VIII.

Tinha Leonardo Pires, á volta com muita pequice, assomos de brios

capazes de enganar a gente. Não levou em paciencia que os morgados

rissem do seu amigo. Encarou com ferocidade o de Matto-grosso, e disse,

estendendo o braço em attitude esculptural para o lado onde Jorge

estava:

--Aquella criança, que alli está, tem um dedo de homem, que faz recuar

perfeitamente o gatilho de uma pistola.

Os circumstantes algum tempo não tugiram. Se não fosse o melodramatico

da postura, a cousa não era para rir; mas a lentidão, com que Pires

desceu o braço, fez espirrar uma cascalhada universal, salvo Silvina que

arquejava em ancias de raiva.

Jorge conheceu que o escarneciam. Ergueu-se, veiu direito ao grupo,

accendeu o charuto no de Egas de Encerra-bodes, murmurou seccamente um

_obrigadissimo_, e foi saudar Silvina e Francisca com a desenvoltura

desacostumada que lhe dava agora o ciume e a ira.

Silvina, contente da façanha, deu-lhe lugar immediato no seu banco.

Porém, o pai de D. Francisca da Cunha, adivinhando tempestade nos

olhares coriscantes de Christovão Pacheco, ergueu-se, puxou para baixo

as pantalonas que tinham marinhado até meia-canella, e disse:

--Vamos, meninas, são horas de jantar; vamos ás sopas.

Levantou-se Jorge, sem ter dito palavra; mas Silvina, estendendo-lhe a

mão, de sorte lh'a apertára e sacudira, que fez evidente a intenção de

tornar bem reparado o feitio, muito de notar-se em menina de sua idade e

educação aldeã.

Mal as damas voltaram costas, o morgado de Santa Eufemia foi bruscamente

a Jorge Coelho, e disse-lhe:

--O senhor é um petisco! Não se me ande a fazer fino, quando não...

Jorge respondeu assim á brutal arremettida:

--A phrase é de carreiro; e, se não é carreiro quem me insulta, deve de

ser um embriagado.

Leonardo Pires dá um passo á frente de Jorge, põe a mão no peito, e

exclama nem facundo nem irado:

--Eu sou insultado na pessoa do meu amigo: exijo uma satisfação.

O fidalgo de Traz-os-Montes, fazendo signal de retirada á filha e

sobrinha, entremetteu-se no grupo que se ia cerrando, abriu os braços, e

tirou do peito estas memoraveis palavras:

--Os senhores estão aqui desacreditando a provincia. Se querem ser o que

lá no matto são os homens de figados, peguem em dous carvalhos

cerquinhos, e deem até tocar a quebrado; mas não queiram que os botem ás

gazetas ámanhã. A minha opinião é esta. O menino vá para um lado--disse

a Jorge, empurrando-o com brandura--e o senhor morgado para outro. Em

quanto á rapariga, minha sobrinha, ámanhã eu a porei em casa do pai.

Jorge, tirado pelo braço de Pires, sahiu do jardim, e pôde ainda vêr nos

olhos de Silvina, um movimento de radioso orgulho da bravura d'elle.

Na tarde d'esse dia recebeu Jorge a primeira carta de Silvina que resava

assim: «_É bello ser amada por um homem de coração e esforço. É bello

poder testemunhar a desaffronta do homem que se ama; mas é triste não

poder, na presença de Deus e dos homens, dizer-lhe:_--TUA POR TODA A

VIDA!»

O academico da Maya ouvira lêr a carta, e disse, com quanta vehemencia

lhe permittiu a posição horisontal n'um canapé, e as pernas sobre as

costas d'uma cadeira:

--Essa mulher tem espirito, palavra de honra! Amor e estilo, amigo

Jorge, são o alpha e omega d'esta humanidade perfeita em que tivemos a

dita de cahir das nuvens. De que diabo serve a rhetorica com que

estragamos a memoria em Coimbra, não me dirás?! Se o padre Cardoso, que

fez um compendio da arte de fallar, escrever uma carta como essa, diz tu

que eu sou um parvo e que me não hei-de vingar da Francisca da Cunha!

Diante d'estes talentos brutos, sem mão d'obra, como é o da tua Silvina,

os Quintilianos e os Longinos ficam no tremedal da sua protervia

explicando a _enallage_ e o _hyperbaton_. Oh! o estilo é muito mais a

mulher que o homem! Eu dispensava bem tres partes do coração na mulher

que me soubesse acepilhar e lapidar um periodo! Ha lá nada mais lindo? A

formosura fenece como as flôres; o estilo fica. Silvina, a eloquente

Silvina, quando de pura velhice não tiver aquelles dentes de marfim e

esmalte, ficará com a bocca cheia de phrases melodiosas, como o canto do

cysne. Tu és feliz, Jorge, mas a mesada deve estar nas vascas da morte.

Estás sem vintém?

--Não; meu tio padre mandou-me cincoenta mil réis para lhe eu comprar

dez volumes da Encyclopedia Catholica, e eu...

--Já devoraste cinco volumes em _rost beef_, e luvas brancas e charutos,

não é verdade?

--E minha mãi encommendou-me duas peças de durante, e não sei que mais,

que está esperando ha oito dias... Hontem recebi d'ella uma carta, que

me fez pena e saudade...

--Tem estilo?--interrompeu Pires, sentando-se estabalhoadamente.

--Não brinques com cousas sagradas: minha mãi não tem estilo, e n'esta

carta o que me diz é copiado do seu livro de orações.

--Ora essa!... Isso é original! Deixas-me vêr a carta-jaculatoria de tua

mãi?

--Deixo... Aqui a tens... eu leio.

Jorge Coelho, commovido, leu o seguinte:

«Abro o meu livro de orações e copio estas palavras para que meu Jorge

as leia:--A infeliz mãi, cujo filho começa a frequentar as sociedades

põe toda a sua esperança na protecção de Maria. Começa o joven mancebo

por alguns desmanchos que fazem conceber grandes receios ácerca do

restante da sua idade. A mãi assim lh'o diz, e dá os mais ternos

conselhos; elle, porém, rebella-se contra aquelle tão puro affecto,

contra aquella dolorosa previsão de mãi, e assomando-se lhe pergunta

porque duvida de sua honra e prudencia, e acrescenta: Parece-vos o meu

comportamento reprehensivel, porque não frequentaes a sociedade: eu faço

o que fazem todos.--Infeliz!--a mãi exclama--que te deitas a perder por

isso que fazes o que todos fazem.--Ri o insensato dos temores maternos,

e adianta-se ás cegas n'um caminho semeado de escolhos. Tudo está posto

em aventura: a honra n'este mundo, e a salvação no outro. Não sabe a mãi

o que faça para salvar o objecto de tantas lagrimas e crueis angustias.

Vê perdido o filho, e perdido para sempre. Maria, porém, consoladora dos

afllictos se lhe mostra como dôce visão... E a mãi afflicta, de joelhos,

com as mãos postas, exclama: «Ó Maria, auxilio dos christãos, salvai meu

filho, rogai por elle!»--Jorge, eu orei com estas palavras: a Mãi de

Jesus ha-de ouvir-me, e fallar-te commigo ao coração. Vem, vem para nós:

teus irmãos chamam-te com saudade, e eu com lagrimas.»

Leonardo Pires respeitou a commoção de seu amigo, e principiava um

discurso de molde segundo o caso pedia, quando o morgado de

Matto-grosso, e outro dos cavalheiros que entrava na roda do jardim,

assomaram na porta.

--Temos duello--disse a meia voz, Pires, entalando no olho direito o aro

circular da luneta e esguelhando a bocca.--Queiram entrar--proseguiu

elle, adiantando-se para a porta--se é que entende com o meu amigo Jorge

a honra da visita dos cavalheiros.

Egas de Encerra-bodes entrou e disse:

--Vem aqui commigo o snr. Theotonio Tinoco Pitta de Lucena, da casa da

Trofa, fidalgo tão antigo como o solar dos Lucenas. O snr. Jorge não me

conhece. Eu sou primo do morgado de Santa Eufemia: tenho dito de sobra

para justificar o meu nascimento.

--Ha-de perdoar-me--disse Pires,--não precisava v. exc.ª dizer tanto

para justificar o seu nascimento...--E atalhou logo a ironia vendo que o

vulto do morgado se anuviava de mau agouro:--o senhor morgado é tido e

havido na conta de muito bom sangue da provincia...

--E do melhor de Portugal--cortou logo Egas--Vamos ao ponto da nossa

missão. Christovão Pacheco de Valladares manda perguntar ao snr. Jorge

Coelho se algum de seus avós lhe transmittiu o fôro que torna iguaes no

campo da honra, nobre com nobre, as pelejas do pundonor aggravado.

Jorge ficou atalhado com o espavento da pergunta, e ia pedir explicação

da linguagem que lhe fez lembrar o tedioso Clarimundo, quando Pires,

sacudindo as borlas do seu rob-de-chambre respondeu:

--Jorge Coelho herdou de seus avós a honra, é quanto basta. Na sala do

palacio de Cintra não está lá o escudo dos Coelhos, porque o cobre a

mortalha da

«_..............misera e mesquinha_

_Que depois de ser morta foi rainha._»

Jorge por sua mãi, é Sepulveda, appellido que traz á memoria o caso

miserando, aquelle naufragio de que por ventura das letras patrias

nasceu um poema!...

--Deixemo-nos de lerias!--interrompeu Theotonio Tinoco.

--Lérias! o snr. Pitta de Lucena chama a isto lerias!--acudiu

Pires--Então que quer o senhor?

--Queremos que esse amigo dê uma satisfação ao outro a quem elle chamou

bebado hoje.

--Mas, primo Tinoco--disse o do Matto-grosso--bem sabes que o primo

Christovão não propõe, nem aceitaria desafio, a quem não tiver

nascimento.

--Ficamos agora sabendo que este cavalheiro é de familia de bom

sangue...

--Eu não sei de que sangue é a minha familia--atalhou Jorge

serenamente.--O meu amigo Pires não o sabe melhor que eu, e vv. exc.as

hão-de ter a bondade de dizer ao snr. morgado de Santa Eufemia que a côr

do nosso sangue lá a veremos no campo, quando elle quizer.

--Nomeie os seus padrinhos, para nos entendermos com elles--disse Egas.

--Um serei eu, se derem licença--disse a voz de um homem, que entrou de

subito no quarto.

--Meu tio!--exclamou Jorge, beijando-lhe a mão.

Era, com effeito, o padre João Coelho.

Leonardo Pires e os outros olharam com veneração para a figura sublime

do velho, que trajava rigorosamente as vestes de sacerdote. Jorge

baixara os olhos, em quanto o padre, com as palpebras humidas, e as mãos

convulsas, fitava e comprimia ao seio o sobrinho. Passados instantes,

disse compassadamente:

--Tantos annos e trabalho para te aproveitar, Jorge, e tu em tão pouco

tempo te perdeste! Ha menos de nove mezes que sahiste dos braços de tua

mãi, e venho-te encontrar na vespera de expôr o corpo e a alma com menos

desculpa que o salteador que traz o peito á bala e o coração damnado

pela perversidade!

E voltando-se para os tres cavalheiros, disse com uns assomos de nobre

authoridade e sorriso ironico:

--Quem são estes folgados rebentos de illustrissimas prosapias que vem

aqui desenfastiar-se dos tedios da sua inercia, estragando a alma de uma

criança? Ouvi aqui nomear appellidos estrondosos que representam varões

de grandes serviços á religião e á patria: é lastima que os netos dos

Tinocos e dos Pachecos andem pregoando o desafio, o derramamento de

sangue, como prova de honradas consciencias e altos espiritos. Melhor

lhes fôra que as suas consciencias fossem mais christãs que honradas.

Não se illustram memorias de avós derramando doutrinas impias. Se o

seculo as aceita, senhores, então reneguem vv. exc.as das virtudes de

seus avós, que outros seculos laurearam. Se os costumes barbaros d'esta

civilisação, que por escarneo se chama assim, se conformam com os seus

animos, não andem hypocritamente chorando saudades de Sião, os que se

atascam nas immundicies de Babilonia. Jorge, eu fui aqui mandado por tua

mãi: não quererá Deus que tu desobedeças á voz que te chama. Eu só quero

exercitar sobre ti a authoridade do conselho; tua mãi chama-te: deves

hoje mesmo sahir do Porto commigo. A vv. exc.as rogo eu mui humildemente

que se não afflijam da perda de um noviço na confraria dos heroes do

tempo. Costumavam nossos avós, antes de entrarem na cavallaria, velarem

as armas no templo do Deus vivo; meu sobrinho vai armar-se cavalleiro,

que não é ainda, e depois voltará á arena. Riem-se os nobres senhores?

Velar as armas é sacramento de tanto ponto, que nem o fidalgo da Mancha

se deu por bem posto na sua missão, antes de armar-se cavalleiro no

curral d'uma bodega, e o mesmo foi dar sova brava nos arrieiros. Tens tu

já Dulcinea, meu sobrinho? Claro é que sim. Ora, pois, aguarda melhores

dias para as tuas façanhas, e diz aos teus padrinhos que te deixem ser

mais algum tempo bom filho, bom irmão, e bom christão.

Egas de Encerra-bodes já não estava muito de bons humores com o padre.

Tinoco Pitta não o tinha entendido, e abria a bocca pela terceira vez.

Leonardo Pires não se atrevia a despregar da lingua aquellas espontaneas

e por vezes graciosas parvoiçadas que lhe vinham á flux da abundancia do

coração. Jorge Coelho tinha tão de negro cerrado o espirito que não

balbuciou palavra. Era impossivel a desobediencia; mas deixar Silvina,

sem levar comsigo a certeza de que a distancia não mataria n'ella a

paixão nascente, isso era uma dôr que o pobre moço desafogou em pranto

desfeito, passando ao quarto immediato que era o de Leonardo Pires.

O morgado de Matto-grosso, para evadir-se á posição embaraçosa em que se

via, despediu-se com estas palavras:

--Muito bem: eu vou dizer ao cavalheiro offendido por seu sobrinho, que

o offensor não tem imputação, attendendo á sua criancice, e mais ainda

ao facto de a mãi o mandar chamar para o seu regaço, como criança que é

desmamada de fresco.

--Não, senhor, atalhou o padre com seraphica brandura, diga ao senhor

morgado de Santa Eufemia, creio que assim se chama o seu amigo, diga-lhe

que seja generoso no perdão das injurias; que não desdoure os seus

antepassados barateando o sangue honrado que elles lhes transmittiram;

diga-lhe sobre tudo v. exc.ª que seja christão. Lembre-lhe que o desafio

é uma ferocidade que nem se quer prova coragem, porque a verdadeira

coragem é aquella admiravel abnegação dos louvores do mundo aos impetos

da raiva, e valoroso louvavel aos olhos do Senhor é só aquelle que tem

mão de suas iras, e desarma com humildade sem baixeza os féros e

acommettidas do inimigo.

--Teu tio é grandemente lido nos classicos!--disse Pires, no quarto

immediato, a Jorge Coelho, que enxugava as lagrimas teimosas.

Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento · 第 19 / 70 题