XV.

A primeira carta de Leonardo Pires ao condiscipulo dizia que Silvina ia

todos os dias á Foz de carroção, e almoçava bifes e fiambre no hotel

inglez. Ajuntava a isto o picaresco informador que a menina usava de

anquinhas no vestido de banho, e fazia de nereida saracoteando-se na

agua, requebrando-se em risos e ditos galanteadores aos tritões de baêta

azul que a rodeavam, e sahindo dos braços de Neptuno mui peneirada aos

saltinhos pela praia, que eram umas delicias vêl-a. Dizia mais, que

Francisca da Cunha, ao sahir do banho, era uma cousa desazada como perua

que saltasse de um tanque a escorrer agua. Este era sempre o estilo do

fidalgo da Maya. Rematava dizendo que o morgado de Santa Eufemia fazia

todos os dias a Silvina o sacrificio de se lavar no oceano, dando

grandes urros, e devorando bois assados no hotel da Boa-vista.

Jorge Coelho tragou este veneno, e odiou o amigo que sem piedade lh'o

vasava no coração. O innocente esperava que Leonardo lhe enviasse, senão

uma carta, ao menos palavras consolativas de Silvina, incentivos

apaixonados á esperança, lagrimas de saudade e protestos de firmeza

eterna.

Na segunda carta dizia Leonardo Pires que tendo elle azo de encontrar-se

com Silvina na calçada dos Clerigos, na loja do snr. Antonio das

Alminhas, lhe fallara de Jorge, contando-lhe o motivo da sua repentina

partida para a provincia, com o que a boa da menina se rira grandemente,

dizendo que seria muito de receiar que o tio padre trouxesse uma

palmatoria debaixo da sotaina. A isto respondera Leonardo--e não

duvidamos acredital-o--que Jorge devéras merecia meia duzia de

palmatoadas, quando sahiu do baile da assemblea, apaixonado por um anjo

que fizera presente das suas azas á gravata do morgado de Santa Eufemia.

E como quer que Silvina redarguisse com voltar-lhe as costas, Leonardo

fôra fallar a Francisca da Cunha que estava á porta do snr. Antonio das

Alminhas, conversando amores com um linheiro das Hortas, o qual linheiro

lhe estava dizendo que o dia estava muito bonito.

Jorge Coelho respondia a estas cartas sem fallar de Silvina, e dizendo

pouco de si. Divagava por assumptos tristes, dissabores da vida que em

seu começo tropeça na desgraça; rebates de saudade d'um tempo que mais

não voltaria; os encantos perdidos do céo, das arvores e das montanhas

que elle amara tanto; a magia do viver em familia despoetisada; o

coração desaffeito das caricias maternaes e já insensivel ao sabor

d'ellas; longos dias, sem um sorriso, encadeados a noites desveladas

sobre livros em que elle, como Hamlet, não via senão _palavras_,

_palavras_, _palavras_.

Na terceira carta dizia Jorge ao seu amigo que talvez não fosse a

Coimbra, porque a saude lhe minguava com a vontade, e a perspectiva da

morte era a visão mais risonha que o visitava ao cahir da folhagem dos

seus bosques, onde elle passava os dias com um anjo de nove annos, a sua

irmã Angela.

D. Antonia não entendia o filho. Via-o triste; mas triste o vira sempre

desde criança. Espreitava-o de noite no seu quarto, e achava-o sempre

com os cotovêlos na mesa de estudo, o rosto entre as mãos, e um livro

aberto. Se o interrogava ácerca da sua saude, Jorge respondia sempre que

não soffria senão o mal-estar da sua doentia imaginação. A mãi, fiada em

suas orações, esperava o melhor, e agradecia já a Deus a cura completa

de seu filho.

Padre João, porém, via mais de perto o fio ás cousas.

--O rapaz come muito pouco!...--dizia o sagacissimo egresso á

cunhada--Não nos fiemos n'aquelle exterior pacifico, mana. Alli ha

amargura secreta enfronhada n'uns ares de serenidade, que não é

d'aquelles annos. Jorge está magro, macilento, e não dorme. Debaixo da

janella d'elle encontro a miudo muito papel rasgado. Já pude concertar

uns pedacinhos, e lá encontrei o nome da fada má, que nos ha-de perder

Jorge.

--Perder!... não diga tal, mano João!--exclamou a viuva, estorcendo os

dedos, e já com as lagrimas, a fio.

--Perder, sim!... Mana Antonia, eu já tive vinte annos, e entrei no

mosteiro aos trinta e dous... Vou aconselhal-a. Quer resgatar o seu

filho das ciladas da sereia?... Olhe que só Ulysses venceu uma vez

sereias. Que me conste; desde Ulysses até nós, as vencedoras são ellas

sempre, quando as victimas as não podem examinar de perto, e vêr que

ellas escondem na agua a metade monstruosa do corpo. (A erudição

mythologica do padre nem D. Antonia poupava!)

--Então que conselho me dá, mano?--atalhou a senhora.

--Quando Jorge der signaes de doença grave, quando uma ponta de febre

lhe accender as faces, mande-o para o Porto.

--Para o Porto?! Que desproposito é esse!?

--Deixe-o ir examinar de perto o monstro. Deixe-o cahir na conta da sua

indigna paixão. Deixe-o ir ouvir o descredito da tal mulher. Ha mulheres

como a lança de Pélias: curam a ferida que fazem. Eu já me arrependi de

obedecer aos rogos da mana. Jorge devia deixar o Porto espontaneamente.

Logo que eu sube que mulher era a tal Silvina, devia abandonal-o a elle

á miseria da sua illusão. A esta hora estava elle talvez desenganado.

Sabe porque? Aqui tenho uma carta do negociante Ferreira, casado com a

sua amiga do convento. Diz-me que Silvina arranjara a final um

brazileiro millionario, tão monstruoso em corpo como ella é monstruosa

na alma. Se Jorge estivesse a esta hora no Porto, cercado de homens que

fazem zombaria das affeições serias e das ridiculas, curava-se. Aqui, se

lhe eu annunciar as baixezas da Circea que o bestificou, não me

acredita; e, se me acreditar, não temos balsamo que lhe feche a chaga;

verá que elle a rasga mais com as suas proprias unhas, Mana Antonia, o

meu parecer é este. Não me argumente, que não sabe, nem póde. Se a sua

vontade fôr outra, lavo d'ahi as minhas mãos...

D. Antonia foi direita ao quarto do filho, e entrou de sobresalto.

Surprehendeu-o a escrever. Jorge fez um gesto machinal para entremetter

n'outros papeis a folha em que escrevia.

--Escondes de mim o que escreves, filho?--disse D. Antonia, com magoada

brandura.

--Não, minha mãi, não escondo...

--Pois eu não vi?!--tornou ella, sorrindo tristemente.

--São cartas para os meus condiscipulos.

--Deixas vêr-m'as, Jorge? Que poderás tu dizer aos teus amigos, que não

dissesses a tua mãi?! Fallas das tuas amarguras? Conta-m'as tambem a

mim.

--Eu não fallo de amarguras, minha mãi--disse Jorge, erguendo-se, para

afastar a mãi da banca.--Communico a um amigo os meus estudos, as minhas

impressões de leitura, cousas que não podem recrear uma senhora...

--Assim será, Jorge... Tu nunca me mentiste, nem mentirás, pois não?

Jorge guardou escrupuloso silencio, respondendo com um tregeito, que

valia tanto como a supplica de perdão.

N'este momento, apeava no pateo um cavalheiro da villa proxima, que

vinha visitar o academico. Jorge foi logo á sala, a mãi acompanhou-o até

fóra do quarto; e retrocedeu a examinar os papeis, logo que o viu

entretido. Foi fácil estremal-o dos outros pela frescura da tinta. No

alto da folha, leu estas palavras: «AO ANOITECER DA VIDA.» Depois seguia

assim:

«Vou d'este mundo, quando custa morrer aos que se estorcem entre uma

saudade e uma esperança. Saudade! de que hei-de eu tel-a?! E que posso

esperar? Quem me dera já as trevas! Esta luz, que me alumia, é ainda a

d'aquelle clarão infernal do baile. Queria fugir de mim proprio, como de

um inimigo. Não me has-de tu matar, paixão! Morro porque não podia

viver. Se não fosse aquella mulher, era outra. Eu vejo e palpo a morte

ha muitos annos. A fugir da morte, refugiei-me no coração de Silvina.

Porque me disse ella: «no mundo deve existir a imagem da mulher digna de

senhorear-lhe a alma com a de sua mãi, cuja face eu beijaria com

respeito e ternura de filha?» E como Deus pôde crear no coração humano

para zombaria pensamentos assim! Á mulher infame devia morrer a memoria

das palavras com que se exprime a virtude... Sinto-me tranquillo... A

compensação dos affrontados é esta. No mal e no bem te reconheço,

Providencia Divina!... Mas o mal para que é? Se é necessaria na ordem do

mundo a ignominia, a crueza, a infamia, a desgraça, fôra digno da

perfeição divina deixar ás almas inculpadas o galardão de não sentirem a

absurda justiça do Creador.

«Que és tu, bem? que és tu, virtude?... que és tu...»

Aqui fôra interrompido Jorge pela subita entrada da mãi.

D. Antonia quasi não entendera o escripto; mas algumas palavras, as do

titulo só, bastaram a compenetral-a de consternação e terror. Ouviu os

passos de padre João, chamou-o anciada, e mostrou-lhe o papel. O egresso

leu, e respondeu risonho:

--Não tem de que se lastimar por em quanto, minha irmã. Isto é um

accesso de febre; mas não me assusta; o que eu receio é a outra que não

interroga a Providencia, e obriga o enfermo a inclinar a face para o

seio, e esperar resignadamente a morte. Vá á sala, que o hospede quer

comprimental-a.

Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento · 第 26 / 70 题