--Completa e sincera, meu amigo. Comprehendi-o... Isso é nobre; e tudo

que nos vem da honra, seja alegria ou tristeza, é sempre um sentimento

que deve expandir-se nos braços do homem de bem. Sei o que é. Eu devia

suspeital-o. Os moços da sua condição encontram esposas á competencia, e

não o revelam porque a fatuidade desdoura, profana e deslustra o

segredo, que é a mais bella caução do amor sisudo e competente ao

homem honesto. Se V. S.ª não guardasse tanto o seu segredo, evitava-lhe

este desgosto. A mim, o lance, bem que pouco usual, não me afflige.

Offereci-lhe minha filha: offereci-lhe tudo que tenho, toda a minha

riqueza; dei-lhe a maxima prova de quanto o prézo: estou contente;

desobriguei-me de parte da divida de meu filho--divida de amor, que não

podia ser paga em outra moeda. Agora, não me esteja assim pensativo,

snr. Taveira!... fallemos n'outra coisa.

--Não, senhor, fallemos d'esta--replicou Venceslau já

tranquillo.--Principío por asseverar ao snr. commendador Vaz que conheço

em Lisboa duas senhoras: sua filha, que amo como irmão, porque ella, bem

que lhe sobejem qualidades proprias para ser estimada, é irmã do meu

amigo Antonio Vaz. A outra senhora é D. Julia, que respeito e considero,

porque vi tanta lagrima saudosa a encarecer-lhe as virtudes, que me afiz

a vêl-a do desterro como um anjo, e na patria como senhora de quem as

outras devem aprender a lealdade na viuvez. Durante o meu exilio, a

minha mocidade, snr. Vaz, namorou-se do trabalho, da fortuna avára dos

que lá viveram das lides do espirito. As amantes d'esta especie costumam

ser tão zelosas e egoistas das nossas attenções, que nos não abrem

ensejo de pensar nos affagos d'outra. Foi assim comigo a fortuna do

proscripto. Ou luctar com as extremas privações, deshonrando-me nos

expedientes que ellas aconselham; ou lidar sempre, ora escrevendo, ora

ensinando; mas, tendo sempre em vista a inutilidade do coração,

debaixo d'um casaco cossado e remendado. Não amei ninguem na terra

alheia; não amo ninguem na minha. Sou aqui o que fui lá fóra: um

operario labutando o pão quotidiano. Escasseia-me o tempo nas obrigações

urgentes; não tenho podido desbaratal-o em diversões da alma, em

preoccupações deliciosas que denotam ferias de espirito e necessidades

levantadas acima do positivismo da vida commum. Sou pobre, como V. S.ª

sabe. Entretanto, snr. commendador, pobreza e trabalho não esterilisam o

coração. O homem, fiado no seu braço robusto ou em sua intelligencia

productora, está bem no caso de poder aspirar ás consolações e alentos

d'uma esposa, que lhe alumie a solidão escura do seu gabinete, e lhe

duplique o esforço para a lucta. Algumas vezes me entreluziu ao animo

quebrantado a doce alliança da intelligencia com os prazeres do coração.

Figurou-se-me vêr perpassar por diante d'esta banca, onde a aurora de

cada dia me encontra, uma imagem vaga, com o sorriso da coragem nos

labios, e a luz da esperança nos olhos, fixos em mim, que a contemplava

como a varonil inspiração dos meus rudes trabalhos. Era o relampago do

secreto fogo que não se extinguiu--era talvez o estremecer dos

sentimentos abafados no recondito da alma. Bem póde ser, snr.

commendador, que o fogo chammejasse, e o sentir abafado se expandisse,

no momento em que V. S.ª agora mesmo me disse que eu podia ser o esposo

da snr.ª D. Anna Vaz. Eu cuidaria então que era ella a imagem

entrevista nos meus enlevos; sentiria a subita mudança do sonho para a

realisação; e, se a surpreza me cortasse as palavras de reconhecimento,

o meu silencio teria a eloquencia das lagrimas. Sua filha, snr.

commendador--proseguiu Venceslau apoz uma grande pausa--sua filha não me

ama...

--Como?--interrompeu Francisco Vaz, erguendo-se de golpe, e batendo rijo

a bengala no pavimento.--Como sabe que minha filha o não ama?

--Como sei que a não amo eu tambem. O meu coração, posto que

inexperiente, adivinhal-a-hia, se lhe eu motivasse algum sentimento

distincto da amisade, que lhe mereci, como amigo de seu irmão, e

affectivo apreciador de seu pae. Eu não podia ser amado, porque os meus

breves instantes de conversação com a snr.ª D. Anna foram sempre alheios

da minima referencia ao amor, ás vagas coisas do coração com que as

horas se aligeiram e saboreiam nas salas, segundo julgo da intimidade

dos que são ou dos que parecem ser felizes. Praticávamos ácerca do nosso

saudoso Antonio, ou dialogávamos em francez sobre assumptos que me

pareciam adequados á perspicacia intellectual de tão habil menina...

--Sei isso, snr. Venceslau--sobreveiu o commendador.--Está-me V. S.ª

dando ares de quem se justifica de honrado comportamento.

--Não me justifico, snr. Vaz: explico a suprema quietação da minha

alma em presença d'uma senhora que eu estimava como se estima uma irmã

favorecida de excellentes qualidades.

--Que ainda assim V. S.ª não podia amar...

--Não vem acertada essa reflexão; consinta o snr. commendador esta

rudeza. As excellentes qualidades são amaveis; mas não é dever da mulher

que as tem acceitar o culto de quem lh'as reconhece; nem é judicioso a

quem lh'as admira revelar-lhe a sua dedicação, além dos limites do

respeito. Era, todavia, muito de esperar que a snr.ª D. Anna Vaz

inspirasse um grande amor e ao mesmo tempo o sentisse pelo homem a quem

o inspirasse. Isso aconteceu.

--Que é? pois minha filha ama alguem?--interrogou Francisco Vaz com

aspecto iracundo.

--Ama, sim, senhor.

--Quem?

--O meu, o nosso amigo Eduardo Pimenta.

O commendador percorreu tres vezes o estreito escriptorio do deputado,

enxugou o suor da calva, comprimiu a testa com ambas as mãos e murmurou:

--Deu-me um profundo golpe, snr. Taveira!... Estou a braços com a

desgraça...

--Eis-ahi uma dôr que me assombra!--redarguiu o jornalista.--Que

conceito, pois, fórma V. S.ª de Eduardo?

--Não sei, não sei que presagios me despedaçam o coração! Não lhe

conheço vicios... ninguem o accusa, ninguem o denegriu na minha

presença, tenho-o recebido com affectuosa familiaridade; pois,

apesar d'isso, eu não queria que tal homem casasse com minha filha. E,

se eu impugno tal casamento, qual é a dignidade de Eduardo Pimenta em

requestar minha filha?

--Seria indignidade grande requestal-a com a certeza de que V. S.ª

recusa conceder-lh'a.

--Pois, snr. Taveira, auctoriso-o a declarar ao seu amigo que lhe nego

minha filha. Não ha nada mais explicito e summario.

--E, se o meu amigo me perguntar que actos de sua vida o desconsideram

na opinião do snr. commendador, que responderei?

--Responda que um pae não é obrigado a justificar a sua vontade.

--Muito bem. Eduardo não póde honestamente voltar a casa de V. S.ª

--É claro.

--Foi por tanto expulso de sua casa, snr. Vaz, o homem que eu lhe

apresentei, não é assim?

--Elle é que se fez indigno da minha estima.

--Seja qual for a causa, o meu amigo foi expulso; e eu, que ainda me não

vexo de o haver apresentado, expulso me considero tambem.

--O senhor!? que desconchavo!

--Póde ser que eu ignore as praticas da boa sociedade. Se ellas

diversificam do modo como eu as professo, abstenho-me de as aprender.

Quem apresenta, no gremio d'uma familia, pessoa que desmereceu a

estimação que lhe deram, retira-se ao mesmo tempo, ou envergonhado

do ultrage que o seu vil amigo commetteu, ou offendido da injuria que se

lhe faz, se elle é expulso immerecidamente. Não questiono sobre a

justiça ou injustiça com que V. S.ª o repelle: qualquer das hypotheses

me aconselha a não voltar á casa defeza a Eduardo Pimenta.

--E sacrifica-me ás indiscrições de Eduardo Pimenta, snr. Taveira?

Quer-me convencer de que o procedimento d'elle é regular?

--Já disse ao meu bom amigo que me abstinha de contestar a razão dos

seus aggravos; mas, se V. S.ª me força a defender-me, defendendo

Eduardo, afoitamente lhe confesso que o não culpo. Amar a snr.ª D. Anna,

que é amavel como formosa e como rica das graças do espirito, não é

delicto, ainda mesmo que os meritos de quem a ama não possam egualal-a.

A Eduardo faltam pergaminhos; nasceu na casa de lavradores; os brazões

de seu pae eram os utensilios da lavoura. Prouvera a Deus que o

fanatismo o deixasse viver e morrer na obscura honra dos que lidam de

sol a sol, e obedecem ao preceito da incessante lida, sem blasfemar da

Providencia que instituiu as desigualdades da fortuna. Amargamente pagou

Eduardo Pimenta o acaso de ter nascido plebeu. D'essa enorme culpa

resultou-lhe a perseguição, o carcere, o desterro e a morte da esposa

que o adorava...

--Consequencias do erro...--atalhou o commendador.

--Do erro?

--Sim, da culpa de cortejar uma dama illustre que não podia ser d'elle

sem arrostar grandes perigos, sem desdourar seus parentes, sem se atirar

a si mesma aos abysmos cavados pela desobediencia. Que fez elle amando a

mulher nascida em outra esphera? matou-a; formou os elos da corrente que

a levou de rôjo á sepultura. Com que direito affrontou elle as leis

sociaes?

--Quaes leis?... Não sabia eu que o meu amigo tinha affrontado algum

direito...

--O direito consuetudinario, a ordem de coisas, o estylo que rege os

costumes. Se o amor votado por plebeu a mulher nobre causa a desgraça

d'essa mulher, tal amor, com quanto os poetas o celebrem, é calamidade

que faz chorar muita gente, e desata laços que nunca mais se refazem.

--Essas ideias, snr. Vaz--redarguiu Venceslau--são boas; mas permitta o

céo que o genero humano vingue d'aqui a um seculo não vêr a fronteira

que divide o coração plebeu do coração fidalgo. Quando esse oiro das

almas sahir depurado do cadinho dos annos, as ideias de V. S.ª serão

acoimadas de absurdas ou transviadas do trilho por onde a luz do

christianismo nos vae alumiando. Não argumentemos sobre o ponto, porque

ainda não é tempo de se abraçarem os adversarios. Antonio Vaz, o

fidalgo, filho do decimo commendador de Santa Christina de Almudena

pensava como eu; e, nas nossas palestras de socialismo e regeneração do

homem, nunca nos lembramos que nossos bisavós haviam ganhado, com o

sangue proprio e com a vida de seus paes mortos em Alcacer-kibir,

no Ameixial ou Montes Claros, as commendas que a liberdade nos vae tirar

como mal adquiridas. A liberdade, que nós andavamos servindo, é essa que

nos desbalisa e nivela com os filhos dos criados de nossos avós.

--Boa a fizeram...--resmuneou o fidalgo.

--Nada fizemos: foi o tempo. A luz, que doira e aquece as penedias dos

montes, não é d'ellas, é do sol. O fructo não se enverdece e sazona a

si: é o calor dos dias successivos. O instrumento obedece ao impulso; a

ideia é o motor do braço. Seu filho e eu tinhamos nascido, quando a

França se refundia e recaldeava ao fogo reconcentrado do lavor de

seculos. Entramos na torrente; fomos levados; um é morto ao pé do berço

da liberdade; o outro não foge da morte; mas nenhum de nós, tendo uma

irmã, lhe poria o preceito de estudar heraldica para saber que timbre e

escudo lhes cumpria descobrir nos corações dos homens que as requestassem.

--Graceja, snr. Taveira? Não escolhe a opportunidade...--increpou o

commendador com sincera mágoa.

--Não gracejo com V. S.ª: é com os preconceitos. Se eu os combati com as

armas, não é muito que os desattenda com a ironia. E, depois, todas as

razões que V. S.ª allegar contra o casamento de sua filha serão boas,

exceptuada a da incompatibilidade dos nascimentos. O snr. Vaz é

illustrado. Se pertence ao passado pelos appellidos, deve-se ao edificio

do futuro pela intelligencia, e á humanidade collectiva pelo coração, e

de modo nenhum á raça exclusiva dos nobres pelo acaso do

nascimento. O pae de Antonio Vaz deve ser por força um alto espirito: de

troncos verminosos não bracejam frondes com seiva de tão generoso

sangue. Tal pae corre-lhe o dever de consentir que os abusos da

ignorancia sejam motejados na sua presença, e que os paes,

sacrificadores das filhas no infamado altar das tradições genealogicas,

sejam malsinados de tyrannos.

--O seu apostolado, snr. Taveira--replicou o velho--é temporão em

respeito á época; e é tardio em relação a mim. Sessenta annos não se

remoçam; das raizes da educação inveterada não abrolham as flores com

que em França os _sans-culottes_ vestiam a deusa da Razão. Estou muito

velho, e sou pae muito extremoso. Gósto da liberdade comedida, desde que

odiei o despotismo que levou á forca meu parente Gomes Freire de

Andrade. Abomino por egual o despotismo dos reis e o despotismo do povo.

Repito que desejo a victoria dos programmas liberaes; mas reprovo que,

em nome d'elles, me queiram a mim esbulhar da liberdade de casar minha

filha com quem eu quizer. Repugna-me dal-a ao snr. Eduardo Pimenta, de

quem aliás não recebi maior offensa que o intento de captar o amor de

minha filha, sem consultar as minhas luminosas ou obscuras ideias ácerca

de tal casamento. Contra esta resistencia não me parece que a liberdade

bem entendida legisle reacções.

--Pelo contrario--obtemperou Taveira--as leis protegem os paes,

submettendo os filhos menores ao seu consentimento; e eu, indigno

legislador, se tal lei não existisse, propôl-a-hia. Emfim, não se enfade

mais V. S.ª com esta discussão esteril. Eu me encarrego, conforme á

sua ordem, de avisar o meu amigo. Como elle tem pundonor, não ha motivo

para que as inquietações de V. S.ª continuem. Hoje veiu elle aqui dar um

testemunho da sua probidade. Suspeitou que eu amava a senhora D. Anna

Vaz, porque lhe censurei indirectamente que a cortejasse. Tomou á conta

de zelos a minha intervenção nos seus affectos; e offereceu-me

sacrifical-os á minha felicidade, se eu alimentava alguma esperança

contrariada por elle que me não soube adivinhar. Creio que o desconvenci

da sua desconfiança. Ora o homem que se victimava a um amigo, de melhor

vontade e com mais honrado primor se ha de immolar a um pae tão

respeitado quanto estimado. Vá por tanto V. S.ª bem certo de que cessam

hoje os seus sobresaltos. Eduardo não volta a sua casa...

--E o snr. Taveira?

--Já disse ao snr. commendador que devo á leal camaradagem de nove annos

a observancia de um dever que implica desdouro para o meu amigo, se eu

me esquivar a cumpril-o.

--Mas--volveu Francisco Vaz, depois de um longo silencio, acompanhado de

gestos que significavam desgosto e perplexidade--não é possivel

combinarem-se a continuação da frequencia de minha casa com a

desistencia das intenções do seu amigo? Não poderá elle ser meu hospede

sem ser o namoro de minha filha?

--Sei pouco do coração humano, snr. Vaz; e por isso appéllo da minha

ignorancia para a experiencia que lhe deram a V. S.ª os annos e a

vida das salas. O entreverem-se duas pessoas que se amam e violentamente

se apartam, será bom expediente para as desligar? Se os olhos do rosto

se contemplam, deveremos suppor que os olhos da alma se fechem? Que

responde V. S.ª?

--Que tem razão. Melhor é que não se vejam. Mas eu peço licença para

visitar o snr. Taveira.

--Tamanha honra lhe pediria eu, se me não faltasse a ousadia.

--Adeus. Não lhe desbarato mais tempo. Abraço o irmão de meu filho, e

deponho nas suas mãos o meu socego e a innocencia de minha filha.

Defenda-nos a ambos, já que eu perdi quem devêra a esta hora velar a

honra de seu velho pae e a inexperiencia de sua irmã.

Abraçaram-se estreitamente, chorando ambos.

X

Venez après cela crier d'un ton de maître

Que c'est le coeur humain qu'un auteur doit connaître!

Toujours le coeur humain pour modèle et pour loi!

Le coeur humain de qui? le coeur humain de quoi?

Celui de mon voisin a sa manière d'être.

Mais, morbleu! comme lui j'ai mon coeur humain, moi.

ALF. DE MUSSET.--_Namouna._

Chegada a noite d'aquelle dia, e já corrida a hora costumada das

visitas, Anna Vaz perguntou a Julia:

--Que será isto? elles não vem!

--Estava a scismar n'isso tambem eu...

--Olha que ha desgraça!... Não vês o papá tão carrancudo?

--Já reparei... Vae tu até lá dentro, e não voltes á sala sem me ouvir

tocar no cravo.

Anna sahiu, e Julia aproximou-se do commendador que lia, ou fingia lêr,

o _Astro da Lusitania_.

--Que ha de novo? Está lendo o artigo do nosso deputado?--perguntou

ella, curvando-se para o periodico.--Já li... Ninguem dirá que d'aquelle

rapaz tão sereno e moderado possam saltar essas faiscas de colera

contra as ideias antigas! É um ethna escondido em moitas de flores, não

acha, snr. commendador?

--É um apostolo de boa fé, um peito cheio de honra, que se offereceu ao

martyrio das ideias novas. Tem a devoção dos cathecúmenos de todas as

religiões. Trabalha para os que hão de vir, não é para elle. Sahiu d'uma

familia illustre do velho Portugal para servir de degrau aos que hoje

calçam sapatos ferrados.

--Porque não o aconselha? Diga-lhe que seja mais prudente no que

escreve; que não esteja a ganhar inimigos... Quem sabe lá onde isto vae

dar? Os prejuizos não se pulverisam com palavras, nem com gazetas. Eu

ouço todos os dias vaticinar que este governo ha de durar pouco. Em casa

do tio Gião ouvi hontem dizer que os monarchas formaram o congresso de

Laybac para enfrear as demasias da liberdade, e que D. João VI não

levára a mal que o governador da Ilha Terceira resistisse á proclamação

do systema constitucional.

--Vejo-a muito enfronhada em politicas de seu tio desembargador Gião,

minha senhora D. Julia!--observou graciosamente o commendador.

--A mim que se me dá de politicas!--retorquiu a dama.--O que eu desejo é

não vêr expostas com tanto perigo as pessoas que estimamos. O Pimenta

parece-me que adoptou mais sensato papel nestas tragedias. Não quer

saber de nada; não se importa com gazetas nem com governos. A emigração

aproveitou-lhe... É verdade, elles não virão hoje? São dez horas! O

Taveira talvez esteja na reunião dos deputados; mas o outro onde estará?

São horas do chá...

--Se são horas, não esperemos, menina, que elles não vem.

--Ah! o snr. commendador já sabia que não vem?!

--Já. Fallaremos ámanhã, snr.ª D. Julia. Eu hei-de procural-a...--E

abaixando a voz, continuou em segredo:--Eduardo Pimenta comportou-se

indignamente comigo. Se lhe não dou a novidade de se estar planeando um

casamento n'esta casa sem minha licença, escuso de motivar-lhe o

rompimento de relações com tão inconveniente amigo. Pelo que toca a

Venceslau Taveira, esse não vem porque não quer. Sinto-o devéras. É

homem de honrada tempera. Lastimo que os seus amigos o não mereçam...

D. Julia, cogitando na inquietação da amiga, não prolongou as segredadas

confidencias. Acercou-se disfarçadamente do cravo e dedilhou no teclado.

O commendador ergueu o rosto de sobre o periodico, fitou a hospeda e

disse-lhe:

--Onde está Anna?

--Vem ahi.

A menina entendeu o relance d'olhos de Julia. Detiveram-se alguns

minutos silenciosos na sala. O velho continuou a ler, em quanto Julia,

interrogada pelos olhares anciados de D. Anna, esperava o ensejo

favoravel de apartar-se com ella e revelar-lhe as más novas.

Do mesmo passo que o commendador ouvia contrafeito as prophecias

politicas de um primo conego da patriarchal, que alli ia sempre,

depois de ceia, digerir o bôlo copioso, psalmeando threnos em prosa de

conego sobre a futura perdição dos cabidos, D. Julia referia,

commentando as palavras do pae da sua amiga.

D. Anna Vaz, primeiro estupefacta, depois agitada, e por fim afogada em

lagrimas, escondeu o rosto no seio de Julia para que as criadas lhe não

ouvissem o soluçar. Baldaram-se as consolativas esperanças da

confidente, que parecia não ter nenhumas nos seus alvitres. Pelo

espirito de qualquer d'ellas não sombreou sequer o mau pensamento de

recorrer da vontade paterna para o poder civil. N'aquelle tempo as

paixões das donzellas, contrariadas pelos paes, raras vezes iam dizer da

sua justiça no tribunal. Usavam-se então umas mordaças, que fechavam os

respiraculos dos corações rebeldes ao alvedrio paternal: era o convento.

O mais egregio amor de mulher, leal ao seu amador, era aquelle que de

bom animo vestia o habito monacal, e depunha aos pés da cruz a corôa do

noivado. Estas nupcias com o divino esposo quasi sempre se contrahiam,

levando a esposa o coração repleto de odio e calor do inferno para o

cenobio, onde mais tarde a benigna hypocrisia lhe segredava refrigerios

e tonicos restaurantes.

N'isto cogitava D. Julia de Miranda, quando disse á sua amiga:

--Faz o que te peço, filha. Não mostres resistencia á vontade de teu

pae. Finge-te resignada. Entrega ao tempo o que não podemos conseguir

com irritações; que não vá teu pae fechar-te no convento, onde eu

estive dois annos por causa de teu irmão. Cuidei que poderia

recalcitrar, porque era tratada com mimo de filha unica. Enganei-me. Fui

convidada a dar um passeio até ao Campo Grande; voltamos a visitar a tia

Clotilde no convento de Sant'Anna; entrei na portaria para abraçal-a; e

lá fiquei infernada até que meu pae me tirou por saber que teu irmão,

envolvido com os jacobinos, emigrára para Londres. Aprende de mim,

filha. Dissimula quanto poderes, e confia no tempo e nos milagres da tua

constancia.

--Na morte é que eu confio...--replicou Anna, apertando a mão de Julia.

--Tens febre... A tua mão escalda!--clamou a surprehendida senhora.

--Vou deitar-me... Doe-me muito a cabeça... Não posso voltar á sala...

Está lá gente, e não quero que me vejam assim... Olha, se vires Eduardo,

dize-lhe que me escreva, que me deixe morrer com a certeza de que elle

me lamenta e ama, sim? Não te custa a trazer-me as cartas, Julia?

--Não, filha; sem tu m'o recommendares, já eu tencionava dar-te esse

prazer; mas com a condição de que has de ter coragem e prudencia.

--Pois sim, pois sim: faço o que tu quizeres...

--Então, vem á sala.

--Não posso, Julia... Olha que me sinto muito doente. Hei de estar

melhor ámanhã, depois de chorar muito.

O commendador, n'este lanço, mandava perguntar á filha se o chá

teria demora, porque o conego, eructando o mal esmoido repasto nocturno,

reclamava uma bebida digestiva.

Foi Julia á sala, e disse que a sua amiga se deitára molestada da cabeça.

Francisco Vaz cravou os olhos coruscantes na hospeda e murmurou:

--Já?! tão cêdo...

--São onze horas--disse Julia.

--Não me refiro ao relogio; é á cabeça--replicou o commendador, acerando

a ironia com um sorriso, que deu que scismar ao primo conego.

Depois do chá, D. Julia ainda foi á alcova de Anna. Encontrou-a a ler as

cartas de Eduardo, humidas de lagrimas. Beijou-a reiterando promessas e

esperanças que ella fundava no muito amor que o pae lhe tinha.

--Quem sabe?--concluiu ella, modificando a sua primeira opinião--talvez

que um poucochinho de febre assuste o extremoso coração de teu pae, e,

em vez de te levar á sepultura, te conduza aos braços do teu Eduardo!...

Este erotico dizer, que não revia candor d'alma capaz de edificar as

virgens legendarias, foi apimentado por certo sorriso que travaria ao

acre da malicia feminil, se tal conjectura coubesse em dama tão exemplar

na edade em que os impulsos da innocencia não são vulgares.

O velho, á meia noite, mandou saber de sua filha. Soube que a menina

estava muito afogueada, e ao mesmo tempo pedia á sua criada de

quarto que a cobrisse com mais cobertores, porque tiritava de frio.

Ante-manhã já o inquieto pae andava no corredor contiguo ao quarto da

enferma. A creada sahiu espavorida da antecamara, dizendo que a fidalga,

ahi pelas tres horas, delirára na febre, e se lançára do leito a querer

abrir as janellas, quando a chuva estalava nas vidraças.

--Vá dizer á menina que eu quero vêl-a--mandou o commendador já

attribulado.

Abeirou-se o velho do leito, onde ella o esperava, encostando a cabeça

esvahida á almofada do espaldar. Elle chamou-a cariciosamente,

apalpando-lhe as faces esbrazeadas; e ella, sorrindo-lhe com meiguice de

quem implora indulgencia, beijou-lhe a mão.

Poucas palavras se trocaram, e nenhuma que viesse ao ponto da causa da

doença. Disse o pae que ia chamar medico. Pediu-lhe a filha com um gesto

meigo que não, e accrescentou:

--Isto não é nada, papá.

Não obstante, o medico, chamado com urgencia, receitou-lhe o que quer

que fosse medicinalmente gastrico, entendendo que a viscera mais nobre,

o estomago, devia ser a primeira a medicar-se.

Tanto o pae como a filha repelliram a sciencia representada n'uma poção

em que de certo não entrava o contra-veneno do amor. Bem sabia o

commendador que os phyltros cupidineos não cedem aos revolucivos que

debellam as lombrigas.

D. Julia chegou ao meio dia, encerrou-se com a doente, e deu-lhe

uma receita de virtudes febrifugas. O doutor, quem quer que fosse, ao

avêsso do ancião de Coz, abreviava a arte para alongar a vida. Era

medico de mão cheia. Leu a febril menina o bilhete de Eduardo, e para

logo as rosas do rosto se desmaiaram nos alvores da assucena. O pulso

quebrou, os labios purpurejaram-se, e a arida lingua lubrificou-se.

Milagres que a cada passo se topam nos florilegios, por influxo de

agentes d'outra procedencia. N'estes, ha therapeutica do céo; n'aquelles

prodigios de natureza toda humana, entra droga das boticas de Fausto, de

Hamlet, de Manfredo, e de outros heroes do luciferino bardo que cantou

as «Trevas».

Livro de Consolação: Romance · 第 5 / 14 段