O apostolico e dicasissimo padre João Coelho, desde Vallongo até
Amarante, excedeu-se a si proprio prégando ao sobrinho o melhor e a
maior parte do que disseram philosophos, santos padres, moralistas e
casuistas ácerca do amor mundanal e da mulher. Jorge não replicava, por
que o não escutava. O egresso, tomando o silencio como victoria, tirava
dos corollarios theses novas, que ia defendendo com tamanha profusão de
tiradas latinas que, a ser verdade o que elle disse abordoado a Seneca,
Santo Agostinho, Euzebio cezariense, e Bredembachio, o amor mundanal e a
mulher são cousas muito peores do que pensa o vulgar da gente. Padre
João não era erudito que sómente fizesse praça dos exemplos que
authorisa a historia. O pulso rijo da engenhosa memoria d'elle entrou
nas idades fabulosas e trouxe pelas orelhas certos heroes que os poemas
orphicos e os homeridas nos encamparam como sujeitos apresentaveis na
boa sociedade. Marte, segundo o padre, era um adultero; Apollo um
valdevinos que se andava lamuriando na piugada de Daphne; Hercules um
maricas que fiava de cocoras na roca de Omphale; as heroinas da odissea,
da iliada, e das tragedias de Eschylo um femeaço impudico e deslavado.
Do Olympo desceu padre João aos antigos imperios, e poz pelas ruas da
amargura Xerxes, Ciro, Dario, Holophernes, Absalão, Sichem, Salomão,
Herodes, Marco Antonio, e muitos outros que pelos modos não deram boa
conta de si, ou as mulheres não deram boa conta d'elles.
O leitor de certo se convertia ouvindo o egresso; mas Jorge Coelho ia
tão dentro em si, tão lacerado pelo abutre da paixão sem esperança, que
as palavras do douto velho lhe eram como esponja de fel e vinagre
espremida nas chagas. Pernoitaram na Amarante, onde chegaram ao fim da
tarde do segundo dia de jornada. Em quanto o egresso entrou no velho
templo a fazer oração a S. Gonçalo e visitar os cubiculos onde viveram
santos varões da sua creação, Jorge foi sentar-se á beira do Tamega, e
ahi rompeu em pranto desfeito, com os olhos postos nas ondulações das
serranias para além das quaes lhe ficava o Porto. O padre sahiu
indignado do mosteiro praguejando, menos evangelicamente que de seu
costume, contra o governo que permittia á municipalidade amarantina que
as vivandeiras do destacamento aquartellado nos dormitorios do mosteiro
dançassem ebrias e meio nuas a canna verde e a sirandinha no refeitorio
e na claustra. É de crer que as mulheres recebessem com galhofa o
egresso venerando, cujas botas de borla e chapéo tricorne deviam de
parecer cousa de entrudo ás bacchantes que a onda da civilisação
revessou no remanso dos monges, em quanto outra engolfou os monges no
porto suspirado da sepultura.
Ahi me vou eu sahindo com o impertinente vêzo de lastimar os frades!
D'esta vez hei-de represar a piedade com que n'outros livros tenho
desdourado, no conceito de muita gente, os meus altos espiritos de
operario que trabalha á candeia do seculo XIX. Que me importa a mim que
nos cubiculos do mosteiro de S. Gonçalo se alojem as vivandeiras do
destacamento, e que na claustra sobre as cinzas dos frades vão ellas,
repletas de vinho e despejo, dançar a sirandinha e a canna verde? Se eu
disser que no tempo dos frades não se viam semelhantes desacatos, hei
grande medo que me ponderem que outros desacatos mais attentatorios da
religião de Jesus ahi se viram no tempo em que os frades comiam no
refeitorio, e medravam nas cellas, onde agora coze o seu vinho o
mulherio da tropa. Se o padre João Coelho quizesse, esse é que podia
responder a preceito; mas, para bem do leitor, ninguem n'aquella hora se
lhe atravessou com argumentos, estando elle na estalagem da Amarante,
sentado no escabello, a dizer cousas de sorte magoadas, a respeito da
profanação do convento, que todo o auditorio chorava, sendo tres das
carpideiras as mais lubricas bailarinas da claustra.
Entretanto, Jorge escrevia a Leonardo Pires, dizendo-lhe que resolvera
não escrever a Silvina, em quanto lhe durasse a impressão amarga que
recebera das revelações do tio, impressão immorredoura, dizia elle.
Recommendava-lhe que se informasse da verdade d'aquellas revelações, e
sem piedade lhe transmitisse o excesso de peçonha que havia de matal-o.
Ajuntava elle que já não amava Silvina; mas que não podia despresal-a; e
que entre o amor e o despreso estava o odio, serpente insaciavel que se
lhe enroscara no coração.
Esta serpente de que se queixa Jorge Coelho é uma alimaria a que os
poetas de animo socegado chamam cupido, deus de Gnido, de Paphos, e Amor
em estilo chão. Permitte a rhetorica aos amadores enraivados denominar
serpente a cousa que d'um dia para outro se transforma em rola gemedora.
Não é raro encontrar sujeito que tem aninhado no seio um viveiro d'estas
serpentes, as quaes, depois de cuspirem a peçonha, n'uma carta arrufada,
em meia duzia de adjectivos azedos como malagueta, metamorphoseam-se em
pombal de candidissimas pombinhas que se catam e beijam umas ás outras
com langorosos requebros. Da metamorphose o que fica é a peçonha
instillada e derramada na circulação sanguinea. Na correnteza do tempo,
vem esta peçonha a consolidar-se no coração, e d'ahi procedem as
postemas, que degeneram em aleijões, commummente denominados
scepticismo, cynismo, devassidão, libertinagem, impudencia, e outras
molestias pegadiças. As rolas e as pombas, desde que o coração
inficionado as afugenta, passam para o dominio do estilo, e concorrem
para que no banquete d'um amor revelho, gotoso e glutão hajam sempre
aves.
Vem a pêllo fallar da gorda gallinha que padre João trinchou na
estalagem da Amarante, em quanto Jorge Coelho, recolhido ao seu quarto,
se atirava vestido sobre o leito abafando contra o travesseiro os
soluços da afflicção, que o egresso, tão de boa fé como crente na
efficacia da historia, julgára minorada com a quarta dissertação que
fizera ácerca do amor, segundo a carne, e nomeadamente do amor em Roma
na época dos Cezares.
Citou versos de Marcial e Juvenal, como prova de que o amor era mau em
toda a parte; e, sem elle querer, tambem provou que nas livrarias dos
mosteiros entravam livros de moralidade muito equivoca. A ultima these
de padre João Coelho assentava n'esta proposição de S. Paulo: «Quem não
ama está na morte;» mas tão engenhosamente o erudito frade torceu o bico
ao prego que as conclusões eram todas contra o baixo amor terreal, e
pregoeiras do amor divino, que elle orador por sua parte cumpria á
risca, sem embargo de se pascer em delicias na choruda gallinha, em
quanto o sobrinho abafava de dôr no quarto. Esta é a grande vantagem dos
que andam empinados em amores do céo, que nunca deixam de comer ás suas
horas, e de digerirem em regalados somnos a materia bruta que lhes não
pesa na consciencia. Não ha pois duvidar de Montesquieu (parece que foi)
que disse--que a religião christã, depois de nos felicitar n'este mundo,
nos segurava a felicidade do outro.
Padre João dormiu nos coxins macios da sua limpa consciencia; Jorge,
apenas o tio se fechou com o breviario, e adormeceu ao quarto psalmo
penitenciario (um egresso repleto de gallinha cozida a resar um psalmo
penitenciario! parece um paradoxo! Tomára eu saber se David compoz
aquellas lastimas antes que as caricias de Bethsabé o enfastiassem!)...
Estas incisões intermittentes hão-de perdoar-m'as os leitores que
souberem o que é escrever um romance n'um carcere, onde já não ha
carrasco, mas existe o espirito do carrasco identificado a uma cousa que
nós cá os assassinos e os salteadores denominamos as _authoridades_, que
medram no cêvo do erario, uns chamando-se procuradores do rei, outros
carcereiros, outros chaveiros, outros guardas, a mesma familia
representando o rei de theor e modo que fazem odiosa a palavra do
symbolo que lhes legitíma a crueza, a barbaridade que lhes tem
ladrilhado o coração, e muitas vezes a infamia que se abona com a
justiça, essa divina irmã dos anjos, que os cafres trazem tão nusinha e
pustolosa por sobre os esterquilinios d'elles.
Agora é que me eu perdi de todo... Perdido devéras andava aquelle pobre
Jorge Coelho, pelas ruas da Amarante em quanto o padre dormia o somno do
justo. Chegou á celebrada ponte, curvou-se no parapeito, e teve tentação
de precipitar-se. Foi instantaneo o accesso de loucura. Jorge viu a
imagem de sua mãi no scintillante reverbero da lua que se espelhava no
Tamega, Levantou os olhos para o céo, e disse:
«Ó Providencia Divina! leva esta dôr ao coração de minha mãi, para que
ella, a santa, peça por mim!»
Eram onze horas d'aquella formosa noite de Setembro. Soava apertada nos
rochedos a torrente, que scintillava em escamas de prata. De longe vinha
a toada soidosa d'uma flauta que tocava a chacara popular dos «Dous
renegados.» Jorge amava desde os doze annos os versos maviosos e
truculentos d'aquella canção de amor que chora como anjo e obsecra como
demonio. Proferiu a letra cadenciando-a com a flauta, e rematou
chorando, já não em ancias, mas suavissimamente, como se o espirito de
sua mãi lhe alcançasse do céo a mercê das lagrimas que desopprimem.
Um vulto entrou na extremidade direita da ponte: era uma das mulheres
que padre João vira com santa indignação, a tripudiarem sobre as ossadas
dos monges na claustra. Veiu direita a elle, e pediu-lhe uma esmola.
Jorge deu-lhe tudo quanto tinha. A mulher viu bastantes moedas de prata,
e, estupefacta ou douda de jubilo, nem se retirava nem agradecia.
--Vá-se agora, embora, mulher--disse Jorge, sem enfado, mas desejoso da
solidão que tão suave lhe estava sendo.
--O senhor dá-me este dinheiro todo?!--disse a mulher, que os homens
chamam perdida, e que não o estava, nem o podia estar aos olhos do seu
Creador.
--Dou, sim.
--Bem haja, meu senhor!--tornou ella, com lagrimas na voz--já tenho com
que ir para a minha familia. Eu sou uma desgraçada, que vim do Algarve,
ha tres annos, fugida a meus paes, com um rapaz meu parente, para
casarmos onde podesse ser. Elle requereu ao commandante; mas não teve
licença para casar commigo; eu depois fui lançar-me aos pés da senhora
do commandante, e consegui licença. Quando estavamos muito contentes,
mandei buscar a minha certidão e mais papeis á terra; mas disseram-me de
lá que nós eramos primos, e não podiamos casar sem dispensa. Não
tinhamos dinheiro para ella, e fomos vivendo até vêr se Deus dava
remedio. N'este entrementes, o meu primo namorou-se de outra, e
deixou-me a morrer á fome. Agora com este dinheirinho vou já amanhã para
o Porto, e de lá vou n'um hiate para Tavira, e vou botar-me de joelhos
aos pés de minha mãi.
--Pois vá, não mude de resolução, e faça por ser boa filha--disse Jorge
com maviosa caridade.
--O senhor será um anjo do céo?--disse a feliz creatura lavada em
lagrimas.
--Não sou anjo do céo, não... Vá com Deus.
A mulher retrocedeu, e foi ajoelhar diante de um antiquissimo retabulo
de granito em que na fachada do templo de S. Gonçalo sobresahem os
grosseiros relevos de uma Senhora com Jesus morto no regaço. Jorge viu,
ao clarão sereno da lampada que pende sobre a imagem, a mulher
ajoelhada. Banhou-se-lhe o espirito de um contentamento, que não poderia
existir na terra, se acima d'este tremedal, não velasse um Deus as
acções do homem que póde erguer-se do seu rasto até hombrear com os
anjos.
Entre Jorge e aquella peccadora que resava, avultou ainda a imagem da
mulher pura, a mãi, a santa, onde chegára talvez a revelação das penas
do filho. Silvina, n'esse momento, nada era na vida de Jorge. Nem a
poesia da paixão pôde disputar o espirito do mancebo á poesia da
caridade.
Entretanto, o varão justo, o padre João Coelho, acordava com a digestão
consummada, voltou-se para o outro lado, e reatou a nota quebrada de um
beatifico ronco.