Estava Jorge, outra vez, defronte das duas senhoras. Sentia-se outro. Já
tinha interiormente um mundo, uma imagem reflexa do mundo exterior a
remuneral-o vantajosamente da insulação em que se via no meio de tantos
indifferentes á sua tristesa. A todo homem esta mutação tem acontecido,
uma vez na vida. O baile é triste para quem leva da soledade do seu
quarto o coração de lucto; porém, áquelle mesmo conforta, ás vezes, uma
chimera, lá onde menos a esperança lh'a promettia. Chimeras são que
desbotam, como as flôres dos enfeites, ao repontar da manhã; mas Deus
sabe quantas almas se retemperam nas illusões de um baile, e que horas
de abençoado engano lá divertem as tristesas dos mais desenganados!
Não era assim que Jorge Coelho scismava comsigo--que a aurora do seu
breve dia de fé e amor principiava alli--quando o amigo Pires,
lançando-lhe o braço em redor do pescoço, lhe disse:
--Que fazes aqui parado? Contemplas aquellas duas Evas, mal assombradas
de gesto, como se tivessem comido a fatal maçã?
--Contemplo uma, e acho-a celestialmente formosa.
--A côr de cêra?
--Sim.
--Eu gosto mais da morena. _Nigra sum sed formosa._ Aquillo sim que é
mulher para incommodar a fleuma d'um sceptico!... Queres ser
apresentado?
--Pois tu conheces?
--Não, nem preciso. Vou tiral-a para a primeira quadrilha, apresento-me,
e depois tenho a honra de ser o teu apresentante. O estilo, cá na boa
roda, é este.
--Mas a quem me has-de tu apresentar? é necessario, a meu vêr, que ella
te diga quem é.
--Pois não lh'o pergunto eu?! Essa reflexão é piegas. Se queres ouvir o
que eu digo, colloca-te ao pé de nós, e escuta-me nos intervallos das
marcas.
O snr. Pires não reconsiderava uma tolice, nem tolerava replicas.
D. Silvina, vendo um sujeito conversar com Jorge, olhou-o curiosamente,
para, se acaso visse pessoa de suas relações com elle, podesse, de
conhecido em conhecido, chegar a colher alguma informação do seu
mysterioso observador. Mais propicia do que ella ambicionava, lhe foi ao
encontro a fortuna protectora de sua innocente curiosidade. Pires, com
elegante desembaraço, solicitou de Silvina uma contradança: esta, com
adoravel aprazimento, aceitou logo o braço do cavalheiro porque se
estavam alinhando os pares.
Aqui, porém, falhou uma vez a felicidade a um tolo. Esquecera-se Pires
de procurar _vis-á-vis_, e era já fóra de tempo o procural-o. A dama deu
primeiro pela falta, e o academico fez-se da côr do rabano. Silvina
relanceou os olhos supplicantes a D. Francisca, e esta, chamando o
primeiro cavalheiro conhecido, deu-lhe o braço, e entrou no lugar
fronteiro á prima.
--Esta falta, disse Pires, retesando no pulso a luva até a rasgar,
deve-se ao enthusiasmo com que eu pedia a v. exc.ª esta contradança.
--Enthusiasmo?! Ora!... parece-me que queria dizer _distracção_,
respondeu Silvina ao adiantar-se para executar a primeira figura.
Chegado o grande intervallo, Jorge Coelho quizera ir postar-se perto de
Silvina; mas um burguez intolerante, zangado da pertinacia do moço, que
envidava os recursos todos da delicadesa e do encontrão para romper a
barra compacta dos olheiros de espadoas nuas, chegou a dizer-lhe,
franzindo a testa:«O senhor não cabe? se quer passar espere que acabe a
_polka_!» O bom do burguez não sabia ao certo se era contradança ou
polka o que se estava dançando.
No entanto, o nosso amigo Pires, com quanto pesaroso de que Jorge alli
não estivesse, para maravilhar-se dos recursos da eloquencia afeita ás
difficuldades do salão, conversava assim com a senhora attenciosa:
--Quando tive a honra de impetrar de v. exc.ª a graça d'uma
contradança... (Silvina poz o leque diante dos labios) acabava eu de
dizer a um amigo meu que o olhar contemplativo, _la réverie_, com que
elle fitava v. exc.ª, era merecida, justificada, e...
--Muito agradecida;--atalhou Silvina, tregeitando com o leque e a cabeça
uma evolução de movimentos indescriptiveis--mas eu não reparei bem no
amigo de v. s.ª, que me distinguia de modo tão lisongeiro.
--Se v. exc.ª tem a bondade de olhar em frente, ha-de encontral-o
extasiado...
--Extasiado?! Ora isto parece-me que vai passando da lisonja á galhofa!
--Oh! minha senhora... Isso offende-me e punge-me, acudiu Pires com o
mais comico azedume.
Silvina relanceára a vista como quem não via, e voltando-se para o
cavalheiro, disse:
--É do Porto aquelle senhor?
--É da provincia, minha senhora, estudante de Coimbra, meu condiscipulo,
chama-se Jorge Coelho, pertence a nobilissima familia, e assevero a v.
exc.ª que é um coração virginal, intacto, fervoroso, sentindo hoje pela
primeira vez os impetos juvenis do amor.
--Não admiro, porque é muito novo.
--Muito novo! oh! minha senhora! Quantos velhos n'aquella idade! Aqui
estou eu, de pouca mais idade que elle, e me considero já
_desillusioné_, decrepito.
--Realmente?!... Perdoe-me a curiosidade--disse Silvina, com muita graça
de fina ironia, sustentada com imperturbavel seriedade.--Queira dizer-me
em que romance poderei encontrar o seu caracter, já que não devo esperar
uma revelação das tempestades que o fizeram tão cedo naufragar!
--O meu caracter ainda não está escripto!--respondeu Pires, avincando a
testa, e fitando-a de esguelha.
N'este comenos entraram os pares latentes em movimento, e a phrase ficou
engasgada até ao proximo intervallo. Enganou-se, porém, o sceptico.
Silvina, como esquecida da suspensão da lugubre narrativa, perguntou ao
cavalheiro:
--O seu amigo demora-se no Porto?
--Não são essas as intenções d'elle, minha senhora; mas é de presumir
que um aceno de v. exc.ª o faça esquecer a familia carinhosa que o está
esperando.
--V. s.ª depois que envelheceu--replicou Silvina cortando as palavras
com frouxos de estudado riso--julgou salutar cousa o distrahir-se da sua
gotta moral zombando das pessoas que ainda crêem e esperam alguma cousa
d'esta vida?!
Acudiu Pires:
--Eu que digo isto é porque sei o que v. exc.ª é para Jorge. Respondo
gravemente ás suas facecias adoraveis. Sei que as virtudes de v.
exc.ª...
--V. s.ª conhece-me? perguntou Silvina de golpe, e formalisada.
--Não tenho essa honra, minha senhora.
--Quem lhe disse que ha em mim virtudes?
--Rosto angelico e véo translucido: homem experimentado adivinha o
coração do anjo.
Pires ia dizer mais quatro aforismos do seu uso, quando terminou a
contradança. Conduziu a dama á sua cadeira, e disse-lhe:
--Eu queria ter a felicidade de apresentar a v. exc.ª o meu amigo Jorge
Coelho; porém, rogo-lhe me diga se devo procurar alguem que me apresente
a v. exc.ª
--Não tenha esse incommodo. Fico sabendo que v. s.ª é um cavalheiro da
boa sociedade, e tanto basta. Sei tambem que é academico, e sympathiso
com essa qualidade porque tenho em Coimbra dous irmãos no seminario, e
não sei que analogias me fazem presar os estudantes.
--Direi mais, acrescentou o academico, enclavinhando os dedos para
ajustar as luvas, e tirando pelas lapelas da casaca a puxões de gentil
effeito--direi mais a v. exc.ª que me chamo Leonardo de Sousa Pires e
Albuquerque, a minha casa é na Maya, e costumo passar as ferias no
Porto, porque sou avesso á vida pastoril, e não tenho senão mediocres
tendencias para admirar a natureza bruta...
--Não é poeta?--interrompeu Silvina, ageitando o lindo rosto a um ar de
zombeteira admiração.