Contou Julia que, ás nove da manhã, escrevêra a Eduardo, pedindo-lhe

conta dos casos tristes do dia anterior. O moço correu ao palacio das

Amoreiras, e referiu que Venceslau o prevenira da conversação com o

commendador.

Se Julia, mais sincera que condoída de sua amiga, relatasse as

impressões que Eduardo lhe deixára, diria que o viu menos consternado do

que era de esperar, e tão christã ou stoicamente conformado á sua

desventura, que faria inveja a Epictéto ou Kempis. Seria crueza não

omittir este escuro traço do caracter do seu confidente. A ferida da sua

amiga queria balsamos, e não cauterio. Semelhante denuncia iria coar a

peçonha da desconfiança--a tortura da morte--áquella alma flammejante

de fé.

As poucas linhas do bilhete, ainda assim, continham duas phrases

dignas do _Secretario dos Amantes_. Eduardo Pimenta promettia luctar

contra a desgraça, e succumbir na lucta quando não podesse sahir com a

victoria. Estes dizeres cadenciosos e arredondados andavam na voga, no

respigo dos ledores das novellas de madame Cottin e do abbade Prevost.

Sem embargo, Anna rejubilou-se, e decerto se levantaria reanimada aos

olhos do pae, se Julia não lhe advertisse que seria bom espacejar a

convalescença, já para amollecer o coração do velho, já para afastar

suspeitas de correspondencia clandestina.

Este dia e o seguinte passaram atormentados para o commendador. O

medico, na segunda visita, farejou da arca do peito para dentro molestia

inviolavel ás pilulas. Belleza, edade, respiração suspirosa, rubor dos

lagrimaes, olhos pisados, e outros symptomas de inflammação psycologica,

illucidaram o diagnostico. Declarou, pois, o doutor, sem auxilio da

nomenclatura greco-latina, que a doente padecia da alma, e que o debil

temperamento da sua organisação ainda imperfeita muito a custo

resistiria ás commoções devastadoras. Era o systema d'este medico:

primeiro o apparelho digestivo; depois o espiritual, se as doentes eram

novas e solteiras. O segundo prognostico havia-lhe rendido a mais

selecta clinica da capital. Muitos maridos d'aquelle tempo os levára

elle ás enfermas capituladas de éthicas, como os medicos de hoje em dia

lhes levariam das pharmacias garrafas de oleo de figados de bacalhau ou

sulphato de ferro soluvel de Lerás.

Compenetrado da consulta, o commendador lembrou-se aterrado que sua

mulher e seu filho haviam morrido pthysicos. A perda da filha

prefigurou-se-lhe calamidade superior a quantas elle poderia fantasiar,

casando-a com homem somenos de Eduardo. Penetravam-no já de antemão

espinhos de remorso. A ternura encarecia-lhe o perigo; e o quebranto

moral proprio da edade arguia-o de inclemencia e fereza.

Tão rapido precipitára as invectivas contra Eduardo, quanto depois,

ligeiramente e a só comsigo, rebatia os proprios argumentos.

--E se ella morre!--exclamava elle, invocando agora o juizo de Julia,

tendo menosprezado os judiciosos dictames de Venceslau.--Que lhe diz o

seu coração, minha amiga? Ella ama-o tanto que não possa esquecel-o? As

distrações serão inuteis? Se fossemos para a quinta do Riba-Tejo..., se

a minha boa Julia a levasse para a sua bella vivenda de Collares,

conseguiriamos restaurar aquelle coração que ainda ha pouco era tão

innocente, tão meu, tão alegre?... Que me diz, D. Julia?

--Façam-se as diligencias; mas desconfiemos do resultado. É o primeiro

amor. Tem a força que aniquila todas as outras. Anna amou sem reflectir;

a reflexão, que vem depois do amor entranhado, não aproveita. Foi assim

que eu amei seu filho, snr. commendador. Bem sabe que trances padeci,

que violencias arrostei, que inuteis severidades empregou meu pae. Nem o

convento, nem as ameaças de me privar do patrimonio me demoveram. A

ideia de morrer, em vez de me acovardar o animo, alentava-me. Que

valeram tantas dôres? Morreu elle, vergando ao pezo da minha cruz, e eu

sobrevivi... para me condoer de quem soffre das minhas agonias. Tenho

muito dó de sua filha, meu bom amigo, muitissimo. Hoje encontro-a mais

animada, porque lhe dei esperanças, como os medicos as dão a uma thysica

já nas ultimas vascas; mas se ámanhã eu não podér animal-a, a febre

voltará, e depois Deus sabe se no peito d'ella está o germen da terrivel

doença...

--Por piedade, não me diga isso, Julia... Esse punhal toda a noite me

golpeou no coração... O meu grande terror é esse: é a morte da mãe, que

um dia se queixou do peito, salivou sangue, cahiu esvahida,

desfigurou-se, e... vinte dias depois, expirava-me nos braços,

procurando com as mãos as cabeças dos filhinhos...

O velho, afogado por crebros gemidos, calou-se, enxugando as lagrimas

que lhe resvalavam aos beiços trémulos da commoção.

D. Julia balbuciou expressões de enternecido allivio, e conseguiu

conduzir o commendador ao quarto da filha, insinuando-lhe que só a

presença d'ella, n'aquelle momento, lhe seria consolação.

Estava já em pé a doente, quando o pae se annunciou. Tinha-lhe ouvido as

vozes trementes de lagrimas. Erguera-se pressurosa, qual se os remorsos

de affligir o estremecido velho a pungissem. Lançou-se-lhe nos braços,

chorando, como quem se accusa de não poder vencer-se. Era condição

divina a d'aquella creatura! Se, tres mezes antes, a vissem

ajoelhada diante do Christo sombrio da claustra, Anna Vaz seria uma

santa. Se Eduardo Pimenta, o moço pallido, aureolado pela tragedia do

amor que o revestira do crepe sympatico da viuvez, não fitasse n'ella os

olhos tristes da meiguice que pede as consolações amantissimas d'outra

alma, a creança seria ainda para seu pae o sorriso que do céo lhe

enviava, em labios innocentissimos, a chorada esposa.

Tomou nas suas o velho as mãos da filha. As arterias não arfavam de mais

nem a epiderme denunciava perturbações de máo agouro; mas assim mesmo,

os olhos do pae já não viam nas feições de Anna o viço purpurejado da

saude, o sorrir florescente dos dezeseis annos. Deu-lhe o braço, e

levou-a á sala, onde o fogão aquecia o ar d'aquelle famoso janeiro de 1821.

Anna aconchegou-se da fogueira; D. Julia sentou-se defronte, e o

commendador entre as duas.

A passagem do quarto para a sala ao longo dos corredores frios

constipára a menina. Tossiu com pouco esforço; mas, na audição do pae,

aquelle accesso dava o som aspero das crepitações pulmonares;

figurou-se-lhe estar ouvindo tossir sua mulher.

Nublou-se-lhe o semblante, e revia-se-lhe nos olhos a turvação da alma.

--Anna--disse elle, tomando-lhe a mão com extremada caricia--eu quero

que sejas feliz; quero até que sejas infeliz, mas que vivas. Reanima-te,

filha. Dou-te licença para casares com Eduardo.

A menina beijou-lhe a mão fervorosamente, e inclinou a cabeça ao

braço d'elle, como se quizesse esconder a exultação que devia parecer

reprehensivel ao amor de seu pae.

--Crês, minha filha, que a vida te será mais agradavel,

cazando?--interrogou o velho; e, sem aguardar resposta, voltou-se para

D. Julia, accrescentando:--Que pergunta, que frivola pergunta! É o mesmo

que perguntar a um cego, se crê que lhe ha de ser mais agradavel vêr!...

Casarás, filha; mas com uma condição que teu pae propõe: não me

deixarás; o amor, que me tinhas, dá-o a teu marido; mas não me deixarás,

não?

--Ó meu papá, nunca! por alma de minha mãe lhe juro que nunca o

deixarei, nem amarei menos do que hoje.

--Não jures, Anna... Pede á alma de tua santa mãe que te guie; mas não a

invoques para affiançar as mudanças da tua vida...

--Meu papá!--replicou a filha perturbada pela solemnidade da

objecção--se me julga capaz de o amar menos, então não me diga que case.

É melhor que eu...

--Que tu, filha?

--Que eu morra, com a certeza de o não ter affligido...

--Eu bem sabia que tu eras a boa creança, o adoravel coração que és...

Por isso é que eu cuidava que nenhum homem te merecia... E se pensei em

te dar a outro, foi porque, entre tantos com que lidei no espaço de

quarenta annos, eu nunca tinha encontrado condição mais nobre de

homem, na flor da juventude, mas sem mocidade... Entretanto, os amigos

d'este homem, que a tua innocencia não viu, devem ser dignos d'elle. Se

Venceslau Taveira assevera que Eduardo Pimenta é honrado, seja teu

marido Eduardo Pimenta. Agora, minha filha, não me estejas doente;

paga-me esta alegria que te dou; alegra-te, vive, renova a côr sadía das

tuas faces desmaiadas... Dize-me ámanhã que estás boa, e me não has-de

deixar, n'esta escurecida velhice, a esperar o beneficio da morte,

sósinho, entre tres sepulturas.

Ergueu-se o commendador, e passou ao seu gabinete. Escreveu, e enviou a

carta a Venceslau Taveira. E, depois, apoiou o rosto sobre os braços

cruzados na banca, e chorou longo tempo. Ao emergir d'este lethargo,

levantou-se de golpe, e murmurou: «Meu Deus! em que se funda o presagio

da desgraça de minha filha! Que ha no rosto d'aquelle homem que me está

aterrando! Ha dois dias que eu o via com affecto; não lhe admirava as

virtudes nem arguia os vicios; pintava-se-me um como tantos que a

sociedade préza; porém, desde que o imagino tão identificado á minha

vida, esposo de minha filha, que fatidico horror é este!...

E, n'este emtanto, D. Julia de Miranda, testemunhava medianamente

commovida o jubilo da sua amiga. Póde ser que ella, vendo desfechar o

drama d'estes amores tão depressa quanto ao avêsso de suas previsões, se

arguisse de imperfeita amiga, escondendo de Julia dous traços equivocos,

senão maus do caracter de Eduardo. Um--aquellas amphibologicas palavras,

que lhe elle dissera um dia antes, e ella recebêra com tal qual

severidade. Outro--a supportavel tristeza com que Eduardo, n'aquelle

mesmo dia, lhe referira a quebra de suas relações com o commendador. Se

outra causa menos para louvar-se era parte na limitada satisfação de

Julia, quando a noiva de Eduardo festejava a sua inesperada ventura, não

é facil averiguar, em quanto o curso dos successos nos não remover a

triple muralha que véda o insondavel coração das creaturas predestinadas

a distincções deploraveis.

Bem que inexperta e apenas alumiada pela escassa luz matinal do seu

amor, Anna Vaz reparou, entristecida, n'estas palavras enigmaticas

de Julia:

--Fez-me impressão o enthusiasmo de teu papá quando fallou de Venceslau!

O rapaz decerto é o complexo de boas qualidades que teu pae avalia; nós,

porém, as mulheres, temos o coração nos olhos, e o juizo no coração. O

nosso vêr é tão diverso do reparar da experiencia! Quem nos diz que o

melhor marido seria o menos amavel á primeira vista? Eduardo tem a

eloquencia sympathica e melancolica do soffrimento que lhe deixou uma

paixão contrariada; Venceslau tem o ar sereno de quem nunca soffreu nem

motivou dôres a ninguem. Estes dois homens são a consolação ao pé da

desgraça. O coração cheio de balsamos ao lado do coração cheio de

lagrimas. Um amou muito, o outro não amou nunca. Eduardo tem um passado

que ha de vir aguar-lhe as alegrias do presente. Venceslau, quando amar,

ha de ser todo a felicidade do momento, a primeira florescencia da

alma sem imagem de mulher morta ou viva que venha confrontar-se com

outra...

--Mas que quer dizer isso?!--interrompeu Anna.--Tu bem sabes que eu não

amo o Venceslau.

--Pois não sei, filha!... O que eu te queria dizer é que, se em vez de

amar Eduardo amasses o outro, talvez o teu anjo da guarda te inspirasse

melhor...

--Porquê?... Não me disseste tantas vezes que o Eduardo era sympathico e

muito amavel?...

--E eu digo-te agora o contrario?

--Mas achas que o outro seria melhor...

--Melhor para a felicidade da vida intima, filha; mas o coração não

calcula o que ha de vir pelo tempo além...

--Tu atterras-me Julia!--exclamou a enleada menina, fitando na

impenetravel amiga os seus olhos explendidos.

--Has de ser sempre creança!... volveu a desconcertada confidente,

emendando as demazias da sua imprudencia.--Estou conversando comtigo,

que vaes ser senhora; e tu queres que eu não tenha vinte e oito annos, e

te falle a linguagem das meninas.

--Pois sim... mas tu desconfias de Eduardo...

--Eu desconfio?

--Sim... hontem não me dizias isso...

--E hoje que te digo?

--Que eu seria mais feliz se amasse o Taveira...

--Ai! que calumnia!... Calla-te, que ahi vem teu pae.

O commendador entrou. A filha contemplou-o, e disse meigamente:

--O papá chorou?

--Se chorei? sim, filha... Dá-me os parabens, que chorei. Chorar é

esmagar a dôr. As lagrimas são o sangue das angustias que os padecentes

podem afogar entre as mãos. Quando ellas vencem, o homem não chora; morre.

--Morrer, meu Deus!--exclamou Anna.--Ó papá, meu querido papá!... não me

falle em morrer, que eu já não quero...--E susteve-se por segundos.

--Que não queres, filha?... Pobre anjo!... não ousou proferir a palavra,

receiando que lh'a acceitasse... Ai! não, minha pobre Anna... Has de

casar com Eduardo... Se houveres de morrer, a teu pae basta-lhe a dôr...

O remorso seria um supplicio que a minha alma nunca experimentou...

Ficaram os tres largo espaço silenciosos. Librava-se no ambiente

d'aquella sala o archanjo das propheticas agonias.

XI

Qualquer honesta se abala,

Como sabe que é querida.

CAMÕES.--_Filodemo._

Observou Venceslau Taveira que o seu amigo, ouvindo lêr a complacente

carta do commendador, manifestou mais que moderadamente o seu

contentamento. Estranhando-lhe a quasi indifferença, perguntou-lhe se a

noticia lhe era desagradavel, e se a conformidade do pae ao amor da

filha despoetisava a noiva.

Respondeu Eduardo, alteando a fronte, que a injuria da despedida era

muito recente, e a honra da readmissão pouco desejada.

Taveira obtemperou com a sobranceria do seu amigo. Pareceu-lhe bem

aquelle pundonor: achou até natural que os brios e o coração se

digladiassem dentro do nobre peito do rapaz. Isto, porém, não impediu

que elle desculpasse o velho e resalvasse a menina da responsabilidade,

a fim de amolentar as asperezas timbrosas de Eduardo, o qual se

considerava offendido em sua justa hombridade de plebeu pela

propria mulher que talvez imaginasse descer os degraus de sua gerarchia

para lhe dar a mão. É o que elle dizia, encaracolando o bigode e

avincando a testa.

Insistiu Taveira declinando da amorosa menina as queixas do plebeu

irritado. Teve que fazer. A ralé, se traja ao bizarro, e se tem nos

miolos o fervilhar das aspirações, destampa em orgulhos desmesurados:

faz saudades do barão feudal. Dava-se em Eduardo, ao que parecia, o

sangrar da ferida antiga. O viuvo da filha dos Portugaes tinha nas

cavernas da alma latibulos de rancor ás raças, aos pergaminhos, e

nomeadamente aos paes que lhe não offereciam as filhas e os vinculos. De

mais a mais, além d'estes pontos-de-honra, outras procellas lhe

emborrascavam o animo quando elle, de subito, fez esta pergunta:

--Que dote tem ella?

--Eu sei lá!...--respondeu o outro enleado.

--Eu devia ter indagado...

--Sim, tu, e não eu, a dever ser algum. Se casas com o dote, começas

pelo fim. Devias estudar o archivo do commendador, antes de pôr a sonda

ao coração da filha, acho eu.

--Fallemos serios--volveu o galan dos olhos tristes e das palpebras

morbidas.--Parece-te inutil isto de saber-se com quanto um homem póde

contar, quando se constitue chefe de familia?

--Parece-me util; é sem duvida util mercantilismo. Mas o util nem sempre

se combina com o agradavel, como aconselha o poeta romano. E,

n'este caso, essa averiguação, sobre ser desagradavel, é extemporanea.

Já te disse: acabas por onde devias principar. Suppõe tu que farejas os

contadores de Francisco Vaz, e não achas lá aroma de vintem! Que fazes?

Retiras o requerimento á mão da menina, visto que a menina se não

presume herdeira?

--Se retiro o requerimento? Eu não requeri nada... não a pedi...

--É verdade, não a pediste... Fui eu quem a pediu para ti, por me

haveres dito que ella se suppunha amada, e não embaida por velhacaria de

mercador que anda de armazem para armazem comparando e apalavrando

fazenda. Entretanto, respeito a dote, não te informes comigo. Como vês,

tens aberta a porta do commendador: pergunta-lh'o. E, se elle te disser

que é pobre, e as lavaredas do amor se apagarem no teu peito, suicida-te.

--Que me suicide?!--bradou espantado o sugeito, que annos antes andára a

metter-se nas tezouras da parca.

--Sim, homem--voltou Venceslau tregeitando no sorrir um gesto de

aborrecimento, se não era de menospreço.--Mata-te por egoismo. O amor

proprio de um homem de bem deve ministrar-lhe o veneno ou o punhal

suicida, quando se lhe está abrindo um abysmo de... de... não me lembra

a palavra...

--É pena que te não lembre...--acudiu ironicamente o outro.

--Ah!... lembrou: de infamia.

--Mercês!--redarguiu Eduardo--se fosses um qualquer homem, respondia-te

no campo da honra; mas ao amigo, que comprou com os seus favores o

direito de me aviltar, digo: obrigado!

--Ao campo da honra vão os honrados--concluiu Venceslau, erguendo-se de

golpe, e tomando o chapéo.--Tenho que fazer... Não me dá Deus horas

baldias para palestras d'esta especie.

E sahiu arrebatadamente.

Eduardo seguiu, deu-lhe o braço já na rua, e disse-lhe em tom de muita

brandura:

--Nunca te imaginei condição tão brava, Taveira! A tua honra tem

espinhos...

--Pois não te firas, Eduardo... Temos duas estradas. Segue uma das duas

por onde nunca possamos encontrar-nos.

--Ao menos permitte que hoje á noite nos encontremos em casa do

commendador.

--Como te aprouver... adeus.

Venceslau foi para as côrtes, e Eduardo para casa de D. Julia de Miranda.

--Parabens!--exclamou ella, quando entrou á sala, onde era esperada pelo

noivo de D. Anna Vaz.--Quem diria? Olhe que bonito e rapido desfecho

teve o romance, que parecia complicar-se em tenebrosos enredos!

--É verdade, minha senhora!...

--Tambem me dou a mim os emboras pela auspiciosa intervenção que

tive n'estes bem-logrados amores!

--Obrigado, snr.ª D. Julia--respondeu elle glacialmente.

--Que seccura, santo Deus! que frieza a sua, snr. Eduardo! E eu a

imaginal-o doido de alegria como todos os que amam anjos com o rosto e o

coração da minha Annica! Ai! se ella agora o visse decerto...

--Me não amava?

--Decerto abafava de mágoa de o ter amado... Que tem? que genio é o seu?

que é isso?!

--É a fatalidade--respondeu funeralmente o joven pallido.

--Não sei o que é a fatalidade... Explique-se.

--Quer V. Ex.ª que eu lhe diga o que é a fatalidade?... Ah! não queira

ouvir...

--Quero... diga... Preciso entender o enigma da sua alma...

--A fatalidade é o calix intransmissivel. É a attracção do abysmo. É o

resvalar por despenhadeiro onde não ha aresta de rocha em que se

recravem os dedos. É o supplicio de Tantalo, a braza viva nos labios e a

torrente da agua a derivar por diante da enorme agonia da sêde. É o

tormento de Mezencio: o vivo enleiado ao cadaver. A fatalidade é o

abutre que roía o figado immortal do acorrentado do Caucaso. É o

estanque de lagrimas onde se afogam as esperanças, apenas nascidas. É o

clamor incessante d'uma alma, que sóbe até o céo nas azas da fé, e desce

até ao inferno abatida com o pezo das suas maldições. É duvidar de

Deus, quando a face bate nas lageas do templo, e o coração se confrange

e arde sem aura refrigerante. A fatalidade é o holocausto forçoso da

vida n'um altar onde a victima não leva sequer a compaixão dos que sabem

que alli se está suicidando um homem. É a vacillação incomportavel de

quem balanceia entre matar-se para esquecer e sacrificar-se para que o

não deshonrem as vaias das multidões. A fatalidade, snr.ª D. Julia, é

não ter eu morrido quando me atirei á bayoneta e ás balas no fragor das

pelejas. A fatalidade é ter eu olhos e alma, e o torturar da vaga

esperança, quando a imagem d'uma mulher predestinada me appareceu a

apontar-me a voragem onde eu devia engolphar-me. A fatalidade, emfim,

senhora, é tel-a eu visto; é... tel-a eu amado.

Esbofada a vulcanica declamação, D. Julia ergueu-se placidamente,

soberanamente, hirta, severa, formosa de magestosos assomos, e disse:

--Se é o snr. Eduardo Pimenta quem está em casa de Julia de Miranda,

amiga de Anna Vaz, peço-lhe que se esqueça de ter aqui entrado.

--Perdão, minha senhora!--balbuciou o galan, como quem não trazia mais

diamantes no thesouro da memoria.--Perdão!

--Perdoei, porque... esqueci.

--Perdôa--volveu elle com alguma felicidade--perdôa, porque... matou. Eu

vou ser marido de D. Anna Vaz, snr.ª D. Julia. Ha de vêl-a feliz...

--Praza a Deus... mas... duvído.

--Ha de vêl-a feliz... ha de vêl-a sorrir para mim sem suspeitar que lhe

sorri nos meus labios a morte... o sorrir do martyr para o cutello, a

palavra indulgente do Christo para os seus verdugos. Agora, uma

supplica... Segredo, minha senhora! Que ella o não saiba... Não me prive

da gloria de ser eu só desgraçado. Se ella vê em mim o coração que se

abraza do seu amor, deixe-a ser feliz; diga-lhe que eu a amo... prometto

a V. Ex.ª que nunca a desmentirei...

--Mas... enganou-a... mentiu-lhe... para quê? objectou D. Julia,

enredada nos amphiguris d'aquellas tiradas de Arlincourt.

--Não a enganei... forçou-me a fatalidade a adoral-a...

--E então?... Que incomprehensivel!... que indecifravel adoração!...

Pois não me diz que adorava a minha amiga? Por que deixou de adoral-a?!

--Porque a mão do anjo negro me trouxe, desde o tumulo da primeira

mulher que amei, até ao segundo calvario onde eu devia amar a segunda,

mostrou-me... V. Ex.ª Eu disse tudo, senhora! Agora odeie-me; mas não me

denuncie. O seu silencio ha de deixar-me agonisar lentamente; a sua

denuncia... fulminar-me-ha... A minha morte é desnecessaria á sua

glorificação.

Disse e sahiu.

Não era odio o mais caustico sentimento que Eduardo incutiu no animo de

Julia. Tambem não era asco nem sequer desprezo. A fidalga ficára

agitada, mas não febril dos estos da indignação. Viu-se escarlate no

espelho, e nenhuma das hypotheses explicativas da congestão

sanguinea das faces lhe pareceu realmente ser pudor. Vêr-se ao espelho

seria acaso; curiosidade de remirar o seu aspecto rubente de colera é

que não era. Ella não sabia que estava iracunda e rubra. Fulgurou-lhe no

espirito um relampago de electricidade tão offuscante que fechou os

olhos. Teve pejo de si:--pudenda alma que se sentia estremecer no lapso

da candura ao indecoro! Atirou-se a uma cadeira estofada, e abarcou o

rosto nas mãos convulsas. Quando se levantou, as lagrimas embebiam-se no

ardor das faces. Aquellas lagrimas eram as perolas que o seu bom anjo

derramava sobre o seio onde os latejos do coração respondiam aos

clamores da consciencia. N'este lance, enclavinhou os dedos das mãos, e

comprimiu com ellas o arfar do peito. E, depois, tirando um profundo

gemido, murmurou: «Se eu podesse amar um homem!»

XII

Deus organisou

O homem que vemos...

ANTONIO PRESTES.--_Auto da Ave-Maria._

Estavam todos melancolicos, á feição de amigos que se ajuntam em casa do

dorído, na noite seguinte á do passatempo.

O commendador Vaz dirigia ao seu futuro genro palavras de contrafeita

amabilidade.

Venceslau Taveira lia o diario das camaras e tirava notas. O conego das

digestões morosas esperava o chá na espectativa silenciosa, ouvindo o

rugir das proprias entranhas. O capellão da fidalga contemplava o

conego, censurando mentalmente que as murças se déssem a sugeitos

estupidos. D. Julia, no desvão da sacada, ciciava com a sua amiga um

dialogo apparentemente gélido e remoto do interesse que era de presumir

em tão festivo sarau.

Durante o chá, animou-se aquelle palco da comedia humana. O prebendado

contou os antigos faustos da patriarchal de D. João V. O commendador

abriu ensejo ao capellão para que demonstrasse que D. João V, orando em

Odivelas, não fôra mais util á religião dos pobres que os chantres da

patriarchal gosmando psalmos na real basilica. Venceslau Taveira fez a

apologia de Ferreira Borges e Manoel Fernandes Thomaz. Eduardo Pimenta

descreveu a batalha da Roliça, azando ao conego breves, mas energicos

protestos contra Bonaparte, e a vigesima edição de suas crenças

politicas, que fundavam todas na paz e concordia entre os principes

christãos e extirpação das herezias--votos sinceros, senão eloquentes,

que influiam no cerebro do capellão filtros soporiferos.

Em amor ninguem fallou.

Soára meia noute: era a hora costumada de se apartarem.

Francisco Vaz, aproximando-se de Eduardo, disse-lhe a meia voz:

--Queira dizer a Venceslau que fique e V. S.ª ficará tambem alguns minutos.

D. Julia sahiu com os dois clerigos; D. Anna não voltou á sala; e o

commendador fallou assim a Eduardo, na presença do deputado.

Livro de Consolação: Romance · 第 6 / 14 段