--É vão o receio, minha querida senhora. A patria por em quanto janta, e

deixa jantar os seus filhos. Não se trata de lhe matar a fome; da

indigestão de lautos banquetes é que eu e outros mezinheiros a queremos

curar.

XIV

Cuida que as namora todas.

SA DE MIRANDA.--_Egloga._

Desde que o desembargador do paço Paulo Henrique Henriques de Miranda

fallecera, os candelabros e serpentinas nunca mais illuminaram as salas

luxuosamente estofadas com as alfaias dos Tavoras. A herdeira, porque

vivia magoada e era só, esquivou-se a receber as antigas relações de seu

pae, e até dos proprios parentes se desonerou, não pagando visitas além

das cerimoniosas. Poucas horas do dia demorava na sombria casa; e o

restante d'ellas e o mais da noute eram de Anna Vaz e do commendador que

ella considerava sua familia.

O capellão, padre instruido, que devia ordenação e bens de fortuna ao

desembargador Paulo, muito tempo lidou com D. Julia, instando-a a

casar-se, a fim de repôr aquella casa no esplendor antigo, aviventar as

salas desertas, dar vozes áquelles corredores funebres, e crear os

netos do illustre desembargador, cujos parentes lateraes elle desadorava

por immensamente brutos. «Se esta casa--dizia quasi iracundo o padre

Manoel Ferreira--resvalava aos grandes abysmos de ignorancia em que

jazem seus primos, receio bem, fidalga, que seu pae a maltratasse no

céo, embora V. Ex.ª lá subisse virgem, e, de mais a mais, martyr das

suas quimeras. Caze-se, minha senhora! caze-se!»

D. Julia galhofava com o capellão, e dizia-lhe:

--Não se afflija, padre Manoel, que eu hei de casar. Vá pensando no

noivo, que eu faço o mesmo. Que seja galante, gentil, poeta... ouviu?

--Poeta!--resmuneava o clerigo com reprovativo esgar.--V. Ex.ª não sabe

o que são poetas em Portugal? Aqui não ha Horacios nem Racines, nem

Virgilios nem Delillos, honrados pelas musas, e coevos dos grandes reis

na immortalidade. Cá, os poetas são os ebrios do café das Parras e do

Nicola do Rocio. É o ex-frade corruptissimo Macedo, era o virulento

Bocage, é o safadissimo histrião José Daniel, e quem mais? Poetas!...

Poeta era o snr. desembargador do paço, a quem o meu amigo Francisco

Manoel do Nascimento mandou lá do desterro odes puro horacianas em

resposta d'outras; pois saiba, excma. snr.ª, que seu pae, sendo poeta

que não invejava Garção, nunca admittiu ás suas salas esses poetastros,

que por ahi ornejam a trocar sonetos magros pelas sopas gordas d'uns

Mecenas dignos d'elles. Olhe-me o Tolentino... aquelle pedintão...

--Está bom, padre Manoel!--suspendia D. Julia--não me leccione a

historia dos poetas que detesta; mas escolha-me um que faça odes como

Horacio, e Georgicas como o seu Virgilio: ache-m'o que eu prometto

devorciar-me d'elle se me obrigar a ouvir-lhe os poemas.

O bom do padre, a rir e a tabaquear, citava alguns versos latinos, já

quando a fidalga ía longe do supplicio de ouvir-lh'os.

Isto veiu ao ponto de se dizer agora que o capellão se alegrou devéras

quando viu sentados á mesa grande--que estivera devoluta no lapso de

nove annos,--o commendador Vaz, sua filha, o genro, e, sobre todos lhe

dava prazer infinito, Venceslau Taveira, o moço em quem elle venerava

virtudes sem alardo e conhecimentos ponderosos da latinidade classica.

Ao primeiro convite seguiram-se outros para banquetes em que

reverberavam a baixela antiga, os cristaes da Saxonia, as louças

indiaticas, a opulencia dos Henriques de Miranda, herdadas d'um

celebrado avô, ministro e valido, que tão funesta e deshonestamente

privára com Affonso VI.

Venceslau Taveira, constrangido pela urbanidade, concorria ás festas da

sumptuosa dama.

Aos jantares lautos seguiram-se os bailes; onde a nobreza ostentava aos

olhos reflexivos do deputado a incuria desleixada do seu porvir, a

serodia soberba da stirpe,--o tronco secular corroido pela ignorancia,

com alguma folhagem nas vergonteas ressequidas pelo sol ardente dos

novos tempos.

Não contribuia Venceslau com a sua parte de contentamento para os

prazeres da liberal hospedeira. Se ella o buscava entre os que jogavam,

dançavam ou zumbiam amoriscados á volta das colmeias, não o via.

Perguntava a Eduardo se o seu amigo lhe teria sido levado de casa pela

mãe patria. Ia o marido de D. Anna em demanda do philosopho, e

encontrava-o na bibliotheca e mais o padre Manoel Ferreira folheando um

Tibullo de 1465, commentado por Vulpus, ou quejando estafermo embalado

no berço da arte typographica.

Reconduzido ás salas, Taveira esforçava-se por aquinhoar da alegria

contagiosa dos outros, e, á força de fingir-se alegre, simulava um

provinciano emparvecido na contemplação dos collos despeitorados, das

espaduas brancas como as faces destingidas de rubente pejo, dos minuetes

mais ridiculos que lascivos, da refinação assucarada dos colloquios, e

do ar, nem sempre fragrante de todas aquellas vaporações de flores

desbotadas e de epidermes escandecidas.

Mas a cortezia era inefficaz a violental-o. Assim que os olhos da

fidalga o desfitavam, elle ahi ia á sala onde alguns magistrados anciãos

satyrisavam os máos costumes da geração nova, não levando em conta que a

geração arguida era a dos seus filhos, educados por elles. Venceslau

tractava-os com veneração, cedia-lhes a vantagem nos debates politicos,

e captivava d'esta arte a estima dos mais testudos absolutistas.

Quem o seguia sempre com admiração e amisade era padre Manoel, para quem

o reboliço dos bailes já seria intoleravel, se Venceslau Taveira, de

vontade ou sem ella, os não frequentasse. E, ao mesmo tempo que este

affecto entranhado lhe deliciava as noites mal dormidas, uma paixão

inversa o inquietava. O capellão aborrecia Eduardo Pimenta, em tanto

extremo que o malsinava de ignorante, de vaidoso da sua profissão de

petimetre, de bonifrate sem proposito de marido, olhando para todas as

damas com tregeitos e galanices de piza-verdes, cacarejando uns dizeres

improprios de homem casado, e apenas perdoaveis aos que andam de amoríos

com quantas levianas fazem barato das suas finezas. Esta censura não era

elle homem que a calasse comsigo. Sempre que lhe cahia a talho,

desembuchava as azías do animo nos ouvidos de D. Julia, que lh'as ouvia

indulgente por saber que o padre derivava sempre a objurgatoria em

louvor de Venceslau Taveira.

A opinião do clerigo era n'alguns pontos injusta. O genro do

commendador, se não ia á bibliotheca pasmar-se nas edições

quinhentistas, e antes se queria nas salas a extasiar-se na nitidez dos

typos do seculo XIX--era iniquidade acoimal-o de ignorante. Estylo,

fórma, geito dramatico, attitudes ao romantico, verbo e nervo como á

moderna se diz, isso tinha elle, como raros do seu tempo. E a menos

valiosa d'estas qualidades bastaria, nas salas, a sobrepujal-o ao seu

amigo Venceslau, o misantropo, que entre as Thais e as Dydimas de Lisboa

era importuno decerto com as suas, ainda bem que silenciosas,

austeridades de Timão atheniense. Que o chefe do commissariado andasse

galanteando as damas dos bailes de D. Julia é menos verdadeiro. O

capellão, a tal respeito, sabia menos que a dona da casa. Se alguem

podia queixar-se era ella.

Mas não se queixava.

O silencio, nas mulheres dignas, quando a impertinencia da paixão

immoral as ultraja, é virtude superior. As que medem a grandeza dos

dissabores que resultam de repudiarem á vista de testemunhas as finezas

d'um homem desvairado, mantêm-se honradamente affectando que o não

percebem em publico, e defendendo-se em particular com o desprezo.

Pouco mais ou menos era assim que D. Julia de Miranda procedia com

Eduardo Pimenta.

Devia de ser, todavia, descommunal o sentimento que esporeára o marido

da formosa Anna, tres mezes depois de casado, a entremetter nas paginas

de um livro, que Julia andava lendo, uma carta phraseada a sabor de

lagrimas, as mais commoventes que podem sahir de peito ferido pelo

primeiro amor!

O immediato pensamento que assaltou Julia foi retirar-se a uma das suas

quintas no Alto Minho; mas semelhante fuga, sem causa justificativa na

sociedade que a cortejava, pareceu-lhe covardia, ao mesmo tempo que o

temerario galan teria motivo a lisongear-se do expediente, reputando-o

vacillação.

Não fugiu. Fechou a carta, lacrou-a, enviou-a á repartição em que

Eduardo era certo em determinadas horas. Elle abriu, releu-a de

espaço, e quando chegou ao fim, encontrou duas linhas de pulso estranho

que rezavam assim: _Não lerei outra; mas, se ella vier, pedirei á minha

amiga D. Anna Pimenta que m'a leia_.

Ao outro dia a fidalga foi jantar com o commendador: ia alegre,

contentissima de seu nobre feito. Máo agouro! Mulher que, em lances

analogos, crê praticar um heroismo, e d'isso se compraz em sua

consciencia, ha de faltar-lhe o folego para subir muitos degráos na

escada da virtude.

Eduardo assistiu melancolico ao jantar, e respondeu friamente ás

caricias da esposa. O commendador olhava-o de esconso, e fitava olhos

piedosos na filha assustada. Julia fingia-se despreoccupada; e, a seu

pezar, mais que nunca, n'aquelle dia, se recolheu n'uma concentração

desacostumada.

A noite d'este dia passou vagarosa e triste. Não obstante, as

assembleias aos domingos continuaram no palacio das Amoreiras.

Eduardo Pimenta, desatinado ou precavido, fez praça de namorado a varias

senhoras, que lhe não estremaram os galanteios das attenções e

obsequiosas lisonjas, como era de esperar d'um cavalheiro amestrado na

polidez estrangeira. Á excepção de uma ou duas, ou talvez tres, menos

conscias da cortezia parisiense, e portanto portuguezas da lei antiga

n'isto de amar quem as amava, as restantes senhoras, se deram suspeitas

a padre Manoel Ferreira, sahiram impollutas. D. Anna, porém, affligia-se

secretamente dos modos cortezãos do marido, porque não via tão

azougados os moços solteiros á volta das mulheres e reparava nos

sorrisos que ellas entre si trocavam, ao passo que a olhavam de travez

lastimando-a ou escarnecendo-a.

Neste desatino do homem preponderava o estulto despique do amor

despeitado. Beliscar a vaidade de Julia, melindrar-lhe o amor proprio,

irrital-a, dar-lhe a certeza de que outras mulheres mais viçosas e não

menos fidalgas o não desdenhavam: tal era a manha trivial do sugeito.

Julia, por sua parte, dissimulava o azedume que lhe fazia aquelle vil

artificio em sua propria casa, e dizia muitas vezes á sua consciencia

que todo o seu despeito era isso, e de modo nenhum o orgulho de ser

comparada. Como quer que fosse, e por mais protestos que fizesse de si

para comsigo, é certo que ella, relampagueando olhares severos a uma ou

outra condessa, que reclinava a face languida ao hombro de Eduardo,

segredava á sua amiga a baixa conta em que tinha a moralidade das suas

parentas. Depois, repêza da inconsiderada confidencia, affligia-se,

desmentia-se, pedia á esposa de Eduardo que não desse valor aos sustos

proprios da amisade; e occultasse do marido as suspeitas que lhe ella

infundia por excesso de zelo, e receio de dissabores domesticos.

Que desconchavadas incongruencias!

Estas torvações de entendimento precedem a cegueira da alma, á

semelhança d'aquelles pontos escuros que se enredam e prenunciam a

cegueira dos olhos. A medicina chama a estes prodromos da amorose

«moscas»: a linguagem do povo diz que as nevoas da vista da alma,

em crise de cegar, são «peneiras».

D. Julia de Miranda, um dia, desceu a luz da razão aos arcanos da sua

alma. Córou de si; retranziu-se de pejo; porque vira passar diante da

dignidade abatida, a imagem soberba de Eduardo, e não podéra odial-o.

Desde esta hora, a amiga de Anna Vaz meditou na salvação da sua honra já

denegrida. D'esta vez o alvitre da fuga cedeu o passo a outro mais

sereno e estavel. Pensou em casar-se, pensou em amar, em transferir o

seu coração a peito alheio que lh'o defendesse das injurias d'uma paixão

ignominiosa. Louvavel deliberação!

Padre Manoel Ferreira viu a fidalga melancolicamente reconcentrada, e,

com instancias repetidas, arrancou-lhe estas palavras que ella exclamava

pela terceira vez:

--Se eu podesse amar um homem!

XV

Flor la vimos primero, hermosa y pura,

Luego....

FRANCISCO DE RIOJA.--_Epist. moral._

--O homem que V. Ex.ª ha de amar--disse padre Manoel, inculcando-se

inspirado de cima, e accentuando de pausas solemnes as syllabas da

prophecia--o homem que V. Ex.ª ha de amar é o mais digno de ser amado:

chama-se Venceslau Taveira.

Era a segunda vez que D. Julia ouvira e adivinhára tal presagio; uma,

quando os labios de Anna se entreabriram ao interno ephta de illuminada;

outra, quando o padre, carregando os dedos de rapé, e silvando

chromaticamente a pitada, espiritava no cerebro a previdencia dos

matrimonios acertados. E como a fidalga o escutasse silenciosa, sem

levantar olhos do recosto da cadeira, onde apoiava o cotovêllo, o

capellão proseguiu:

--Minha senhora, vou dar-lhe conta da missão de que V. Ex.ª me não

encarregou...

--Que missão!?--perguntou ella, erguendo o rosto.

--Circumvagando eu os olhos por quantos cavalheiros, ha tres mezes,

frequentam esta casa--respondeu o padre compassando as vozes--e,

procurando, entre tantos, um que merecesse ser o esposo da filha do snr.

desembargador Paulo Henrique, encontrei-o. E porisso que ás perecedouras

riquezas da fortuna cega não quiz Deus ajuntar sempre as riquezas

immortaes da virtude, acontece que o homem mais digno de V. Ex.ª, seja o

mais pobre que vem a esta casa.

--Bem...--atalhou D. Julia--; mas deixe-me interrompel-o com uma

observação que devia anteceder o seu cuidado de me procurar marido. O

snr. padre Manoel não devia escolher entre as pessoas que vem a minha

casa; mas sim entre as pessoas que me tivessem dado signaes do seu amor.

Venceslau Taveira é homem de quem nunca ouvi palavra mais affectuosa do

que é costume dizer-se ás pessoas que se respeitam ou simplesmente se

estimam. O snr. padre Manoel sabe que elle, n'esta casa, o que mais

conhece é a livraria; e em quanto á volta de mim ou do meu patrimonio se

dispendem as lisonjas, está o sabio a lêr os amores dos poetas latinos.

Estou convencida ha muito da honradez de Venceslau. Estou até em crêr

que a sua indifferença não seja orgulho do talento. Convenho na

distincção que o snr. padre Manoel lhe dá; mas não são essas qualidades

as que promettem um bom marido. A mulher, que se casa, aprecia a

sciencia e a virtude do esposo; mas, além de tudo isso, deseja ser

amada. Quem lhe disse que Venceslau me ama? foi elle?

--Não, minha senhora.

--Ora ahi está!... Que quer então, padre Manoel? Que eu vá pedir-lhe o

obsequio de me conceder o seu amor?

--Eu ainda não disse a V. Ex.ª a minha missão--replicou o padre.--Se dá

licença...

--Diga então.

--Ha muitos dias que eu andava sondando o espirito de Venceslau a

respeito de V. Ex.ª

--O espirito ou o coração?

--Deixemo-nos d'essas distincções romanescas, minha senhora! O coração é

um orgão do apparelho do sangue. O espirito ou alma é o motor das nossas

cogitações. Não estou fallando poetica nem rhetoricamente. Se eu

quizesse dizer que procurava aneurismas ou outras irregularidades de

circulação, diria que sondei o coração de Venceslau; mas, se o meu

intuito era indagar actos puramente moraes, digo que lhe sondei o espirito.

--Está bom: fico sciente. Ora conte lá o que sondou.

--Sondei que elle sentia por V. Ex.ª profunda estima, e aquelle grande

respeito que se deve a uma dama bella, nova, rica, e sobre tudo

honradora da memoria do primeiro e unico homem que amou. Dizendo-lhe eu

que não cessava de instar com V. Ex.ª para que tomasse estado,

advertiu-me elle que seria difficil o meu desejo, porque a fidalga não

poderia amar alguem, depois de ter amado Antonio Vaz, que Deus tem.

Tornei eu, redarguindo-lhe que Antonio Vaz, ao sahir d'este mundo,

lhe entregára o retrato da sua adorada noiva, por ser elle--o confidente

de tantas angustias e saudades--alma digna de receber as lagrimas do

amigo que morria, e as de V. Ex.ª que o ficava carpindo. Logo, conclui

eu, se ha homem digno de ser amado pela snr.ª D. Julia, minha senhora, é

aquelle que Antonio Vaz julgou digno das suas confidencias e da mensagem

do moribundo para a sua amada.

--Que disse elle?...--interrompeu a curiosa vivacidade da senhora.

--Disse que V. Ex.ª o honrava com a sua amisade, e que este sentimento

era o maximo galardão que elle devia esperar da fraternal cordialidade

com que aliviára algumas mágoas de Antonio Vaz.

--Isso é amor?

--Queira V. Ex.ª esperar... Passados alguns dias, chamei a pratica ao

mesmo assumpto; e, quando elle menos esperava, perguntei-lhe

_ex-abrupto_: «Se a snr.ª D. Julia escolhesse para esposo o snr.

Venceslau Taveira?» Elle poz-me os olhos espantados, e tartamudeou esta

resposta: «O snr. padre Manoel Ferreira tem illusões proprias de quem as

não gastou em desenganos.»--Que quer isso dizer?--voltei eu bastante

esperançado n'uma resposta que me servisse de itenerario n'esta

peregrinação até ao arco do altar.--«Quer dizer (respondeu o

modestissimo moço) que a snr.ª D. Julia de Miranda tem quinhentos mil

cruzados; tem provavelmente adoradores que façam consistir toda a sua

actividade em adoral-a; tem a alma preza á saudade de outra que

alguma vez a visita e enlucta em meio das pompas dos seus bailes. Um

homem pobre--continuou elle--circumscripto aos deveres que contrahiu com

a patria, sujeito a perseguições d'odios politicos, ameaçado com o

desterro, e até com a morte no campo da batalha ou no patibulo, tal

homem seria o involuntario algoz da felicidade d'uma senhora que o

acceitasse para os gosos da vida intima, cercada por tantos perigos.»

Dito isto, Venceslau foi procurado por ordem de V. Ex.ª, que o mandava

chamar á sala, para o apresentar a seu tio o snr. conde de Villa-Cova.

Eu segui-o, e espionei-lhe os olhos n'aquella noite. E que vi eu com

interior satisfação, minha senhora? que elle andava por entre os

reposteiros a contemplar V. Ex.ª, e que, ás vezes, se se affastava para

a sala dos retratos, era para estar só, mergulhado em funda meditação.

Eis-aqui, excma. snr.ª, o que ha passado. Digne-se agora dizer-me se eu

tenho precisão de lh'o ouvir confessar, para saber que elle a ama?!

--Precisa--respondeu ella prompta e serenamente.

--Preciso? Perguntar-lh'o-hei.

--Não pergunte. O padre Manoel tracta isto de casamentos pelo systema

antigo da Biblia. O patriarcha mandava recado á matriarcha; e, quadrando

a resposta, casavam.

--O povo de Deus era assim.

--Concordo; mas a gente, de hoje em dia, não...

--Não é de Deus?--atalhou o padre.

--Estou que é; mas Deus é que não manda o seu divino espirito

presidir aos casamentos da freguezia dos Martyres ou de Santa Justa.

--Ah! não se me faça espirito-forte, fidalga!--exclamou sombriamente o

padre.--Aquelles livros de seu pae... aquelles livros de Rousseau... a

Encyclopedia... _etc., etc!_... Olhe que Venceslau, posto que

sapientissimo e sectario da liberdade, e lido em tudo que o seculo XVIII

escreveu contra Deus, entra nos templos, ajoelha, ora, e crê que a alma

de sua mãe lhe radía de sua luz celestial nas escuras veredas da vida!...

--E eu então sou atheista? Não creio em Deus, porque entendo que não é

bonito ir o meu capellão perguntar a um sugeito se elle me ama? Ah

padre, padre! a sua intelligencia tem ás vezes uns eclipses que nem por

isso o tornam comparavel ao sol...--disse ella rindo com o consenso do

clerigo que tambem escancarou as mandibulas em sincera gargalhada.

E, no tocante a casamento nada mais tractaram, porque D. Anna Pimenta

vinha desde a sala de espera chamando Julia acceleradamente.

--Que é, filha!!--exclamou a amiga, indo recebêl-a nos braços.

--Manda embora o capellão--disse-lhe ella ao ouvido.

O padre retirou-se antes de avisado, porque viu grande afflicção no

rosto de D. Anna.

A esposa de Eduardo, trémula, offegante, e incendida de febril

anciedade, disse entre soluços:

--Olha que venho afflictissima... Deixa-me respirar... Depois que

Eduardo sahiu, fui á escrivaninha d'elle, e achei, pela primeira vez,

uma gaveta fechada. Como ando muito suspeitosa de que elle corteja a tua

prima Nazareth, desconfiei que n'aquella gaveta devia estar alguma carta

d'ella...

D. Julia empallideceu. Arfava-lhe o coração, com o terror de ter sido

encontrada a carta que ella devolvera, com duas linhas de sua lettra; e,

posto que a justificação lhe sahisse facil e digna, a sua posição em tal

conflicto era má.

D. Anna desattenta ao gesto denunciativo da amiga, proseguiu:

--Procurei uma chave que servisse, e achei-a. Abri a tremer a gaveta, e

vi estas tres folhas de papel, dobradas em carta, mas sem sobrescripto.

Li-as, e fiquei certa de que Eduardo está ardentemente apaixonado por

uma mulher quem quer que seja... Lê tu, vê se podes adivinhar a quem

essa carta é escripta; mas lê depressa, que eu quero ir repôl-a na

gaveta antes que Eduardo venha da repartição.

Julia, com tremente voz, leu a carta. Logo no primeiro periodo se lhe

acclarou o destino, por estas palavras: _Se V. Ex.ª cumprir a ameaça que

me escreve--se me denunciar, fará duas victimas. Mata uma innocente, e

ordena ao criminoso que se suicide: será obedecida._

--Que quererá isso dizer?!--perguntou Anna.--Quem será essa innocente e

esse criminoso?... E que ameaça lhe faria a tal mulher?... Podes

decifrar isso?

--Eu não, filha... Que mysterio!...--balbuciou Julia. E continuou

lendo, e relançando a furto os olhos em toda a extensão da lauda,

buscando perturbada alguma inicial que a denunciasse.

O conteudo da longa carta era vago, declamatorio, tiradas funebres de

prosa campanuda com muito lardo poetico de céos, infernos, furias, anjos

precitos, archanjos da morte, calices de fel, esponjas de vinagre,

golgothas, estrangulação de suicida, almas devastadas, arestas

d'abysmos, e o mais que cabe nas cavernas lôbregas d'um peito romantico,

onde uma vez entraram as novellas de Anna Radcliffe.

Lida a carta, Julia suspirou desafogadamente o seu sobresalto, e disse

enternecida:

--E tu que fazes agora, filha?

--Que hei de eu fazer?! nada...

--Então vaes fechar a carta onde a encontraste?

--Vou...

--E não dizes nada a teu marido?

--Acho que não... porque, se lh'o digo, ha desordem grande em casa, e

meu pobre pae morre de paixão. Tu não vês como elle já está soffrendo só

de me vêr triste, e de o vêr a elle tão descuidado de nós?...

--Nem a teu pae dizes nada?...

--Deus me livre!... Se elle via esta carta, estalava de dôr...

--Tu és uma sancta!--exclamou D. Julia, abraçando-a arrebatadamente.

--O que eu sou é uma grande desgraçada!--emendou Anna.--Que me dizes

então, Lulu?

--Que queres que te diga, se o teu plano está feito? Quem a si mesma se

aconselha com tanta dignidade, não tem necessidade de conselho.

--O que eu queria era que tu descobrisses quem é a mulher; e, se ella

fosse tua relação, a expulsasses d'esta casa, ou me não convidasses

a mim...

--Dizes-me isso tão desabridamente, filha! _Não te convidar a ti!..._

--Digo-t'o com amargura, mas sem desabrimento, minha amiga. Que gosto

posso eu ter em vir a uma casa onde sei que ha uma mulher que me

escarnece...

--Bem vês, menina, que a mulher a quem esta carta foi escripta não póde

escarnecer-te... Não vês que ella despreza teu marido!

--Sim? despreza?

--Pois que diz essa carta? É um desesperado queixume contra a mulher que

o repelliu. Tomáras tu, meu amor, que todas assim procedessem, quando

elle as requestar...

--Tens razão, Julia! tens razão! Olha que eu nem tive socego de espirito

para entender a carta... Olha, vou mais contente... Póde ser que elle a

esqueça... Mas esta carta assim apaixonada, se ella vem a recebel-a,

talvez que...

--O ame?

--Sim...

--Não, filha, não receies. A mulher de coração ama sem este mixtiforio

de maravalhas, e a mulher de intelligencia zomba d'estes estrondos de

palavras. Sabes tu outra coisa? Teu marido leu maus romances, e

principia a escrevel-os peores. Deixa-o sangrar a veia do genio que não

vá morrer apopletico. Não faças caso d'isso... Ai! já me esquecia!...

Não te vás sem uma novidade...

--Que é?

--Vou casar-me.

--Sim? com...

--Com o teu vaticinado. Adivinhaste.

--Venceslau?

--Sim.

--Não t'o disse eu?!... Mas ainda hontem estiveste comigo á noite, e

nada me disseste!

--Resolução tomada hoje.

--Veiu cá elle?

Livro de Consolação: Romance · 第 8 / 14 段