IX.

Já tinha decorrido mais d'um mez, desde que D. Julia recolhera ao Porto,

e Rosa ainda não tinha recebido carta da sua amiga. A pobre criança

affligia-se, julgando, que este silencio, para com ella, não tinha outra

causa, senão o estado cada vez mais perigoso de D. Julia. D. Thereza,

que partilhava do pesar de sua filha adoptiva, procurava por todos os

meios consolal-a, e fazer-lhe conceber esperanças. Uma carta de D. Julia

veio confirmar as prevenções de D. Thereza.

D. Julia, com mão tremula, escreveu á sua querida discipula.

Participava-lhe que a sua doença parecia estar um pouco mais debellada,

e que os medicos davam algumas esperanças de a poder subjugar, e

embargar-lhe o seu progresso.

Terminava a carta aconselhando Rosa a que não descurasse os seus

estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse.

Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a D.

Julia, assegurando-lhe que não despresaria os seus conselhos, e que

tinha esperanças, de, para a primavera, renovar as suas lições sob as

arvores da serra; que nas suas orações rogava todos os dias a Deus, com

fervor, que lhe restituisse a saude, e que esperava as suas supplicas

fossem attendidas.

Rosa, cumprido este dever sagrado, lançou mão do seu trabalho com mais

vigor.

Estava proximo o dia natalicio de D. Thereza. Rosa preparava em segredo

um lindo presente para offerecer n'aquelle dia á sua bemfeitora, e para

isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe tinham dado de mimo, e

julgava-se bastante rica para poder apresentar a D. Thereza um brinde,

de que ella admirasse o valor e o gosto.

Faltavam só quatro dias para que, esse dia tão anciosamente esperado,

chegasse, e Rosa ainda queria poder supprimir o tempo, tão longo lhe

parecia.

Na vespera de manhã D. Thereza queixou-se d'uma dôr de cabeça, mas

julgou que um passeio lh'a dissiparia. Sahiu pois; mas passado uma hora

voltou ainda mais indisposta, do que tinha sahido.

Despresando o seu estado, ainda presidiu, na fórma costumada, ao jantar

dos criados da quinta; mas, no meio d'elle, cahiu sem sentidos.

Os criados, assustados, cercaram D. Thereza. Recolheram-na á cama, e

partiu immediatamente um criado a chamar, a toda a pressa, um cirurgião.

Chegou este, e, mal viu a doente, não deu esperanças de a salvar.

--Foi uma apoplexia fulminante--disse elle--é já tarde para se lhe dar

remedio.

O desespero e a consternação espalharam-se na quinta.

Os criados em geral estimavam muito D. Thereza, por que, apesar de ser

muito vigilante, era boa e justa.

Os menores movimentos do cirurgião eram seguidos com anciedade por todos

os criados, mas entre elles tornava-se saliente Rosa pelo zelo e

actividade, que desenvolvia em executar as prescripções do cirurgião,

ainda bem não estavam dadas.

Rosa não podia crêr que Deus lhe quizesse roubar a sua bemfeitora, e

esperava ainda que uma crise feliz a restituiria á vida.

A avó de Rosa estava consternadissima, e o seu maior pesar consistia em

não poder fazer cousa alguma.

De joelhos; junto do leito de D. Thereza, rezava com fervor e devoção.

Entre as alternativas da esperança e desconforto se passou o dia. Á

noite o cirurgião declarou que já lhe não restava esperança alguma; que

D. Thereza ainda podia viver mais um dia ou dous, mas que não proferiria

mais uma palavra, nem faria um unico movimento.

Descrever a afflicção de Rosa e de sua avó é-me impossivel; bastará

dizer que a dôr as tinha quasi enlouquecido.

D. Thereza não tinha filhos, por isso foram avisar do succedido a D.

Euzebia, sua irmã, rica proprietaria em Rio Tinto.

D. Euzebia, por causa do seu genio forte, e caracter duro, não estava em

intimas relações com D. Thereza. Assim que teve noticia da doença de sua

irmã poz-se logo a caminho, não por amisade que tivesse á moribunda, mas

sim para vigiar que lhe não roubassem a mais pequena parte da sua

herança.

Logo que D. Euzebia chegou a S. Cosme, tomou o governo da casa, e deu

ordens como se já estivesse senhora da herança. Rosa e sua avó

inspiraram-lhe antipathia, e não podia comprehender como sua irmã

voluntariamente tinha tomado ao seu cuidado aquellas duas pessoas.

D. Thereza ainda viveu dous dias, conforme o cirurgião dissera, mas sem

falla, e sem movimento, porque a apoplexia tinha-lhe paralysado todas as

faculdades. Só os olhos é que conservavam ainda alguns signaes de vida e

intelligencia, os quaes fixava sobre Rosa, fazendo esforços para fallar,

naturalmente para fazer o seu testamento; mas este ultimo consolo dos

moribundos não lhe foi permittido.

O abbade da freguezia, que veio administrar os ultimos sacramentos á

moribunda, tentou mitigar a dôr de Rosa, mas a joven menina estava muito

consternada para poder ser consolada. Recusou obstinadamente retirar-se

de junto do leito, em que jazia D. Thereza, conservando-lhe a mão gelada

apertada nas suas.

--O meu lugar é este,--dizia ella entre soluços,--só deixarei minha

segunda mãe no tumulo.

Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma convulsão, alguns

murmurios sufocados........ e D. Thereza tinha deixado d'existir entre

os vivos, e sua alma, desprendendo-se das ligações terrenas, voára ao

céo a receber da mão de Deus o premio das suas virtudes.

Ao principio não se ouviam mais que os chóros de todos os criados da

quinta, mas em seguida uma voz forte e imperiosa se fez escutar. Era a

de D. Euzebia. Collocou uma pessoa junto do cadaver de sua irmã, deu as

ordens para os funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas,

que fechava com cuidado, guardando as chaves.

X

Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito

da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D.

Thereza.

--Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito--disse D. Euzebia,--mas é

inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e

ella não podia desherdar-me.

--É verdade, minha senhora,--respondeu o juiz--mas cumpro o meu dever,

por que a lei protege os direitos de todos.

--Só eu é que tenho direito á fortuna de minha irmã, pois ella não tem

filhos.

--Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem ella deu asylo?

--Minha irmã--replicou com colera D. Euzebia--seria por ventura capaz de

me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que

ella teve a phantasia de recolher em sua casa?

--Não o affirmo, minha senhora--respondeu com brandura o juiz;--mas sua

irmã póde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua

estima e amisade.

--Não julgaria sufficiente o sustental-a e mais á avó,--disse D. Euzebia

com voz forte--ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas

velhacas, virieis vós roubar o que de direito me pertence? Snr. juiz

eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, pois quem sabe

lá, o que ella tem roubado. Minha irmã era tão pouco cautellosa...

--Oh! senhora--respondeu Rosa com muita tristeza a esta supposição

offensiva--acreditaes que pagasse com o roubo os beneficios, que eu e

minha avó recebemos da snr.ª D. Thereza?

O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D.

Euzebia não continuasse, diante d'um leito de morte, com uma discussão

tão vergonhosa, e feia.

Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braços com as

suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as cousas, que

Rosa não pôde refrear a sua indignação.

--Não me injurieis, senhora,--disse Rosa com energia e dignidade--não me

injurieis diante do corpo de vossa irmã, de quem só a vista bastaria

para me proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um só instante

de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi atacada pela

apoplexia? Não, senhora. Então como podia eu subtrahir cousa alguma?

Examinai, e examinai bem, senhora, que achareis tudo intacto, porque eu

e minha avó preferiamos antes morrer de fome, do que tocar na cousa mais

insignificante, que nos não pertencesse. Louvado seja o Senhor, sou

forte; posso e quero trabalhar, por isso não serei pesada a ninguem.

Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda da nossa bemfeitora, que,

logo que o seu corpo saia d'esta casa, não vos pediremos asylo.

Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que ficou

corrida de vergonha.

Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o enterro

a D. Thereza.

A pobre criança, com a avó pelo braço, seguiu chorando o prestito.

Depois de terminado o officio, Rosa e sua avó, ajoelharam-se junto da

campa, em que D. Thereza foi sepultada: era já noite cerrada, e ainda as

duas desgraçadas não cuidavam em se retirar.

O frio, que fez dar um gemido á avó, advertiu Rosa de que se devia

recolher; só então é que pensou para onde havia de ir.

--Vamos, minha avósinha--disse Rosa--a casa da snr.ª Maria da Gandra,

que estou certa, sendo tão nossa amiga, nos não ha-de deixar na estrada.

A snr.ª Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, como todos

os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava muito a protegida

de D. Thereza, e censurára o procedimento de D. Euzebia.

--Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha casa--lhe disse ella

logo que a avistou.--Que prazer me não causa teres procurado a minha

casa para te recolheres. Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da

Quintella, por isso é que te não offereci para vires para aqui com tua

avó.

--Agradeço-vos, senhora--disse Rosa--a vossa bondade, e a caridade com

que vos offereceis para nos recolherdes; mas não venho pedir-vos casa e

sustento de graça, porque tenho duas inscripções de cem mil reis cada

uma; o que vos rogo é que me aboneis tudo o que eu precisar e minha avó,

que vos satisfarei logo que termine a liquidação da herança da snr.ª D.

Thereza, e receba as minhas inscripções.

--Sim, sim, minha menina,--lhe respondeu a snr.ª Maria da Gandra--Não

preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como

obtiveste essas inscripções?

--A snr.ª D. Julia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis,

com os quaes a snr.ª D. Thereza, em cumprimento do seu desejo, comprou

duas inscripções em meu nome.

--Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu nome, porque

d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem resignação, assim

como vós, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir

ao vosso quarto.

Rosa e sua avó ficaram portanto habitando na Gandra.

A pequena não estava ociosa, antes pelo contrario era tão zelosa e

trabalhadeira, que a snr.ª Maria, muito satisfeita, propoz-lhe que ella

e a avó, ficassem para sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e

com reconhecimento, pois n'aquella occasião era a maior felicidade, que

lhe podia apparecer.

No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. Thereza,

Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito.

Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que

tinha sido para ella tão hospitaleira, o coração comprimiu-se-lhe e não

pôde reter as lagrimas.

Tudo se passou sem novidade; só de quando em quando D. Euzebia mostrava

por gestos e exclamações o seu desapontamento por encontrar menos

dinheiro, do que imaginava.

Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não foi uma exclamação de

surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual se divisava

um accento de triumpho.

--Bem certa estava eu,--disse ella--que esta velhaca havia de ter

_empalmado_ alguma cousa. Ah! se eu não viesse logo... o que teria

acontecido. Examinai, senhor escrivão, o que é que ahi existe.

O escrivão tirou da caixa um magnifico vestido, que, a julgar pelo

tamanho, não pertencia de certo a Rosa.

--Dize velhaca,--tornou D. Euzebia--como é que este vestido veio aqui

parar?--Não preciso perguntal-o, porque a culpada está-se denunciando

pelo rubôr, que lhe cobre as faces.

--Senhora D. Euzebia--disse o juiz--o seu proceder para com esta criança

é digno de censura. Ainda, até agora, não encontramos cousa alguma, que

fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a portanto

dar-me as explicações, que tiver a fazer.

Responde Rosinha,--disse o juiz com modo affavel--como é que este

vestido se acha na tua caixa?

Rosa fez-se muito corada e respondeu:

--Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas economias.

--Que é; que é?--interrompeu D. Euzebia.

--Senhora--disse severamente o juiz--ordeno que vos caleis.

--É bem publico e sabido, que eu, durante o verão, fazia cestinhos de

flôres, que ia vender ás casas abastadas dos arredores.

Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos cestos:

entregava-me a snr.ª D. Thereza, para guardar no meu mealheiro, estas

pequenas quantias, que reservei com muito cuidado para poder brindar a

snr.ª D. Thereza no seu dia natalicio.

Estava muito indecisa, por não saber o que lhe devia offerecer, e foi a

minha avó, que me suggeriu a idéa de lhe comprar um vestido. Para levar

a effeito este meu desejo combinei em segredo, com a costureira da snr.ª

D. Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha bemfeitora

não despresaria a minha offerta, se tivesse a felicidade de lh'a

apresentar.

Esta explicação, simples e clara, que demonstrava um coração sincero e

grato, fez borbulhar as lagrimas nos olhos de todos os circumstantes.

Devemos comtudo excluir d'este numero D. Euzebia, que presistia em negar

a verdade.

Quando se encontraram as duas inscripções, D. Euzebia chegou ao auge do

desespero e da colera, e de boa vontade as inutilisaria, se lhe fosse

possivel obtel-as á mão; mas, felizmente para Rosinha, não pôde

conseguil-o.

Finalmente, pelos cuidados e protecção do juiz eleito, Rosa e sua avó,

apesar de todos os obstaculos e vontade de D. Euzebia, receberam tudo o

que lhes pertencia, e deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais

cruel e mais requintada avareza as expulsava.

Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento · 第 64 / 70 题