--Não... Eu te contarei tudo... Vae praticar a heroica virtude de fechar

a carta, que não esteja eu a privar-te da benção de tua santa mãe...

Adeus, até á noite.

XVI

_Melius est pubere, quàm uri._

Melhor é cazar-se do que queimar-se.

S. PAULO.

Seguidamente procurou D. Julia o capellão no seu escriptorio e disse-lhe:

--Snr. padre Manoel, mande sahir a traquitana, e vá á camara dos

deputados convidar o snr. Venceslau Taveira a jantar hoje comigo. Peço á

sua probidade nunca desmentida que lhe não diga a conversação que tivemos.

--Que tem V. Ex.ª? o seu espirito está desasocegado!--notou o padre com

a mágoa do muito que lhe doía vêl-a estranhamente agitada.

--Vá! não me pergunte nada agora... Eu me confessarei á sua boa alma,

quando me sentir mais tranquilla.

--Bem sei...--murmurou o padre--bem sei...

E ella, fixando-o maviosamente parecia dizer: «se sabe...»

A improvisa deliberação de Julia é lance que nos revela indole generosa,

mas precipitada; alma capaz de virtudes impetuosas, mas raras vezes

encaminhadas á direita vereda por onde ellas conduzem á felicidade

estavel. Convém saber que ha logica de ferro, pauta rigorosa nos actos

encadeados da vida estreme de romance. As phantasias energicas e

destemperadas que partem aquella cadeia, conhecem mais tarde que os élos

quebrados eram a parte mais solida por onde a esperança devia prender-se

á realidade.

De prompto occorre á sizuda leitora d'este livro que D. Julia resolveu

repentinamente casar, quando a sua amiga lhe pedia conselho--a ella,

unica pessoa que sabia o segredo da paixão de seu marido. Affastal-o de

repellão, fulminar-lhe as esperanças, defender-se do ultraje com a

respeitabilidade de esposa, e esposa de Venceslau Taveira--o amigo e

bemfeitor de Eduardo--este foi o sentimento elevado que a impulsou a

decidir do seu destino, como se os destinos impendessem d'estas

determinações instantaneas. Foi um relampago que lhe allumiou o futuro;

mas, se o fulgor electrico abrange dilatada circumferencia, densa

escuridade se tece depois aos que apalpam rochas áridas que a luz

azulejára como kioskes.

De mais d'isso, o reverso da ideia irreflectida não offerece contraste

que a desdoira, sendo parte n'ella a vaidade, por não dizer soberba?

Dispor de antemão da condescendencia de homem tal como Venceslau,

era fiar talvez de mais no iman dos seus quinhentos mil cruzados, ou

illudir-se muito com a já desluzida belleza dos seus vinte e nove annos,

ou então enlaçar presumpçosamente essas duas prendas ás graças do

espirito que, em verdade, lhe davam a primazia entre as suas

contemporaneas.

Se o padre Manoel, syndico do animo do deputado, se houvesse illudido

nas suas analyses; se Venceslau nos sahir mais austero philosopho que o

divino Socrates--para quem Aspazia e Lais eram espectaculos dignos da

admiração do universo--a vaidade de Julia será derrotada irrisoriamente

aos olhos de Eduardo; e o cahir de tamanha altura, onde ella se

fantasiou alçada pela honra, dará o estrondo d'um escandalo ridiculo nas

salas de Lisboa.

Antes da chegada de Venceslau Taveira já a tortura da incerteza

flagelava D. Julia de Miranda, a ponto de sentir-se desvigorosa de

espiritos para honestamente abrir conferencia de tanto melindre.

N'este desanimo dessimulado pela viveza propria do temperamento, a

encontraram o deputado e o clerigo.

No semblante de Venceslau transparecia tambem a turvação das

conjecturas. Aquelle convite era o primeiro, particularissimo, e

subitamente resolvido. Até aqui havia chegado a confidencia do padre,

cujo contentamento extraordinario devia ter mysteriosa significação nas

perplexidades do convidado.

Observou o hospede que D. Julia, a só com elle, denotava acanhamento

desacostumado. A conversação esfriava no trivial. A politica era chamada

á pratica, por ella mesma que tantas vezes a matraqueára, pedindo ao

orador que deixasse a noiva em casa a fazer leis, quando lhe désse a

honra de a visitar.

Quando um criado entrou á sala a saber se a fidalga mandava servir o

jantar, D. Julia deu o braço a Venceslau Taveira, e foi dizendo:

--Somos sós, e mais o capellão. Ainda bem que na pessoa de padre Manoel

Ferreira está symbolisada toda a academia real das sciencias. Eu concedo

que fallem latim, e convidem para a meza todos os classicos romanos da

minha livraria. Sinto não ter um triclinio para offerecer a Horacio; mas

sentar-se-ha no collo do padre. Cicero, se vier; irá para o collo do

snr. Taveira.

--Convidaremos Corinna, para que V. Exc.ª tenha alguem no regaço, disse

o deputado.

O capellão, que já os estava esperando, ouviu a fineza do politico, e

acudiu logo:

--Fallam da infiel amante de Ovidio?

--Não, senhor--disse Venceslau--fallavamos da poetisa grega...

--Rival de Pindaro--ajuntou o padre--a qual cinco vezes foi premiada nos

jogos olympicos...

--Primeiro discurso academico!--atalhou D. Julia.--Não lh'o disse eu,

snr. Taveira? Padre Manoel, continue, que eu sirvo-o de sôpa, se o snr.

Venceslau não quizer acceitar o meu logar.

--Ó minha senhora, apresso-me a receber tamanha honra...--disse Taveira.

--Gosto de o vêr ahi, snr. futuro secretario de estado...--disse o

capellão.--Está na cadeira do snr. desembargador do paço Paulo Henrique.

Nove annos esteve empacotada; e, tirante a snr.ª D. Julia, ninguem mais

occupou essa cadeira. Não ha ainda quarenta e oito horas que eu

perguntei a S. Ex.ª: «quando verei alli sentado seu marido?»

D. Julia córou, e o deputado tambem; mas padre Manoel, que não córava

nos banquetes sem poder explicar o pudor com a alcoolisação do seu rico

sangue, continuou:

--Voltando a Corinna, se viessem fallando da celebre amada do desterrado

do Ponto, citar-lhes-hia a canção do banquete em que o poeta lhe

impropéra a perfidia...

--Má iguaria nos banqueteava, padre Manoel!--contraveiu D. Julia.--Antes

uma canção de amor fiel, quando a censura do crime não tem auditorio a

quem possa aproveitar. Eu fico pela lealdade do snr. Venceslau aos seus

mais caros affectos...

--E eu serei o fiador de V. Ex.ª--acudiu o deputado--mas se eu abono a

lealdade de quem ama uma saudade, V. Ex.ª fica pelo vago amor de quem

namora uma esperança. A favor da snr.ª D. Julia está o passado que funda

em provas incontestaveis; eu, de mim, não posso consentir que V. Ex.ª me

abone, sendo coisa tão incerta o futuro.

--Eu referia-me ao seu amor privativo da patria--explicou a dama.

--A patria é como aquelle pão de que o homem não póde unicamente

alimentar-se, na phrase do Evangelho--retorquiu Venceslau.--Varias vezes

V. Ex.ª e a snr.ª D. Anna Vaz, motejando com bondosa graça a diligente

assiduidade com que tento cumprir meus deveres, me tem dado fóros de

selvagem desconversavel e alheio da lei commum do amor, que tanto influe

no sybarita como no estoico. O gracejo era uma lisonja, visto que eu

merecia as amaveis censuras de SS. Exas., mas, em verdade, minha

senhora, se eu me vangloriasse de ser o que as minhas amigas imaginam,

tarde ou cedo as faria rir da minha enfatuada insensibilidade.

--Pois quê?!--exclamou o padre--snr. Taveira, bebo á sua saude. _Nunc

est bibendum._ Gósto d'essa franqueza! _Homo sum et nihil a me alienum_,

etc.

--Estamos em casa de Mecenas--disse, sorrindo, D. Julia.--Entrou

Horacio, e lá está a discretear com o padre.

--O latim é de Terencio--illucidou o erudito--e quer dizer que o snr.

Venceslau Taveira é homem como os outros... Como os outros, quero dizer,

os raros que se lhe assemelham na virtude e na sabedoria, na modestia e

na moral, na vida illibada e...

--Pelo amor de Deus--interrompeu o deputado.--Parece que me está

dictando a necrología, snr. padre Ferreira! Não usurpe aos mortos essas

hyperboles... Veja os meus defeitos para que eu me considere tambem

examinado nas imperfeições menores. Já não é pequeno aleijão moral o

defeito de coração que me censuram...

--Pois que quer?--volveu D. Julia--como hei-de eu julgar a sua

indifferença em meio de tantas damas formosas e espirituosas que

frequentam esta casa? Nenhuma o impressionou?

--Admirei-as... e passei, sem que ellas me vissem.

--Mas admirar...

--Admirar não é amar. As estatuas do Louvre admiram-se, e não se amam. A

mãe que nos affaga, ama-se e não se admira. O amor brota da alma. A

admiração forma-se no entendimento. Uma coisa tem muito d'arte; a outra

deve ser espontaneamente natural.

--Materia estranha é essa em que não tenho voto--disse padre Manoel,

engatilhando a pitada ao nariz.

--O homem do Evangelho não é o de Terencio--assentiu Venceslau.

--Mas--voltou o clerigo--posto que o Evangelho me não ensine nem

consinta que eu aprenda experimentalmente o processo do amor, sei que

Jesus Christo, instituindo o Sacramento que cinge com indissoluvel nó

duas almas, santificou o amor que as identifica. D'este sacratissimo

amor percebo eu; não se me importa saber se vem antes ou se vem depois

da admiração; se é espontaneo da alma, se a alma é estimulada por

affectos de natureza menos psycologica. Ha opiniões. _Grammatici

certant._

Venceslau sorriu, sem encarar em D. Julia, que provavelmente não

entendeu a phrase nem o sorriso.

E o padre seguiu n'este dizer mesurado e solemne:

--Ha de haver trinta e seis annos que o snr. doutor Paulo Henrique era

solteiro e eu estudante _in minoribus_, já então familiar d'esta

hospedeira casa, onde me fiz gente. Bem que eu fosse filho do mordomo do

fidalgo, a honra de me sentar a esta mesa já vem d'esse tempo. O joven

doutor folgava de me ouvir recitar versos dos poetas cezarios, e dava-me

a honra de lhe ouvir os seus magnificos hexametros. Fallavamos um dia de

outros assumptos menos litterarios, mas não menos poeticos.

Conversavamos de amores, mas amores honestos como a mocidade de então os

tratava theorica e praticamente, eis que o snr. doutor me disse,

respeito a casamento: «Olha, Ferreira, eu não ando por salas em damarias

de peralvilho; abomino os insulsos requebros com que os namorados

parecem noviciar antes de professarem votos tantas vezes quebrantados.

Se eu encontrar mulher que me deixe viva saudade, e desejo de tornar a

vêl-a, indago-lhe da vida; e se as informações m'a derem ao sabor da

ideia que fórmo da esposa excellente, pergunto-lhe se me quer para

marido. Se me responder que sim, a minha mulher ha de ser essa.» Pouco

tempo depois, na cadeira em que está sentada a snr.ª D. Julia, estava a

snr.ª D. Maria das Dores Mascarenhas, mãe de V. Ex.ª, exemplar de todas

as virtudes conjugaes, tão amada na vida, quanto chorada na morte.

Sendo já fallecida sua Exma. mãe, estava V. Ex.ª, menina de nove annos,

no logar onde a vejo, eu estava onde estou, e o snr. desembargador alli.

Recordamos então com lagrimas a nossa pratica passada nove annos antes;

e seu pae, correndo-lhe a mão pelas faces, disse: «permitta o céo que

esta creança seja amada como foi sua mãe; e que as galanterias das salas

e os fumos da lisonja lhe não offusquem o entendimento na escolha de

marido.» Contava quinze annos esta senhora, quando Antonio Vaz, cadete

de cavallaria, a cortejou. O snr. desembargador foi avisado. Soube cujo

filho era o moço. Não lhe desfez na geração honrada e antiga; mas,

averiguando qualidades proprias--que eram o essencial para o snr.

desembargador--descobriu que Antonio Vaz, tendo amado uma filha segunda,

formosa e todavia pobre, se esquivára de compromissos havidos com ella

para requestar a rica herdeira, a snr.ª D. Julia. Tal foi a origem dos

dissabores que lhe amarguraram os derradeiros annos, e vestiram de

pesado lucto a mocidade da constante senhora, sacrificada não ao

capricho, mas á moral sublime de seu pae. Prézo-me de fazer justiça á

memoria do meu bemfeitor, sem apoucar nos merecimentos de Antonio Vaz.

Elle era digno de tal esposa, desde o momento que ella o considerou

digno de si...

--Mal cabidas reminiscencias...--murmurou D. Julia magoada.

--Tristes...--observou Venceslau--mas sempre bemquistas da alma que não

as quer nem póde esquecer. Entretanto, sendo ambas as memorias

veneraveis, uma do pae que foi illudido, outra, a do primoroso moço

que não podia mentir-me, peço á snr.ª D. Julia que respeite por egual a

memoria do seu pae, que viu a infelicidade atravez das nevoas do seu

affecto paternal, e a memoria do coração que se deliu nas lagrimas do

primeiro amor, flagellado por quantos supplicios podia consagrar uma

sepultura.

Susteve-se, compenetrado da impertinencia do logar com a funeral

memoria, e disse commovido:

--Absolva-me V. Ex.ª d'esta indiscrição... Eu hei de ser sempre o homem

inculto, que se deixa levar para onde a alma o leva, sem vêr quando a

tristeza ou a alegria competem ás occasiões.

--A culpa não é sua--desculpou D. Julia--quem nos deu este quarto de

hora escuro, foi o snr. padre Manoel Ferreira... nem eu sei para quê...

--Primeiro para commemorar--respondeu o imperturbavel capellão--o

profundo juizo do pae de V. Ex.ª respectivamente a casamentos; segundo

para lhe defender a memoria, em presença de sua filha, da arguição

iniqua, mas involuntaria, que lhe fez o snr. Venceslau Taveira, quando

ha dias me disse que o snr. desembargador tolhera a felicidade da snr.ª

D. Julia. Enganaram-no, meu honrado amigo. O snr. desembargador, amando

extremadamente sua filha, teve da bondade divina o dom da previsão, e

anteviu que, depois de sua morte, viria guiado pela Providencia a esta

casa o homem predestinado a ser esposo e pae de sua filha, esposo pelo

amor e pae pela seriedade do seu porte e madureza de juizo. Ora, o

homem previsto e vaticinado pelo pae d'esta senhora... era Venceslau

Taveira.

Não espere o leitor que se lhe dê o esboço de grandes assombros e

perturbações. Se elles não se espantaram do remate do discurso, é justo

que eu me contenha nos limites do mais moderado espanto. D. Julia

rozou-se, abriu um sorriso pudibundo, que lhe agraciou angelicalmente os

labios silenciosos; mas fitou os olhos no prato, onde depozera o talher,

e só os levantou, quando Venceslau Taveira principiou fallando.

Vão vêr que nas palavras d'elle transluz amor; mas amor sem o

enthusiasmo pautado e obrigado em casos d'esta natureza. É alma sincera

e rija, que opéra sem o complicado apparelho nervoso com que se fabricam

os extasis e os spasmos que a natureza copía dos palcos. Tem o coração

subordinado ao raciocinio. Faltam-lhe ahi as fragrancias e as musicas

que perfumam a palavra e lhe dão o rythmo apaixonado. Mas não é isso a

esterilidade, o desapego, a aridez que imbebe as lagrimas improductivas

como areal onde os orvalhos não verdejam uma hervinha. É indole

corrigida pela severidade dos costumes, prevalecimento da razão sobre os

sentimentos que a fantasia não desabotoou na razão propria. Venceslau

orçava pelos trinta annos. N'esta edade, o amor, pela primeira vez

experimentado, não abrolha em luxuosas florescencias. O arrebol do

coração encontra já o meio-dia do espirito. Quasi que uma luz serena e

egual neutralisa os incertos esplendores da outra. E, se ha escuridade

no intimo sentir d'essa edade, a luz ideal resvala pelo seio frio

do gear da desgraça, e não o aquece. A condição do deputado não era bem

esta; mas tambem não era optima para exuberar delicias no coração de

mulher que o amasse ambiciosa das idolatrias do amor virginal. Talvez

coubesse aqui averiguarmos se Julia o amava; protrahiremos a penosissima

resposta: ella que responda opportunamente. Pelo emtanto, vejamos que

sahida elle deu áquelle passo angustioso, de que o leitor e eu nos

tirariamos tartamudeando lyrismos dignos de mais levantada historia.

--O silencio da snr.ª D. Julia convence-me de que o snr. padre Manoel

Ferreira deu ás suas palavras o espirito de respeito que se deve a V.

Ex.ª, e o de sinceridade que ouso pedir para mim. O que vou dizer, minha

senhora, será dito sem commoção. A felicidade alvoreceu na minha vida

pela primeira vez; mas, não tendo eu visto senão homens desgraçados pelo

amor, a experiencia das dôres alheias faz que o raio da luz nova toque

já menos ardente na minha alma, tendo de atravesar a frialdade da razão.

Ouça-me V. Ex.ª: eu vi-a no exilio espelhada nas lagrimas de Antonio

Vaz; vi-a ajoelhada ao pé da vala onde eu ajudei a descer o caixão; vi-a

nos dias eternos de oito annos de proscripto, e procurava nos olhos do

seu retrato a scintillação do pranto. Ha muito tempo, pois, que V. Ex.ª

vive nas minhas meditações, na minha poesia triste;--porque tambem eu

fui poeta, não para cantar amores ou saudades e ainda menos esperanças,

mas para me enlevar nos espectaculos do soffrimento a que assisti. O

poeta adopta as imagens da sua fantazia e com ellas fórma a ideal

convivencia em regiões de luz ou de trevas; eu tambem vesti de crepe uma

suave e pallida imagem de mulher, unica em minhas contemplações: era V.

Ex.ª Interrogando o meu coração, impunha-lhe violentamente o preceito de

me enganar; amordaçava-o para que me elle não dissesse que eu poderia

apagar a saudade de Antonio Vaz, e renovar no seio puro d'outro affecto

um segundo amor. Além d'isto, retrahia-me o escrupulo da deslealdade ás

cinzas do meu amigo: parecia-me que era ultrajar-lh'as afoitar-me a

pedir para mim a felicidade que elle anhelou, e mais acerba lhe fez a

desesperação que aos olhos embaciados pela morte se mostra ainda a

negrejar e a sumir-se no abysmo do passado. Descendo do alto ponto

d'estas considerações ao vulgar e mais positivo do juizo social, vi que

muitos homens abastados, e ao mesmo tempo prendados de amaveis dons,

rendiam a V. Ex.ª o preito de seus affectos, sem todavia lhe perturbarem

a serenidade da sua heroica renunciação. Ao mesmo tempo, olhando em mim,

com a reflexão que me esclarece os meritos alheios, via-me pobre,

desvalido das qualidades que dispensam a riqueza, incapaz de pedir ao

artificio os donaires e geitos que modificam a rudeza natural, peorada

pela soledade do gabinete e preoccupação de estudos incompativeis com as

finas graças da cortezia. Se algumas vezes, um intimo alvoroço me dizia

que V. Ex.ª me honrava com estranhas distincções, eu mandava immudecer o

amor proprio, e explicava a mim mesmo a estima de V. Ex.ª pelo

sentimento de gratidão ao confidente de Antonio Vaz--ao homem que lhe

trouxera no retrato d'elle o ultimo lampejo dos olhos que a tinham

contemplado. Iria mal a meu caracter franco fingir-me surprezo por este

imprevisto abalo. Hoje, quando o snr. padre Manoel Ferreira me convidou

a jantar com a snr.ª D. Julia, experimentei a nunca sentida impressão

que produz os ineffaveis estremecimentos do susto, da vaidade, do

orgulho, do jubilo das creanças--felicidade febril que eu sentia nas

palpitações do coração. O amor que a tantos homens se manifesta em

commoções, que augmentam de intensidade, com intercadencias de

despeitos, com irritações de ciumes, com o remorso até das injustiças

que se commettem--o amor, que nasce já santificado pela pureza do seu

destino, esse, minha senhora, o deposíto aos pés de V. Ex.ª

D. Julia offereceu-lhe a mão tremula de poetico enthusiasmo. E d'amor?

Ai! eu não sei. Venceslau ergueu-se, aproximou-a dos labios. Padre

Manoel Ferreira apertou nas suas as mãos dos noivos, e disse a D. Julia:

--Eu sonhava esta felicidade desde que o pae de V. Ex.ª, na sua hora

final, me balbuciou estas palavras: «Abençôe minha filha em meu nome, se

ella não deshonrar a memoria de sua mãe.» Eu não ouso abençoal-a; mas

curvo o joelho para lhe agradecer em nome das duas almas que a

inspiraram. Snr. Venceslau, aqui tem o anjo que Deus envia aos

virtuosos.

XVII

Oh desenho temerario

Que tal perigo intentava!...

JORGE F. DE VASCONCELLOS--_Memorial._

Quando, na noite d'aquelle dia, D. Julia entrou em casa do commendador,

a esposa de Eduardo estava no seu quarto; e o pae, curvado sobre a

jardineira, com a face entre as mãos, meditava abstrahido. Espertado

pelo fremito de sedas e rangir de passos na sala proxima, ergueu-se

rapido e foi ao encontro de Julia.

--Esperava-a anciosamente para lhe dar os parabens--disse elle.--Eu quiz

ir de tarde procural-a; mas minha filha asseverou-me que V. Ex.ª vinha

aqui. Vai ser feliz, D. Julia; se eu me engano, são falsos todos os

prognosticos que podemos tirar em materia de casamento. Eu não devia

hoje fallar-lhe d'outro assumpto; mas...

--Onde está a Annica?--interrompeu Julia.

--Na cama.

--Doente?

--Febril. Chorou muito...

--Porquê?

--Não sei, não m'o diz; o marido sahiu antes de jantar, e não voltou. Vá

lá, vá a minha querida Julia consolar essa nova dôr que eu ignoro...

Olhe que infortunio este! casados ha cinco mezes! Onde irá isto findar

com taes começos!... Metti em casa o verdugo de minha filha... V. Exc.ª

verá que a pobresinha vai muito cedo unir-se á mãe, que a está chamando

para si...

--Que imaginação a sua, snr. commendador!... Deixe-me lá ir, que estou

inquieta... mas espero que isto não passe de alguma passageira

tempestade de ciumes...

--Pois sim, será; mas n'essas tempestades é que naufragam as mulheres do

coração... as desgraçadas que amam, e preferem morrer martyres a viver

vingadas... Vá, vá, seja o anjo amparador d'essa creança... que ninguem

quiz salvar... ninguem... Eu só... eu só previ este desastre; mas

succumbi ao receio de a perder...

D. Julia foi recebida sem a costumada expansão. Anna Vaz estava

recostada ao espaldar do leito; e ao lado da cama a sua creada de quarto

enchugava as lagrimas.

--Que tens, filha?--perguntou Julia.

--Que hei de ter?... a minha sorte a cumprir...

A creada sahiu.

Anna pediu á sua amiga que fechasse a porta á chave, pegou-lhe das mãos

com vibração nervosa, e disse-lhe:

--Vou contar-te tudo... has-de ouvir-me tudo sem te magoares, sim?

--Tudo, filha...--balbuciou D. Julia traspassada por dolorosa suspeita.

--Olha que meu marido... ama-te.

--Jesus!--exclamou a noiva de Venceslau affectando naturalissimo

pavor.--Tu deliras, Anna!

--Não deliro, infelizmente não deliro... Eduardo ama-te... Queres saber

como eu descobri esta desgraça que nunca me resvalou pelo espirito,

apesar das palavras que me elle dizia de ti, e todas agora me lembram

para me atormentarem?... Olha... quando elle hoje ás quatro horas chegou

da repartição, perguntou-me se eu tinha sahido, porque me viu vestida

como fui a tua casa. Respondi-lhe que estivera comtigo e recebera a

inesperada nova do teu casamento com Venceslau. Não te posso pintar o

transtorno das suas feições! Fitou-me com os olhos espavoridos, e

perguntou-me em tom desabrido: «Que historia extravagante é essa?»--Isto

não é historia--disse-lhe eu--é a noticia que me deu Julia. Mas ficaste

assombrado! Estás pallido! Que tens? que te importa que Julia case ou

que não case?--«Não me importa nada...--respondeu elle, disfarçando

miseravelmente a agitação--não me importa... mas o espanto é, n'este

caso, bem natural!... Pois hontem ainda estive com o Taveira, e com

ella... e nada me disseram...» Continuamos a conversar sobre o assumpto,

sem elle poder dominar a ancia em que estava de se esconder aos meus

olhos... Chamaram para a meza...; e Eduardo n'esta occasião, muito

perturbado, tira o relogio, vê as horas, e diz: «não janto cá hoje...

Hei de estar infallivelmente ás quatro horas em casa do Sepulveda...

Desculpa-me... que não posso faltar.» E, quasi sem esperar que eu o

contrariasse, sahiu com os olhos desvairados como um ebrio... e não

voltou ainda. Aqui tens a minha enorme desventura... aqui me tens na

angustia que nunca podia prever a minha alma preparada para as maiores

provações... Até hoje, eras tu a minha consoladora... Que has de ser tu

para mim de hoje em diante?

--O que fui sempre...--disse Julia com firmeza. Se as tuas suspeitas são

verdadeiras, o desatino de teu marido ha de ser curado com a vergonha de

me ter querido vêr na plana d'algumas infames que elle terá conhecido.

--Pois sim; mas não serei eu a victima?

--Não, minha filha; se houver alguma victima, não o serás tu...

--Então quem?

--Elle...

--Como?... Não te comprehendo...

--Será a victima do seu opprobrio... Perderá a estima de todas as

pessoas de bem, e a tua...

--A minha? não! não que o amo...

Livro de Consolação: Romance · 第 9 / 14 段