as consequencias d'essa loucura... Se ella é verdadeira, lembra-te que
vou casar com o homem que teu marido mais respeita. Eduardo, se ousar
erguer os olhos para mim, ha de baixal-os envergonhados. Se é uma
paixão... Paixão!--repetiu ella falseando n'um sorriso a dissimulada
duvida.--Paixão!... não creias que tal sentimento possa nascer n'um
homem que me respeita e deve conhecer que o desprezarei... se se atrever
a manifestal-o...
--E nunca t'o manifestou?...
--Porque me fazes tal pergunta?
--Mas dize, Julia, nunca t'o manifestou?
--Não...--respondeu sem turvação a interrogada, rosto a rosto.--Que
lembrança a tua!
--É verdade... Lembrou-me se seria para ti a carta que eu hoje te
mostrei...
--A carta?!
--Sim, Julia; e, quando fosse, o teu nobre procedimento está bem
justificado n'aquella carta. Eduardo queixa-se de ter sido repellido...
Que outra coisa podia esperar eu de ti? Queixar-me porque m'o não
disseste, seria fazer injustiça á tua prudencia... Todo o teu empenho de
boa amiga devia ser que eu ignorasse a indigna tentativa de Eduardo...
Permittisse Deus que elle me não désse rivaes com menos virtude...
--Rivaes!--contradisse Julia irritadamente.--Rivaes são as que acceitam
a competencia... É preciso que duas mulheres amem o mesmo homem
para que se chamem rivaes. Em quanto eu desprezasse as declarações de
teu marido, não devias dar-me nome tão injurioso...
--Então confessas que era para ti a carta?
--Se confesso!...--tartamudeou Julia.
--Sim... tu não pódes enganar-me... Vejo-te a alma nos olhos, e a
perturbação nas palavras... Tens piedade de mim, não tens? Então dize-me
que meu marido te escreveu... que tu lhe respondeste como devias... e
que elle te mandava depois aquella carta...
D. Julia apertou ao seio a face lagrimosa de D. Anna, balbuciando:
--É verdade... é atrozmente verdade que teu marido me escreveu... Não te
peço perdão, porque não tenho de quê. Na resposta, que lhe dei em duas
linhas escriptas na sua mesma carta, ameacei-o de te mostrar a segunda,
se m'a elle enviasse... Lembra-te das palavras.
--Que eu não pude entender... bem me recordo... _Se V. Ex.ª cumprir a
ameaça que me escreve, se me denunciar, fará duas victimas. Mata uma
innocente, e ordena ao criminoso que se suicide..._ Era isto;
mas--proseguiu Anna em pranto desfeito--o meu infortunio ainda assim
fica sendo enorme... Se te elle ama com tamanha paixão, e te vê casada,
e perdida para sempre, onde o levará o desespêro...
--Paixão!...--repetiu Julia motejando a palavra.
--Paixão, sim... pois, se o não fosse, Eduardo teria a fraqueza de
alterar-se a tal ponto? Sahiria de casa como louco? Teria escripto
uma carta em que tantas vezes falla no suicidio?...
--Ó filha, essa palavra em cartas de namoro não tem significação
assustadora...--replicou Julia jovialmente.--Creio que não recebi uma só
carta das muitas que devolvi, em que essa funebre responsabilidade me
não fosse imputada; e nenhum dos muitos que me escreveram se matou...
--E como tu pódes rir, sendo tamanha a minha infelicidade, ó Julia!...
--Não exageres, creança!--animou a noiva de Venceslau Taveira com
incrivel frieza de animo.--Teu marido ha de voltar para ti curado pela
reflexão e melhorado pelo remorso de te haver sacrificado á mais
estupida vaidade que podia desnortear o tino d'um homem intelligente.
--Mas não te magôa vêr que é necessario acabarem as nossas relações?
--Como? acabarem...--acudiu D. Julia espantada.
--Sim... acabarem... Com que alma hei de eu estar na tua presença e na
de meu marido?!
--Então queres dar ao caso as proporções do escandalo?--replicou Julia
altivamente.--Dirás a teu pae que Eduardo me fez a côrte? Obrigar-me-has
a dizer a Venceslau que as nossas relações se romperam, porque teu
marido me namorava? Permittes que a nossa sociedade me considere a
infame que te amou o marido, e a ti a honesta dama que me expulsou
de sua casa, e não quiz manchar-se no descredito da minha?
--Jesus! onde tu vaes!--exclamou D. Anna--pois, se eu deixar de ir a tua
casa, é forçoso que se publiquem estes desgostos que ninguem sabe?
--É: ha de sabêl-o teu pae, ha de sabêl-o o homem que não será meu
marido... nem eu o quero... com tal condição. E, depois, tu tens força
para a lucta horrivel que vaes travar com teu marido, se publicares a
sua deploravel fraqueza? E não temes que teu pae, já tão quebrado de
forças, morra de pena de ti, odiando o homem, que eu, tão enganada pelos
teus olhos, affirmei havia de ser um excellente esposo?
--Que hei de eu então fazer, Julia? Aconselha-me...
--Fazes o que eu te pedir?
--Se podér...
--Pódes... ha de custar-te, mas pódes... Todas as victorias são
difficeis, filha; mas as da paciencia, nas tuas circumstancias, são
sempre seguras... Finge que tudo ignoras. Não profiras o meu nome com
azedume, não dês côr suspeitosa ao que de mim disseres. Recebe-me com o
mesmo amor, que cada vez t'o mereço mais extremoso. Vae a minha casa; e,
na presença de teu marido, falla-me sem a minima reserva, e não procures
surprehender nos olhos d'elle a intenção com que me olha. Se fizeres
isto, restituo-te Eduardo com o juizo restaurado.
--Mas, se não poderes...
--Se não podér, vou viajar, ou sósinha ou casada, e só voltarei a
Portugal, quando me tu disseres que teu marido recuperou a honra perdida.
Anna Vaz beijou ardentemente a face da sua amiga, e exclamou:
--Espera... deixa-me levantar que eu vou comtigo para a sala... Quero que
o meu pobre pae me veja sorrir... Vae dizer-lhe que me estou erguendo, e
que estou boa... Inventa qualquer coisa...
Já estava na sala Venceslau Taveira recebendo os emboras do commendador,
e explicando os pormenores da sua imprevista alliança. Ao tempo que D.
Julia entrava, acabava de dizer o commendador ao noivo:
--Mas que é isso?! Acho-o extraordinariamente triste!... Narrou-me em
termos tão gélidos uma historia para tantas alegrias!... Que não vá o
meu querido amigo enganar-se com o seu coração ferido de sobresalto...
Agouro não sei quê... Eu queria-o vêr mais contente... mais rapaz... mais
noivo!... Os homens da sua têmpera parece-me que têm uma só familia--a
patria, e uma só paixão--a das conquistas da felicidade para o genero
humano...
Venceslau escutava ainda o écco das palavras do velho que se lhe
repetiam na alma, quando Julia entrou, incendida no rosto da violenta
crise em que as interrogações de Anna Vaz a mortificaram.
--Está febril minha filha, não está?--perguntou o commendador.
--Está levantando-se... Não tem febre, e vem ahi já.
--Mas que era?...--volveu Francisco Vaz.
--O que eu lhe disse...
--Ciumes?...
--Sem fundamento... Apprehensões de quem muito ama...
--Torturas...--emendou o velho; e voltando-se para Taveira,
continuou:--O tedio, o enôjo em esposos de cinco mezes, o que será aos
cinco annos, snr. Taveira?
--Póde ser que seja a felicidade de ambos, a reciproca e serena
confiança, quando os zêlos fundam em leviandades passageiras.
--Conhece muito as sciencias que o espirito humano creou; mas sabe pouco
do coração do homem, snr. Taveira--contrariou o commendador.--A mulher
que, ao quinto mez de casada, nova e bella, apaixonada e incapaz de
comprehender a perfidia, se vê trahida, perdôa, se é honesta; mas o
homem, capaz de arrependimento, e de ajoelhar aos pés da esposa
generosa, se algum existe, não é Eduardo. Na vida d'este mal-fadado ha
condão funesto...
--Ha apenas, e quando muito, uma preoccupação...--disse o
deputado.--Esteve hontem comigo, e causou-me estranheza. Fallou-me em
sahir de Lisboa com licença de seis mezes para uma quinta. Suspeito que
a frequencia dos bailes lhe haja colorido falsamente os quadros que elle
não examinou quando era moço... Espero que o mentiroso prisma se
lhe quebre, logo que a mão da lealdade contricta lhe desperte a
consciencia...
Chegou D. Anna.
A palestra d'aquella noite foi mais trivial que nunca. Venceslau Taveira
conversou nos assumptos habituaes--politica, e congresso dos reis em
Verona, o juramento da constituição e a suspeita de que a rainha D.
Carlota recusaria jural-a, etc.--materia duvidosamente lyrica para noivo.
Á hora do costume, o deputado sahiu, bem que o commendador Vaz lhe désse
a perceber que muito desejava elle podesse encontrar-se com Eduardo
n'aquella noite.
--Ámanhã o procurarei--disse Venceslau, em quanto Anna e Julia se
trocavam um lance de olhos que significava a incompetencia do mediador
escolhido pelo velho.--Hoje tenho ainda trabalhos de escripta e estudo
que me devem levar a noite toda.--Accrescentou o deputado.
--Está a chegar o dia do repouso...--observou o commendador alludindo ao
casamento, d'onde lhe resultaria a inercia dos ricos.
--O dia do repouso é o primeiro da morte--contraveiu Venceslau.--Ninguem
repousa n'esta vida; e, a meu juizo, os espiritos mais trabalhados, e
talvez mais infelizes, são os que se agitam em inutil actividade. A
riqueza, que convida ao ocio, é pessima, quando por ella trocamos o
thesouro dos bens da alma.
Eis-aqui maximas stoicas não vulgares em noivos, salvo se elles são
philosophos; mas a raridade d'esta especie é já grande; e algum Socrates
que ainda apparece a maridar-se, é contar com elle bem castigado por
Xantipas.
Na ausencia de Venceslau Taveira, contou D. Julia concisamente ao
commendador o breve prefacio do seu projectado casamento;
porém--rasoavelmente lh'o advertiu o velho--tão desenthusiasta expunha
ella como expozera o noivo aquelle importante e solemnissimo acto.
--Eu bem sei...--dizia o commendador--que entre pessoas sisudas o
casamento é passo para mui serias meditações; mas, logo que a
deliberação está feita, parecia-me natural vêl-os muito alegremente
fallarem do seu futuro...
D. Julia sahiu á meia noute. Ia triste, e perguntando a si mesma:
«Estarei eu enganada com elle e comigo? Este sentimento de estima será
bem o amor que preciso hoje mais do que nunca alimentar no ardente
coração de um homem?... Com que frieza elle fallava de politica, olhando
para mim hoje como hontem, como sempre, como se eu alli não fosse mais
do que uma das costumadas pesssoas do seu auditorio... Mas...»
Proferia ella mentalmente aquella conjunção--aquelle _mas_, que daria as
melhores dez paginas d'este livro, quando a traquitana, desembocando da
rua da Patriarchal, atravessava o largo do Rato, em direitura ao palacio
das Amoreiras.
Parou subita a sege. O bolieiro, reconhecendo a pessoa que sahira á
frente da parelha, bradando que parasse, obedeceu.
--Que é?--perguntou D. Julia com receio, por entre as cortinas, que
afastou.
--Não se assuste, minha senhora--disse Eduardo Pimenta no mais baixo tom
de voz que podia ser, abrindo mais as cortinas para ser conhecido.
--Aqui, a tal hora, o snr. Eduardo?--murmurou ella tremendo a seu grande
pesar.
--Esperava-a, snr.ª D. Julia... para lhe dar os parabens do seu consorcio.
--Acho improprio o local... Venho de sua casa; era lá que eu devia
merecer-lhe essa delicadeza...
--Nada de ironias, senhora!
--Ironias!? em que tom V. S.ª me está fallando! Eu não preciso de
contrafazer-me com o disfarce da ironia... Que me quer o marido de Anna
Vaz?
--Que me restitua a minha felicidade!... que me mate, senão póde
restituir-m'a... Um reptil que nos nauzêa esmaga-se com o pé... Que mais
vale o coração do homem que a fatalidade poz de joelhos diante de V.
Ex.ª? esmague-me... Diga-me affoitamente, diga-me sem piedade que me
despreza...
--Não o desprezo; estimo-o, quanto posso estimar o marido d'uma amiga
intima--disse D. Julia sensibilisada, mas serena.
--Eu não quero ser estimado, porque estou preso com um grilhão de ferro
á amiga de V. Ex.ª... Guarde a sua piedosa estima para as victimas
resignadas...
--Que quer então?
--Pouco... quero que V. Ex.ª me diga que no momento em que tractava o
seu casamento com Venceslau Taveira não viu passar entre o seu coração e
o seu futuro a imagem lagrimosa do homem que V. Exc.ª ameaçou com uma
denuncia...
--Não vi a sua imagem; vi a imagem lagrimosa de sua esposa... Essa é que
eu vi, e venho de vêr agora prostrada no leito, e receio vêl-a
brevemente prostrada na sepultura... Snr. Eduardo, tenha compaixão
d'ella e de mim!
--De V. Ex.ª!?--interrogou elle, alvoroçado pela commoção que se
delatava no tremor da voz.--Compadecer-me eu de V. Ex.ª?! Quando deixei
eu de adoral-a, para offendel-a?
--Não diga que me adorou, supplico-lhe que desfaça essa illusão da sua
alma.
--Oh! para que está mentindo á sua consciencia, snr.ª D. Julia? Pois não
viu que eu a amava quando casei? Não me impôz delicadamente em sua casa
o preceito de lh'o não revelar?
--Falle baixo--acudiu Julia--que póde ouvil-o o creado. Jesus, que
desventura a minha! Ó snr. Eduardo, tenha brios e valor! Deixe-me,
esqueça-me!... por alma de sua mãe, e d'essa infeliz senhora que lhe
morreu nos braços, em nome de ambas lhe rogo que me esqueça, que me não
obrigue a fugir de Portugal!... Mal sabe quanta gratidão lhe daria a
minha alma, se me attendesse, se me deixasse ser sua verdadeira amiga!
Juro-lhe pela memoria de meu pae que me não torna a vêr, se não
domina o desatino que está cavando a sepultura de sua mulher...
--Sempre a minha mulher!... Por que me não falla do seu marido?
--Pois bem... peço-lhe em nome de meu marido que me respeite!--disse D.
Julia com a maxima gravidade e decoro.--E, se não, adeus para sempre!
Não sustentarei com V. S.ª uma lucta odiosa. Ha afflicções que se tornam
ridiculas, se a coragem as não subjuga. Desterrar-me-hei para que o snr.
Pimenta, esquecendo-me a mim, se lembre de que ha uma coisa mais
preciosa que eu: é a honra, a sua propria honra. Peço-lhe que me deixe
recolher. Os meus creados não estão habituados a assistirem a estes
dialogos por alta noite, e eu não lhes quero dar direito a suspeitarem
de mim.
--Só duas palavras, snr.ª D. Julia. Não sáia de Portugal--supplicou
Eduardo com apaixonada resignação.--Juro que não perturbarei a sua
tranquilidade. Fique, rogo-lhe com as mãos erguidas que fique; mas não
me prohiba que eu a ame... Será um amor sem lagrimas, sem um gemido, sem
que nos olhos se me veja o reflexo do fogo que me ha de ir devorando.
Não me prohibe esta inoffensiva tortura, não?
--Ó snr. Eduardo...--balbuciou Julia.
--Adeus! vá!... Olhe que o mundo não encerra mais desgraçado homem! Eu
hei de obrigal-a, hei de, Julia, a confessar que foi muito amada, e
talvez... muito ingrata... Adeus.
Eduardo desviou-se, e a sege abalou.
E D. Julia de Miranda, enxugando os olhos, de certo sinceramente
chorava, porque não é de presumir que uma mulher finja lagrimas, quando
ninguem a observa.
Mas chorar, ó Deus do céo, ó creador omnisciente do prodigioso coração
de mulher! Chorar! porquê?
Ai! chorava por que não podia odial-o...
Leitor florído, se V. Ex.ª é menos honesto do que eu penso, de certo
estima que as suas visinhas chorem por não poderem odial-o.
XVIII
C'etait incompréhensible, inouï, miraculeux...
A. DUMAS.--_Amaury._
A criada antiga, que dormia na recamara de D. Julia, segredou ao padre
Manoel Ferreira que a fidalga, durante as noites seguintes á decisão de
casar-se, poucas horas descansára, e algumas vezes dava uns ais tão do
amago da alma que parecia gemer em grande afflicção.
O padre comprehendeu poeticamente as insomnias, attribuindo-as ao
alvoroço proprio de noiva. Bem é de entender que o sabio, nos seus
livros latinos, não tinha lido casos de noites desveladas por motivos
molestos, se era amor quem desafinava a harmonia das funcções empenhadas
no phenemeno do somno. Não obstante o silencio dos classicos romanos a
tal respeito, padre Manoel indagou da propria fidalga a causa das suas
noites mal dormidas. Respondeu D. Julia que a preoccupavam receios
de infelicidade, resultantes d'um casamento pouco meditado e talvez
incompetente, assim a Venceslau como a ella.
O capellão, atonito com tal resposta, nem de leve curou de lhe dissipar
as apprehensões; antes, muito de sizo, se offereceu para desfazer o que
intempestivamente fizera, espacejando com qualquer honroso subterfugio o
cumprimento da promessa, até que Venceslau, cavalheiro pundonoroso,
aconselhado por sua dignidade, desquitasse a noiva do compromisso.
D. Julia repugnou tal evasiva, declarando com fidalgo entono que
desadorava entrar em porfia de pundonor com Venceslau. E concluiu
dizendo que a sua palavra estava dada.
--E o seu coração, minha senhora?--perguntou o padre.
--O meu coração...--murmurou ella--morreu quando as pulsações cessaram
no coração do primeiro e unico homem que amei.
E o capellão, fitando-a silencioso e magoado, de si para comsigo julgou
que D. Julia não podia ser dada como exemplo de senhora perfeita,
moralmente fallando.
E, desde esta hora, padre Manoel, sentindo sobre a consciencia o gravame
de tremenda responsabilidade, andava triste, como assombrado, a cogitar
e a pedir a Deus que interviesse de modo que o casamento não se
realisasse.
Deus não o attendeu, ou interveiu mysteriosamente. Como quer que fosse,
o casamento fez-se no fim do anno 1821.
Foi muito soado o caso em Lisboa, e muito invejado o provinciano. O juro
dos quinhentos mil cruzados da consorte deu-lhe direitos á consideração
publica muito mais relevantes que os do talento acrisolado por altas
virtudes de patriota. Haveria quem lhe emulasse a qualidade de primeiro
orador e preconisado ministro; mas a de proprietario da mulher, que
representava duzentos contos, seria capaz de ajuntar á inveja o respeito
abjecto--mascara do odio. E, comtudo, os habitos de Venceslau Taveira
mantiveram-se no mesmo grau de solicitude, trabalho e mediania. A
traquitana de sua esposa ninguem lh'a viu em frente do paço das
Necessidades, onde então legislava o congresso. Madrugava mais que os
seus collegas abastados para poder chegar ao mesmo tempo que as
carruagens d'elles. O seu trajar arguia decente mediocridade, auxiliada
pelo esmero na limpeza; não era o surrado desalinho com que desculpamos
os philosophos, quando nos fallece direito a mandal-os lavar a cara.
Este proceder de Venceslau recendia aromas de virtude, era abnegação que
muito louvava padre Manoel Ferreira; porém D. Julia de Miranda não se
admirava nem comprasia. Em conta de affectação orgulhosa foi que ella
tomou a isempção do marido, julgando-se por isso menospresada na
riqueza. Quanto a ser amada, confessava D. Julia que o era como seria
qualquer outra menina pobre que não désse tão brilhante, e tão
desdenhada independencia a seu esposo.
O viver intimo de Venceslau, em verdade, destoava do que é costume serem
maridos amantissimos, em quanto a corôa nupcial se não desmaia de todo.
Tinha horas de gabinete, e então folgava que Julia se detivesse a
contemplal-o folheando livros, tirando notas, arquitectando discursos, e
comparando a indole da nação ignorante com os luminosos codigos das
nações civilisadas. Isto não é bem poetico; realmente não é.
Assim que era tempo, ia para as côrtes, e recolhia com a maxima
pontualidade a jantar; mas, se os negocios do estado implicavam á
exactidão do repasto domestico, o funccionario, submissso ao sacrificio,
não antepunha o gozo da familia aos deveres de cidadão estipendiado para
a servir. A poesia aqui tambem não é que farte para um madrigal.
As noites eram todas de sua esposa. Se ella sahia a bailes ou visitas,
de bom rosto a acompanhava; mas uma por outra vez lhe disse, beijando-a
e ameigando-a:
--Não passarias melhor a noite no socego da tua salêta comigo, com os
teus livros, e com a doce companhia do teu fogão?
Julia algumas vezes cedia suavemente ao brando convite; Venceslau,
porém, notou com secreta mágoa que ella, por volta das dez horas da
noite, difficilmente resistia aos enfados do coração que se manifestam
em abrimentos de bocca.
A esposa deitava-se; e o esposo ia para o seu gabinete onde
trabalhava até ás tres da manhã. Se ha n'isto poesia, confessemos que em
casa de cada mercieiro ha inspirações para tres opopêas.
E porque não iria Anna Vaz passar as noites com a sua amiga? Por que não
ía Julia esparecer saudades da juventude, se as tinha, na familiar
convivencia do commendador?
É simples a resposta; mas ha que presagiar calamidades n'ella.
Marcado o dia do casamento, Venceslau convidára Eduardo a ter parte na
sua festa do coração, assignando como testemunha na egreja. O
commendador tambem foi como padrinho e madrinha a filha. Os restantes do
pequeno cortejo eram alguns deputados anciãos e militares companheiros
do exilio do noivo.
Eduardo apresentou-se na ceremonia com certa compostura grave,
melancolica; porém de modo algum suspeita. Anna, docil aos preceitos de
Julia, mas talvez mais submissa aos do coração, espionava
involuntariamente os raios vizuaes do esposo. Escassas vezes o colheu em
flagrante delicto. A noiva por sua parte parecia esconder mais do que
elle o relance furtivo de olhos; todavia, se alguem lhe chamava a
attenção para Eduardo, se Venceslau lhe dizia: «o Pimenta está pallido e
triste», ella encarava-o com desassombro, e respondia qualquer coisa,
sorrindo banalmente, como se fosse uma tola vulgar.
O banquete das nupcias foi modesto, moderadamente animado, e concorrido
de velhos que nem sequer primavam nas jogralidades proprias do
acto, e sempre bem acolhidas, quando vem auctorisadas pelas cans; que o
impudor senil tem fôro de graça lusitana, segundo parece, em festins de
noivado. Os coroneis e os legisladores commensaes de Venceslau fallavam
de politica e de batalhas. Venceslau foi eloquente n'estes assumptos.
Padre Manoel Ferreira manteve-se em silencio meditabundo. O commendador
conversou sempre com Julia. E Eduardo nunca se mostrou tão apontado em
attenções carinhosas a D. Anna.
O restante da noite correu mais animada, graças ao espiritismo dos
coroneis, que tinham brindado repetidas vezes á liberdade, e ungido com
profuzas libações o seu athletico odio contra o despotismo. Os
legisladores tambem.
Findo o saráo, Eduardo apertou a mão da esposa do seu amigo, e pôde
ceciar umas palavras que ella ouviu com a audição interior da alma:
«Nunca mais».
Ninguem a viu descorar; mas ella desconfiou que a vissem, porque lhe
quiz parecer que o sangue se lhe congestionára no peito e que ao longo
das faces lhe resvalára a sensação do frio. Imaginações, talvez. Nervos.
Ao outro dia, D. Anna Pimenta, a hora desacostumada, e menos propria de
visitar noivas recentissimas, appareceu em casa de Julia. Eram onze da
manhã, e já encontrou Venceslau a sahir. Aos reparos da esposa do seu
amigo respondeu elle que não podia faltar ao congresso, onde se
pleiteavam graves projectos de lei. A amorosa senhora não pôde sequer
por delicadeza louvar semelhante patriotismo. Lá no seu recondito
juizo diria talvez ella, em prosa menos pedestre, que não havia lei em
projecto que valesse uma formosa mulher já realisada.
Encontrou Julia no toucador, sentada, em frente do alto espelho, n'um
reclinatorio de estofo cramezim, com os opulentos cabellos a serpearem
sobre as rendas do penteador, e umas travessas d'oiro a desviarem-lh'os
das fontes. A posição languida da noiva, um pouco antes, denotava
abatimento moral, um ar reflexivo de quem se quer imaginar n'um sonho
infeliz, e não póde tirar dessa forçada quimera senão tristezas.
Mas, ainda assim, quando ouviu passos e conheceu a tosse nervosa de Anna
Vaz, desanuviou a face, illuminou-a d'um sorriso, e apertou nas suas as
mãos da amiga.
--Tão cedo?--perguntou ella.--Tu vens febril!...
--E agitada, porque vim a pé... Venho despedir-me...
--Para onde vaes?!