhecimento.
A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram que ia
viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que só acreditou depois
de muito lh'o asseverarem, por que lhe parecia impossivel que semelhante
ventura lhe succedesse.
--Que a minha Rosinha--disse ella--algum dia se havia de tornar senhora
da cidade, sempre eu o julguei, por que era muito gentil e linda para
ser camponeza; mas que eu partilhasse tal ventura, nunca o imaginei.
Rosa e sua avó foram alojadas, em casa da viscondessa, em dous quartos,
muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que assim o tinha
exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que se executou com
muita censura e reparo de D. Bertha.
--Era só o que faltava--dizia um dia, a orgulhosa D. Bertha, a D.
Francisca de Meirelles, sua amiga--trazer para nossa casa estas duas
mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como é que Julia pôde
affeiçoar-se tanto a estas duas creaturas?
--Tua irmã, Bertha, tem o coração muito sensivel; basta que lhe façam
uma choradeira, ou que lhe contem uma historia triste para acreditar em
tudo, e logo se affeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é protecção.
--Mas na verdade, esta sociedade não é tão agradavel e
attrahente?--disse D. Bertha com um sorriso ironico.--Se a cega e a neta
contam commigo para lhes fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de
deixar muito tempo para se aborrecerem.
Conforme com estas _bellas_ resoluções D. Bertha evitava o mais possivel
dirigir a palavra a Rosa e sua avó, e, quando por necessidade o fazia,
era com um modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas
infelizes ficavam confusas e envergonhadas.
D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no coração de D. Bertha
sentimentos mais nobres e mais christãos, mas infructuosamente, por que,
procurar commover e sensibilisar o coração empedernido e orgulhoso de D.
Bertha, era um trabalho improbo e esteril.
D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu coração, a sua
discipula, recuperou algum vigor, e ainda pôde recomeçar as lições. A
fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela
attenção e estudo, que Rosa prestava ás prelecções.