Voltou a primavera e com ella as encantadoras occupações de Rosa. Foi
com enthusiasmo, que a candida e poetica criança encontrou as flôres,
suas amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no
mercado.
Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande extracção, como no
anno anterior. Ia entregal-os pessoalmente nas casas ricas, e muitas
vezes as senhoras morgadas, se julgavam felizes por ter em sua companhia
esta linda criança por algum tempo.
Rosa, vestida á lavradeira, era muito galante e modesta; o seu metal de
voz era agradavel, e as maneiras tão delicadas, que quasi sempre as
freguezas, ao preço do ramo, juntavam um presentinho para a vendedeira;
mas quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, respondia
sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se instruir.
Rosinha tinha uma paixão ardente pelo estudo; quasi sem mestre tinha
aprendido a lêr correntemente, e a sua maior alegria consistia em obter
um livro para se entregar á leitura.
D. Thereza pela sua parte tambem não obstava aos desejos de Rosa, tanto
que se lhe não dava que ella faltasse ás suas obrigações; mas devemos
fazer-lhe justiça dizendo que sabia alliar a satisfação dos seus
desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso só depois de ter
terminado os seus affazeres é que se dava ao estudo.
Estava Rosinha uma occasião sentada á borda d'um ribeiro, entretida a
colher juncos para fazer um cesto, quando, sem ella o presentir, se lhe
aproximou uma senhora ainda joven.
--Para que estaes escolhendo esses juncos, minha menina?--lhe disse a
joven senhora com modo affavel.
Rosa levantou a cabeça, e vendo a desconhecida, saudou-a e respondeu:
--Faço cestinhos com flôres para vender.
--Quero então já avaliar a vossa habilidade. Amo muito as flôres, por
isso queria que me fizesses um cestinho já, e se eu ficar contente
has-de-me fazer um todos os dias. Aceitaes?
--Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas encommendas a
satisfazer, vou já preparar o vosso.
--Assento-me aqui ao pé de ti e vamos conversando. Como te chamas?
--Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora.
--Assim, Rosa, o teu trabalho é fazer cestos de flôres para depois os
ires vender?
--Sim, minha senhora.
--E teus paes em que se occupam?
--Já não tenho paes; só me resta minha avó, que é cega.
--És orphã, e onde moras?
--Estou em casa da snr.ª D. Thereza de Sousa, proprietaria em S. Cosme,
tão boa, como rica.
Ha um anno, que eu e minha avó não sabiamos aonde nos haviamos de
recolher; estavamos em Dezembro, e havia dous dias que não tinhamos
comido, quando de repente me lembrei da snr.ª D. Thereza. Eu e minha
avó, que então moravamos na serra de Vallongo, pozemos-nos a caminho
para S. Cosme. O caminho é muito mau, por isso mais d'uma occasião
julguei que minha avó ficava na estrada, porque já não podia andar; mas
o Senhor teve misericordia de nós, e felizmente terminamos a jornada. A
snr.ª D. Thereza tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos em sua
casa, apesar de sermos um encargo muito pesado.
--Amas então muito a snr.ª D. Thereza?
--Se a amo. Não queria mais nada, senão poder reconhecer todo o bem, que
nos faz. Não desejo senão crescer e robustecer para lhe poder servir
d'utilidade.
--Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir fallar assim. Quando
te vi senti-me attrahida para ti, e ficaria muito desgostosa se te não
encontrasse com sentimentos dignos da estima que te consagro.
Parece-me que o meu cesto está acabado?
--Ainda lhe falta uma cercadura de _não me deixes_. Permitti, senhora,
que eu vá ao proximo ribeiro colher estas flôres, porque alli as ha mais
frescas, e em mais abundancia.
--Ide, que aqui te espero.
Rosa partiu correndo.
D. Julia d'Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida de D.
Thereza, tinha vinte annos.
O cabello preto muito comprido, e naturalmente encaracolado, fazia-lhe
sobresahir ainda mais a pallidez do rosto. Os olhos castanhos tinham um
brilho de febre. A physionomia demonstrava um padecimento interno, n'uma
palavra, estava affectada d'uma tisica pulmonar.
Sua mãi, a viscondessa do Candal, receiando pela vida de D. Julia, tinha
consultado os mais acreditados medicos de Lisboa e Porto, e todos tinham
aconselhado os ares do campo, e o não constrangimento, como os meios
mais proficuos para debellar a molestia. A viscondessa tinha portanto
deixado o Porto e ido habitar com suas filhas D. Julia e D. Bertha uma
quinta proximo da serra de Vallongo.
D. Julia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a cercava.
Todos os dias dava grandes passeios, e distrahia-se ou sentando-se á
sombra dos carvalhos e sobreiros, ou embrenhando-se entre as çarças. Ao
principio a viscondessa receiou que estes passeios tão longos
prejudicassem a saude de sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais
vigorosa, e que se a pallidez não tinha desapparecido, a expressão
soffredôra do rosto era menos pronunciada, ficou mais socegada e esperou
obter o triumpho sobre a molestia.
D. Julia era tão boa, e ao mesmo tempo tão prudente, que sua mãi não
temia deixal-a em plena liberdade, e gosar da vida segundo as suas
phantasias.
A viscondessa queria que D. Bertha acompanhasse sua irmã nos seus
passeios; mas D. Bertha, que era uma joven de 16 annos d'idade,
orgulhosa do seu nascimento e belleza, recusou obstinadamente acompanhar
sua irmã, dando como razão, que lhe repugnava o juntar-se como ella com
esses _estupidos_ e _rudes_ aldeãos, que habitam os campos, e a quem
ella acariciava, e que além d'isso estragava os seus vestidos seguindo
D. Julia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos e da serra. As
mil vozes da natureza eram mudas para D. Bertha; no seu coração só
imperava o egoismo.
Num d'estes passeios é que D. Julia encontrou Rosinha, e que ficou
encantada com a sua innocencia.
Havia muito que D. Julia esperava Rosa, e já receava que ella não
voltasse, quando a viu vir correndo.
--Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo, mas eu fui
muito longe colher as violetas e os _não me deixes_, porque queria que o
meu cestinho vos agradasse.--Assim fallando Rosa apresentou a D. Julia
um cestinho, que era um primor d'arte no gosto, e esperou toda confusa,
a sua apreciação.
Uma alegre exclamação de D. Julia lhe fez vir o sorriso aos labios.
--Quero abraçar-te, minha querida menina; ha muito tempo que não vi nada
tão lindo, e como me causaste um grande prazer, quero recompensar-te;
mas deixa-me ainda admirar o teu bello trabalho.
Este cestinho podia vêr-se. No centro tinha raminhos de violetas com as
folhas verdes, ainda humidas; uma corôa de lirios cercava as violetas, e
em volta uma grinalda de musgo, semeada de raminhos de rosas amarellas e
geranios. Dous ramos de madre-silva serpenteavam por entre os juncos
formando as azas.
--Não quero--disse D. Julia, depois d'alguns instantes de silencio--que
uma obra tão bella tenha um viver ephemero; vou já bordar um quadro,
cópia d'este cestinho, que ha-de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto
queres por este trabalho?
--Dar-me-ha o que quizer, minha senhora, como costumam fazer as outras
minhas freguezas.
--Mas quanto é que custam ordinariamente?
--Tres ou quatro vintens.
--Quatro vintens!--disse D. Julia admirada.
--Acha caro, minha senhora?--disse Rosa com acanhamento.
--Caro, não, minha pequena. Quando estava no Porto pagava, por muito
maior preço, ramos que tinham muito menos valor, que o teu cestinho.
Toma, Rosinha, não tenho aqui senão esta meia corôa, mas amanha a esta
hora apparece aqui, e fallaremos...
--Não posso aceitar o que me dáes, minha senhora, porque é muito.
--Queres fazer-me zangar?
--Não, senhora. É a primeira vez que a vejo, mas já a estimo muito. Eu
não preciso de nada; a snr.ª D. Thereza é muito minha amiga e...
--Não é uma esmola que te dou--replicou D. Julia, mettendo a moeda de
prata na mão de Rosinha--não te esqueças da recommendação, que te fiz,
de estares ámanhã aqui a esta mesma hora.
E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Julia tinha
desapparecido, levando na mão o cestinho.
Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeçou
ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D.
Thereza o seu encontro de pela manhã, o que lhe tinha acontecido e
perguntou-lhe se devia ou não guardar os cinco tostões.
--Não te authoriso a pedir, Rosa, mas isso não é uma esmola, é um
presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te.
Já sei. Esse dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro,
com o qual te hei-de comprar um rico jaqué para o S. Miguel.
--Não, senhora--replicou Rosa com a alegria nos olhos--não é esse o meu
pensamento, e que me causa tanta alegria.
--Que é então?
--Rogo-vos que me não façaes perguntas; depois o sabereis.
--Guarda o teu segredo, porque sei que não és desgovernada, e que o não
has-de gastar mal gasto.
Rosa abraçou ternamente D. Thereza, e foi entregar as suas encommendas
de flôres e cestos.