D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha
determinado.
A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no
caminho, ao encontro de sua filha.
--Estiveste incommodada, minha filha?--lhe disse ella.
--Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, é que foi a causa
da minha demora.
E D. Julia mostrava a sua mãi o cestinho, que Rosa tinha feito.
--Como é lindo--respondeu a viscondessa--Não sabia Julia, que tinhas a
prenda de fazer cestos de juncos entrançados.
--Não fui eu que fiz este cestinho, minha mãi.
--Então quem foi?
--Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.
--Uma lavradeira?!
--Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãi, que por todo este
trabalho me pediu a grande quantia de quatro vintens?
--Não te pergunto quanto lhe déste, por que conheço a bondade do teu
coração, e tenho a firme convicção de que não abusaste da sua
simplicidade.
--Dei-lhe só meia corôa, por que não tinha mais na minha bolsinha. Não
queria recebel-a, ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz
que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim
se chama) para nos encontrarmos ámanhã, no mesmo sitio, á mesma hora; e
se ella, como penso, fôr digna da sympathia, que me inspirou, e do
interesse que já me causa, consentir-me-heis, minha boa mãi, que a tome
sob a minha protecção?
--Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e distracção. Se a
tua protegida fôr digna dos nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e
accordaremos no que devemos fazer para seu bem.
D. Julia abraçou com ternura a viscondessa, e agradeceu-lhe a sua
bondade.
N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa.
D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e
correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavallete, pinceis e
tintas para dar principio ao quadro projectado, e, tendo tudo disposto,
desceu á sala a buscal-o.