--Se sou poeta!...--disse Pires, enviezando para o estuque do firmamento
olhos de lastima.--A poesia é flôr muito delicada, que o primeiro
vendaval do coração desfolha. Desfolhada a primeira flôr, o vaso que
fica não tem seiva para outra: é como a terra ferida de maldição.
--Isso é triste--acudiu Silvina, tregeitando com a cabeça e olhos umas
gaifonas piedosas.
--Tristissimo, minha senhora!
Agora eram de victima os ares do Fausto da Maya, e a dama já pedia a
Deus que não viesse para junto d'ella a prima, com medo de espirrar uma
d'aquellas casquinadas de riso, que a mais sisuda prudencia não refreia.
Jorge Coelho, no entanto, sem bem saber o que o impacientava, não podia
tolerar a detença do amigo. «Se eu soubesse dançar--dizia de si para si
o academico--teria feito o que fez Pires... Será de mim que elles estão
fallando? É natural, porque a vejo fitar-me com attenção... Se me eu
avisinhasse, daria melhor occasião a Pires de me apresentar...»
E, obedecendo á hypothese, deu alguns passos; mas tão a medo o fazia,
que antes parecia querer que o não vissem. N'isto, já o amigo o andava
procurando, e Silvina, vendo a direcção errada de Pires, acenou-lhe de
longe, indicando com disfarce onde estava Jorge.
O pobre moço tremia quando viu que era procurado. A sua primeira idéa
foi fugir da sala, e não duvidamos crêr que fugiria, se Pires lhe não
trava do braço, dizendo:
--Olha lá como lhe fallas: a mulher tem espirito, e é um genio.
Isto foi peior.
--O meu amigo Jorge Coelho que eu tenho a honra de apresentar á exc.ma
snr.ª Dona...
Pires estacou. Silvina sorriu-se. Jorge corou, baixando os olhos.
--Não sabe o meu nome? isso não importa disse a dama.--Eu me apresento.
O meu nome é Silvina. Tenho a gloria de ser tambem aldeã. Nenhum dos
tres póde rir dos outros. Então o snr. Jorge não dança?
--Não, minha senhora, eu não sei dançar--disse Jorge com infantil
ingenuidade.
--Não sabe, porque não ama a dança, não é assim?
--Em minha casa ninguem aprendeu a dançar. Minha mãi foi educada n'um
convento, e de lá sahiu para ser esposa, e governar sua casa n'uma terra
onde nunca se deram bailes. Eu sahi da minha aldéa ha menos d'um anno, e
tenho consumido todo o meu tempo no estudo...
Estava Silvina gosando sem motejal-a a simplicidade de Jorge, ao passo
que Pires lamentava as pueris historias do seu acanhado amigo. Como
quizesse salval-o, o imaginoso academico interrompeu-o com não sabemos
que espirituosa semsaboria, que Silvina atalhou logo:
--Deixe fallar o seu amigo que me está encantando com a singelesa do que
diz...
--Eu retiro-me, minha senhora--disse Pires, arqueando-se--porque estou
compromettido para a seguinte polka.
--Tambem eu...--disse Silvina, já quando o par se avisinhava, ao qual
pediu desculpa, de não dançar, por causa de uma forte dôr de cabeça. E
voltando-se para Jorge, que não soubera avaliar a fineza do fingido
incommodo:
--Tem aqui esta cadeira... Sente-se, e conversemos da sua familia,
porque talvez precise desafogar saudades d'ella em coração que o
comprehenda.
Jorge cobrára alento com este ar de familiaridade. Fez-se para elle
profundo silencio em todo aquelle borborinho da sala.
Era a primeira vez que se via em face de uma mulher, que lhe não chamava
irmão ou filho; e, todavia, tanta ingenuidade fraterna respirava o rosto
de Silvina, que, por encanto, o timido moço, sem forcejar contra o
enleio da alma, tirou de lá expressões de sorte affectuosas que nem os
mais destros comicos de sala as diriam assim.
--Tem muitas saudades dos seus, snr. Jorge?--disse Silvina com brando
mimo.--Está ancioso por chegar aos braços de sua mãi?
--Quizera que v. exc.ª a conhecesse--disse Jorge maviosamente.--Havia de
amal-a... que minha mãi está tão longe d'este mundo brilhante, vive d'um
modo tão differente do das pessoas educadas como ella foi, que me faz dó
o que era e tem sido ha vinte annos, contando hoje apenas trinta e seis,
n'uma aldêa, sem outra convivencia senão a de seus filhos, e sempre
magoada das saudades de meu pai... Ha duas horas que penso em v. exc.ª e
n'ella...
--Em mim?--atalhou Silvina, com sorriso de bondade--lisongeia-me
infinitamente a companhia que me deu no seu pensamento; mas poderá
dizer-me que analogia de imagens achou entre mim e sua mãi?
--Immensa, e não sei dizel-a. Se eu podesse bem interpretar este
sentimento mysterioso, diria, d'outro modo, que hoje, pela primeira vez,
se espelharam em minha alma duas imagens de mulher. Até ha pouco, havia
lá a de minha mãi sómente, e os traços informes, a sombra, o indefinido
do ser que vaga entre o céo e a imaginação do poeta. Agora...
--Essa segunda--interrompeu Silvina com uma gravidade impropria de sua
idade e modos usuaes--não poderá jámais deslumbrar a de sua mãi, porque
os entes de imaginação, visualidades passageiras, nunca usurpam a posse
aos entes que a natureza nos está dando todos os dias em realidade de
amor e carinhos. E depois, snr. Jorge, verá que é inutil esperar aquelle
puro original da cópia que a sua phantasia vai debuxando, em quanto o
coração novo e enganado lhe empresta as côres do céo. Affirmo-lhe, senão
authorisada pela experiencia, amestrada pelo exemplo e confissões
sinceras das minhas amigas, affirmo-lhe que o seu indefinido de poeta
nunca lhe ha-de avultar em corpo e alma, se os olhos descerem do céo a
procural-o na terra. Guarde, pois, com extremosa avareza a imagem de sua
mãi, e não consinta que outra lhe dispute o exclusivo amor que lhe dá.
Disse.
O academico ouvia, pela primeira vez, a expressão floreada, a linguagem
musical, o periodo arredondado, como de folhetim ambicioso, na bocca de
mulher. Achava elle certa incongruencia entre as feições menineiras da
provinciana e o tom sentencioso do discurso. Relanceou-lhe subito na
memoria o meu nome, segundo me elle contou depois. Lembrou-se d'aquelle
meu estirado discurso, na sua aldêa, dezoito mezes antes. Tropeçou na
hypothese de que o singelo exterior da palavrosa menina mascarava um
coração desbaratado por desenganos, e engenhoso de armadilhas a corações
noviços. Alguem diria que o silencio de Jorge, seguido á ultima
expressão de Silvina, era acanhamento. Já não: era a duvida.
--Ficou tão pensativo, snr. Jorge--tornou Silvina.--Está pesando no seu
juizo a verdade das minhas palavras? Impressionaram-no tanto!...
--É verdade, minha senhora; estava pesando as palavras de v. exc.ª com
outras que me disse um homem de trinta annos.
--Contrarias ás minhas?
--Semelhantes na intenção; mas muito mais desconsoladoras na fórma.
Disse-me elle que ha muitas mulheres que matam, e uma só que salva.
--Mas affirmou-lhe haver uma que salva?
--Sim, minha senhora.
--E quantas vezes lhe disse elle que podia ser victima de sua devoção e
generosidade a mulher que sente em si o coração salvador?... Creio que
me não fiz comprehender...
--Comprehendi, minha senhora. Pergunta v. exc.ª se a mulher capaz de
erguer a alma despenhada de sua grandesa, não se despenhará ella mesma
n'essa generosa tentativa;
--Entendeu.
--Não sei responder, snr.ª D. Silvina. Eu não sei nada do mundo. Ignoro
os precipicios em que póde cahir o homem, e não sei tambem a que alturas
póde levantal-o o amor. Já imaginei o mundo mais agradavel: começo a dar
cem illusões por cada realidade. Não cuide v. exc.ª que eu fiz pé atraz
á vista da verdade despoetisada, e feia como dizem os pessimistas que
ella é, vista á luz da razão pura; vejo, porém, que se vão fenecendo as
flôres da minha imaginação á maneira que escuto e pondero, com religiosa
crença, as palavras que v. exc.ª me diz, e as que me disse o bom ou
funesto despertador da minha razão, que dormia acalentada nos braços da
poesia. De que serve o desengano antes que a fatal experiencia no'l-o
dê?! Para que me diria v. exc.ª, com ar de tanta verdade e segurança,
que eu nunca encontrarei o puro original da cópia que a minha phantasia
entrevê?!
--Diz bem! atalhou Silvina meigamente triste, ou adoravelmente
dramatica--diz bem! Arrependo-me da injustiça que fiz ás mulheres, e
mesmo da crueldade com que me tratei a mim propria. Fallei pela bocca da
sociedade, snr. Jorge Coelho. Tenho ouvido, e lido nos romances as
palavras geladas e desanimadoras que lhe disse, com o immodesto animo de
distinguir-me a seus olhos. Menti-lhe, e menti ao meu coração. Não se
desalente ao entrar na vida, e nunca de mim se lembre como de fada má,
que lhe fadou a desventura. Espere, creia, e obedeça aos impulsos do
coração, em quanto a peçonha da mentira o não contaminar. No mundo deve
existir a imagem da mulher digna de senhorear-lhe a alma com a de sua
mãi, cuja face eu beijaria, hoje, se podesse, com respeito e ternura de
filha. Quando estiver nos braços d'ella, diga-lhe que encontrou no
Porto, e n'um baile--onde raro sentimento grave entretem por momentos o
espirito--diga-lhe que encontrou uma mulher que lhe manda n'esta rosa um
beijo de sympathia e veneração.
E, dizendo, tirou do decote espeitorado do vestido a rosa, chegou-a aos
labios, e deu-a com gracioso ademane a Jorge, que lh'a recebeu com mão
tremente.
--Cumpre o meu pedido? tornou ella.
--Pergunta-me se cumpro? É este um encargo doce que v. exc.ª faz ao meu
coração. Farei que minha mãi receba nos labios o beijo que vai n'esta
flôr. Depois, pedir-lhe-hei que m'a ceda, que eu possa chamar-lhe minha,
enthesoural-a como se ella para mim cahisse da grinalda d'um anjo... Se
ha no coração poesia mais sublime que a da saudade...
--Ha, sim... a da esperança...
--A da esperança!... balbuciou Jorge, levando machinalmente a rosa aos
labios, e córando da irreflectida acção que se lhe afigurou menos
respeitosa.
(Oh santa innocencia! não sei se és mais tola que santa!)
Desculpem o parenthesis que desfeia um pouco o bello e harmonioso da
fórma dialogal. Guarde-me Deus de motejar com insulsas facecias a
candura, o rubor, a timidez encantadora dos vinte annos de Jorge.
Invejo-lhe o que já não posso haver nem sequer com grande esforço
d'arte; mas rio-me d'elle e de mim, quando as galhofeiras memorias do
que fui, ha hoje quinze annos, sahem d'entre as flôres mirradas da minha
primavera, e vem cá a este glacial dezembro da vida fazer-me assuada e
zombaria, para que eu me dôa e corra das criancices de então. Pois
rio-me com effeito, que é para isso a cousa, e riam-se, á vontade, os
que de mim souberem que muitas vezes todo eu me incendiava em carmim e
rosa, quando o olhar logrativo da mulher me alvoroçava o pudor a ponto
de afeminar-me, e fazer de mim uma menina que... Quasi me escorregava
agora dos bicos da penna uma necedade das que se não desculpam á propria
santa innocencia que, repito, não sei se é mais santa que tola.
Vamos á historia com ajuda da providencia dos romancistas, a qual
providencia, muitas vezes, abre mão d'elles, e deixa-os para ahi
parvoejar que é mesmo cousa de peccado.
Silvina deu fé do rubor de Jorge, e...--querem saber a verdade
inteira?--não gostou. É um segredo da essencia mulheril o dissabor que a
molesta, a seu pesar... (vá, diga-se a _seu pesar_) quando o homem se
amulherenga ao pé d'ella, e lhe não deixa o exclusivo de mulher. Receios
de desmerecer em graças quando lhe é força ser mulheril? Consciencia
ingrata d'uma superioridade que a desenfeita? Recursos que perde de
captivar pelo mimo, com a brandura caridosa, por estremecimento do
pudor, toques do pejo virginal, que ora lhe transluzem nas faces, ora
lhe cerram os labios? Não sei se é tudo, ou alguma cousa, ou nada
d'isso. A verdade é que a mulher não gosta de homens que coram, de
homens que choram, de homens que... não são homens, está dito tudo, e
n'isso ficaremos, se acham que está discutida a materia. _Materia_...
que aleivosia! Isto é espirito o mais espiritual que póde ser. Espirito
transcendental, d'aquelle que devia andar na mente de muito casquilho,
paralta, janota, ou como é que se chama a tal alimaria, que se
desentranha em lufadas de cynismo nos botequins, e vai ao pé das
costureiras tartamudear jaculatorias de ternura.
Fica, pois, justificado o desgosto de Silvina, quando viu Jorge córar,
por ter beijado a flôr, onde os labios da peregrina minhôta haviam
imprimido o beijo de encommenda para a provincia.
--Agora, disse ella; são dous os beijos que leva a sua mãi, em uma só
flôr. Queira Deus que o halito dos labios do filho não tirasse o perfume
ao dos labios da amiga.
--Creio que sim--disse Jorge corando outra vez--creio que sim...
--Porque?!--atalhou Silvina com despeito mal comprimido.
--Porque sinto no coração o perfume do seu beijo.
Sahiu-se melhor do que eu pensava. É aquella uma das respostas que
costumam ir de casa gizadas; mas creio no improviso. E assim, explicado
o segundo accesso de escarlate, desvaneceu-se o desaire em que estava
Jorge na opinião caprichosa da dama, que replicou muito requebrada:
--Pois não esperdice o perfume, porque nunca sentirá no coração outro
mais puro, mais digno de incensar o seu amor reflectido do céo.
--Amor!--interrompeu Jorge com exaltado impeto de criança--Olhe que essa
palavra póde ser-me veneno para toda a vida, se v. exc.ª consentir que
eu a guarde...
--No mais intimo de sua alma... Guarde... que nunca a proferi com tão
pouco conhecimento de quem a dou, e tão pouca esperança de a vêr florir
em venturas.
Jorge Coelho ia naturalmente córar terceira vez, quando Francisquinha da
Cunha chegou, com ar de zanga, e disse:
--Vamos, prima, que o pai quer sahir... e é tão cedo... que raiva!
estava agora ouvindo uma enfiada de tolices tão peregrinas...
--De quem?
--Eu sei cá de quem? d'um homem que se chama Pires, e que este senhor
conhece... Não lh'o diga, não? Eu fui indiscreta...
--Não diz nada--acudiu Silvina--pois não, snr. Jorge?
--Eu, minha senhora!...
--Asseverou-me--continuou Francisca gesticulando vertiginosamente com
cabeça e braços--que se eu o não amasse, havia de espirrar á minha
fronte de algoz o seu sangue de Larra, de Werter, de... Ai que homem,
que homem aquelle! O que se produz na Maya! Ó filha, eu não posso perder
aquillo!... Pires é meu...
Ai! o pai... Vamos, Silvina.
Silvina estendeu a mão a Jorge, e disse a meia voz:
--Vá vêr-me ámanhã ao jardim de S. Lazaro.
Jorge balbuciou alguma cousa que não vinha do coração. N'este momento,
um receio doloroso o affligia com esta pergunta: «Esta mulher irá
escarnecer-te, como viste escarnecido o teu amigo?»