Deu-se pressa em escrever com febril agitação. Chamou um lacaio,

confidente unico, e deu-lhe uma carta.

Eram cinco horas da tarde.

O lacaio foi encontrar-se com Eduardo Pimenta debaixo dos arcos das

Aguas-livres.

Deu-lhe a carta, em que Julia concisamente lhe pedia que não a

procurasse, mas lhe escrevesse a referir-lhe os acontecimentos

domesticos d'aquelle dia. Á intimação positiva de lá não ir, nenhuma

explicação ajuntava. «Elle--concluia a carta--escreveu-me agora,

dizendo-me que só vem á meia noite; mas eu estou muitissimo assustada.

Não venhas.»

Eduardo pesou as apprehensões de Julia, e não lhes achou gravidade. O

creado esperava alguma resposta vocal.

--Não digas nada á senhora--ordenou-lhe o generoso confidente--mas ás

dez horas abre-me a porta da cocheira; e, depois que eu lá estiver,

então irás dizer á senhora que eu entrei.

Dito isto, foi ao Hotel de França, na praça dos Romulares, saboreou os

acepipes do condimentoso jantar, digeriu-os em alegre palestra com os

convivas, conversou das logrativas lorettes de França, das alabastrinas

mulheres de Londres, das morenas de Sevilha, das pallidas de Lisboa, e

fez-se ouvir e invejar dos admiradores de seu espirito e das famosas

aventuras.

Ás nove horas e meia, carregou pela quarta vez o seu cachimbo de

procelana e ouro, apertou a mão dos discipulos e sahiu.

Ás dez entrou na estrebaria do palacio das Amoreiras, e enviou o recado

á fidalga, quando ella estava no seu quarto contemplando os filhos

adormecidos.

Por volta das onze, padre Manoel Ferreira, cujos aposentos nivelavam com

o jardim, ouviu que lhe batiam mansamente na vidraça de uma janella.

Collou o ouvido ás portadas interiores, e perguntou assustado quem era.

--Abra a janella, padre Manoel--disse Venceslau a meia voz.

O capellão reconheceu-o, e disse que ía abrir a porta.

--A porta não... a janella...--insistiu o outro.

Cumprida a ordem, Venceslau Taveira transpoz o peitoril.

--Que é isto?! Snr. Venceslau, porque entra d'esta maneira em sua

casa?!--perguntou o padre a tremer de susto.

--Abra o mais subtilmente que poder.

E apontava-lhe para a porta de communicação com o pateo onde estava a

escada de serventia para o andar nobre.

--Agora--disse Venceslau, sahindo--não me siga.

--Ó snr. Taveira!... onde vae?...--balbuciou o padre.

--Sabe onde vou?!--inquiriu severamente o marido de Julia.

--Não, senhor.

--Então porque se assusta?

--Estranho isto...

--Bem. Fique!--respondeu sêccamente.

Minutos depois, D. Julia, pondo a mão nos labios de Eduardo, segredava-lhe:

--Espera... não ouviste nada?...

--Não...

--Pareceu-me ouvir uns passos abafados na sala...

Eduardo fitou o ouvido, e apesar de pallido e enfiado, murmurou:

--Não é nada...

N'este lance, abriu-se a porta da salêta, como se a impellisse um

repellão de vento.

Entre as hombreiras da porta estava Venceslau com uma pistola empunhada.

Julia, já de pé, soltou um grito estridulo, e fugiu para o quarto onde

estivera contemplando os filhos.

Eduardo, ao levantar-se, fêl-o como de um salto de cadaver sacudido pela

electricidade: tão de morto era a amarellidão do seu terror! Ergueu os

braços inteiriçados. É impossivel conjecturar se o impulso d'aquelle

movimento de indefinivel agonia era aggredir ou supplicar. A pederneira

da pistola estalejou na cassoleta. Um dos braços de Eduardo retrahiu-se,

e a mão, batendo rija no lado esquerdo do peito, parecia querer reprezar

a vida no ponto onde entrára uma bala. Rodou meio giro sobre si,

amparando a fronte na outra mão; e, resvalando pela espalda da cadeira

onde estivera sentado, cahiu vasquejante.

Venceslau atravessou a salêta, e parou no limiar da alcôva.

Os meninos tinham acordado ao troar do tiro. Estavam sentados na cama,

espavoridos, com os loiros cabellos riçados em anneis, e os olhos

spasmodicos, brilhantes, fitos na mãe que os abraçava, e escondia o

rosto entre elles.

--Não se aterre, senhora!--disse serenamente Venceslau.--Olhe que não

morre... Essas creanças não tem pae... é preciso que tenham mãe... Se

fossem meninas, se d'essas creanças podessem fazer-se mulheres,

seria misericordioso estrangular as futuras herdeiras da sua infamia...

Viva... peça a esses dous innocentes que a defendem da morte do

remorso... E, se elles algum dia lhe perguntarem pelo pae, diga-lhes que

as mulheres perdidas não sabem quem é o pae de seus filhos...

O homicida atravessou a salêta, relançando um olhar inexprimivel ao

cadaver.

Quando sahia, viu o padre, que difficilmente se tinha em pé, com as mãos

postas para elle.

--Snr. padre Manoel--disse o marido de Julia--tenha a bondade de

procurar ámanhã no Limoeiro o assassino Venceslau Taveira.

XXII

Seule, elle reste assise, et son front sans couleur

Du remords qui s'approche a dejà la pâleur.

A. DE VIGNY.--_Poesies._

Venceslau esperou o diluculo do dia seguinte, nas lages do Caes das

Columnas onde a ventania do mar, encrespando o Tejo n'aquella noite de

novembro, borrifava aguaceiros glaciaes.

Mas elle, enroupado na sua febre, sentia refrigerar-se-lhe a fronte, se

os pegões de vento lh'a roçavam, irriçando-lhe os cabellos.

Ás vezes, n'aquella treva exterior, relampagueava um sulco de luz. E

elle, ao clarão sulphuroso do corisco, via um cadaver boiando á flor da

onda, e então era um rir asperrimo do louco--a epilepsia dos beiços onde

espumava o rancor; e, logo depois, chorava, se, ao lampejo alvacento

d'outra fulguração, via um berço com duas creanças queridas,

acorrentado no esquife de uma mulher, que a voragem ora sorvia, ora

regolphava aos clarões da procella.

Não meditava, não comparava, não carpia os bens da honra perdidos, nem

se confrangia das punhaladas do coração. Era a agonia estupida.

Os syndicos da alma, quando se demoram a descrevel-a n'aquella

impenetravel escuridão, illudem-nos. Nós não sabemos graduar o frio e o

fogo d'esses infernos. Os que passaram por ahi, não sabem dizer o que

viram. A fantasia dos que lá não foram, por mais calcinadas que lhe

flammegem as imagens, apenas vingará dar-nos em sombra as vascas do

corpo que se esfacella; as da alma, não.

Á primeira luz da manhã, Venceslau parecia ir caminho da casa onde

deixára um cadaver. Não ía. Parou na travessa do Secretario da guerra,

onde morava o corregedor do crime José Antonio da Silva Pedroza, seu

companheiro de emigração.

Fez-se annunciar a tempo que o magistrado ainda dormia. Não o attenderam

os creados que o não conheciam. Sentou-se no escabello do pateo,

esperando. Mais tarde entrou um official de justiça que conheceu o

grande orador, o rico fidalgo das Amoreiras. Cortejou-o reverentemente,

e foi acordar o corregedor, dizendo-lhe que o conselheiro,

official-maior da secretaria dos negocios estrangeiros, o esperava no

pateo desde o romper da manhã.

O magistrado, erguendo-se em inquieta expectação, foi recebel-o á

sala, e fez pé atraz ao vêr-lhe o transtorno das feições.

--V. S.ª a estas horas aqui?... grande caso!... Ha revolta?...

--Snr. Pedroza--disse Venceslau.--Vi um homem na ante-camara de minha

mulher. Matei-o. Não sei se era o crime que o levou alli, se a intenção

do crime. Matei-o. Eu era amigo d'este homem, amigo de dezeseis annos,

valedor nas suas miserias, consolador nas suas lagrimas. Matei-o, porque

o tinha amado como os infelizes bons amam os infelizes bons e máos.

--Snr. conselheiro--disse o corregedor.--Nós fômos companheiros no

desterro. V. S.ª tinha dois amigos: um era Antonio Vaz que lhe morreu

nos braços; o outro era...

--Matei esse...--atalhou o homicida.

--Bem morto...--murmurou o juiz.

--A justiça me julgará.

--Está julgado; mas fuja... cá o livraremos.

--Não fujo. Dê-me V. S.ª um mandado de prisão para me eu apresentar ao

carcereiro. Desde o momento que me accusei ao executor da lei, estou preso.

O corregedor abraçou-o, dando livre curso ás lagrimas.

Como não tivesse áquella hora escrivão que lavrasse o mandado, escreveu

ao carcereiro, enviando-lhe o preso que deveria ser hospedado em sua casa.

N'aquelle tempo os ministros criminaes podiam ter d'estes rasgos,

sem receio que a imprensa lhes lembrasse a egualdade dos criminosos

perante a lei.

Em quanto o preso seguia só para o Limoeiro, o corregedor mandava lavrar

auto, e entregar o cadaver á viuva, ou ao coveiro da mais proxima egreja.

Quando Venceslau chegou ao pateo da cadeia, já lá estava o padre Manoel

Ferreira.

O réo apertou-lhe a mão silenciosamente, e enviou ao carcereiro a carta.

Acudiu logo o funccionario a conduzil-o aos seus aposentos.

--Onde é o meu quarto?--perguntou o preso.

--É toda a minha casa, snr. conselheiro.

--Não lh'a acceito, mas muito grato lhe fico. Se me quer favorecer,

dê-me um quarto, onde eu esteja sósinho.

--Ninguem virá incommodar V. S.ª sem sua ordem.

O carcereiro sahiu da confortavel salêta onde ficaram o preso e o capellão.

Assim que ficaram a sós, o padre apertou-o contra o peito que lhe

rebentava em lagrimas.

Venceslau não pôde reter as suas; porém, se o padre queria abrir ensejo

de conversarem sobre os successos d'aquella noite, era estorvado por um

gesto afflicto.

Não obstante, o capellão pôde dizer que D. Julia tinha sahido ás duas

horas da manhã com os filhos para a sua quinta da Ericeira, e que não

deixára ordem nenhuma a respeito da casa.

--De mim não tem ordens a receber, snr. padre Manoel--acudiu Venceslau.

--Pois de quem?

--Essa pergunta diz mal com a sua provada honra. Na casa, onde V. S.ª é

capellão, deixei uns poucos de livros, que receberei, porque são os

utensilios do meu pão de cada dia. Recebel-os-hei porque sou pobre; e

porque a Providencia me ha de defender com elles a razão, e corroborar a

honra.

--Mas os seus filhos...--balbuciou o padre.

--Silencio!--interrompeu Venceslau.--Por piedade, calle-se... e

deixe-me! Que novo inferno me vem trazer aqui!... _Meus filhos!..._

Filhos d'ella, sim, padre! filhos da mulher a quem eu deixei um cadaver,

sobre o qual, ella... e elles... podem rezar suffragios por alma de...

seu pae!

--Oh! por Deus!... Essa suspeita é horrenda... e injusta!...

--Basta!--bradou Venceslau.--Vá, snr. padre Manoel, que me está

despedaçando...

E levou-o até á porta impellindo-o com quanta brandura cabia na

delicadeza, incompativel com o arrebatamento.

O padre foi encontrar a justiça no palacio das Amoreiras. Os aguazís e

visinhos devassavam a alcova de Julia, os leitos, os vestidos em

desalinho nos cabides, a guarda-roupa estofada de setins e velludos, as

roupas brancas das creancinhas, os sapatos da fidalga com as fitas

de rojo, e alli á beira de tudo isto, que respirava a felicidade

conjugal, as delicias da intimidade, estava um cadaver rôxo, nú para o

exame, com uma chaga escalavrada entre a quarta e quinta costella, e uns

meandros de sangue denegrido a serpejarem-lhe peito abaixo até á cintura.

D'ahi a pouco parou a sege funeraria que devia conduzir a tumba a casa

da viuva. Era acompanhada por seis homens de crepes, a pé, com os cirios

apagados pelas rajadas do vento.

Padre Manoel perguntou ao escudeiro do commendador qual era a situação

de D. Anna Vaz.

--Está fechada com os filhos e com o snr. commendador--respondeu o

escudeiro.--Ouvi chorar os meninos, mas ella não na ouvi. A aia disse-me

que a senhora morre.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Todos os homens assignalados por talento e encargos publicos procuraram

o preso. No primeiro dia, Venceslau, sem força para reagir, recebeu-os.

A visita era silenciosa, funeral, como a dos que vão desanojar um viuvo

extremoso. O encarcerado apenas chorou nos braços de um homem que lhe

disse: «Dou-te os parabens, porque a não mataste. A tua condemnação

maior, e talvez unica, ser-te-hia haver morto a mulher, que amaste

tanto.» Então, sim, chorou. O homem que disse aquellas palavras, tão

penetrativas aos abysmos do coração, chorava, quando m'as repetia,

quarenta e um annos depois. Era o tenente de cavallaria, que em 1868, se

chamava o general Pedro da Silva, a quem devo o titulo d'este livro.

E, se bem me recordo, o general proseguiu n'este theor, referindo-se á

epoca do encarceramento:

«O padre Manoel Ferreira e eu eramos as unicas pessoas recebidas no

quarto de Venceslau, o n.º 6 do ultimo andar, onde, n'aquelle tempo se

lia ainda aberto no alisar de uma porta o nome de Bocage que alli

estivera preso por atheu. O padre Manoel Ferreira, não ousava proferir o

nome de Julia; mas particularmente me contou a mim que ella na madrugada

do dia seguinte á grande desgraça, soffrêra uma febre cerebral, indo na

sege, caminho da Ericeira. E ajuntou, nas diversas vezes que a tal

respeito conversamos, que a doença de peito com successivas hemorragias,

ia tão adiantada que, na opinião do medico, os tecidos pulmonares

estavam dilacerados. Pedia-me então o padre que fosse eu preparando

Venceslau para dispôr dos filhos, logo que ella expirasse.

«Ora eu evitava quanto podia fallar em creanças, porque o meu amigo

reconcentrava-se; e, se as lagrimas o não desabafavam, a dôr prostrava-o

por tal maneira que fazia recear a loucura. Os filhos do carcereiro

visitavam-no. Elle acariciava-os com uns carinhos tão doces e ao mesmo

tempo tão angustiados, que eu tive de pedir ao pae dos pequeninos que os

prohibisse de ir ao quarto do preso.

«Venceslau era indifferente ao processo; mas a justiça, independente de

solicitações, andou tão pressurosa nos seus deveres, que em meado de

janeiro--mez e meio depois do delicto--o réo foi julgado e absolvido.

Á sua entrada no tribunal fez-se um rumor de compadecido assombro.

Venceslau, que então contava trinta e sete annos, tinha encanecido.

Os sulcos da velhice, abertos pelas lagrimas, arrugavam-lhe o rosto,

cujas feições pareciam estar como atrophiadas, paradas, immoveis

d'aquelle sombrio marasmo da demencia estupida e morta.

«Ao sahir do carcere, entrou na carruagem do marquez de Palmella, que

então era nosso ministro em Londres, e de lá providenciára em favor do

seu intelligente secretario e collaborador no ministerio dos negocios

estrangeiros. Por conselho dos medicos, levamol-o para a quinta do

marquez, no Lumiar, onde eu passei com elle as horas vagas do serviço

militar, até fevereiro do seguinte anno de 1828, em que chegou D. Miguel.

«Estavamos em uma sala triste por tarde tenebrosa de janeiro, quando

chegou padre Manoel Ferreira, e me chamou de parte, para me dizer entre

soluços que a infeliz D. Julia tinha morrido, pouco depois que em

confissão lhe jurára pelo futuro da sua alma, e na presença da sagrada

Eucharistia, que Venceslau era o pae dos seus filhinhos.

«--E onde estão os meninos?--perguntei eu ao padre.

«--Deixei-os entregues ás suas amas, e venho saber que destino devo

dar-lhes.

«--O snr. padre Manoel--disse eu--tem n'este lance a uncção religiosa

que requer semelhante revelação. Revista-se de animo, e diga-lh'o,

porque é inevitavel avisal-o, e não póde espaçar-se a noticia.

«O padre entrou á sala onde Venceslau, ao pé do fogão, parecia

amolentado n'um lethargico dormir em que passava os dias e as noites,

como se o cerebro, a pouco e pouco, se estivesse repassando da

narcotisação da morte.

«O padre apertou-lhe a mão, espertou-o, e quedou-se longo espaço a

contemplal-o, até que Venceslau lhe disse:

«--Porque chora, padre Manoel?

«--Choro por seus filhos...

«--Não venha ensopar mais fel na esponja...--murmurou Taveira.

«--Venho pedir-lhe que consinta que seus filhos o vejam. As creançinhas

já não tem mãe. A snr.ª D. Julia é morta.

Venceslau ergueu-se amparado nos braços do capellão, encarou-o muito a

fito, e tartamudeou:

«--Que diz? morta?...

«--Rendeu o espirito a Deus, ás duas horas da manhã, na sua quinta da

Ericeira. Quando o vigario lhe ministrava a extrema-uncção, a moribunda

chamou-me, e, pondo as mãos nas cabeças de seus filhos, disse-me:

«Juro-lhe, na presença de Deus, onde vou dar contas da minha vida, que

Venceslau é o pae d'estes dous innocentinhos, que vão ficar sem mãe.»

Duas horas depois, estava no tribunal divino.

Venceslau inclinou a fronte ao peito do padre, e murmurou: «perdôa-lhe,

ó justiça divina!...»

XXIII

Do ferro o peito atravessado tinha

De que o sangue ainda fresco lhe manava.

GABRIEL P. DE CASTRO.--_Ulyssea._

Os amigos do marquez de Palmella compelliram Venceslau Taveira a sahir

para Londres, quando os primeiros actos precursores do absolutismo deram

rebate á emigração dos liberaes mais expostos ao odio.

Sabia-se que o fogoso deputado era, sem impedimento da sua queda,

rancorosamente visto pelos realistas, que lhe sobrepunham aos delictos

de liberal a sobrecarga de assassino.

A vasta parentella da viuva de Eduardo Pimenta conjurára em vingar a

inconsolavel senhora, inflexivel contra o homem, que lhe matára o

marido, e deixára com vida a mulher em cujo quarto o encontrára.

N'esta conjuração o commendador Vaz era de todo estranho. Desde a

hora em que a tumba do genro entrára em casa, o velho sahira com os

netos para o Riba-Tejo, deixando a filha entregue aos parentes.

Venceslau, porém, resistira ás insinuações dos amigos, até ao momento em

que lhe figuraram os filhos trajando lucto por seu pae, morto no

patibulo. Levaram-no, pois, á deliberação de exilar-se, entregando os

meninos a padre Manoel Ferreira, depois de os haver tido comsigo um mez,

na quinta do Lumiar.

E, como o padre lhe perguntasse por que via as remessas de dinheiro

haviam de ser feitas para Londres, Venceslau respondeu que todos os

haveres de D. Julia eram dos filhos, e elle nada receberia do patrimonio

das creanças.

Expatriou-se, na vespera do dia em que era procurado á ordem de José

Antonio de Oliveira Leite Barros, aquelle celebrado conde de Basto, que

se mascarrou de sangue para dar uns longes de semelhança com o marquez

de Pombal, injuriando-o.

A intelligencia de Venceslau Taveira, durante os quatro annos de exilio,

quedou-se no torpor esteril d'onde nunca mais resurgiu. Espirito e

coração haviam sido fulminados da mesma morte. O marquez de Palmella,

sentando-o á sua mesa, e forçando-o a vestir-se da sua guarda roupa,

venerava-o mais que n'aquelles annos em que o consultava nos casos

melindrosos da sua missão diplomatica. Se ás vezes, em signal de

preito a um talento apagado pelas lagrimas, o convidava a pensar em

perigosas conjuncturas diplomaticas, Venceslau entrava-se d'uma tristeza

consternadora, e dizia:

--Perdido... tudo negro n'este pobre espirito...

E era deploravel no convencimento da sua inutilidade. Pedia a Deus que

lhe apagasse a luz, que o queimava, sem lhe alumiar a razão escurecida.

Em 1832 despediu-se do marquez e alistou-se na expedição de D. Pedro IV.

Desembarcou no Mindello, vestiu a farda de simples soldado, entrou nas

principaes batalhas, e de quasi todas sahiu ferido.

O governo do Porto reintegrou-o no seu antigo posto de official maior de

secretaria, cujo serviço lhe era penoso, porque o cansaço, á menor

applicação, lhe abastecia as trevas do entendimento.

Levantado o cêrco foi para Lisboa, e avisou o padre Manoel, de quem, a

grandes intervalos, recebia cartas em nome supposto.

O filho mais velho tinha então onze annos e o outro nove. Eram ambos

educados no Collegio dos Nobres, e denotavam dotes de rara capacidade.

O padre apresentou ao official maior as contas da sua administração,

dando-lhe a guardar alguns contos de reis excedentes ás despezas.

Venceslau rejeitou o deposito, insistindo em declinar de si a minima

interferencia na herança de seus filhos.

Indagou da existencia de D. Anna Vaz. Disse-lhe o padre que o

commendador era fallecido; que os credores de Eduardo Pimenta haviam

penhorado as duas quintas e palacete do patrimonio da viuva, e que esta

se acolhêra ao convento da Encarnação, onde vivia pobremente. Quanto aos

tres filhos alguns parentes se haviam encarregado de os educar.

O governo constituido mandou pagar ao conselheiro official maior os

ordenados suspensos durante a emigração. Recusou-os.

Habitava um quarto andar na rua da Rosa das Partilhas, e alimentava-se

d'uma taverna que occupava os baixos da casa. E, como os remanescentes

do seu ordenado abastavam para vida mais desafogada, elle enviava

mensalmente uma quantia ao convento da Encarnação, mediante padre Manoel

Ferreira, que não era todavia o portador da esmola. O capellão do

mosteiro, adestrado por conselho do outro, dava o dinheiro a D. Anna

Vaz, dizendo-lhe que uma illustre dama, que a conhecêra na abastança,

lhe pedia licença para a soccorrer em tão honrada quanto penosa viuvez.

Em 1834, a cholera-morbus entrou no Collegio dos Nobres. Venceslau

ordenou ao padre, administrador da casa de seus filhos, que os

transferisse para o seu palacio das Amoreiras. Ao mesmo tempo, o

contagio feria tambem o pae. Padre Manoel achou-o no leito, quando lhe

levava nova de ser fallecido um filho. Chorou, mas enguliu o segredo nas

lagrimas. O enfermo disse-lhe então serenamente:

--Posso morrer; os atacados n'este predio têm morrido todos. Levo

saudades dos meus filhos;... mas deixo-lh'os. Nunca lhes conte a

historia de sua mãe.

E o padre a ouvil-o, e a estancar nos olhos o sangue do coração!

Quando lá voltou no dia seguinte, encontrou Venceslau livre de perigo;

mas como era já de dois gumes o ferro com que devia cortar-lhe os fios

da vida, calou-se ainda. O segundo filho estava moribundo.

Um dia, Venceslau, já convalescente, disse ao padre que lhe levasse os

filhos ao Campo Grande, que os queria vêr.

--Não m'os conduza aqui--accrescentou elle--porque ainda ha colericos

n'este predio.

E o padre, cahindo em joelhos, poz as mãos, e exclamou:

--Coragem, senhor!

--Que vae dizer-me, padre Manoel?

--Que os seus filhos...

--Morreram?

--Estão no céo, pedindo a Nosso Senhor Jesus Christo que lhes dê a alma

de seu pae.

Venceslau perdeu o alento.

Era a primeira vez que aquella forte alma se escondia por largo espaço

nas trevas da morte.

Quando recuperou os sentidos, e apalpou a realidade medonha da sua vida,

inspirou aos amigos, que o rodeavam, o receio da loucura.

Um d'aquelles amigos era o presidente de ministros duque de

Palmella, que o levantou nos braços, e o amparou até o assentar na sua

carruagem.

Depois, o anjo da piedade beijou-lhe as palpebras. As lagrimas golpharam

a torrentes; mas a luz dos olhos sahiu diluida n'ellas. Venceslau aos

quarenta e dous annos estava quasi cego.

E viveu!

Vivia em 1867 n'aquella casa triste da charneca de Odivellas, para onde

fôra depois que o duque de Palmella fallecêra.

E vivia então pobrissimo, porque a grande riqueza em bens livres que

herdára de seus filhos, mandára entregar aos herdeiros de sua mulher; e

a maior parte de seus ordenados de official-maior aposentado era

repartida pelos filhos de D. Anna Vaz, já morta áquelle tempo no

mosteiro da Encarnação, alanciada em todas as fibras do coração de

esposa, de filha e de mãe, porque a morte apiedou-se d'ella, só depois

que o opprobrio dos filhos lhe deu ao esparto da garganta o derradeiro

aperto.

CONCLUSÃO

CARTA DE LUIZ DA SILVA

«Ha cinco annos que meu tio te referiu a historia do conselheiro da

azinhaga.

«Nos raros livros, que apparecem com o teu nome, não tenho encontrado o

caso triste.

«Se a opulencia, adquirida nas lettras, te não remiu da galé de

escriptor portuguez, conta a historia de Venceslau.

«Esperarias que elle morresse para melhor te inspirares no silencio do

tumulo d'aquelle calcinado coração?

«Morreu. Podes afoitamente levantar-lhe o sudario da face morta, e

mostral-o.

«Se lhe queres vêr a sepultura, vae á casa onde elle nasceu, ahi nos

arrabaldes de Lamego.

«Morreu rico. Em 1868, succedeu na herança do irmão morgado, realista

inflexivel que nunca lhe perdoára a loucura de trocar o habito de

benedictino pela fardeta de voluntario da Rainha no cêrco do Porto.

Colhido de sobresalto pela morte, não teve tempo de desvincular os bens

e dal-os ao Papa.

«Venceslau sahiu da casa, onde esperava morrer n'aquella gandra arida

onde o viste.

«Levou-o o desejo de fechar os olhos onde a sua estrella funesta lh'os

abrira.

«Viveu lá seis mezes.

«Legou importantes bens de raiz e oiro em barda que encontrou amuado nos

velhos contadores de seus avós.

«Os seus herdeiros foram os tres filhos de D. Anna Vaz. No testamento

não nomeia o nome do marido d'aquella senhora.

Livro de Consolação: Romance · 第 13 / 14 段