As occorrencias do jardim de S. Lazaro, no dia immediato, não merecem
chronica. O que póde, porém, succeder a um moço, que passeia o coração
amante, no jardim do Porto, é bom de dizer-se, e folga a moral de
ouvil-o.
Se o leitor está no Porto, e vai apaixonado ao jardim de S. Lazaro, e
conhece a familia da menina casadoura, por quem anda em brasa, faz a sua
primeira cortezia, e foge de encontral-a segunda vez, porque repetir a
cortezia é, além de provincianismo puro minhoto, cousa que cheira a
inconveniencia, e póde ser até escandalo. Resta-lhe o expediente commum,
e salva assim a honra das familias: é amoutar-se como fauno por entre as
murtas e bosques de acacias, lobrigando aqui, e além, a caça estranha.
No jardim de S. Lazaro os dous sexos dão ao passeio o que as sovinas
municipalidades não tem querido dar-lhe; isto é, uma luxuosa
superabundancia de estatuas, as quaes, tirante a alma, nem sempre se
avantajam ás do marmore nacional. Sentam-se as meninas, mui bem
compostas e ageitadas de mãos e cabeça, e alli se estão deleitando na
vista do repuxo, em quanto o papá rufa com tres dedos na tampa da caixa
do tabaco o compasso da modinha conhecida de Verdi ou Donizetti, que as
trombetas bastardas estão executando... _executando_, sim, é a palavra.
Ao relance artistico dos olhos não é feio aquillo. Cuida enxergar o
myope em cada renque de cadeiras uma fileira de _madonas de la sedia_;
mas a illusão d'um myope não vale os desconsolos de tanta gente que tem
a sua vista escorreita, e pensa que a estatua deve ter um _quantum
satis_ de espiritualidade.
Ha pontos na casca do globo em que a virtude custa pouco. Não sei se a
bemaventurança é accessivel por igual de todas as terras; mas,
convencido da rectidão que assiste aos negocios dos outros mundos,
quer-me parecer que quatro virgens a um tempo, sahidas em espirito, uma
de Pekin, outra de Constantinopla, outra de Paris, e a quarta do Porto,
devem de ter differente recebimento e quartel nas regiões da gloria,
onde ha premios para a virtude.
Na razão directa da tentação, nos esforços em rebatel-a, é que deve ser
aferida cada alma victoriosa que, apesar dos demonios succubos e
incubos, se alista nas legiões do céo. Não se dogmatisa, entendam:
quer-se escassamente enunciar idéa nova, resaibada de heresia, a vêr se
algum hypocrita illustra o livro, com as injurias da sua caridade
apostolica. Não ha no romance outro merito que o inculque, nem
perspectiva melhor agourada para o editor.
As adoraveis virtudes das senhoras do Porto não são de todo um
merecimento: orçam mais por uma necessidade. O homem d'alli sente um
terço, ou ainda menos das precisões espirituaes que, n'outras partes,
incommodam o coração humano. Esta feliz frugalidade procede do geito
d'aquella sociedade, geito antigo que degenerou em aleijão, rachitismo
moral, corcunda hereditaria, e de mais a mais pegadiça, por quanto, se
não é do Porto, e por lá apégar alguns mezes, leitor, apalpe as costas,
e topará uma protuberancia a crescer, a crescer, até se formar corcunda,
que irá comsigo a stoda a parte.
Aquelle aleijão, de barreiras do Porto a dentro, não fica mal a ninguem.
Os liliputianos, conta Swift, chanceavam o viajante europeu, que tinha a
ridicula felicidade de ser um homem bem apessoado e perfeito. As
bellezas do Congo recuam de puro nojo diante de um formoso nariz branco
sem pingentes. No Porto ha o escarneo e o tedio que explicam o paradoxo
do selvagem.
A juventude masculina da cidade heroica está em contacto com a
civilisação d'este seculo pelo alfaiate. Não poderam os velhos trancar
as portas do burgo de Moninho Viegas á invasão dos figurinos. Calção e
rabicho foram banidos; o tamanco e o chinelo d'ourélo cederam,
constrangidos, o joanête indigena ao verniz, e ao couro da Russia; o
difficil, porém, era pentear, vestir e calçar o espirito de gaito e arte
que a gente, fitando em rosto o filho da civilisação portuense, não
tivesse de descer os olhos a buscar-lhe nos pés o tamanco. É o sestro
das transfigurações de golpe e abruptas.
Um joven bem estrellado de minas e camapheus, chama-se no Porto um
janota. A menina ingenua diz á visinha: «conhece aquelle janota?» ou
«fulaninha namora um janota louro.» Não se cuide, porém, que este
epitheto implica mofa ou menospreso como em Maçãs de D. Maria, ou Lamas
d'Orelhão. O janota portuense é uma cousa séria, que póde ser vereador,
e irmão da ordem terceira.
Por via de regra, o janota é uma creatura que nasce, cresce, abre-se em
florescencia variegada de frakes, e colletes, e pantalonas; toma posse
do balcão paterno aos trinta annos, corta o bigode para que lhe
descontem as letras, põe oculos se teve o infortunio de estragar a vista
com a luneta que lhe servia de não vêr nada, fructifica em crianças
gordas que entrajam á escoceza, e escôa-se de vida através de quarenta
annos de lerda pachorra de espirito, legando á prole um nome limpo, com
pequenas farruscas que se ensaboam na barreia de um necrologio, e dous
legados de cincoenta mil reis ás entrevadas da Cordoaria, e alguma cousa
ao hospital do Terço.
D'este viver assim resultam duas cousas que explicam muitas outras:
primeira, que o elegante portuense dispende os annos perigosos da
adolescencia vestindo-se de manhã para sahir de tarde; segunda, que as
meninas, ao despegar da costura, ageitam os laçarotes do toucado,
entufam os punhos das manguinhas, encostam o cotovello ao peitoril da
janella, seguem o olhar de esguelha que lhe vai revirando o terceiro ou
quarto janota predilecto, e fecha a janella quando a passagem do quinto
é duvidosa.
D'est'arte, as paixões são innocentes e ao mesmo tempo substanciaes como
um caldo de gallinha. As relações epistolares não derrancam a pureza das
olhaduras. A carta, em regra, é declaração escripta que tolhe a poesia
da declaração muda. Palestras, quer de sala, quer a horas mortas, da rua
para a janella, que piedosa criada deixou aberta, são, se a patrulha o
tolera, a morte de ambas as declarações, porque o janota que falla é
muito menos soffrivel e grammatical que o janota que escreve. Ainda
assim, o casamento remata isto que se chama o _namoro_. E o mais é que
ella e elle, nas suas horas de recolhimento, cada qual a só por só com a
sua consciencia, contempla saudoso o passado e diz: «Que bella mocidade
eu tive! muito me diverti!»
Ponderam alguns authores que a morigeração dos costumes portuenses é o
necessario effeito do atraso da civilisação e policia da classe media,
em que as outras no Porto se embaralham e perdem. Esta palavra
«civilisação» anda mal trazida para tudo. Se o refinamento das
industrias, se a arte de crear capitaes, no minimo do tempo e com
diminuto trabalho, constitue a maxima civilisação material, o Porto
ganha a aposta aos mais ambiciosos prospectos de riqueza aventados pelos
economistas. E assim é que alli enxameam os Midas no ouro e nas orelhas;
porém, menos castigados que o fabulado Midas da theologia grega, logram
digerir o boi e o toucinho na succulenta substancia que a natureza lhes
deu.
Os que negam ao Porto a vanguarda do progresso industrial, que é a mesma
civilisação, irmã gemea da intellectiva, e fonte da sã moral, derruem
desde os alicerces a sciencia moderna, confessando assim a utopia do
systema vulgarisado nas escolas, nas gazetas, e nas fórmas de governar
das nações mais cultas. No Porto, dão-se as mãos a riqueza e os costumes
edificativos, para se justificarem estes por aquella, e a primeira pelos
segundos. A industria é a de hoje: os costumes são os de ha um seculo. O
chefe de familia poderá ser moedeiro falso, negreiro aposentado com
exercicio na casa real, alliciador de escravos brancos, contrabandista
tolerado; mas a filha d'esse homem da época vive intemerata como a filha
de Virginio; cuida que seu pai, recolhendo a casa encalmado e suado, vem
de servir a patria como Cincinnato; e, chegada a occasião de exercitar
as virtudes antigas, não duvidará ser Lucrecia, e Lucrecia menos
equivoca que a de Colatino.
Sobre este assumpto, mediocre seria o engenho que não produzisse um
volume. Em louvor do Porto, escreveu o socio da academia real das
sciencias Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos dous folhetins de
nervo e polpa, com muito sal attico á mistura. O abundoso escriptor
escreveria in-folios, se lhe aprouvesse, porque já um dos sete sabios da
Grécia, Pittacus, parece que era, escreveu um volume dos louvores da mó
d'uma atafona; e, para encarecimento do rábano, deixou Marciano um
tractado muito de vêr-se. O talento é uma cousa temivel.
Ora não vão já d'aqui os malsins de intenções maliciarem essas
inoffensivas palavras, que não desprimoram, nem arguem deshonra ao
paladium das liberdades patrias, como usam dizer os artigueiros da terra
a proposito de qualquer empeço que lhes assombre o seu municipio, se
acontece o governo ir de encontro a alguma postura sobre a carne de
porco, ou cousa assim em que valha a pena lembrar ao mundo que o Porto é
o paladium das liberdades patrias.
N'isto pensava eu no jardim de S. Lazaro, n'aquelle dia em que Jorge
Coelho, mais imprudente que atrevido, se avisinhára de Silvina, que,
passados minutos de conversação, lhe disse:
--Não se demore mais tempo, porque toda a gente nos observa com ar
espantadiço. Eu cuido que estamos dando grande escandalo.
Jorge Coelho retirou, e deu o braço ao amigo Pires, que fremia de raiva
resultante d'uma desfeita que recebera de D. Francisca.
--Desfeita!--disse Jorge--pois uma senhora faz desfeitas!?...
--O requinte hediondo da insolencia!--vociferou o fidalgo da Maya
tascando com phrenesi a ponta do charuto.
--Que te fez?
--Ouviu-me hontem na «Assembléa » uma declaração, acolheu-a com doudo
enthusiasmo, disse-me que eu era um homem tão admiravel como perigoso;
tremeu de pavor quando eu lhe fiz sentir o desfastio com que me
arrancaria as entranhas, se me ella não aceitasse a vida como
complemento da sua. Tudo isto me authorisava a offerecer-lhe hoje uma
carta, com a certeza de me ser aceita. Offereço-lh'a, e ella responde-me
que não sabia lêr se não letra redonda! Leonardo de Sousa Pires e
Albuquerque sabe vingar-se. Vou ámanhã á Maya; depois... ai d'ella e de
mim!