--Tive noticia de que o snr. Pimenta préza minha filha. É sua intenção

esposal-a?

--Eu não podia ter outra intenção.

--Costumam alguns paes extremosos pedir aos noivos de suas filhas

que sejam bons, meigos e carinhosos para ellas. O amor santo dos pobres

velhos desculpa-os d'este pedido banal. É respeitavel a supplica, porque

Deus sabe como se cerra e estorce o coração do pae que separa de si ao

fim de dezeseis annos a creança, que se fez mulher, e todavia lhe falla

ainda na alma com a mesma ternura dos vagidos da infancia. Um pae vê sua

filha senhora, e cuida sempre que ella lhe está sorrindo no berço. Não

lhe pedirei, pois, snr. Pimenta, que ame sua esposa, porque eu a

estremeço e adoro. Peço-lhe só que m'a receba como excellente creatura

que ella é. Outra coisa que muito desejo me não esqueça. Queixei-me

austeramente ao snr. Venceslau das intelligencias affectuosas que V. S.ª

contrahiu com minha filha. Não m'o leve a mal. Um pae treme de susto e

ira quando de repente sabe que lhe tentam usurpar as alegrias unicas da

sua vida: é como o avarento a quem ameaçam espolial-o do cofre onde tem

o sangue e a alma. Queixei-me; depois, abri os olhos, vi o mundo como

elle foi sempre, vi minha filha como todas as filhas, e vi no snr.

Pimenta um homem como eu fui, como são todos. Resignei-me. Algum

sedimento de despeito e intolerancia sahiu nas lagrimas. Estou preparado

para a renunciação, para a soledade, e para um fim de velhice mais

triste do que eu imaginara entre a minha Anna e o retrato de sua mãe.

Não sei qual é a tenção de V. S.ª depois de casado. Ella disse-me que

não se apartava de mim; porém...

--Em quanto o snr. commendador quizer acceitar a estimação sincera do

marido de sua filha, eu não pensarei jámais em sahir de sua companhia.

--Agradeço!--disse o velho, estendendo-lhe a mão com vehemente

transporte; e proseguiu, feita breve pausa:--O homem, que se casa, deve

avançar vinte annos a dentro do futuro e prefigurar-se ahi pae de

familias, rodeado de canceiras, cuidadoso e perplexo com o porvir de

seus filhos. O amor opera prodigios de desinteresse, mas não faz que os

bens da fortuna surjam miraculosamente. Parece-me util que V. S.ª saiba

qual é o patrimonio de minha filha. Tenho uma commenda que me rende dois

mil cruzados, e duas quintas que me dão outro tanto rendimento. Esta

mediania tem bastado á modestia do nosso tracto. Não frequento bailes ha

muitos annos, porque não posso retribuil-os. Alheei-me da sociedade

faustuosa dos meus parentes, porque minha filha apenas poderia occupar

dignamente o posto que lhe dá o seu nascimento; mas decerto, a

equipar-se das pompas que as damas de hoje estadeam nas salas, o seu

dote ser-lhe-hia muito desfalcado, e, no andar dos annos, muito custoso

lhe havia de ser trajar vestidos de chita, quem os desperdiçára de sêda.

Além de que, fartas vezes tenho previsto que os dois mil cruzados da

commenda correm perigo de ser absorvidos pela liberdade, inimiga de tudo

que é antigo, sem catar dos direitos que, sendo justos, não deviam

postergar-se. Espero, porém, que os sacerdotes da liberdade, se todos

forem da condição do snr. Taveira, curem primeiro de desentranhar

as riquezas do paiz, antes de arrebanharem as migalhas herdadas dos

antigos conquistadores da Asia e Africa.

Venceslau correspondeu com um aceno de complacencia ao sorriso do

commendador, que proseguiu:

--Na hypothese, portanto, de que tenho pouco e menos poderei ter d'um

momento para outro, não receio melindrar o snr. Pimenta,

aconselhando-lhe, já como amigo e já como pae de sua esposa, que procure

empregar-se, como tantos emigrados que o não egualam em meritos de

serviços e intelligencia. Se lhe não quadra a vida militar, que

renunciou, ha encargos civis honrados e lucrativos. Na sua edade e com

tanta capacidade, a vida ociosa deve dar-lhe tédios, fadigas sem

actividade que as explique, dissabores e quebrantos que volvem

aborrecida a monotonia do viver cazeiro. Eu, em quanto o vigor me

ajudou, fui agricultor; depois fiz-me o mestre de meus filhos; e li

quanto achei e pude entender para acreditar que Cicero, escrevendo

louvores da velhice, não sophismava o desanimo frio e inerte d'este

inverno sem sol, em que a luz dos olhos de minha filha me dava mais

calor que as ardentes apologias do orador romano. Basta. É tarde, meus

amigos. São horas de repouso. O snr. Pimenta recebe ámanhã a certidão de

edade de sua noiva para os reclames. Boas noites. Minha filha não vem á

sala, porque está recolhida.

--Que bello caracter de homem!--dizia Eduardo, intimamente compenetrado

da honrada simpleza do commendador.--Parecia um pae dos tempos

patriarchaes! Começo a sentir doçuras imprevistas n'este enlace! Adquiro

uma esposa adoravel, e um pae venerando! Achei o santo aconchêgo da

familia que nunca tive!... Não vou ser rico; mas quantos centenares de

contos daria Cressus pelas delicias domesticas no seio de tal

familia?... Mas tambem não vou ser pobre...

--Decerto, não--assentiu Venceslau, reparando na subitanea passagem das

tradições patriarchaes á vulgaridade moderna da riqueza.--Quanto tens de

teu?

--Quatorze mil cruzados, pouco mais ou menos.

--Ouço dizer que os empregos se compram. Emprega o teu capital n'essa

veniaga, ou augmenta os rendimentos do casal comprando predios rusticos.

Podes viver desafogadamente com cinco ou seis mil cruzados annuaes, se

continuares a parcimónia e resguardo de teu sogro. Tens a felicidade de

casar com senhora não acostumada a bailes nem ás fatuidades do toucador.

Só isso de per si vale um dote dos mais cubiçaveis.

--Dizes bem; mas--objectou Eduardo--bem sabes que eu não posso

conformar-me aos habitos de meu sôgro, nem quero que minha mulher passe

as noutes todas a ouvir discutir o tio conego com o capellão de Julia.

Uma vez por outra, hei de leval-a ao baile, ao theatro, ao passeio, á

convivencia das damas da sua parentella. Isto não desbarata os bens,

acho eu; ao mesmo passo que aligeira os cuidados da lida domestica, e

reveza umas sensações por outras, tomando-as todas apraziveis. Não te

parece?

--Sim... parece-me que a indole constrangida é o germen de grandes

desgostos. O commendador não levará a mal que sua filha gose os prazeres

que não conhece; mas, se tu visses que ella é ditosa desconhecendo-os,

serias bom e discreto deixando-a na feliz ignorancia d'esses vistosos

fructos das cidades arrasadas da Palestina, as quaes tinham cinzas

envoltas em formosa casca...

--Ahi estás tu encarecendo perigos!--tornou Eduardo, adocicando a

facecia.--O noviciado em Tibães deixou-te uns longes de frade em missão.

Se te não desfradas, destampavas em Jeremias, e a esta hora alta da

noute havia de ser lugubre ouvir-te por aqui a declamar: «Converte-te,

Lisboa! Fazei penitencia, peraltas!»--E, voltando ao tom serio,

ajuntou:--Eu, a dizer-te verdade, tenho precisão de ar, de sol, dos

esmaltes da existencia, das coisas sublimes que Deus poz como matizes de

oiro sobre o negro pano da vida. Caso-me para unir á minha uma alma, que

me duplique o sentimento do bello. Dois corações identificados devem

receber em dobro a sensação das alegrias honestas. Bem sabes que escura

mocidade tive. Dôres sobre dôres. O horisonte fechado por um tumulo. A

repulsão da familia e da patria. A perseguição dos poderosos. A pobreza

no desterro. Beneficios de Deus recebi só um: a tua amisade, a mão que

me desviava do seio o punhal suicida. Quem assim viveu até aos trinta

annos tem direito a sahir d'este lethargo, e a commungar dos prazeres

que não desdouram nem arruinam. Não é assim?

--É.

--Dizes _é_ por condescendencia?

--Digo.

--Mas não digas; discute.

--Boa hora para discutir, aqui, na rua dos Fanqueiros, se os prazeres

desdouram e arruinam! Isso é questão philosophica de grande folego, meu

amigo. Eu, por mim, em philosophia moral, conheço uma só palavra, que é

o lemma d'uma eschola: _Abstem-te e soffre_.

--Isso não é philosophia: é uma questão de temperamento...

--E de temperatura cá para mim... Está muito frio... Adeus, até ámanhã.

Venceslau entrou na modestissima sobre-loja onde morava na calçada do

Caldas; e Eduardo, recolhido aos confortos do seu gabinete no

hotel-francez da rua de S. Paulo, sentou-se á banca da escrivaninha, e

escreveu vinte e sete vezes a palavra _Julia_, inflorando as hastes do

_J_ e do _l_ com recortes de muito ingenho. Durante esta obra-prima de

caligraphia, o seu espirito desenhava na tela que lhe offerecia o

demonio de Fausto, uns hediondos esboços de romance, que elle não tirou

a limpo, e eu, por desventura minha, hei de restaurar no pano delido por

lagrimas.

Depois, deitou-se no colchão de pennas, e adormeceu como raras vezes

dormem os justos.

E ao mesmo tempo, quando a aurora já repontava do seu leito de neblinas

frigidissimas, Venceslau concluia o seu artigo do _Astro_, friccionára

as mãos gelidas, deitava-se no enxergão ingrato ao longo repouso, e

não podia conciliar o somno com a febre cerebral do longo trabalho.

Ah! os justos dormem bem quando... não tem que fazer.

XIII

Sempre bom, sempre douto, sempre amigo

Da honra e da virtude.

FILINTO ELYSIO.--_Ode._

«Se eu podesse amar um homem!»--verbo de recondito mysterio que passou

nos labios de Julia, por entre umas crispações, que tanto podiam ser

nervosas como sanguineas.

Estas mesmas palavras repetiu ella á sua amiga D. Anna Vaz, um mez

depois de celebrado o casamento.

Vieram ellas de molde no seguinte dialogo:

--Diz o meu Eduardo que tu não amaste nunca meu mano Antonio.

--Ora essa! O teu Eduardo não tem senso commum! Em que funda elle essa

calumnia?

--Diz que tem estudado o teu genio; que te não acha nos olhos, nem nas

palavras a doçura e tom de mulher,--a meiguice que elle chama

feminilidade. Disse mais que tens uns ares varonís, e umas

attitudes fortes, inflexiveis e refractarias á ternura.

Julia soltou uma cascalhada de riso, exclamando entre froixos de tosse:

--Teu marido é admiravel! Não tem graça, mas faz-me rir! Com que então

tenho ares varonís! Espera talvez que eu, se os francezes voltarem a

Portugal, vista a armadura da donzella de Orleans para salvar a patria!

Desconfia provavelmente que eu trago na algibeira do vestido a faca de

Carlota Corday! Ai, filha, dize-lhe que não! Assevera-lhe que eu dou um

grito pavoroso quando vejo uma carocha...--Continuou a casquinar e a

dizer:--Estas más qualidades do sexo forte em que m'as viu elle? Nos

olhos sem doçura, e nas palavras... sem quê? Não te lembras?... Ah! sem

tom de mulher. Olha que injustiça, ó Annica! O timbre da minha voz é

feio de fino que é; e os meus olhos, na opinião da gente que me faz

favor de olhar para mim, são tristes e ternos. Não sei quem foi que me

chamou antilopa de olhos scismadores... Ainda hontem ao Venceslau

Taveira ouvi que nos meus olhos brilhava uma congelação de lagrimas. Vê

tu, meu amor, que opiniões tão oppostas!

--Ai! a proposito... Sabes o que Eduardo me disse, Lulu?

--Que o Taveira me fazia a côrte?

--Isso... como adivinhas tu, feiticeira?--perguntou D. Anna maravilhada.

--Como adivinho eu!... Isto não é feitiçaria, é raciocinio. Elle

que diz que eu não posso amar, é porque sabe que os meus pretendentes

indefiridos são muitos. Ora, sendo Taveira o unico sugeito com quem

fallo na presença de teu marido, este ha de ser por força o meu

namorador rejeitado...

--Mas elle ama-te decerto?--contraveiu D. Anna Pimenta.

--Ó menina, a pergunta é seria?

--É, Lulu... Quem me déra vêr-te casada e tão feliz como eu sou!...

--És realmente feliz?...

--Porque duvídas?!

--Isto não é duvidar, minha filha... é o vivo jubilo que sinto quando me

repetes todos os dias que o teu Eduardo é o ente digno de ti. Queres tu

saber? Teu pae estava hontem triste e só na sala, quando eu entrei:

Perguntei-lhe que tinha... e elle...

--Ah! eu te digo... O Eduardo lembrou-se de dar um baile para festejar

os meus annos. O papá observou-lhe que os annos de uma pessoa querida

festejavam-se em familia, e que o prazer de festas vaidosas e

estrondosas era cerceado pela canceira de quem dava bailes em que os

divertidos eram os de fóra. Eduardo ficou descontente; mas não

respondeu. O que elle particularmente me disse não o soube o pae.

--Que foi?...

--Desculpa-me, Lulu... não t'o digo... prometti segredo...

--Desculpa-me tu a curiosidade, minha querida amiga. Foi uma

inadvertencia que a tua amisade me releva... Mas então não me illudi...

A tristeza do teu papá tinha relação comtigo; e por isso insisti em

perguntar se...

--Mas--atalhou a filha do commendador--ias contar-me a respeito do

Venceslau...

--Ah! sim... O Venceslau é um rapaz que merece ser admirado. É serio e

melancolico. Tem certa graça contrafeita no rir, quando se alegra por

condescender. Em outro homem, cuidaria eu que a sua grave compostura e

madureza intempestiva é artificio. N'elle, não. Eu sei o que é... A sua

paixão é a politica; os seus namoros são os livros; a sua noiva é a

Liberdade; e o seu céo ou inferno é a gloria. Homens assim não amam

mulheres feminís nem mulheres varonís; podes dizer isto ao teu Eduardo.

Dize-lhe mais que eu não repellí a declaração do Taveira. Ainda lhe não

ouvi palavra que me assuste nem lisongeie...

--Mas se elle te dissesse que te amava?...--inquiriu com malicioso

tregeito D. Anna.--Que fazias?

--Eu sei!... Forte aperto!--respondeu ridentissima D. Julia, a

deplorativa Arthemisa do defuncto emigrado.

--Ah!... entrei-te no coração, Lulu!... Cuidas que me enganas?

--Enganar-te!... Quando te menti eu, filha? Perguntaste-me se me elle

amava, disse-te que não. Perguntas-me se eu o amaria... Olha, minha

amiga... se eu podésse amar um homem...

--Ainda agora te ouvi dizer que se elle declarasse que te amava...

--Que mais ouviste?

--As reticencias... o embaraço... aquelle _eu sei_!

--Sim, eu sei! Provavelmente ouvia-o com senhoril delicadeza, pedia-lhe

que me deixasse pensar, e depois...

--Que dizias depois?

--Se eu ainda não pensei para responder a elle, como hei de responder a

ti! Que indagadora! Se não fechassem a inquisição no anno passado, e

fosses varoníl como eu, vestias a tunica dos dominicos, e ias interrogar

judeus e feiticeiros!

--Vou fazer-te uma prophecia--disse solemnisando o gesto de sibylla a

esposa de Eduardo.

--Vá, sóbe á cadeira, já que não temos tripode, e prophetisa de lá, na

certeza de que és oraculo por tal modo transparente que eu já sei o que

vaes vaticinar.

--Casarás com Venceslau Taveira!--exclamou D. Anna, alongando o braço em

postura esculptural.

--Era isso mesmo. Desce o braço, propheta! podes apagar a chamma divina

que te alumia o futuro, e convida-me para jantar comtigo, visto que o

teu homem foi jantar com o general Sepulveda, e podemos parolar toda a

tarde... Olha, não gósto d'estas deserções que faz teu marido a jantares

alheios. Casado ha um mez, e jantar fóra...

--Que tem isso?

--Eu não no consentia a meu marido.

--Pois sim... eu tambem não gósto; mas o papá deseja que elle se

empregue, e o general Sepulveda prometteu-lhe não sei quê no

commissariado. Diz o Eduardo que é preciso fazer a côrte ao general. Ora

agora, tu, que tens quinhentos mil cruzados, se casasses, não consentias

que teu marido fizesse a côrte aos que dispõem dos empregos. Olha, casa

com o Taveira, e verás que elle janta sempre em casa...

--O Taveira? olha quem!... O Taveira jantaria comigo, se a santa

Liberdade o não convidasse a comer o caldo negro dos spartanos. A

politica é uma amante que supplanta as esposas. Em quanto houvesse leis

que fazer e costaneiras que rabiscar para vestir a Liberdade, com trapos

reduzidos a papel sujo, meu marido apenas me daria a honra de me lêr os

seus artigos e discursos. Venceslau ha de ser um bom esposo, se a

Liberdade morrer; mas depois tambem a mulher, que o acceitasse viuvo de

tamanha deusa, corria o perigo de o ir procurar aos sertões da America,

onde ha tanta liberdade, sem constituição nem hymno, que toda a gente

faz o que quer e traja o mais livremente que é possivel.

N'este estylo, que denota frescura, desafogo e irrisão, proseguiu D.

Julia de Miranda até á chegada do commendador. A pratica, durante o

jantar, correu á conta do soberbo discurso que Venceslau proferira

n'aquelle dia, captando o assombro das galerias, e consolidando a

reputação de primeiro orador, em tão verdes annos. Francisco Vaz, á

medida que realçava os talentos do deputado, vibrava de esconso á

filha uns olhares expressivos de mágoa e censura, como se quizesse

d'esta sorte arguil-a de ter-se esquivado a consultar o pae na escolha

do marido.

--Que brilhante futuro aguarda este rapaz!--insistiu o enthusiasta,

apezar da voragem que o deputado abria para sorvedoiro das commendas

rendosas.--Dizia-se ha pouco no Rocio que é bem de esperar que elle seja

chamado ao governo. Que admira? Quando o talento se allia á honra, que

monta a falta dos cabellos brancos! Vida immaculada com profunda

sciencia combinam o grande prodigio, n'estes tempos de muito vicio com

muitissima ignorancia! Ó snr.ª D. Julia, que homem aquelle quando o fogo

do genio e a consciencia da justiça lhe alumiam a fronte! Tenho pena que

as damas portuguezas se considerem tão alheias dos negocios publicos. Se

a instrucção mulheril ou a moda levassem senhoras ao parlamento, quantas

não sahiriam de lá hoje, não direi convencidas pela oração, mas

apaixonadas pelo orador!...

Ao gracejo do velho respondeu D. Julia:

--É bom que as senhoras não frequentem o parlamento. Pobre deputado, se

as apaixonadas o assaltassem á sahida da camara, a repucharem-no cada

uma de seu lado, e elle a defender-se d'essas mulheres de Pharaó, com

argumentos de irreprehensivel rhetorica! O pobre rapaz havia de

julgar-se novo Orpheu dilacerado pelas donzellas da Thracia.

O commendador franziu a epiderme da testa, revelando assim o

desgosto que lhe causavam as demasias de sal, com que a sua hospeda,

desde certo tempo, polvilhava as facecias.

--As damas portuguezas--tornou o commendador sisudamente--quando admiram

os bons ingenhos não os assaltam na rua; e, se os prézam, não se

desprezam a si mesmas.

--Perdão, snr. commendador,--emendou D. Julia, despeitada pela

censura--eu respondi gracejando, por me parecer que V. S.ª não calculava

com a maior seriedade o numero das damas apaixonadadas pelo orador. Eu

tenho a honra de ser uma das leitoras, que admiram Venceslau Taveira, e

já n'esta casa o ouvi improvisar luminosos discursos; porém...

--Não se apaixonou...--accudiu o velho.

--Não, senhor. As mulheres portuguezas, em geral, não têm a

sensibilidade erudita que se extasia e captiva de discursos politicos.

Comprehende-se que um poeta leve de poz a sua lyra mulheres, como

Amphião levava pedras. A poesia é musica, e a musica, não sei onde li

isto, fascina cobras e outras alimarias ferozes. Mas um discurso sobre a

liberdade de imprensa e a egualdade perante a lei não seria capaz de me

arrebatar grandemente.

--Desconheço-a, minha amavel senhora!... replicou o commendador,

alongando os beiços, e tomando na mão um prato, cujos relevos japonezes

parecia examinar em quanto fallava.--Essa linguagem, adubada de chistes

e epigrammas, d'onde lhe veiu? A menina, d'antes, conversava em

termos ingenuos, modestos e familiares: revia candura no pensar e no

dizer. Hoje, porém, e n'estes dous ultimos mezes, as suas phrases têm

novidade, que me desconsola. Ouço dizer que os emigrados trouxeram de

França uns livros que apagam os lumes do coração e accendem os fogos

fatuos do espirito... Dar-se-ha caso que a minha Juliazinha haja

lido muito?

--Leio desde os quinze annos, como V. S.ª sabe--respondeu com altiva

seriedade a fidalga.--Meu pae era rapaz quando o Pombal expulsou os

jesuitas e abriu as barreiras aos livros francezes. Meu pae estudou

então, e mandou-me ensinar a mim o que lhe pareceu bom que eu soubesse.

Li muito, durante os annos que estive inclausurada em castigo de amar

seu filho. Lia para distrahir-me, e arrancar das presas da desesperação

a alma que eu guardava para elle. Os livros, que li então, são os livros

que hoje recordo. Dos que ultimamente vieram com os emigrados não

conheço nenhum que me abraze nem que me géle. Ha todavia para mim dois

optimos exemplos de que os ares que os emigrados respiraram não

impestam. Bem lidos e sabios da sciencia dos francezes devem ser Eduardo

e Venceslau; não obstante, elles são homens de bons costumes e

excellente porte.

--São...--murmurou o commendador.--Não duvido... não devo duvidar que

sejam...

E, balbuciando como se as palavras resistissem á repressão da

vontade, levantou-se da mesa, onde se havia demorado, concluido o jantar.

N'este acto, annunciou-se Venceslau Taveira.

D. Julia deu-lhe os emboras do seu triumpho que elle recebeu com um

silencioso gesto de respeitosa gratidão.

Perguntou por Eduardo; e, como lhe dissessem que jantára com Sepulveda,

a quem empenhára na sua collocação, disse:

--Eu obtive o despacho de Eduardo...

--Mas ninguem lhe tinha pedido esse favor, meu amigo!--disse com

jubilosa commoção o velho.

--Não, senhor. Eduardo nada me pediu; vi na secretaria o requerimento. É

bem de crêr que o ministro o attendesse; mas com as delongas usuaes.

Ora, como eu melhor do que ninguem podia depôr do merecimento e

probidade do meu amigo, fallei ao secretario de estado, e alcancei sem

esforço que o decreto seja lavrado.

--Nobilissima alma!--exclamou o commendador, abraçando-o.

D. Anna apertou-lhe tambem a mão com vehemente agrado; e, n'este lance,

disse alegremente o deputado:

--Dou-lhe os parabens, snr.ª D. Anna, porque, despachado o nosso

Eduardo, não terá V. Ex.ª o desgosto de jantar sem elle. O emprego é

sempre uma felicidade na vida intima, quando traz a uma esposa extremosa

mais duas horas de convivencia com seu marido.

--Mas tem percalços o officio...--disse D. Julia.

--Qual officio, minha senhora, o de chefe do commissariado?

--Esse ou qualquer outro que involva nas alternativas da politica o

socego de Eduardo.

--D'accordo, minha senhora; mas o socego é um egoismo improprio do homem

que deve ao pobre paiz o obulo da sua actividade e talentos.

--A mulher, primeiro--redarguiu a dama.

--A esposa primeiro nas prerogativas do coração--obviou Venceslau--mas

nos dons do espirito a humanidade, o commum de nossos concidadãos, que

constituem a patria. Eduardo Pimenta deve arrotear os maninhos em que

seus filhos hão de colher as messes. Aos fundadores da familia corre

maior obrigação de desaffrontar os herdeiros do seu nome dos vexames do

despotismo e da ignorancia d'este paiz, para que não hajam de

envergonhar-se os que nasceram n'elle...

--Vês, Anna?--disse Julia intencionalmente á sua amiga.--Não é isto que

eu te dizia ha pouco?

Venceslau, olhando alternadamente para as duas senhoras, disse:

--Vê-se que eu tive a honra de ser discutido por V. Exas. ...

--Foi--tornou a fidalga das Amoreiras.--Dizia Anna Vaz que V. S.ª, se

fosse casado, nunca deixaria de jantar com sua esposa; e dizia eu que a

sua esposa teria de succumbir rivalisando-se com os interesses da patria.

--V. Exas. ambas tinham razão. Se eu fosse casado, deixaria de

jantar com minha mulher, quando as obrigações indeclinaveis de cidadão

me não deixassem jantar n'outra parte. Se esse infortunio, porém,

acontecesse muito repetido, e eu deixasse de jantar alguns dias

successivos, minha mulher choraria amargamente quando lhe restituissem o

cadaver do marido morto de fome... no altar da patria.

Riram as duas senhoras da facecia expressada com seriedade

despretenciosa; mas o commendador que entreviu no dizer engraçado uma

indirecta censura ao genro, murmurou:

--Democrito dizia eternas verdades, rindo.

--Não me dê foros de philosopho, meu bom amigo--volveu o deputado,

atinando com o intuito do velho.--Verdade é que, se a philosophia é ou

foi officio de gente mal enroupada e mal alimentada, eu, pelo que toca

ao alimento, estou a ponto de professar o stoicismo dos famintos mais

celebres da Grecia e Roma. São seis horas e não jantei ainda. Recebo as

ordens de V. Exas.

--Se recebe as nossas ordens--disse D. Julia--ámanhã irá jantar comnosco

á sua casa das Amoreiras.

--Beijo as mãos de V. Ex.ª por tamanha honra...

--Mas se a patria o impedir?--tornou ella.

Livro de Consolação: Romance · 第 7 / 14 段