IV.

Rosa, ainda que novinha e de fraca organisação, tornou-se util em casa.

Incansavel no trabalho, de manhã cedo tratava da capoeira e do pombal;

depois ia guardar os bois e os carneiros, e, em quanto que os vigiava,

fiava na sua roca.

Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era um gosto

vêr esta criança tão tenrinha arrumar, limpar e lustrar os moveis, como

o faria a melhor mulher de casa.

D. Thereza cada vez mais estimava a sua protegida, e felicitava-se pela

ter recolhido. A avó tambem não era inutil. A cegueira não a

impossibilitava de fiar desde pela manhã até á noite, e o seu trabalho

era perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e satisfeitos.

Chegou a primavera. Começaram a desabrochar com o tepido sôpro d'esta

estação, e mostraram as suas galas, a bella pervinca azul, o narciso de

corôa d'ouro, o lyrio de campanas odoriferas, e a bella violeta de

calices perfumados.

Rosa, quando ia á serra, era para ella um dia d'alegria. Procurava os

caminhos tapetados de musgo, os regatos, que tantas vezes tinha passado,

as fontes escondidas pelas çarças, e as arvores, sob as quaes tinha

encontrado as mais lindas flôres. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz

na serra, do que nos campos da quinta; a todo o momento parava extasiada

diante das bellezas da natureza, e cada sitio novo, que achava, era como

se fosse um amigo. Quando o socego voltava, depois d'esta alegria e

animação, esta poetica criança fazia cestinhos de vimes e juncos, que

guarnecia com musgo e flôres silvestres, mas com um gosto e belleza

exquisito, os quaes D. Thereza mandava vender, dando sempre bom preço.

Ganharam renome os cestos de Rosa.

Em todas as quintas e casas ricas dos arredores não queriam outros, e

até muitas familias da cidade, que iam passar o verão áquelles sitios,

compravam e procuravam com avidez os cestos d'esta gentil ramalheteira.

D. Thereza, como mulher que comprehendia os seus interesses, entendeu

que lhe era de mais proveito o empregar Rosa, durante a primavera, a

fazer cestos e ramos, do que na quinta, por isso assim o determinou.

Quando Rosa o soube, saltou d'alegria, por que se dava melhor á sombra

dos pinheiros e carvalhos, do que em casa.

Passou-se assim o verão, e D. Thereza não teve que se arrepender da sua

resolução. Um certo numero de meias corôas de prata provou o bom

resultado do negocio de cestos e flôres.

O inverno pareceu triste e monotono a Rosa. Tinha-se habituado de tal

maneira a ir todas as manhãs para a serra, que chegava muitas vezes a

esquecer-se do trabalho, e ir insensivelmente até á baixa d'ella.

Voltava então muito apressada á quinta e redobrava d'actividade, para

fazer esquecer as suas faltas involuntarias.

Occupou-se a fiar quasi todo o inverno, e o producto do seu trabalho foi

augmentar o pequeno thesouro principiado com a venda dos cestos e

flôres.

D. Thereza considerava Rosa como sua filha, não podendo estar sem ella

um unico instante, e nos dias de feiras e romarias tinha gosto em que

Rosa apparecesse entre as mais lindas e mais ornadas lavradeiras do

lugar.

A amisade, que tinha a Rosa, reflectia-se na avó; tratava-a com tal

respeito e affabilidade, que a poderiam tomar por mãi de D. Thereza,

tanto ella a cercava de cuidados e desvelos.

A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa poder-se-iam

julgar seguros; mas como nada n'este mundo é immutavel, o momento, em

que a adversidade ia estender o seu braço de ferro sobre as duas

infelizes, não estava longe.

Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento · 第 55 / 70 题