As prelecções de historia antiga que padre João fizera, desde o Porto
até casa, não tocaram o juizo nem o coração de Jorge; mas as singelas
palavras da indulgente mãi, e as caricias dos irmãos, acalmaram algum
tanto a febril paixão do academico. D. Antonia, de proposito, passou com
o filho no adro da igreja rural, quando, ao fim da tarde, se celebrava
dentro um baptisado. Entraram na modesta igrejinha, e foram ajoelhar no
arco. A viuva, depois que orou, foi sentar-se n'um banco tosco da
capella-mór, e chamou para junto de si o filho.
--Senta-te aqui, Jorge;--disse ella--quero fallar com o meu filho ao pé
da sepultura de seu pai. Não a esqueceste ainda, pois não?
Jorge desceu a vista sobre uma das lages que formavam o estreito
pavimento da capella-mór. D. Antonia continuou:
--Tenho fé em que o meu coração n'este lugar, onde ha cinco annos venho
chorar todos os dias, te saberá dizer o que teu bom pai te diria, filho.
Se Deus me não fizer o milagre de ajuntar ao teu espirito mais dez
annos, serão perdidas as minhas consolações, e tu as tomarás como
conselhos importunos...
--Não, minha mãi...--atalhou Jorge, commovido pelo terror santo do
local, e pela imagem de seu pai, em cuja fronte morta elle dera um beijo
cinco annos antes--os seus conselhos...
--São conselhos de mulher, conselhos de mãi, que quer desterrar da tua
alma lembranças d'outra mulher que me rouba o coração de meu filho. Deus
levou-me teu pai, Jorge; e Deus não me podia enganar quando d'aquella
tribuna, estando eu ajoelhada sobre esta lousa, me dizia que a
compensação da boa alma que chamou para si, eras tu. Lembras-te d'uns
beijos fervorosos que eu te dava, quando erguias as mãos ao pé de mim
n'este mesmo sitio? Não te deixava eu a face molhada de minhas lagrimas,
Jorge? Lembras-te?
--Lembro-me, minha mãi... E porque está chorando agora?--disse
compadecido o moço.
--Parece-me que é saudade das dôres de então, filho... As de hoje são
inconsolaveis... Nunca tive orgulho peccaminoso, Deus sabe que não; mas
orgulho do meu dominio no teu animo, Jorge, tinha-o muito grande; e
agora vejo que pequeno valor tem o dominio de mãi, logo que um acaso
infeliz depara aos dezoito annos de uma criança os affectos verdadeiros
ou simulados da mulher que nunca se viu, nem conheceu nos brinquedos da
infancia. Isto é triste! A natureza poderá justificar este vulgar
infortunio; mas a piedade e o dever choram-se, e não ha razão que
convença uma mãi a conformar-se com a desvalia em que tu tiveste os meus
rogos durante tres mezes.
--Eu não desvaliei os seus mandados, minha mãi--disse Jorge em tom de
carinhosa submissão--Havia uma corrente invencivel que me prendia á
desgraça...
--E partiu-se essa corrente, filho?... O teu silencio diz-me que não...
Olha, Jorge... se essa mulher fosse digna de ti, eu dizia-te que me
trouxesses para casa mais uma filha; se ella fosse virtuosa e pobre,
seria um thesouro, na nossa casa onde sobra o necessario; se fosse rica
e creada nas regalias da sociedade, aconselhava-te que a não
sacrificasses á nossa solidão e pobreza comparativa; mas, filho, essa
menina, que te enganou o coração, não tem virtudes que suppram a
riqueza, nem a riqueza que possa compensar o coração estragado e sem
escrupulos do homem, que não és tu, mercê do Senhor! Antes de teu tio ir
ao Porto, já eu sabia, meu filho, quem era Silvina. Nada disse ao padre
do que sabia, quando lhe pedi que fosse em meu nome pedir-te que viesses
para nós, que te choravamos. Tu sabes que eu tive uma companheira no
convento de Braga, menina de muitas virtudes, que mereceu a Deus casar
com um negociante do Porto. Foi a ella que eu escrevi pedindo-lhe
informações da tua vida, e não se demoraram. O marido d'esta senhora
procurou-te varias vezes, e nunca pôde encontrar-te. Andavas perdido na
tua cegueira, meu pobre filho! Abre os olhos da tua alma, e attenta nas
lagrimas da pobre mãi que não póde contar com o amparo de tres meninas,
nem ellas contam com outro amparo senão o teu. Não achas tanta gente boa
a pedir-te amor, filho? Tudo nos queres tirar a nós para o atirar aos
pés de uma mulher que d'aqui a um anno será na tua memoria apenas um
remorso, senão fôr antes uma vergonha?
--Uma vergonha!... atalhou Jorge, mais ferido na vaidade que
surprehendido da qualificação.
--Pois qual é o nome que dá o mundo ás paixões que humilham os que as
soffrem, e mortificam uma familia que não espera d'ellas senão
amarguras, desgraças, e abysmos?! Jorge, meu querido filho, faz um
esforço de vontade! Vence-te, que podes. Ajuda a efficacia das minhas
orações. Em nome d'estas cinzas queridas, peço-te em nome de teu pai,
que tantas vezes me disse, quando te via triste, aos quatorze annos;
«não tires da tua vista este menino, que ha-de perder-se, se entrar no
mundo, d'onde me eu salvei com o teu amor»; é teu pai que te pede pela
minha bocca, Jorge, esquece essa mulher; não lhe escrevas, os teus
amigos que te não fallem d'ella; absorve-te no meu amor; folga com a
innocencia de tuas irmãs: volta a Coimbra quando o desejo do estudo
renascer no teu animo socegado; entrega-te de novo aos teus prazeres da
caça; restaura a tua saude, que trazes tão quebrantada; eu pedirei aos
amigos da nossa casa que a frequentem mais a miudo; teu tio ha-de saber
conversar com o teu espirito instruido; compra os livros que quizeres;
satisfaz todos os caprichos que te não arruinem a saude nem a alma; tens
a duas leguas d'aqui uma villa onde ha sociedade, e familias que te
estimam. Lucta, filho, deixa triumphar tua mãi do prestigio d'essa
mulher, que nunca te deu uma lagrima, nem sabe o travor das que tu me
tens feito chorar...
--Basta, minha mãi--murmurou Jorge, levando aos labios a mão tremula da
magoada senhora--Luctarei, e... morrerei, se não vencer.
--Vences, filho, vences! exclamou D. Antonia com a vehemencia da sua fé
e da sua razão.--Vences, porque Deus não dá ás más paixões o poder de
matarem uma creatura, que póde desafogal-as nos braços de sua mãi.--E
erguendo as mãos para o altar, disse com a voz convulsiva--Graças, meu
Redemptor!
Anoitecera. Padre João, que era o vigario da freguezia, andava
discretamente passeando no adro, e entretendo os sobrinhos para não
interromperem a pratica, cujo assumpto elle adivinhara. D. Antonia
ergueu-se, tomou a mão do filho, e sahiu da igreja. No adro, estavam
brincando as tres irmãs de Jorge, a mais velha das quaes tinha nove
annos, e o irmão mais novo que nascera depois da morte de seu pai.
Saltaram os mais novos aos abraços á mãi, e as duas meninas ao pescoço
de Jorge, com grande alarido. Sentou-se elle nos degraus do cruzeiro do
adro, e tomou para sobre os joelhos as duas meninas, que á fina força
queriam ennastrar-lhe nos cabellos as suas rozas brancas. D. Antonia
contemplava o grupo com o semblante banhado de alegria. O egresso,
debruçado sobre a parede baixa que contornava o adro, fallava com o
mordomo da festa de S. Sebastião ácerca do numero de padres e do
prégador que devia chamar. Os meninos mais novos já tinham largado a mãi
para apedrejarem as andorinhas que chilreavam em redor do campanario,
cuja sineta unica era movida debaixo por um cordel, que os pequenos a
muito custo respeitavam por alli estar o tio padre.
Resolvido o negocio da festividade do orago, padre João tirou pela
corda, e tocou as nove badaladas das Ave-Marias. Todos ergueram as mãos,
e resaram em voz alta. «Ora, Deus nos dê boas noites.»--Disse o padre.
Rodearam-no os meninos a beijar-lhe a mão, e Jorge tambem depois que sua
mãi lhe deu a fronte.
Terminado este lance, cuja poesia santa não ha pedil-a a corações que
deram com ella no pégo da lama brilhante onde dizem que a poesia está,
Jorge Coelho fitou os olhos no occidente, e reconheceu o anoitecer dos
seus dias passados; viu o boleado pardacento das serranias longiquas que
lhe estavam redizendo os pensamentos da sua infancia; ouvia ainda as
vibrações do sino que repicava no baptisado de seus irmãosinhos, e
dobrára na morte de seu pai, reconcentrou-se; sentiu uma secreta
amargura que não era angustia de saudade, nem pavor de previsões
afflictivas... Que era, pois, esse vulto lá muito ao longe, ao pé
d'aquella myriada de estrellas que repontava na cumieira da montanha?
Era a imagem de Silvina ainda perto do céo, porque de lá vinha cahindo,
bella como os anjos que lá nasceram; e, rebeldes á piedade, á virtude, á
suprema graça, aqui se despenham, e despenhados vencem ainda disputando
ao Senhor as almas immaculadas. Era Silvina, toda de festa e risos,
reptando-o á lucta com um sorriso affrontoso, e esgares de escarneo ao
protesto santo jurado sobre a sepultura d'um pai, e assellado com
lagrimas de mulher sem macula. Era a visão maldita, a fada inexoravel
dos que vem a esta hecatomba, predestinadas victimas, que o mundo
sacrifica e cospe.
Era Silvina, sempre Silvina, a dizer-lhe:
«Que mulher viste mais linda que eu!? Quem te deu philtros de mais
saborosa peçonha!? Vê se te sorriem uns labios com mais dôces favos de
phrases que assignalaram a mais bella hora da tua vida!»
Meu pobre Jorge Coelho! Tua mãi não te salva d'esse captiveiro. Teu pai,
esse resgatava-te, se te désse um lugar no seu leito!... _É intransitivo
o calix!_