A primeira carta de Leonardo Pires ao condiscipulo dizia que Silvina ia
todos os dias á Foz de carroção, e almoçava bifes e fiambre no hotel
inglez. Ajuntava a isto o picaresco informador que a menina usava de
anquinhas no vestido de banho, e fazia de nereida saracoteando-se na
agua, requebrando-se em risos e ditos galanteadores aos tritões de baêta
azul que a rodeavam, e sahindo dos braços de Neptuno mui peneirada aos
saltinhos pela praia, que eram umas delicias vêl-a. Dizia mais, que
Francisca da Cunha, ao sahir do banho, era uma cousa desazada como perua
que saltasse de um tanque a escorrer agua. Este era sempre o estilo do
fidalgo da Maya. Rematava dizendo que o morgado de Santa Eufemia fazia
todos os dias a Silvina o sacrificio de se lavar no oceano, dando
grandes urros, e devorando bois assados no hotel da Boa-vista.
Jorge Coelho tragou este veneno, e odiou o amigo que sem piedade lh'o
vasava no coração. O innocente esperava que Leonardo lhe enviasse, senão
uma carta, ao menos palavras consolativas de Silvina, incentivos
apaixonados á esperança, lagrimas de saudade e protestos de firmeza
eterna.
Na segunda carta dizia Leonardo Pires que tendo elle azo de encontrar-se
com Silvina na calçada dos Clerigos, na loja do snr. Antonio das
Alminhas, lhe fallara de Jorge, contando-lhe o motivo da sua repentina
partida para a provincia, com o que a boa da menina se rira grandemente,
dizendo que seria muito de receiar que o tio padre trouxesse uma
palmatoria debaixo da sotaina. A isto respondera Leonardo--e não
duvidamos acredital-o--que Jorge devéras merecia meia duzia de
palmatoadas, quando sahiu do baile da assemblea, apaixonado por um anjo
que fizera presente das suas azas á gravata do morgado de Santa Eufemia.
E como quer que Silvina redarguisse com voltar-lhe as costas, Leonardo
fôra fallar a Francisca da Cunha que estava á porta do snr. Antonio das
Alminhas, conversando amores com um linheiro das Hortas, o qual linheiro
lhe estava dizendo que o dia estava muito bonito.
Jorge Coelho respondia a estas cartas sem fallar de Silvina, e dizendo
pouco de si. Divagava por assumptos tristes, dissabores da vida que em
seu começo tropeça na desgraça; rebates de saudade d'um tempo que mais
não voltaria; os encantos perdidos do céo, das arvores e das montanhas
que elle amara tanto; a magia do viver em familia despoetisada; o
coração desaffeito das caricias maternaes e já insensivel ao sabor
d'ellas; longos dias, sem um sorriso, encadeados a noites desveladas
sobre livros em que elle, como Hamlet, não via senão _palavras_,
_palavras_, _palavras_.
Na terceira carta dizia Jorge ao seu amigo que talvez não fosse a
Coimbra, porque a saude lhe minguava com a vontade, e a perspectiva da
morte era a visão mais risonha que o visitava ao cahir da folhagem dos
seus bosques, onde elle passava os dias com um anjo de nove annos, a sua
irmã Angela.
D. Antonia não entendia o filho. Via-o triste; mas triste o vira sempre
desde criança. Espreitava-o de noite no seu quarto, e achava-o sempre
com os cotovêlos na mesa de estudo, o rosto entre as mãos, e um livro
aberto. Se o interrogava ácerca da sua saude, Jorge respondia sempre que
não soffria senão o mal-estar da sua doentia imaginação. A mãi, fiada em
suas orações, esperava o melhor, e agradecia já a Deus a cura completa
de seu filho.
Padre João, porém, via mais de perto o fio ás cousas.
--O rapaz come muito pouco!...--dizia o sagacissimo egresso á
cunhada--Não nos fiemos n'aquelle exterior pacifico, mana. Alli ha
amargura secreta enfronhada n'uns ares de serenidade, que não é
d'aquelles annos. Jorge está magro, macilento, e não dorme. Debaixo da
janella d'elle encontro a miudo muito papel rasgado. Já pude concertar
uns pedacinhos, e lá encontrei o nome da fada má, que nos ha-de perder
Jorge.
--Perder!... não diga tal, mano João!--exclamou a viuva, estorcendo os
dedos, e já com as lagrimas, a fio.
--Perder, sim!... Mana Antonia, eu já tive vinte annos, e entrei no
mosteiro aos trinta e dous... Vou aconselhal-a. Quer resgatar o seu
filho das ciladas da sereia?... Olhe que só Ulysses venceu uma vez
sereias. Que me conste; desde Ulysses até nós, as vencedoras são ellas
sempre, quando as victimas as não podem examinar de perto, e vêr que
ellas escondem na agua a metade monstruosa do corpo. (A erudição
mythologica do padre nem D. Antonia poupava!)
--Então que conselho me dá, mano?--atalhou a senhora.
--Quando Jorge der signaes de doença grave, quando uma ponta de febre
lhe accender as faces, mande-o para o Porto.
--Para o Porto?! Que desproposito é esse!?
--Deixe-o ir examinar de perto o monstro. Deixe-o cahir na conta da sua
indigna paixão. Deixe-o ir ouvir o descredito da tal mulher. Ha mulheres
como a lança de Pélias: curam a ferida que fazem. Eu já me arrependi de
obedecer aos rogos da mana. Jorge devia deixar o Porto espontaneamente.
Logo que eu sube que mulher era a tal Silvina, devia abandonal-o a elle
á miseria da sua illusão. A esta hora estava elle talvez desenganado.
Sabe porque? Aqui tenho uma carta do negociante Ferreira, casado com a
sua amiga do convento. Diz-me que Silvina arranjara a final um
brazileiro millionario, tão monstruoso em corpo como ella é monstruosa
na alma. Se Jorge estivesse a esta hora no Porto, cercado de homens que
fazem zombaria das affeições serias e das ridiculas, curava-se. Aqui, se
lhe eu annunciar as baixezas da Circea que o bestificou, não me
acredita; e, se me acreditar, não temos balsamo que lhe feche a chaga;
verá que elle a rasga mais com as suas proprias unhas, Mana Antonia, o
meu parecer é este. Não me argumente, que não sabe, nem póde. Se a sua
vontade fôr outra, lavo d'ahi as minhas mãos...
D. Antonia foi direita ao quarto do filho, e entrou de sobresalto.
Surprehendeu-o a escrever. Jorge fez um gesto machinal para entremetter
n'outros papeis a folha em que escrevia.
--Escondes de mim o que escreves, filho?--disse D. Antonia, com magoada
brandura.
--Não, minha mãi, não escondo...
--Pois eu não vi?!--tornou ella, sorrindo tristemente.
--São cartas para os meus condiscipulos.
--Deixas vêr-m'as, Jorge? Que poderás tu dizer aos teus amigos, que não
dissesses a tua mãi?! Fallas das tuas amarguras? Conta-m'as tambem a
mim.
--Eu não fallo de amarguras, minha mãi--disse Jorge, erguendo-se, para
afastar a mãi da banca.--Communico a um amigo os meus estudos, as minhas
impressões de leitura, cousas que não podem recrear uma senhora...
--Assim será, Jorge... Tu nunca me mentiste, nem mentirás, pois não?
Jorge guardou escrupuloso silencio, respondendo com um tregeito, que
valia tanto como a supplica de perdão.
N'este momento, apeava no pateo um cavalheiro da villa proxima, que
vinha visitar o academico. Jorge foi logo á sala, a mãi acompanhou-o até
fóra do quarto; e retrocedeu a examinar os papeis, logo que o viu
entretido. Foi fácil estremal-o dos outros pela frescura da tinta. No
alto da folha, leu estas palavras: «AO ANOITECER DA VIDA.» Depois seguia
assim:
«Vou d'este mundo, quando custa morrer aos que se estorcem entre uma
saudade e uma esperança. Saudade! de que hei-de eu tel-a?! E que posso
esperar? Quem me dera já as trevas! Esta luz, que me alumia, é ainda a
d'aquelle clarão infernal do baile. Queria fugir de mim proprio, como de
um inimigo. Não me has-de tu matar, paixão! Morro porque não podia
viver. Se não fosse aquella mulher, era outra. Eu vejo e palpo a morte
ha muitos annos. A fugir da morte, refugiei-me no coração de Silvina.
Porque me disse ella: «no mundo deve existir a imagem da mulher digna de
senhorear-lhe a alma com a de sua mãi, cuja face eu beijaria com
respeito e ternura de filha?» E como Deus pôde crear no coração humano
para zombaria pensamentos assim! Á mulher infame devia morrer a memoria
das palavras com que se exprime a virtude... Sinto-me tranquillo... A
compensação dos affrontados é esta. No mal e no bem te reconheço,
Providencia Divina!... Mas o mal para que é? Se é necessaria na ordem do
mundo a ignominia, a crueza, a infamia, a desgraça, fôra digno da
perfeição divina deixar ás almas inculpadas o galardão de não sentirem a
absurda justiça do Creador.
«Que és tu, bem? que és tu, virtude?... que és tu...»
Aqui fôra interrompido Jorge pela subita entrada da mãi.
D. Antonia quasi não entendera o escripto; mas algumas palavras, as do
titulo só, bastaram a compenetral-a de consternação e terror. Ouviu os
passos de padre João, chamou-o anciada, e mostrou-lhe o papel. O egresso
leu, e respondeu risonho:
--Não tem de que se lastimar por em quanto, minha irmã. Isto é um
accesso de febre; mas não me assusta; o que eu receio é a outra que não
interroga a Providencia, e obriga o enfermo a inclinar a face para o
seio, e esperar resignadamente a morte. Vá á sala, que o hospede quer
comprimental-a.