IX.

Pobre coração! Tão puras lagrimas não has-de choral-as mais. D'essa

grande afflicção de que tu appellas para a morte, has-de lembrar-te

sempre com saudade, meu amigo. Na tua angustia ha os prantos do anjo,

saudoso do céo. Na mulher que deixas, cuidas que te fica a santa

companheira do Eden que a tua candura via na terra, aberto ao amor sem

mancha, convidativo de santos gosos. De dez em dez annos pararás, no

caminho da vida, peregrino da sepultura; voltarás o rosto para aquelle

teu dia dos dezenove annos, e verás em flôres, fenecidas mas ainda

graciosas, os espinhos por onde a pedaços te fica, meu pobre Jorge, o

coração. Saberás então o que é a saudade; pedirás á desgraça dôres

semelhantes ás da tua mocidade para abençoal-as; atirarás com o peito ás

sarças das paixões vertiginosas para espertares os pungitivos desgostos

do amor contrariado. Não já lagrimas, se não fel derramará o coração,

que devêras ter dado a Deus, desde que o mundo t'o desbaratou a

repellões e injurias. Chora, filho da sina maldita dos poetas, chora no

seio de tua mãi; bem póde ser que ainda lá te espere o anjo da tua

guarda.

Jorge Coelho não proferira uma palavra desobediente ao tio padre.

Apenas, quando enfardava a roupa nas malas, enxugando as lagrimas antes

de erguer o rosto disse:--Meu tio entende que me é honroso sahir do

Porto sem responder ao desafio?...--Padre João, que abria o seu enorme

lenço escarlate para se assoar, ficou algum tempo com os braços

suspensos, e o lenço pendurado, e assim esteve, como estupefacto

cravados os olhos no sobrinho, que esperava a resposta. O nariz, porém,

urgia: padre João Coelho levou o trombetear da limpeza até á hyperbole,

dobrou o lenço em quadro, depois enrolou-o, deu com elle mais alguns

torcegões ao nariz, armou-se de pitada, e disse:

--Não é Deus que os perde; é o demónio que ensandece aquelles que quer

aproveitar. Que é honra, Jorge? O evangelho que te diz das injurias, do

odio, das affrontas, das injustiças? O filho de Deus dictou e rubricou

com o seu sangue a lei, a regra, os deveres da humanidade; não importa

ser o evangelho obra de Deus; não importa que alli venham prescriptas as

maximas da boa e honrada vida: o evangelho é já inefficaz por que a

humanidade inventou uma honra que se prova e sustenta com o duello: a

vossa honra, cegos miseraveis dignos de lagrimas, lava-se no sangue,

justifica-se pelo homicidio, ao qual a legislação decreta a forca, e a

convenção social o galardão da bravura. Jorge, quem te disse que o

assassino era honrado?

O academico apenas respondeu:

--Meu tio, vamos; eu estou prompto.

Leonardo Pires já estava no largo da Batalha, chamando a attenção dos

numerosos transeuntes que paravam em magotes para verem o cavalleiro com

as esporas cravadas nos ilhaes de uma égua de fina raça que se empinava,

e corcovava, e atirava ora couces, ora galões medonhos. É que Leonardo

Pires vira D. Francisca da Cunha n'uma janella do palacio do snr. Manoel

Guedes, e de si para si entendeu que lhe ia bem dar-se n'aquelle

espectaculo hyppico, mesmo com perigo de quebrar a cabeça, como de facto

quebrou, e tão desgraciosamente o fez, que Francisca da Cunha, anciada

de riso, dizem que cahira extenuada n'uma othomana.

Andava o infeliz Pires atraz da egua espavorida, com ajuda dos gallegos

do chafariz, quando Jorge e o tio desceram da hospedaria da Estrella do

Norte para a praça.

Apanhada a cavalgadura, indiscreta e desasada para heroismos de amor,

Pires montou de salto, e acompanhou até Vallongo o condiscipulo, com

evidente desagrado do padre. No caminho, em quanto o egresso ficára

atraz compondo os loros do macho fleumatico, o amador infausto de

Francisca da Cunha disse a Jorge:

--Que queres que eu diga a Silvina, se o tio a não mandar para a aldêa?

--Diz-lhe, respondeu Jorge commovido, com os olhos marejados de

lagrimas--diz-lhe que eu não posso contar com a minha vida para lh'a

offerecer. Diz-lhe que eu não fugi de cobarde; por quem és, Pires, não

consintas que me ella ultraje, duvidando da minha coragem. Falla-lhe de

minha mãi, que eu sei que ella me amará ainda mais, vendo que eu

respeito tanto as lagrimas da que me formou o coração que eu lhe dei, e

ella achou digno de si. As minhas cartas mando-t'as a ti para lh'as

entregares... Silencio, que ahi está meu tio.

--Snr. padre João Coelho, disse alegremente Leonardo, pique o bucephalo

cá para a frente.

--Alexandre Magno não montava machos, senhor estudante, respondeu o

padre. Andaria mais acertado com a historia se me honrasse antes com as

tradições de Sancho Pança. O machinho sabe que leva em cima um engenho

velho, que se acerta de inclinar na carga cahe cada peça para o seu

lado.

--Mas leva uma grande alma, replicou Pires.

--O macho? perguntou o padre, sorrindo.

--Sim, senhor.

--Lá em Coimbra estuda-se essa psycologia de veterinaria? As grandes

almas passaram, pelos modos, dos Aristides e Catões para estes

quadrupedes! Se assim é, que nos fica para nós, senhor academico?

--Eu queria dizer ao meu nobre amigo que o macho leva um cavalleiro com

grande alma.

--Muito obrigado ao seu favor, snr. Pires. Eu tambem o entendi; mas

metti-me a engraçado a vêr se desafiava o riso, do meu pobre Jorge, que

vai ahi melancolico, como nunca foi filho algum para os braços de sua

mãi e irmãos.

--É que Jorge Coelho, tornou o estouvado infanção da Maya, está como a

avesinha a pairar emplumada, que salta para o rebordo do ninho, e

vacilla entre ir para a mãi que a está dentro chamando com o cibo, ou

voejar para a arvore em flôr que a está enamorando de longe.

--É uma bucolica bonita que o senhor vai poetisando--tornou o padre,

fechando o olho direito e sorvendo uma canora pitada pela venta

correspondente.--A avesinha (se dá licença, eu componho em linguagem

chan e fradesca uma estrophe do idyllio) a avesinha deixou piar a

carinhosa mãi, e desferiu as tenras azas na pontaria da arvore florida;

e, como quer que as forças lhe cançassem do desusado vôo, não teve a

avesinha remedio senão abater-se ao chão para pousar. E vai n'isto,

andava por alli á caça de ninhos um gato ou uma gata brava, seja gato ou

gata; o essencial é que apenas o triste passarinho apegou, o animal

damninho fez-lhe o salto d'entre umas balças, e o filho da pobre mãi,

que se morria de paixão no ninho, lá foi empolgado pelo gato ou pela

gata... Lafontaine não inventou este conto, e merecia a pena; não

importa: compuzem'ol-o nós, snr. Pires, _ad usum delphini_, e seja

delfim o nosso Jorge.

A allusão desgraciosa da gata foi tão clara quanto desagradavel a Jorge.

Era uma injuria á mulher querida, á sombra lagrimosa que o ia

acompanhando, e instigando a reagir contra o dominio de parentes, e

exhortando a emancipar o coração d'uma tutela que lhe deixava da vida as

regalias que bastavam á criança, mas não ao homem.

Azedado, pois, pelo motejo da bucolica do padre João, Jorge disse com

vehemencia:

--Meu tio offereça a moralidade dos contos a quem lhe pedir lições.

Padre João, depois de breve pausa, respondeu brandamente e com magoada

tristeza:

--Não te envergonhes de pedir-me lições, filho, que as não pedes sómente

a um velho; dá-t'as um amigo, que foi homem antes de ser frade, e

estudou os homens, depois que o mandaram sahir da sua cella, como cousa

inutil á sociedade. Se me não quizeres as lições, de que sirvo eu,

Jorge? Já agora irei prégando sempre, quer me ouçam, quer me repulsem,

como manda o apostolo.. Desagradou-te a allegoria do conto, e

convidas-me assim a ser mais natural. Jorge, repara bem no que te diz

este velho que, no teu modo pouco respeitoso de fallar a uma mãi, «te

premuniu com cabedal de philosophia christã, bastante para defender das

tentações todas as nações da biblia exterminadas por causa do peccado.»

Sei de cór as tuas palavras, porque m'as entalhou na alma o espinho da

ingratidão. Deves-me bons desejos de te fazer bom e honrado: não me

sejas ingrato. Agora, escuta, filho. Vinte e quatro horas antes de te

apparecer, procurei-te, porque do Porto fui avisado dos teus desvios:

como te não encontrei, fui colher mais informações; voltei á noite á

hospedaria tres vezes, e ás duas horas não tinhas ainda recolhido. No

dia seguinte, que foi hoje, procurei-te ás nove horas da manha: tinhas

já sahido. Déste-me tempo de sobra para eu me instruir das miudezas da

tua historia de tres semanas. Sei quem é a creatura que te ourou a

cabeça. É uma feia alma n'um formoso estojo; é uma aventureira...

--Meu tio, isso é crueldade e calumnia--interrompeu Jorge allucinado.

--Bate, mas escuta, dizia o philosopho: é uma aventureira de maridos,

que engodou o morgado de Santa Eufemia, em quanto julgou desnecessario o

consentimento do velho fidalgo para a realisação do casamento que a

fazia rica. Desvanecidas as esperanças do morgado, cuja rudeza lhe não

desdizia com o espirito arteiro, voltou-se para um rico brazileiro de

Cabeceiras de Basto; mas o brazileiro não lhe entendeu os pespontes da

eloquencia, e disse que queria mulher com quem elle se entendesse.

Chamada por uma prima, professora em armadilhas ao casamento...

--Francisca da Cunha?--exclamou Pires, erguendo-se nos estribos.

--Justamente, Francisca da Cunha, menina matreira que...

--Olhe que eu amo essa mulher, snr. padre Coelho!--interrompeu

solemnemente Leonardo.

--Pois faz v. s.ª muito bem: o amor do proximo é preceito divino: sou de

parecer que a ame; mas não lhe dou os parabens... Vinha eu dizendo que a

tal Silvina já no Porto, de mãos dadas com a prima, não duvidou visitar

uma estalajadeira de Margaride que viera a banhos de mar, porque esta

estalajadeira tinha um filho que viera do Brazil, com alguns centos de

contos, negociados na escravatura. E como o filho da estalajadeira não

andava acostumado a comprar senão negras possantes e trabalhadoras,

recusou comprar a compleição melindrosa da fidalga de Margaride. D'ahi

veio o saber-se, pelo dizer a snr.ª D. Silvina, que o poderoso

brazileiro é filho d'uma taverneira, e que fôra para o Brazil com umas

soletas e chapéo de Braga que lhe dera de esmola o pai da fidalga. Eis

aqui o que eu pude averiguar da pessoa por quem meu sobrinho troca os

carinhos de sua mãi, a dôce amisade de seus irmãos, e as lições

amoraveis de seu velho tio.

Jorge Coelho ficou enleado, e não replicou; Leonardo Pires, porém, que

nunca em sua vida pensára o que dizia, senão meia hora depois de o

dizer, exclamou:

--Mas ha-de confessar, snr. padre João, que ellas são boas mulheres!

--Boas!...--murmurou o padre, que não entendeu o sentido do

adjectivo--boas... quer-me parecer que não são muito!

--Ora essa! pois não as acha bonitas e elegantes?

--Eu não as conheço; mas creio que são bonitas e elegantes: e d'ahi?

--E d'ahi! _Amor omnia vincit!_ o amor tudo vence.

--Agradeço a traducção--disse, sorrindo, o padre, que, a fallar a

verdade, tinha uns sorrisos que muito justificavam o dito de ter sido

«homem» antes de ser frade.--O snr. Leonardo Pires não tem

mãi?--acrescentou o padre, após um curto intervallo, com summa

seriedade.

--Tenho, sim senhor; mas não tenciono namorar minha mãi--disse

precipitadamente Leonardo.

O padre fitou-o com tristeza e admiração, um momento, e depois disse-lhe

com bons modos:

--Praza a Deus que o coração esteja menos derrançado que a linguagem...

snr. Leonardo Pires, eu tenho setenta annos; deprava-se um rapaz; mas

respeita-se um velho.

D'esta vez, o imperturbavel Pires não teve que responder.

Tinham chegado a Vallongo. Jorge estendeu a mão ao seu amigo, e

disse-lhe suffocado:

--Adeus! não sei se te verei mais... Sinto a morte no coração!

O padre fez um frio comprimento ao amigo de seu sobrinho, dizendo-lhe:

--Deus o tenha de sua mão.

Leonardo partiu; e o egresso, com os olhos embaciados de lagrimas,

murmurou:

--Jorge! quem te abriu as portas da desgraça foi aquelle homem.

Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento · 第 20 / 70 题