horas, e pediu-me carinhosamente licença para ir passar á quinta algum
tempo. Eu disse-lhe logo que o acompanhava; elle mostrou-se grato á
minha dedicação, e resolvemos partir ámanhã de madrugada. Agora preciso
dizer-te o que penso de meu marido. Esta resolução de sahir sei eu, e tu
tambem sabes, d'onde procede; mas eu não lhe disse a menor palavra
a tal respeito, deixando-o persuadir da minha ignorancia. Creio que elle
te ama... digo-te isto sem lagrimas, porque já chorei quantas tinha...
Se elle foje de ti para te esquecer, espero que a nossa tranquillidade
se restabeleça. Da minha parte, seguirei até ao fim os teus dictames.
Hei-de fingir sempre que tudo ignoro, por amor d'elle, de meu pae, de
ti... e de mim tambem... Olha, Julia, sorri-me uma esperança... Póde ser
que o nosso primeiro filho seja o anjo de reconciliação entre nós.
Pareceu-me que os olhos d'elle me encaravam com extraordinaria ternura,
quando ha dias lhe disse, que eu, d'aqui a quatro mezes, havia de vêl-o
a acalentar nos braços a nossa creancinha... Porque não choro eu agora
ao despedir-me de ti? porque te amo, Julia, apesar de saber que és mais
amada que eu? Sabes porque é? Quando se tem no seio um filho, as
lagrimas estancam-se, e os odios não podem empeçonhar o coração onde se
está formando a alma d'um innocentinho... Deixemos passar esta
borrasca... Tempo virá em que sejamos muito felizes...
--Eu? Nunca mais...--murmurou Julia.
--Porquê?...
--Não torno a ser o que era antes que á casa de teu pae entrassem estes
dois homens fataes, um que escureceu a tua alegria, e o outro... que eu
não...--E susteve-se, como envergonhada de si mesma.
--Que tu...--instou Anna.
--Nada, filha... não me interrogues... Olha... eu amei teu irmão...
amei-o quando tinha a edade e as illusões da infancia... Elle morreu...
e envolveu na sua mortalha o meu coração...
--Mas... para que...--disse D. Anna hesitante.
--Para que casei, queres tu perguntar-me?...
--Sim...
--Se eu t'o disser... has de querer ajoelhar aos pés da tua amiga
victimada... e eu levantar-te-hei nos meus braços para te pedir que não
me faças responsavel dos teus dissabores...
--Dize... que eu não te entendi...
--Para que me casei?... para que teu marido me respeitasse casada...
Para que me casei com Venceslau? Para ter por defeza da minha dignidade
o homem que teu marido mais respeita...
D. Anna abraçou-a com vehemencia, bebeu-lhe as lagrimas nos beijos, e
murmurou:
--É impossivel que Deus não te dê o galardão de tanta virtude... Esse
grande sacrificio ha de trazer-te dias de inefavel contentamento...
--Nenhuns... ha-de trazer-me apenas--e já não é pouco--a satisfação de
te ver socegada.... Vae, filha, e escreve-me sempre que possas. Se vires
que elle quer voltar a Lisboa antes de me ter esquecido como se esquece
uma mulher já desfeita na sepultura, avisa-me, que eu hei de mover
Venceslau a ir viajar... Depois, quando eu voltar, estarei velha e tu
ainda nova e bella. Os cabellos brancos não tardam. As rugas já me
começam na alma... Ha uma velhice que nos passa do coração para o
rosto... é a saudade... é vêr o passado feliz lá ao longe, e o presentir
a morte no frio que nos cerca...
--Mas, ó meu Deus!--exclamou Anna, pondo as mãos--Venceslau Taveira não
te ama?
--Ama com o amor dos trinta annos, quando desde os vinte se procuram e
encontram as paixões na politica, na meditação e no estudo... Não vês
isto? Casei hontem; e meu marido foi hoje ás dez horas para o congresso,
depois de me dizer que prevía a emancipação do Brazil em breve tempo, e
que hoje mais que nunca os bons portuguezes deviam acercar-se do leito
da mãe patria que ia perder a filha que lhe era o amparo da velhice. E
se visses a gravidade com que elle me discursava estas coisas? Parecia
um pae illustrando a ignorancia de uma filha!... Ó Anna... se eu tivesse
coração... se houvesse casado com Venceslau amando-o muito, que lagrimas
me não custaria este desengano!...
--Pois, sim--redarguiu Anna Vaz--convenho que Venceslau seja tudo que
dizes, mas verás que nunca te ha de dar a mágoa da perfidia...
D. Julia sorriu-se com aspereza, ironia, e talvez motejo d'essa virtude
da lealdade que apenas lhe lisongeava o orgulho.
--E tu verás--proseguiu aquella perfeita alma cheia de lagrimas, quando
a outra sorria--verás que te ha de amar cada dia mais; e que, depois das
suas occupações, virá para ti cheio de alegria, e sedento dos suaves
prazeres da vida intima...
--Porque o não amaste, Anna?--perguntou de salto e desapropositadamente
D. Julia.
--Porque o não amei?... Se eu amava Eduardo...
--Viste-os ao mesmo tempo... ou, mais exactamente, viste primeiro
Venceslau... Porque o não amaste?--insistiu a arguciosa dama.
--Se elle me tivesse amado, antes que Eduardo me escrevesse, eu de certo
lhe correspondia, porque me pareceu sempre estimavel, nobre, honrado,
fallando de meu irmão com as lagrimas nos olhos, e respeitando meu pae,
que o presava extremamente.
--Sei isso... mas o teu coração, á vista d'elle, não sentiu os
estremecimentos que lhe causou Eduardo.
--Bem sabes como foi, filha!... Eduardo, á segunda vez que foi a nossa
casa, estando eu a tocar, disse-me que, se o não podia salvar com o
amor, que lhe tocasse musicas bem tristes que o podessem salvar com as
lagrimas... Estas palavras acharam em minha alma toda a sensibilidade
d'uma rapariga innocente... Depois vieram as cartas... depois... tu
sabes tudo como se passou...
--Sei...
--Mas que perguntas me fazes!... Ó Julia, se não amavas Venceslau, não
devias casar. A tua dignidade não precisava que um marido a defendesse.
Ha quantos annos eu te conheço pretendida e amada; e nunca te vi receosa
de ninguem! Bastava o teu desprezo para rebater os mais atrevidos. O
sacrificio, que fizeste da tua liberdade, para que eu te não julgue
causa dos meus occultos desgostos, era desnecessario. Tão confiada
estava eu na tua virtude de solteira como na de casada...
--Sacrifiquei-me então inutilmente?--interrompeu Julia.
--Inutilmente não, que eu irei jurar que se eras um anjo para mim, és
agora uma victima da santa amisade que me tens; mas inutilmente para a
tua honra, isso sim; porque não é teu marido que te ensina os deveres;
és tu que os prescreves ás tuas paixões...
--Quaes são as minhas paixões?--perguntou D. Julia por tão estranha
maneira que incutiu na amiga receio de a ter offendido.
--Eu não digo que as tenhas, filha...--emendou ingenuamente D. Anna.
--Então?
--Queria eu dizer que tu dominarias as tuas paixões, se fossem más...
Comprehendeste, Julia?...
A esposa do deputado, levantando-se energicamente, travou do braço da
amiga, e disse:
--Vamos passear nas salas... Estou muito nervosa... A final, tudo que
tenho é uma febre cerebral, uma enfermidade estupida na cabeça.
. . . . . . . . . . . . . . . . .
Na hypothese de que as duas senhoras vão dizer coisas frivolas, não as
sigamos; e, se o leitor conjectura que ellas podem dizel-as
transcendentes, não as sigamos tambem.
Sentemo-nos aqui na sala de espera, n'este grande escabello de castanho,
com espaldar blazonado, e philosophemos, mas façamos philosophia
portugueza, chã, de soalheiro, murmuração delicada; mas, repito,
portugueza. Nada de esthetica. Nada de germanismos. A gente está em
1822, quarenta annos antes da entrada do apocalypse em Portugal com
todas aquellas bestas de que falla S. João.
Philosophemos então a respeito de D. Julia.
O leitor medita, reflexiona, combina, discute, compara e conclue,
formando o seu juizo.
Formou? Philosophou?
Eu tambem.
Agora tenha a condescendencia de esperar que os factos correspondam á
lucidez das suas previsões.
XIX
A ira que entumece e arqueja e vibra no proprio coração dos grandes
sabios.
HOMERO.--_Iliada_, cant. IX.
As cartas vindas de D. Anna para Julia eram discretas e pensadas de modo
que Venceslau Taveira, da sahida de Eduardo, inferia apenas que o seu
amigo se desviára com plausivel prudencia dos perigos amorosos que o
assediavam na alta sociedade. Esta supposição colhida de algumas phrases
problematicas das cartas, que Julia não escondia, dava margem a que
entre os dois esposos e padre Manoel Ferreira se conversasse sobre a
desmoralisação dos costumes.
O capellão raramente perdia lanço de lamentar a filha do commendador,
ferindo assim de soslaio o caracter do marido, a quem não desculpava a
peralvilhice com que bandarreava nas salas, galanteando a esmo
todas as damas. Venceslau, motejando a severidade do padre,
attribuia os geitos galãs do amigo não á ruindade das intenções, senão
ao temperamento, ao genio alegre, ao instincto da sociabilidade, que era
sempre excellente prenda nos cavalheiros propensos aos futeis recreios
das assembleias. D. Julia escutava estas discussões, e assentia á
indulgencia do marido, sem reparar que o padre lhe estudava o pensamento
nas menos expressivas alterações do semblante.
Padre Manoel--digamol-o de corrida--não lia sómente livros latinos, nem
estudára nas Lesbias e Lydias as versatilidades femeaes. Parece que o
sabio, antes de vir á poesia romana, tinha sido poeta por sua conta, e
risco, talvez, da dignidade sacerdotal. Como vivêra trinta ou quarenta
annos entre fidalgas, confidenciando-as nas salas e nos confessionarios,
bem é de vêr que n'aquelle espirito escrutador se formassem
desconfianças ingratas ao bom juizo de D. Julia, desde que ella se lhe
figurou duvidoso exemplar de perfeição. Isto, aggravado pela secreta
aversão que tinha a Eduardo Pimenta, explica o tom detrahidor com que
lhe desfazia nas virtudes conjugaes e o olhar de travez que dardejava á
phisionomia da desprecatada fidalga.
Uma vez o padre, invectivando contra o seculo, proferiu a palavra
«adulterio», como thema de certa historia contemporanea. Venceslau
avincou a fronte, recurvou os dedos para as palmas das mãos, fez uma
vizagem desabrida de zanga, e cortou de golpe o discurso, sobrevindo com
outro assumpto.
Padre Manoel ficou um tanto corrido, e D. Julia suspensa, e até certo
ponto inquieta.
Assim que teve ensejo de fallar particularmente com o capellão,
pediu-lhe o deputado desculpa do impeto com que o interrompera, e
rogou-lhe que, na presença de sua mulher, se abstivesse de contar
historias de vicios, e principalmente de adulterios; visto que, em
historias d'esta natureza, a moralidade do conto era sempre equivoca,
senão era ridicula, como nas comedias de Molière, e de todos os
propaladores de taes desregramentos. E ajuntou:
--Se o meu amigo, contando os adulterios das diversas senhoras do seu
tempo, rematasse a narração, mostrando-nos o castigo do crime, dou-lhe
que não perdesse o tempo, o incutisse saudavel terror no animo das
mulheres ou dos homens que não delinquiram ainda...
--Mas o castigo, snr. Venceslau, se não é patente, lá lh'o influe a
invisivel mão de Deus na consciencia dos culpados...--objectou o padre.
--Convenho; mas eu não vejo o castigo, nem sequer vejo joeiradas da boa
sociedade as mulheres, nem dos altos cargos da republica os homens,
cujas consciencias o meu caro snr. padre Manoel Ferreira piamente
imagina atormentadas. Essa especie de contos rematava mais
edificantemente, se o meu amigo os concluisse d'este feitio: «a condessa
de tal atraiçoou o marido, que era um homem de bem, extremoso por sua
honra e sua mulher. Um dia, o marido, avisado da traição, matou a
mulher, e matou o adultero.» Aqui tem um desenlace tragico, talvez
o unico para poder dizer-se n'uma sala sem receio de fazer rir os
circumstantes. Tudo mais que não for isto é prudente e honesto que não
se divulgue ás pessoas que o ignorarem. Se o conde de tal vive, ha
annos, na sua quinta, só, sequestrado do mundo, chorando, dilacerando-se
a golpes de vergonha, em quanto sua mulher despejadamente alardêa seus
vicios em Lisboa--se era essa a historia que o snr. padre Manoel ia hoje
contar a minha mulher, com que moralidade tencionava encerrar o conto? O
conde foragido do mundo para se não vêr escarnecido, é a moralidade? A
condessa rodeada de cortezãos nas suas salas é a moralidade?
--Não, senhor. A moralidade é que V. S.ª e outros homens honrados não
levam suas esposas a casa da condessa.
--Está enganado. Eu conheci n'estas salas a condessa, e ouvi esta
senhora, que é hoje minha mulher, chamar-lhe prima. É certo que Julia
não irá lá mais, penso eu; mas não é menos certo que muitas damas de
regular proceder lá vão.
--Lisboa está assim...--murmurou o padre transigindo.--É o baixo
imperio... a libertinagem da França de Luiz XV que chegou a Portugal cem
annos retardada, abordoando-se ás muletas da civilisação. As luzes são
boas, quando não pegam fogo ao templo das velhas crenças. _Corruptio
optimi pessima_, como diz Horacio. Bem-aventurados aquelles que
circumscrevem á familia as regalias do repouso, e cerram as suas
portas á ociosidade que se desenfastia a bailar, a jogar, a
cacarejar frioleiras nos salões. Cada vez me felicito mais por vêr que
V. S.ª vae brandamente reduzindo sua senhora ao socego da vida intima...
--Reduzindo, não, meu amigo--corrigiu Venceslau.--Não se persuada que eu
reajo aos desejos de minha mulher. N'esta casa, que é d'ella, faz-se o
que sua dona quer. Julia visita quem lhe praz, e recebe quem lhe parece.
Acompanho-a umas vezes por vontade, outras com repugnancia; mas vou
sempre com o mesmo semblante. É certo que a vejo triste; mas attribuo a
mudança á natural e providencial transformação que se vae operando no
animo das mulheres da sua edade e na sua posição; além d'isto, póde ser
que as saudades da sua amiga Anna Vaz tenham parte n'esta melancolia.
Felizmente, Eduardo volta para Lisboa na proxima semana, e eu muito
estimarei que a intimidade das duas senhoras se renove como a tiveram em
solteiras.
N'este ponto, padre Manoel acudiu a esfregar o nariz, onde era costume
acudir-lhe a zanga em pruridos incommodos. Venceslau não reparou
n'aquella réplica toda nazal, nem o capellão entendeu fazer commentarios
oraes ás suas comichões freneticas. As ideias que lhe obumbravam o
espirito eram negras, inexprimiveis, e taes que elle fugia de as repetir
a si mesmo, sendo que um demonio contumaz lh'as estava sempre a martelar
na fragua da cabeça. Não ha ahi duvidar da esclarecida razão de padre
Manoel Ferreira, que sabia latim a preceito e muitas sciencias boas e
más; pois, sem embargo, ás vezes via-se tão importunado de
satanicas suggestões contra Eduardo, que chegava a persignar-se e a
repetir mentalmente o _et ne nos inducas in tentationem_.
D. Anna e o marido voltaram para Lisboa; mas o affecto da esposa de
Eduardo a D. Julia havia esfriado bastante. Poderemos sem grandes
deslizes da verdade conjecturar que, no animo d'aquella senhora
offendida pelo esposo, a amisade á outra que a fazia soffrer--bem que
involuntariamente--cedeu o passo ao amor-proprio e a outros nobres
sentimentos. O despeito era inevitavel, embora a sua bonissima condição
lh'o demorasse. Este arrefecimento devia crescer á medida que ella
deduzisse das tristezas silenciosas do marido vestigios da saudade
indomavel; porque, se a saudade era prova da grande valia da mulher não
esquecida, razão de mais para que Anna Vaz a considerasse perigosa; e,
se o marido á custa de nobres esforços, vingasse olvidal-a, outra razão
para que a esposa precavida temesse a reincidencia na aproximação.
Esta, a meu pensar, parece ser a natural interpretação das raras
visitas, e essas pouquissimo expansivas, que as duas damas se trocaram.
Entretanto, D. Anna explicava as suas faltas com os cuidados da
maternidade, porque já então era mãe. Venceslau achava louvavel a razão,
e dizia a sua mulher que a esposa de Eduardo era uma respeitavel dama
que se fazia venerar de seu marido, quando não fosse extremamente
amada.
Quando estas palavras foram ditas, padre Manoel Ferreira observou com os
olhos esconsos que D. Julia mordia o beiço inferior. Não sei o que elle
colheu d'este acto. O homem provavelmente julgava que os máos
pensamentos tanto podiam pruir no nariz como nos beiços.
Aquelle anno de 1822, trabalhoso e irrequieto para os liberaes, trouxe
para D. Julia horas aborrecidas de solidão e irritantes dissabores.
O deputado nunca fôra tão politico e cidadão afreimado. Quatro successos
importantes lhe absorviam a maior parte das suas horas diurnas e
nocturnas. Primeiro, a independencia do Brazil, d'onde elle inferia que
Portugal ficava sendo uma grande cabeça sem cerebro, um gigante
paraplegico, bracejando, sem pernas que o movessem. Depois, a reunião
das tropas francezas nos Pyreneos, ameaçando cassar as cartas de
alforria dadas pelos reis ás nações amotinadas. Em seguida as facções
liberticidas conjuradas com o titulo de _Junta Apostolica_. Por ultimo a
formal recusa da rainha D. Carlota Joaquina em jurar a constituição.
Nas fogosas luctas que então se travaram no congresso, entre gladiadores
inveterados de absolutismo, e outros exaltados fautores da liberdade,
Venceslau Taveira ia na vanguarda dos liberrimos. Os seus discursos
poderiam ser acoimados de demagogos, se a audacia dos adversarios não
lhes justificassem a iracundia. Depois que a rainha pediu licença para
sahir de Portugal, visto que a lei a obrigava não jurando a
constituição, as duas parcialidades do congresso defrontaram-se
rancorosamente, até ao extremo de se arcarem peito a peito.
Uma noite Venceslau entrou no seu escriptorio, e demorou-se largo tempo
a passear agitadissimo. D. Julia, admirando a insolita demora, desceu á
livraria, e viu sobre a banca da escripta um par de pistolas novas e um
pacote de polvora e balla.
--Pistolas!--exclamou ella--isto que é?... Nunca te vi d'estas coisas!
--São hoje necessarias, minha filha--disse brandamente o deputado,
desenrugando a fronte assim que viu a esposa alvoroçada.
--Para quê? tens inimigos?
--Tenho, e enormes: são os mil algozes symbolisados na palavra
«despotismo». Hoje, mais do que nunca, me sinto obrigado a combatel-o.
Preciso defender a felicidade que me déste. D'antes era eu um homem, que
podia morrer, sem o pezar de ser chorado. Hoje, que a vida me é mais
cara, mais me devo prevenir na defeza d'ella. Não te assustes,
Julia...--proseguiu elle abraçando-a.--O despotismo ainda cá não metteu
a garra; mas eu tenho collegas no congresso que nos estão atraiçoando, e
já vão tomando nota dos que hão de apontar ás alçadas se o infante D.
Miguel for acclamado absoluto. Eu hei de ser o primeiro, se antes d'isso
me não poderem apunhalar traiçoeiramente. Contra os traidores é que os
homens de bem se armam. Ámanhã espera-se estrondoso escandalo no
congresso, onde vae debater-se a recusação da rainha. Eu hei de
votar pelo cumprimento da lei que a manda sahir de Portugal; mas
suspeito que alguns atrabiliarios lhe vão entoar vivas. Se tamanha
protervia couber na alma vendida dos deputados absolutistas, é preciso
expulsal-os da camara; e, se reagirem, será forçoso que deixem a vida
onde alardearam a deshonra.
--Mas que necessidade tens tu de te arriscares?--perguntou Julia.--És
rico, pódes viver tranquillo; em qualquer parte do mundo achas a
liberdade sem receios, e a independencia das alternativas da politica...
Olha, Venceslau, deixa ficar Portugal aos que o exploram, e vamos viajar.
--Iremos forçados--disse Venceslau--; mas, por emquanto, não. Eu hasteei
no congresso a bandeira mais odiada dos despotas. Se eu desertar d'entre
os poucos que me seguem, o meu nome ficará infamado de covardia, e a tua
riqueza será a alavanca de ouro com que eu arrazei o honroso
edificiosinho que ha dez annos estou levantando. Não póde ser, minha
querida Julia... O teu amor quer-me desviar d'um perigo onde a tua razão
me deve aconselhar que esteja. Conciliaremos o amor com o dever. Quanto
mais direitos eu for grangeando á gratidão da patria, por mais digno me
hei de ter da tua estima...
--Mas eu--volveu D. Julia com meiguice--desejo que tu não penses mais na
patria do que em mim, Venceslau. Não me disseste hontem que Eduardo,
desde que era pae, te parecia mais meditativo...
--Sim... disse.
--Pois então, lembra-te que és pae d'aqui a pouco tempo, e que a patria,
se tu faltares aos teus filhos, não t'os ha de indemnisar do amor que
perderam.
Venceslau beijou a fronte da esposa, e murmurou:
--Minha filha, quando o alento me esmorecer no cumprimento dos meus
deveres, anima-me tu, dizendo-me que o sacrificio d'um pae na causa
santa da liberdade é um legado precioso a seus filhos. Que elles herdem
de ti os bens da fortuna, e de mim a parte que eu tiver na liberdade da
patria, para que se não envergonhem de ser portuguezes.
Não era visionario desvairado pela paixão politica Venceslau Taveira.
Quadraram os disturbios das côrtes, no dia seguinte, aos seus
presentimentos.
Ventilava-se afogueadamente a questão da recusa de D. Carlota na casa
legislativa. Os liberaes pediam o cumprimento da lei com desabrida
virulencia, provocada pelos murmurios de alguns deputados sequazes das
conspirações de Queluz. Venceslau Taveira, vibrante da eloquencia da
justiça, resoluto a pôr peito aos perigos que lhe ameaçavam a singular
coragem em meio dos seus correligionarios abatidos pelo terror do
exilio, dos carceres e dos patibulos, irrompeu em apostrophes á Junta
Apostolica, á facção infame que viera arrebanhar vilissimos escravos ao
gremio da representação nacional.
N'esta conjunctura, um deputado dilecto da rainha, por nome Antonio
José da Silva Peixoto, coadjuvado pelo foliculario José Accursio das
Neves, levantaram-se e proromperam em «vivas» á rainha nossa senhora, e
«morras» aos carbonarios, agitando os lenços. Os membros da sua facção,
incitados pela audacia dos dois absolutistas, conclamaram a rainha
absoluta, e tal houve que no tumultuar do alarido vingou avantajar-se em
brados, offerecendo o nome do infante D. Miguel á espectação dos
deputados para quem a desthronisação de D. João VI era a traça gizada
pela rainha.
Venceslau, interrompido por aquelles brados, perdeu a serenidade do
aspecto que sempre mantivera nas mais degladiadas controversias. Os seus
collegas convisinhos, coevos das formidaveis tempestades de 93, e
identificados ás tradições dos magestosos tribunos da carnificina,
disseram que no afuzilar dos olhos e convulsão vertiginosa de Venceslau
havia a colera de Mirabeau. Mas este juizo inoffensivamente plastico
ficou áquem da ambiciosa comparação, quando o viram correr por entre a
camara turbulenta, com duas pistolas aperradas, de encontro ao grupo
onde se bradavam vivas a D. Carlota Joaquina.
Difficilmente impedido na passagem, os seus amigos deram tempo a que a
facção da rainha se evadisse pela cêrca das Necessidades.
Serenado o tumulto, Venceslau, descido do impeto da ira, e corrido do
acto, pediu perdão aos seus collegas; mas assim mesmo appellou da sua
propria consciencia, que o accusava, para a justiça dos vindouros;
e, como, apezar da prostração moral, a alteza da ideia lhe não
fallisse, consta do _Diario das Camaras_ que elle dissera: «aos meus
collegas, que estremeceram por me vêr pistolas engatilhadas, peço que se
vão afazendo a vêr instrumentos de morte, para que não se aterrem
quando, vestidos com a alva de condemnados, se defrontarem com os
patibulos.»
Desde este dia, o nome de Venceslau Taveira foi inscripto na lista dos
votados á morte nos conciliabulos de Queluz.
Quando o governo descobriu n'aquelle anno a celebrada conspiração da rua
Formosa, entre os papeis encontrados no subterraneo da officina
typographica, estava um com as bazes do projecto revolucionario.
O artigo 3.º dizia: «Assassinar aquelles entre os membros das côrtes e
do ministerio que são os mais celebres defensores dos direitos nacionaes.»
O primeiro nome era Venceslau Taveira.[3]
O conflicto do congresso parecia ter sido apenas um sonho máo no
espirito do deputado, quando entrou no seu escriptorio, onde Julia o
esperava assustadissima. Um sorriso de paz lhe deu elle com o beijo da
sua extrema ternura, e na firmeza de voz e bom concerto das ideias
denotava que os transportes de uma coragem honrosa, depois de o
abalarem, lhe repunham a alma descansada no reclinatorio da
consciencia.
--Fujamos de Portugal!--disse-lhe Julia vivamente.
--Não fujamos, minha amiga... Jantemos--disse serenamente o marido.
E, durante o jantar, perguntou padre Manoel Ferreira:
--E, se V. S.ª, cego na sua justa ira, matasse o Peixoto ou o Neves...
--Ou ambos...--ajuntou Venceslau.
--Sim, ou ambos... suppomos...
--Suppomos...
--Que acontecia?--insistiu o capellão.
--Que elles estavam a esta hora mortos--respondeu o deputado.
D. Julia fitou com certo assombro o placido rosto do marido, e disse:
--Pois tu... eras capaz de matar...
--E de morrer, minha filha.
XX
É assim o viver.
ALVARES D'AZEVEDO.--_Obras_, tom. III.
Este capitulo abrange o espaço de quatro annos.