VII.

Christovão Pacheco de Valladares, morgado de Santa Eufemia, esteve sete

dias e sete noites emparedado no seu quarto da hospedaria da «Aguia

d'Ouro» depois d'aquelle desastre da «Assembléa.» Alguns hospedes

repararam na reclusão, e averiguaram dos criados que exquisito homem era

aquelle. D'estes hospedes, o mais grado era o morgado de Matto-grosso,

solarengo de «Entre-ambos-os-rios» homem de grandes brios e musculos.

Apenas informado, foi bater á porta de Christovão Pacheco, dizendo pela

fechadura que abrisse que era parente e amigo. A identidade do

parentesco foi de facil prova.

--O primo Pacheco não póde duvidar--disse o morgado de Matto-grosso--que

um irmão de meu setimo avô, que havia nome Heitor Moniz de Valladares

foi casar á casa de Santa Eufemia com D. Urbana Pacheco, filha de Lopo

Pacheco, governador de Cochim...

--A fallar-lhe a verdade--disse o de Santa Eufemia--eu não sei nada de

linhagens; mas tenho ouvido fallar a meu pai n'esse governador de

Chacim.

--Cochim, primo Christovão, Cochim.

--Ou Cochim, ou lá o que é...

--E saiba que da sua prosapia sahiram os mais illustres sangues das

familias do Minho. Talvez v. exc.ª, primo, não saiba que a nossa

linhagem está mui de perto aparentada com Porto-Carreiros!

--Não sabia, nem sei de que sirva isso.

--De que sirva isso!--acudiu Egas de Villas-boas Cão e Aboim

Encerra-bodes, que assim se chamava o morgado de Matto-grosso. Não diga

tal, primo Christovão Pacheco. Pois ignora que do solar dos

Porto-Carreiros, fidalgos mais velhos que a monarchia trezentos annos,

sahiu ha cinco seculos um infanção, que casou em Castella, e foi tronco

da descendencia que vem illustrar-se na pessoa da actual imperatriz de

França?[1]

--Não sabia, palavra de honra, e isso que faz?--tomou o de Freixieiro.

--Faz que somos parentes da imperatriz, e que podemos dizel-o á bocca

cheia a esses de sangue azul da capital, que nos chamam a nós fidalgos

de meia tigella, esquecidos de que os mais nobres barões da côrte de

Affonso edificaram os seus solares entre Douro e Minho, e d'aqui, por si

ou seus filhos, acompanharam os reis da primeira dynastia ás conquistas

do restante da Lusitania, e d'além-mar.

--A fallar-lhe a verdade, primo, quando entro a pensar n'essas cousas

com que meu pai me quebra a cabeça, parece-me que trocava toda a minha

fidalguia por algumas libras.

--Oh! que blasphemia!--Exclamou Egas n'um impeto de sincera

indignação.--Troca-se por libras um neto de Heitor Moniz de Valladares!?

--Não é trocar-me por libras;--acudiu desabridamente o de Santa

Eufemia--é que eu estou de vinte e oito annos, e ainda não pude sahir de

casa senão duas vezes com esta; e não tenho remedio senão ir-me embora

para Freixieiro, por que meu pai escreve-me hoje essa carta que o primo

póde lêr, e depois me dirá se me não era melhor ser antes um caseiro das

minhas fazendas, que me não servem de nada, n'esta idade em que eu

preciso de dinheiro.

--Vejamos isto--disse o de Matto-grosso, abrindo a carta, e lendo o

seguinte:

«Meu estimado filho.

Já te disse que venhas para casa, que não ha dinheiro para andar em

folganças. Os tempos estão muito bicudos, e o bicho já pegou nas

videiras. Os bezerros do caseiro da Portela lá estão com a molestia, e a

cheia levou a parede do lameiro do Quinchoso. Tudo são despezas. O

abbade pegou-me pela palavra, e quer que eu mande pôr a porca no sino da

igreja. O milho ainda não chegou á conta; os quatro carros que se

venderam não chegaram para pagar as decimas. O garrano está de todo

espravonado; pozes-te-o bom com a tua ida ao Porto. Tudo são desgraças.

Em quanto á roupa nova, deixa-te disso; a casaca que levaste está muito

boa, e o melhor é fazel-a em Guimarães, que são mais em conta os

alfaiates. Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou ordem ao

meu amigo brasileiro para te dar para a jornada cinco pintos; olha se

ajustas a cavalgadura sem gorgeta. Dou-te a minha benção, e sou teu pai

carinhoso,

«_Vasco._»

--Que me diz a isso?--exclamou Christovão.

--Eu sempre ouvi dizer--respondeu o primo Egas--que meu tio Vasco era um

tanto fona; comprehendo que na idade do primo Christovão custa muito não

brilhar na sociedade, a que o nosso nascimento nos dá direito; não

obstante, seu pai está accumulando para o seu filho unico uma grande

casa, e é preciso perdoar-lhe a intenção que é boa. Vamos ao mais

importante: o primo quer dinheiro? quer os meus cavallos? quer os meus

lacaios? tem tudo ás suas ordens; o que eu não consinto é que diga que

trocava os seus brazões por algumas libras. Vamos, franqueza, precisa de

fato? Chama-se já aqui o alfaiate: hoje mesmo póde sahir de ponto em

branco. Tenho cá dous cavallos, o _corisco_ e o _phaetonte_: o primo

monta qual quizer. Diga-me agora a que veiu ao Porto.

O morgado de Santa Eufemia, entre jubiloso e magoado, contou ao primo a

historia do _seu amor de raiz_, como elle dizia. Mostrou as cartas de

Silvina, que elle tinha atadas com um barbante n'uma bolsa interior da

mala. Passou á ingenuidade da galhofa que lhe fizeram na «Assembléa»

narrando as miudezas da casaca, e expoz o collete ginja e a gravata das

orelhas fabulosas. E terminou em tom de lastima, accusando a perfidia da

mulher a quem elle quizera dar o seu nome.

Egas de Encerra-bodes, depois de provar que na linhagem de Silvina havia

um reles sargento-mór e um capitão de milicias, afóra duas bastardias e

um filho sacrilego no seculo XVI, entrou a fuzilar colera dos olhos,

tocando no ponto mais grave dos queixumes do neto do governador de

Cochim.

--Eu, dizia elle batendo no peito com a mão aberta, eu, primo

Christovão, na sua posição teria açoutado os perros que o escarneceram

na «Assembléa.» Esses que riram de Christovão Pacheco é a villanagem,

cujos paes vieram para o Porto de rabona de cotim, chapéo braguez, e o

tamanco herdado. Os nossos caseiros, quando a liberalidade de nossos

paes, lhes concedia poderem enroupar de cotim os filhos, mandavam-os

para aqui. Os filhos d'esses que para aqui vieram, primo, são os

insultadores da risada boçal, os miseraveis que através da casaca, da

pelle da luva, e do verniz das botas, estão accusando o costado proprio

do fardo, o pé que reclama o tamanco, e a mão que suspira pelo cabo da

enxada. Tenho visto esse gentio nos botequins, e por sobre o hombro

observo os risos de grosseira mofa com que recebem o despreso dos que

elles denominam _parvalheiras_. Parvalheiras, a nós, primo, que temos em

nossas casas a educação que elles tem entre as balanças, e timbramos em

honrar os appellidos de nossos avós, descendo até elles para que elles

não subam até nós. Se quer vêr quanto é villã a basofia d'estes

tendeiros, que trocam por titulos ceiras de figos e costaes de bacalhau,

tenha o primo a longanimidade de os admittir á sua convivencia, e verá

como se elles desfazem em lorpas cortezias, e citam a cada instante o

seu nome, como um dos seus amigos d'elles... Vamos ao ponto essencial.

Christovão Pacheco foi ultrajado. Um primo de Egas de Matto-grosso não é

ultrajado impunemente.

Tem um rival, primo?

--É de crer que sim.

--Fidalgo?

--Isso não sei.

--Cumpre sabêl-o.

Uma hora depois entraram fardos de fato feito no quarto do morgado de

Santa Eufemia, e logo botas do sapateiro francez, e chapéos da melhor

fabrica. Vestiu-se Christovão Pacheco, e era de vêr em que gentil moço

se transfigurou, e que nova alma entrou n'aquelle corpo. Se elle tivesse

lido frei Luiz de Sousa, aquelle esbelto cortezão que se sepultára no

frade, recordaria estas palavras escriptas com tanta sciencia do absurdo

coração do homem: «É nossa natureza muito amiga de si, e experiencia nos

ensina que não ha nenhuma tão mortificada que deixe de mostrar algum

alvoroço para uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se, ou seja pela

novidade, ou pela honra e gasalhado que recebe o corpo: até os

pensamentos e as esperanças renova um vestido novo.»[2]

Assim foi o morgado de Santa Eufemia. Quando se viu, desconheceu-se.

Outro corpo e outra alma. Olhava para o polimento das botas, e o vidrado

d'ellas reverberava-lhe na alma em lampejos de alegria. Não se cançava

de correr a mão pela macia seda do chapéo, e remirava-se ao espelhinho

que o imaginoso chapelleiro enquadrára no centro da copa. Com o que elle

se ia zangando foi com as luvas de nove pontos e meio, que gemiam pelas

costuras, com a pressão do dedo polegar que queria á força entrar com os

outros de uma assentada. O do Matto-grosso explicou ao primo os

mysterios da luva, com muito mais siso que um certo folhetinista do

Porto inventor dos mysterios da dança. No Porto ha gente para inventar

tudo quanto ha.

Os dous morgados sahiram da «Aguia d'Ouro» no domingo posterior áquelle

em que Silvina fallára um momento com Jorge, no jardim. Para o jardim

foram tambem elles, seguindo Silvina e Francisca, que saturam da missa

dos Congregados. Quando subiam a rua de Santo Antonio, um grupo de

elegantes, para quem a physionomia do morgado ficára indelevel, desde o

baile, pararam maravilhados da reforma, fixando-o com impertinente

reparo.

O morgado de Matto-grosso estacou em frente do grupo, e disse:

--Ora vamos: andem, ou desandem!

Os elegantes abriram alas, encarando-se mutuamente com um ar de pasmados

da propria docilidade.

--Bravo! exclamou Leonardo Pires, que seguia de perto os morgados.

Egas de Encerra-bodes voltou-se rapido para o da Maya, e disse mal

assombrado:

--Que é lá isso?

--Disse _bravo_!--replicou Pires com serena jovialidade, porque gostei

immenso de vêr aquelles bigorrilhas ladearem á esquerda e direita, e

comprehendi a razão porque elles pararam contemplando este cavalheiro

que eu vi, _mutatis mutandis_, no baile da Assembléa Portuense. Eu

honro-me tambem de ser parvalheira, e como tal me apresento, pedindo-lhe

que me recebam no numero dos seus conhecidos em quanto me não conhecerem

digno da sua amisade. Sou da Maya, da familia dos Pires e Albuquerques,

e primeir'annista da faculdade de direito. Tenciono formar-me porque não

tenho que fazer, e não me conformo á vida de meus antepassados, que

viviam dos galgos e dos cavallos. Abomino cordialmente o Porto; mas ha

aqui uma mulher que me tem preso a esta terra pela fibra vingativa d'um

coração nobre. Aqui estou esperando a hora de provar-lhe que senão

brinca com um homem que tem esculpidas no seio as maximas herdadas de

avós.

Pires foi fallando n'este estilo até ao jardim. O morgado de

Matto-grosso, scismando com o que seria no _livro dos costados_ a

familia de Pires e Albuquerques da Maya, escassamente ouviu o enfatuado

palavrorio do mettidiço. Christovão ia um pouco desconfiado da

bacharelice de Pires, que já o tratava por «vossê» quando entrou no

jardim.

Lá estava Silvina. Rodeavam-na alguns cavalheiros do Minho,

censurando-lhe a crueldade com que abandonara o morgado de Santa

Eufemia. D. Francisca da Cunha chanceava com remoques os patronos da

victima do collete-ginja. A fidalga de Freixieiro, esporeada pela prima,

fazia tambem riso do morgado, calando os rumores da consciencia que a

não louvava. Era, pois, certo que o coração d'esta menina, degenerado

acaso do seu bom natural, em poucos mezes de pratica de outra sociedade,

se estava doendo de ter desconfessado, no baile, o amor de um homem,

cuja mão tres mezes antes apertára com fervoroso amor e esperança de ser

d'elle.

Jorge Coelho presenciava de longe, e cioso, a attenção que Silvina dava

aos cavalheiros minhotos. Não os conhecia, para afoutar-se a entrar na

roda, e interrogar com uma palavra vaga o coração de Silvina. Esta,

porém, repellindo com desdenhosa philosophia os pesares que secretamente

a remordiam, ergueu a fronte desanuviada, poz os olhos nos de Jorge, e

fez uma ligeira cortezia, que todos julgaram ser um aceno para chamal-o.

A este tempo chegavam, perto de Silvina, Egas de Encerra-bodes,

Christovão de Valladares, e Leonardo Pires. O do Matto-grosso

comprimentou alguns primos que estavam na roda; e o de Santa Eufemia,

voltando as costas para as senhoras, respondia, sem saber o que, a

algumas perguntas d'um cavalheiro. O inquieto Pires, furando por entre

todos, foi apertar a mão a Silvina, e dizer-lhe que estava o ideal da

quinta essencia das fadas, com o que D. Francisca se riu, e riso fôra

aquelle que abrira na testa de Pires um vinco dos que promettem

cataclismos.

--Dá-me novas de Jorge?--disse Pires a D. Silvina.--Eu cheguei hontem da

Maya, e não pude ainda encontral-o no hotel. O amor reduzil-o-ia a

Sylpho, minha senhora?--proseguiu o estabalhoado, mordendo o charuto ao

canto esquerdo dos beiços, e arqueando os braços na cintura.

--O seu amigo, disse Silvina, em voz alta, para desaffrontar-se da

grosseira postura do morgado--está defronte de mim.

Pires fez uma pirueta sobre o calcanhar direito, fitou a luneta no

condiscipulo, contemplou-o da altura da sua critica, volveu de novo o

rosto risonho para a dama, e disse:

_Sobre a pyra fumegante,_

_Ardem ternos corações._

D. Francisca deu largas a uma risada estridula. Silvina sorriu

prasenteiramente á tolice. Alguns morgados receberam o dito como cousa

de espirito. Pires, contente do seu auditorio, ia retirar-se quando o

morgado de Santa Eufemia, voltando a cara jubilosamente soez para o

grupo, soltou uma cascalhada secca e desafinada que assanhou cruelmente

os nervos de Silvina.

Todos estes movimentos foram seguidos de outro mais significativo. Os

olhares convergiram todos sobre Jorge, que ficou encarnado até ás

orelhas. Alguns dos cavalheiros murmuraram o quer que fosse, e

nomeadamente Egas de Encerra-bodes fitou-o insolentemente, e disse a

meia voz:

--É aquelle?!

--Pelos modos!--respondeu o primo.

--Pobre criança! é preciso dizer ao pai que o mande buscar.

Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento · 第 18 / 70 题