com grave desdouro de sua probidade politica, por ter acompanhado o
brigadeiro Sepulveda ao encontro do infante D. Miguel em Santarem,
quando em 1823, José de Souza Sampayo, depois visconde de Santa Martha,
e o conde de Amarante, acclamaram o principe, e tentaram nomear uma
regencia presidida por D. Carlota de Bourbon.
Venceslau, por affecto a D. Anna Vaz e ao commendador, quiz reintegrar o
homem a quem chamava ainda amigo, desculpando-lhe a queda com os fumos
da lisonja em que o haviam aturdido as familias da alta nobreza com quem
elle se relacionára, já por parentesco de sua mulher, já porque
assim cuidava sanear o aleijão de um baixo nascimento. O generoso
fidalgo beirão perdoava esta miseria ao filho do lavrador de S. João de
Nogueira, cujos primeiros amores já denotavam aspirações levantadas.
Eduardo, porém, rejeitou a valiosa intercessão do amigo, declarando que
não queria nada de constitucionaes nem de absolutistas; que não tinha fé
nas virtudes civicas de quem quer que fosse, nem sacrificaria a sua
dignidade nas aras profanadas de algum idolo. Venceslau sorriu-se
áquella negação das virtudes civicas, e de si para comsigo entendeu que
Eduardo era um louco, subordinado ao influxo d'algum astro funesto.
Entretanto, o viver do marido de D. Anna Vaz, na sociedade que lhe
admirava o talento, a reconsideração de ideias, e os discursos ora
scepticos, ora enthusiastas; que lhe admirava tambem a figura, aureolada
pelo romanticismo da sua mocidade--o viver de Eduardo Pimenta em meio de
espiritos arrogantes, mas ineptos, era o que as lagrimas de sua mulher
davam a entender.
Eduardo tinha lido os poemas de Lord Byron. Admirava com inveja aquelle
feito e refeito heroe da eterna legenda, onde á volta de um homem fatal
se acatovellam dezenas de mulheres a amal-o, a chorar e a morrerem de
amor. O dom João fervia-lhe nos miolos, aquecido um pouco pela
temperatura calida do sangue, e bastante pelo fogo da phantasia. Isto de
phantasia era coisa pouquissimo vulgar em portuguezes d'aquelle tempo,
se elles não haviam corrigido lá fóra a sua compleição, prevertendo
a boa indole de frades com que até aquelle tempo toda a gente nascia em
Portugal--indole provavelmente devida á preponderancia que exerciam os
frades no phenomeno das reproducções, psycologicamente fallando.
Allucinado, pois, pelo seu modêlo poeticamente immoral, Eduardo, com
quanto não immolasse illustres victimas, e já encontrasse muitas sem
sacrificadores, ganhou fama de bem-quisto de senhoras titulares, e
realmente era. Contaram-se n'aquelles annos casos de ciumes palacianos
em que elle era o personagem menos irrisorio; arrufos conjugaes,
projectados divorcios, reclusões em severos claustros, _etc._; mas tudo
isto eram atoardas que lhe esmaltavam a reputação.
Este genero de costumes involvia despezas grandes, a pompa no trajar, os
bailes, a liberalidade no despender em natalicios, o hombrear com os
ricos, e deslumbral-os em lances generosos.
Em menos, pois, de tres annos, Eduardo sem officio nem aptidão para
tornar lucrativa a sua intelligencia, gastou os quinze mil cruzados do
patrimonio e contrahiu dividas caucionadas pelo futuro dote de sua mulher.
Em 1827, o commendador Vaz dissera a Venceslau Taveira que os seus netos
chegariam a mendigar, e sua filha, quando elle fechasse os olhos, teria
de vender o leito de sua mãe.
A estima do marido de Julia por Eduardo Pimenta diminuira
proporcionalmente com os creditos do seu amigo d'outro tempo. O homem
austero não podia desculpar o vadio que, depois de bandear-se com
os fautores do absolutismo, rejeitára petulantemente o perdão e o
emprego, para se andar a fazer praça escandalosa das serodias verduras
de rapaz solteiro, com o enfatuamento de homem de boas aventuras. Poucas
visitas se faziam reciprocamente; mas d'esta omissão dera o exemplo D.
Anna Vaz.
Ainda assim, Venceslau informado pelo commendador, procurou assiduamente
Eduardo, instando-o a empregar-se, a cahir em si, a cortar relações que
o abysmavam, e a pensar no futuro de seus tres filhinhos, lavados pelas
lagrimas da mãe.
A commoção do reprehendido parecia sincera, quando elle se prestou a
servir a nação, a quebrar os encantos da sua aziaga estrella, e a
restaurar em fim a honra e a felicidade da sua familia.
Amiudaram-se então as visitas de D. Anna, instigadas já pelo marido, que
a movêra pela dependencia em que estavam do deputado, já pelo pae que
inteiramente ignorava os despeitos da filha, e por amor d'ella e dos
netos lhe aconselhava acolher-se ao valimento de Venceslau.
N'este tempo D. Julia tinha dous filhos, ambos meninos, entre tres e
cinco annos. A vida domestica, bem que estrellada pelos dous anjos,
parecia-lhe escura. A pouco e pouco, o marido, cada vez mais enredado na
politica, lhe fôra obrigando suavemente o animo a conformar-se com os
deveres de senhora de casa, e a desligar-se da intimidade dos parentes.
D. Julia rica, festejada, sedenta de competir em fausto com as damas de
mais voga, reagia surdamente aos affectuosos conselhos de Venceslau.
Elle, porém, com habil descrição, ia cedendo ás menores exigencias, e
cortando n'estas até a reduzir ao orgulho de não fazer nenhumas--orgulho
onde se levedam fermentos de amarissimos resultados.
Casos politicos de importancia um apenas alterou o monotono, mas
agitado, duello do liberal contra a tyrannia. Em 1824 foi convidado pelo
ministro dos negocios estrangeiros, marquez de Palmella, a ser o
secretario particular, o collaborador dos seus notaveis actos
diplomaticos. N'aquelle anno, operou D. Miguel o movimento de 30
d'abril, que ficou na historia conhecido pela _Abrilada_. N'esse mesmo
dia foi preso o marquez de Palmella e com elle o seu secretario, á ordem
do infante, por intermedio do intendente Belforte; mas já no dia 5 de
maio o ex-ministro e Venceslau eram soltos, graças ao corpo diplomatico.
Repostas as coisas no antigo estado, com a sahida do infante no dia 13,
Venceslau alcançou empregar Eduardo na secretaria da guerra,
abonando-lhe a lealdade, bem que o commendador o quizesse exonerar de
tão perigosa fiança.
N'este em meio, o ar de renovada estima que parecia reatar os corações
das duas senhoras, emborrascou-se outra vez. D. Anna Vaz valia-se de
desculpas com o pae para não seguir o marido a casa de Julia; esta, sem
queixar-se ao marido da ausencia da sua amiga, dizia que D. Anna
era muito mais affectuosa quando Eduardo carecia de emprego.
Quaesquer que fossem os juizos de Julia, havia um sinistro esculca, de
carrancudo aspecto, que parecia querer-lh'os escutar no silencio da
alma: era o padre Manoel Ferreira.
Este previsto sabio andava sobre brazas desde que vira o antipathico
Pimenta frequentar de novo o palacio das Amoreiras, bem que nunca só,
nem a horas desacostumadas, mas sempre acompanhado da esposa, ou quando
Venceslau era certo em casa. Se, relançando a vista ardilosa entre Julia
e Eduardo, cuidava ter colhido um gesto intencional de ruim sentido, a
raiva esbravejava-lhe nos olhos, e as comichões do nariz eram taes que
lh'o avermelhavam como irrupção de bertoeja. Que vira elle, afinal? Dois
olhares melancolicos e timidos, duas almas silenciosas a
confidenciarem-se os seus sombrios destinos.
Ah! mas que dupla vista a do padre!
No fim d'aquelle anno de 1827, uma creada velha de D. Julia despediu-se
da casa que servira cincoenta e dois annos. A ama forcejou por
demovel-a, interpondo a auctoridade do capellão, cuja confessada era.
Baldou-se a interferencia do padre.
Sahiu a creada, deixando grandemente suspeitoso o confessor. Que motivo
teria ella para deixar a casa onde já sua mãe havia nascido? Que iria
ella fazer em um cazebre de Campolide, sem parentes, só, no termo da
vida e tão descaroadamente apartada de Julia que se lhe creára no
colo? Perguntas que o padre fazia ao seu familiar demonio, que lhe
andava negaceando ás cavalleiras de Eduardo.
Uma manhã, sahiu de casa, e foi a Campolide. Entrou em casa da velha,
fechou a porta, deteve-se duas horas, e, quando sahiu, trazia os olhos
humidos, as faces enrugadas por mais dez annos de velhice, e as pernas
trementes, vagarosas e vergando ao pezo da dôr que lhe empedrára o coração.
Entrou no seu escriptorio, atirou-se para cima da cama, com a face entre
as mãos, meditou largo espaço; e, afinal, abalado por subita
deliberação, subiu á sala de espera, e mandou pedir á snr.ª D. Julia se
fazia favor de descer á sala do archivo.
A esposa de Venceslau descorou. Desde que era casada, nunca o padre a
chamára a intender em papeis do archivo. A sahida da creada, e a
auctoridade do confessionario, pareciam dar-lhe horas crueis,
denunciadas pela fixidez averiguadora com que fitava o capellão.
Desceu a fidalga ao archivo. O padre esperava-a com a mão na chave.
Apenas ella entrou, correu a lingua da fechadura; e, mantendo-se em pé
defronte da senhora, disse:
--Como eu soubesse que V. Ex.ª estava perdida...
--Perdida!...--interrompeu D. Julia.
--Não me interrompa, senhora. Como eu soubesse que V. Ex.ª estava
perdida, consultei a alma de sua virtuosa mãe e de seu honrado pae,
pedindo-lhes que me inspirassem. O milagre de a levantarem do seu
abysmo, não podiam elles fazer-m'o; porém, fechar esse abysmo aos
olhos de seu marido, isso sim, isso lhes pedi com estas lagrimas que
estou chorando na sua presença...
--Mas que é?... que vae dizer-me?... que calumnias?--disse
precipitadamente D. Julia, gesticulando uns movimentos de cabeça e
braços que arguiam mais terror que assombro.
--Não gastemos exclamações, minha senhora. Eu não sou capaz de accusal-a
sem a certeza de que V. Ex.ª é criminosa. Respeito-a na queda, porque a
conheci e amei na pureza dos anjos. Não sou ecco de calumnias. Sou uma
das pessoas que tem o segredo da sua desgraça. As altercações são
inuteis, são extemporaneas. Não percamos tempo. Responda, snr.ª D.
Julia: afóra a creada, que sahiu d'esta casa, e eu que brevemente
sahirei, quem sabe esta grande desgraça? Quem viu aqui entrar, a horas
desencontradas de seu marido, esse ingrato e infame homem?
--Ninguem...--balbuciou D. Julia, tapando o rosto com as mãos. Depois,
sacudindo a cabeça com impetuosa colera, perguntou:--A quem devo eu a
desgraça? quem fez este casamento?... quem me aconselhou a victimar a
minha liberdade a um homem que me fez envelhecer em contacto com o gelo
da sua alma? Eu não precisava de um sabio, snr. padre Manoel, para ser
feliz. Deixasse-me estar solteira, que eu era virtuosa...
--Tudo que fiz, minha senhora, V. Ex.ª m'o auctorisou... Não
discutamos... A minha razão perturba-se, e eu depois receio que a
snr.ª D. Julia não tenha um amigo que a salve. Se a consciencia me
arguir de ter eu sido o agente d'este casamento, e eu não podér
combatel-a, creia que morro de dôr, de vergonha e remorso. Não me diga
tal, que me obriga a ajoelhar diante de seu marido a pedir-lhe perdão de
lhe haver dito que V. Ex.ª havia de ser honrada como sua mãe.
--Virgem Maria!--exclamou anciosa D. Julia.--Não faça isso... pedem-lh'o
os meus filhos...
--E não lhe pediram seus filhos que fosse honesta?...--replicou
severamente o capellão.--Ter dois filhos, dois anjos da guarda, dois
amparadores, affectos tão grandes com que encher a sua alma... ter dois
filhos... e resvalar por entre elles á voragem!...
--Olhe que me despedaça!...--murmurou ella, contorcendo-se, em postura
supplicante.--Lembre-se de meu pae...
--Seu pae... matal-a-hia... Eu, por mim, choro-a... porque não pude
saber isto um dia antes da sua perdição... não pude salval-a eu... a
quem seu pae a entregou...
Padre Manoel arquejava, debulhado em pranto, fincando os pulsos na fronte.
--V. Ex.ª... a snr.ª D. Julia...--proseguiu elle--aquella menina que eu
adorava... está ahi... polluida... por quem, meu Deus?... Onde aquelle
scelerado veiu continuar as devassidões das alcovas em que achou já
perdidas as mulheres... V. Ex.ª... a esposa de Venceslau Taveira...
amante do miseravel esposo da sua infeliz amiga D. Anna Vaz!...
D. Julia, mortalmente pallida, sentou-se, expedindo um ai gemente, um
som rouco das valvulas do coração, como se o sangue lhe confluisse a
torrentes. Não seria facil decidir se era remorso, se vergonha, se
colera: seria tudo a um tempo.
Aproximou-se o padre, tomou-lhe a mão fria, e disse-lhe com brandura:
--Olhe que só Deus é testemunha do que eu lhe disse... Eu hei de sahir
d'este mundo sem a denunciar... Reanime-se, que eu não hei de ser-lhe
peor algoz que a sua propria consciencia... Eu vou sahir d'esta casa...
porque a presença de seu marido, d'hoje em diante, seria para mim o
maior tormento... Não posso encarar aquelle honradissimo homem...
vituperado, trahido... e por quem?... Ó meu Deus--clamou elle pondo as
mãos--porque não me déstes o beneficio da morte antes d'esta horrivel
certeza!
D. Julia soluçava, debatendo-se, ora afogando as faces nas mãos, ora
erguendo-as supplicantes.
E o padre, contemplando-a n'aquelles desesperados movimentos, disse:
--Eu cuidei que o crime endurecia mais a coragem para lhe affrontar as
consequencias. Pois nunca previu o remorso? Não conhecia o homem que a
chafurdou na lama das libertinas das suas sordidas proezas? Não o
comparou com seu marido?
Estas phrases duras e hervadas batiam tão pungentes no peito da
atormentada mulher, que o padre, olhando-a já compassivo, imaginou
vêr-lhe no rosto a lividez cadaverica da mãe que morrêra thysica.
Acercando-se então d'ella com brandura e lagrimas na voz, continuou:
--Snr.ª D. Julia, peço-lhe emenda de vida... Não sei que mais possa nem
deva pedir-lhe. Promette-me, senhora, promette nunca mais...
Foi n'este passo interrompido o padre por um gesto afflicto de Julia.
No mesmo lanço do rez da casa do archivo, estava o páteo da casa, onde,
n'aquelle instante, soavam uns passos que ella reconheceu.
Era Venceslau Taveira, que se antecipára duas horas.
D. Julia subiu celeradamente as escadas, entrou no seu quarto, compoz o
semblante, e cogitava indecisa no que diria ao marido se lhe elle
notasse a desfiguração.
N'este comenos, entrou elle na ante-camara, chamando-a.
Ella sahiu, e elle, ao vêl-a, disse-lhe:
--Choraste?... Então já sabes alguma coisa da pobre Anna Vaz?
--Não... que é?...
--Pois não sabes?... porque choraste, filha?
--Tristeza... dôres de peito... o presentimento da morte...
--Ó filha...--disse elle acariciando-a.--Que lembrança!... Deixei-te
alegre, a brincar com os filhos... Que tens tu, Julia?
--Nada...
Esta palavra deu nos labios tremulos de Julia um sonido gemente, ao
mesmo tempo que as lagrimas a quatro deslisavam nos cantos da bocca.
E Venceslau mergulhava uma profunda vista d'alma no abysmo d'onde sahiam
aquellas lagrimas. Tudo trevas.
--Eu suppuz que a pobre Anna Vaz te escrevêra...--tornou Venceslau,
procurando desassombrar o silencio em que estiveram alguns segundos.
--Não...--disse ella, cobrando alento do insuspeito ar do marido.
--Recebi este bilhete do commendador, e sahi immediatamente das côrtes.
Lê... Eu t'o leio. «Meu nobre amigo. Vae hoje um inferno n'esta casa.
Romperam-se os diques da prudencia. A minha santa filha, por já não
poder com o martyrio, insurgiu contra o algoz. Sei que o facho d'este
incendio, que me queima o restante da vida, é o ciume; porém, a nobre
menina, se eu lhe pergunto a causa nova d'esta insupportavel
affronta--insupportavel em relação d'outras que soffreu com
paciencia--chora, e não me responde. Rogo-lhe, meu querido Venceslau,
amparador do meu chorado Antonio, que o seja tambem da malfadada irmã.
Venha applacar esta feia tormenta que ameaça engulir a vida da minha
infeliz Anna.»
--Aqui tens a carta--proseguiu Venceslau.--Não quiz lá ir sem te avisar.
Se quizesses ir tambem...
--Não posso...--disse ella no maior grau de quebranto moral.--Vae tu...
depois me dirás... Vae...
E apertou-lhe a mão estremecidamente.
--Tens fogo n'esta mão... acudiu o esposo com enternecido susto.
--É febre... disse ella, fitando-o piedosamente.
XXI
C'est un mort..............................
Que cette horrible fin puisse épurer son âme.
PONROY.--_Formes et couleurs._
Quando Venceslau entrou ao pateo do palacete do commendador, andava elle
passeando no casarão rente da rua, recinto abandonado onde se viam as
reliquias de equipagens, significativas de antiga e extincta opulencia.
--Nunca o encontrei aqui, meu commendador!--disse o deputado.--Está no
seu museu archeologico... Estas carruagens devem ser as locomotivas que
transponham a ideia velha para fóra das fronteiras, quando a mandarmos
civilisar-se a Argel... Mas não lhe vejo rosto para gracejos... Que
temos? onde estão os ciumosos?
--Lá em cima, e eu fugi para os não ouvir... Escute... Não ouve chorar
minha filha?... Escute... olhe...
--Ouço.
--Vá lá, meu amigo. Estão na salêta proxima do quarto. A sua presença ha
de conter Eduardo, e evitar que a pobre menina seja enxovalhada por
algum insulto de lacaio. Olhe que brados elle está dando em quanto ella
chora... Que verdugo!...
Venceslau subiu á primeira sala, passou á segunda e entrou n'um longo
corredor que abria na ante-camara de Eduardo. Quando chegou a meio do
corredor, pareceu-lhe ouvir o nome de Julia entre os soluços de D. Anna
Vaz; e, ao mesmo tempo, um estropear de passos rapidos, que lhe levavam
para mais longe as vozes já indistinctas.
Hesitou se devia atravessar a ante-camara, e seguil-os no interior da
casa ou retroceder; mas os gritos supplicantes da amiga de sua esposa
attrahiam-no, commiserando-o.
Bosquejemos a parte da casa onde está passando o conflicto.
A saleta, em que principiou a vigorosa altercação, exacerbada muitas
vezes n'aquelle dia, tem tres portas: uma que abre para o corredor onde
está Venceslau; outra que diz para a alcova onde demoram os leitos dos
tres meninos; e a terceira que leva á camara dos esposos. N'esta camara
ha outra porta que communica para outros repartimentos, por entre os
quaes ha escada para um patim, que dá sahida para o quintal ajardinado.
Esta era a serventia regular de Eduardo, quando recolhia tarde, entrando
pela porta do quintal que entestava com a rua dos Cavalleiros.
Ao avisinhar da salêta colligiu Venceslau que Eduardo, seguido da
esposa, que talvez o ia retendo em grandes clamores, sahiu do quarto, e
evadiu-se pelo interior da casa, descendo ao quintal para esquivar-se ás
importunas lastimas.
N'esta acertada conjectura, deliberou Venceslau seguil-os, bem que
ainda, ao entrar na salêta, o contivesse o decoro de atravessar uma
alcova de esposos.
Durante os breves segundos da perplexidade, reparou em papeis dispersos
no pavimento. Suppoz que eram cartas occasionaes da desordem, talvez
colhidas ardilosamente nas algibeiras do imprevidente marido.
Venceslau envergonhar-se-hia da sua sombra, se se curvasse a devassar
alguma d'aquellas cartas; mas, sobre uma banqueta que occupava o centro
da ante-camara, estava meio amarrotado um papel escripto, cujos
caracteres deram logo e mais de perto na vista de Venceslau.
Era lettra de D. Julia.
Hesitou ainda em lançar mão do papel; mas a particularidade dos signaes
impressos na carta por mão que a enrugasse, estimulou-o a vêr que
phrases deram causa ao phrenesi de Eduardo. Tanto quanto a rapidez de
tal juizo consentia, Venceslau imaginou que o pessimo marido se
exasperára, talvez, por ter lido cartas de compaixão de Julia para a sua
mortificada amiga.
Pegou do papel, distendeu-o, leu a primeira palavra no alto da lauda,
alisou um vinco onde uma lettra parecia desfeita, releu e... vibrou-se
todo no estremecer dolorosissimo de homem que um subito ferro
encravou pelo peito. A palavra era _querido_. A lettra final d'ella não
era um _a_.
Leu a carta rapido, offegante, respirando a trancos, sopesando o arfar
do peito. Dizia assim:
«Calcula a minha inquietação, meu E.! Não pude dissuadir a creada...
Sahiu, regeitando todas as minhas dadivas. Foi uma desgraça que ella te
visse... Devo isto ás tuas imprudencias. O que mais me assusta é o
padre, que está espantado com tal sahida. Elle tem sido o confessor
d'ella. Se a interrogar no confessionario, arranca-lhe o segredo. E
depois?... que hei de eu fazer?!... Espero que o padre me não
denuncie... mas com que olhos me ficarão espionando os passos!... Não
voltes aqui em quanto eu não te avisar. Vae todas as tardes ao logar que
sabes. Lá irá ter a minha carta; mas, repito, não voltes aqui sem que eu
t'o diga. Prudencia, ouviste? Olha que a situação é muito seria...
Tenho-te dito muitas vezes que o V. é capaz de tudo... Adeus. Cuidado
com as minhas cartas...»
Venceslau, terrivelmente sereno, depoz o papel sobre a mesa, retrocedeu
ao longo do corredor, e, no fim, parou, escutando passos em uma das
salas. A este tempo já elle ouvia o chorar de D. Anna que tambem
retrocedêra para o seu quarto. O andar, que escutava, era do pae de D.
Anna que subira para as salas e estava esperando o effeito da
intervenção do amigo.
Venceslau, estugando o passo surdamente, passou sem rumor na
alcatifa da sala de espera, desceu a escada, e sahiu á rua.
O commendador, entretanto, como não ouvisse vozes, mas sómente o
arquejar da filha, murmurando: «ah! pobres creancinhas!» seguiu o
corredor, e foi dar com ella apanhando do chão as cartas espalhadas.
--Que papeis são esses?--perguntou o commendador.
--Nada, meu pae... cartas...
--O Venceslau sahiu com Eduardo?
--O Venceslau!--disse ella com espanto.--Onde está elle?!
--Veiu para aqui... ha de haver cinco minutos... não o viste?
--Não, meu pae! Elle esteve aqui? aqui? n'esta salêta?--exclamou Anna.
--Esteve, sim, filha.
--E viu estas cartas?--bradou com as mãos afincadas nas fontes.
--Se viu estas cartas?... Eu sei lá, filha... O Venceslau era incapaz de
ler papeis que estivessem no teu quarto... Mas, se essas cartas são o
que eu entendo, que importaria que as visse?
--Jesus! Virgem Santa!--volveu D. Anna, enclavinhando os dedos, e
estirando os braços supplicantes para uma imagem da Mãe de Christo.
--Mas onde está elle?--tornou o velho.--Se não sahiu pelo quintal, por
onde é que foi? Eu estava na sala do meio, e não o vi passar na sala de
espera...
--Não? não viu?...--perguntou ella precipitando as vozes acompanhadas de
gestos de pavor.
--Não, menina...
--Então é que viu as cartas... sabe tudo... sabe tudo...
--O que?--acudiu o commendador assombrado.
--Ai! quem fosse procurar Eduardo...--exclamou ella, agitando-se d'um
para outro angulo da salêta--ó meu pae, salve-o, salve-o; mande procurar
meu marido, que Venceslau mata-o... Estas cartas são de Julia...
--De Julia?!--bradou o velho, encostando-se tremente ao alizar da
porta--De Julia? Julia é amante de teu marido?... Venceslau foi
deshonrado pela mulher?... Oh! não me digas isso, filha!... Tu estás
cega pela paixão do ciume... Deixa-me vêr essas cartas...
--Não queira vel-as... não queira... Mas, meu pae, olhe que o Venceslau
mata Eduardo... Acuda aos seus netos...
O commendador fitou na filha os olhos chammejantes de odio, que raiára
de sangue o alvor do spasmo, e murmurou:
--Se o matar... matou o mais infame dos homens... porque matou o
assassino da felicidade, da honra e do futuro do seu bemfeitor...
--Mas...--insistiu Anna com as mãos postas--mas eu amo-o... eu quero que
elle viva... fugirei com elle e com os meus filhos para onde o pae
quizer que vamos... Deixe-me ir a mim procural-o...
--Não sahirás d'esta casa... Não sei se é sangue, se lodo que te gira
nas veias... Não sahirás d'esta casa, Anna!... e se teu marido aqui
voltar, quem o mata... sou eu!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Simultaneamente com a prolongada lucta entre o velho inflexivel e a
dilacerada alma d'aquella santa, recebia D. Julia este bilhete do marido:
«Juliazinha, era uma tormenta de ciumes que deixei abonançada. Não te dê
cuidado. Depois d'estas borrascas, reponta no céo dos amantes a serena
claridade. O ministro mandava um correio procurar-me, quando eu chegava
a S. Roque, já de volta para casa. Tive de retroceder, e sei que tenho
tarefa até á meia noite. Não esperes por mim. Janta. Se eu podér
desembaraçar-me, irei; mas não poderei, porque ha reunião de deputados
no ministerio dos negocios estrangeiros. Adeus, querida. Teu V.»
D'esta carta, assim placida e amoravel, transluziu-se no animo
alvoroçado de Julia receio e desconfiança.