pessoa d'um cocheiro que apunhalou em um latibulo de jogadores de
esquineta. O miseravel, apezar do secreto amparo que lhe dava Venceslau,
tinha cahido até áquella paragem.
«O outro filho de Eduardo Pimenta, depois de ter sido expulso com
ignominia d'um logar de confiança que o conselheiro indirectamente lhe
impetrára, estava marcador de bilhar no Café-Grego.
«A menina vivia de esmolas no mosteiro onde falleceu a mãe.
«Suspeito que a herança vae cahir nas fauces do dragão que sorveu todos
os personagens da tua inedita historia.
«Hontem vi o marcador de bilhar, com os bigodes pintados, guiando
dois alazões, que tiravam um char-à-bancs, em que íam reclinadas e
retrançadas de serpejantes cabelleiras tres mulheres d'aquella especie
ephemera de borboletas que tem uma segunda crisalida nos amphitheatros
dos hospitaes.
«Ouvi dizer que a reclusa da Encarnação, senhora de quarenta e nove
annos, é pretendida d'um major reformado.
«O outro herdeiro, que está em Moçambique, se tiver juizo, em recebendo
a herança, levanta-se com o vice-reinado de Africa.
«Se estas novas achêgas podem ser argamassa para mais um capitulo do teu
livro, ahi as tens.
«Não me esqueça satisfazer uma pergunta, que me fizeste em 1868.
«Padre Manoel Ferreira morreu em 1835. Os actuaes possuidores dos
grandes haveres de D. Julia de Miranda contam que o padre, depois de
lhes entregar a herança, andára abraçando alguns moveis d'aquella casa
onde vivera cincoenta annos, e chorára muito curvado sobre a cadeira
onde costumava sentar-se D. Julia. Depois pedira que lhe déssem o leito
onde haviam nascido e morrido os dous meninos, e o levou comsigo, e o
queimára. Os herdeiros de D. Julia riem d'esta excentricidade. Eu vi no
fundo da nobre alma do padre, a significação d'aquelle aniquilamento. As
lagrimas, que solemnisaram aquelle devoto sacrificio do ancião, foram as
ultimas. Foi a Odivellas, beijou os olhos apagados de Venceslau,
voltou para os parentes que o acolheram, e finou-se. Adeus.»
* * * * *
Qual foi o intuito do general Pedro da Silva quando me pediu que
denominasse este romance LIVRO DE CONSOLAÇÃO?
Foi, como se me dissesse:
«Raro desgraçado haverá ahi a quem se não deparem, no seu livro,
infortunios que lhe despontem os espinhos de angustias menores.»
As supremas felicidades desta vida sabe a gente gradual-as: são poucas,
e ficam muito áquem do desejo. Mas as escaleiras da desgraça são tantas
e tão avantajadas á fantasia das mais ardentes e requeimadas almas, que
não ha medil-as, nem descer a sonda ao ultimo abysmo.
Bemdito seja Deus, que nos ha dado o consolador egoismo de ouvir muito
gemido, muito desesperar, muito blasphemar de infelizes á volta de nós.
FIM.
[1] _Memorias da vida de José Liberato Freire de Carvalho._ Lisboa,
1855, pag. 94 e seguintes.
[2] Esta resposta é trasladada de um volume de manuscriptos estimaveis
que pertenceu ao fallecido bibliographo o desembargador Thomaz
Norton. Na folha de guarda do livro escreveu o citado possuidor o
seguinte: _Theotonio José Maria de Queiroz, penultimo ministro da
Congregação de Oliveira pertencente aos padres Congregados. Morreu
de edade de 84 annos, e ainda lia e escrevia sem oculos. Norton._ O
collector rubricou a collecção em 1811.
[3] Veja _Os Portuguezes e os factos_. Londres, 1833, p. 39.
End of Project Gutenberg's Livro de Consolação, by Camilo Castelo Branco