intallador na garganta do homem. Preparára-se para outro desfecho.
Contava com lances irritantes que explicassem a sua ausencia da casa do
commendador. A situação por tanto era a mesma, era boa, mas elle
queria peoral-a. Venceslau não amava D. Anna; mas elle, para acerbar o
trago do seu absyntho, queria immolar-se ao amigo, recolher outra vez o
coração ao seu tumulo, revestir o crepe d'uma segunda viuvez, e
recomeçar o seu ir-se d'olhos no céo pelas regiões sombrias da saudade
immortal.
Devia ser isto o que martellava o peito do homem, quando elle entrou no
pateo d'um palacete ás Amoreiras.
Morava ahi D. Julia de Miranda. Estavam os cavallos postos á traquitana;
e já na escada fremiam os vestidos da fidalga, quando elle entrou.
--Está aqui, snr. Pimenta!--exclamou Julia.--Procura-me ou vae de passagem?
--V. Exc.ª vae sahir; voltarei, quando lhe não for tão incommodo.
--Não, senhor: suba. Eu ia a compras que posso adiar, e talvez fosse
jantar com a minha Annica; mas, como não sou esperada, não receio que
ella se queixe. Suba. Ha muito que eu ambicionava o prazer da sua visita.
Eduardo deu-lhe o braço, e entrou pela primeira vez nas magestosas e
severas salas do desembargador Miranda, que se prezava (isto vae como
nota) de ter n'ellas as principaes alfaias dos marquezes de Tavora,
condemnados ao supplicio por seu pae--acquisição, a das alfaias,
legitimamente feita, por ter sido um brinde do marquez de Pombal ao
ministro que, em particular e não por sentença, incumbíra os tres
carrascos de mostrarem previamente á marqueza de Tavora, D. Leonor,
os supplicios reservados para o esposo, filho e parentes.
Ditas as frivolidades usuaes, Eduardo ageitou o semblante ao proposito,
e por esta maneira respondeu á curiosidade de D. Julia:
--Sahi ha pouco de casa de Venceslau Taveira...
--Foi talvez--interrompeu a dama--felicital-o por ter sido eleito
deputado? Eu mandei-lhe agora mesmo o meu bilhete de visita. Não sabe
quanto folguei com esta prova dada ao talento e á virtude d'aquelle
rapaz! Deve-o a si, á sua dedicação, e a nenhuns protectores.
--É verdade, minha senhora, Venceslau é um complexo de excellencias que
ha de ir muito longe, se a distincção é carreira em Portugal. Fui lá;
mas, snr.ª D. Julia, o meu espirito ia tão preoccupado d'outro assumpto
que nem me occorreu dar-lhe os emboras. V. Ex.ª consente-me que eu seja
rasgadamente franco nas melindrosas confidencias que lhe vou fazer?
--Oh! pois não!
--Dá-me a honra de eu a considerar minha amiga?
--E sou deveras, snr. Pimenta.
--E portanto faculta-me a liberdade de lhe fallar como se falla a... uma
irmã?
--Assim é que me consideram as pessoas de quem sou sincera amiga.
--V. Ex.ª tem n'essa conta a snr.ª D. Anna Vaz.
--E muito no intimo da minha alma. Não lh'o disse ella?
--Raras vezes tenho trocado duas phrases com a snr.ª D. Anna; mas
facilmente conheci a intimidade que liga dois anjos. Quando voltei do
desterro, era eu em Lisboa um como desamparado dos mais vulgares
affectos. Ninguem me saudou, ninguem me deu o festival abraço do
bem-vindo; nada me deu a conhecer que pizava chão da patria; o céo era
pesado e silencioso para mim como o do exilio; todas as physionomias me
eram estranhas: vi-me proscripto entre os homens que fallavam a minha
lingua, sem me darem d'ella uma das doces palavras que fazem sentir a
patria na alma e no coração. Repulso das caricias da familia para os
braços d'uma adorada mulher, nas agonias do trespasse, como que, ao
mesmo tempo, me vi viuvo e orphão. Arrastei o meu lucto, oito annos de
emigrado, e, ao saltar em terra portugueza, a dôr pungia-me mais, porque
não achei ninguem que me désse um peito onde encostasse o rosto coberto
de lagrimas. Redobrou-se-me o tedio da vida. Invejei a paz dos mortos.
Abominei-me pela cobardia de viver...
--Tendo um amigo como Venceslau Taveira!...--interrompeu D. Julia,
retendo a custo as lagrimas justificadas pela toada plangente d'aquella
bem discursada elegia.
--Venceslau--tornou o lastimado Pimenta--é um caracter nobilissimo;
porém n'elle as operações reflexivas e frias da razão predominam as
outras faculdades. Não sei se elle é capaz de grandes paixões; mas
experimentei que as paixões alheias não o desvairam das linhas que
pautou aos actos do seu bem ordenado juizo. Venceslau consolava-me
com as theorias e dictames dos pensadores de gabinete; mas eu, fóra do
ambiente sereno do meu amigo, encontrava as tempestades soltas que me
baldeavam a alma por quantos golphãos se abrem aos pés de quem uma vez
tomou nos braços o cadaver d'uma mulher formosa e amada, e o collocou
debaixo da enxada de um coveiro.
N'este lance, Eduardo, quanto dos olhos marejados cumpria inferir, tinha
ante si o phantasma de Antonia, não como apparição do anjo consolador,
mas sim a reprovar-lhe a invocação da sacratissima memoria para o
entrecho d'uma comedia ignobil, com seus entremeios de declamação tragica.
D. Julia, d'esta feita, não pôde estancar duas lagrimas, signaes da
enternecida admiração que lhe estava entrando na alma pelos desastres de
tão sensivel quanto infeliz moço. E elle continuou, guardadas as pausas
da arte scenica:
--Quando Venceslau me convidou a ser apresentado ao commendador Vaz,
dizia-me uma voz secreta que este passo de tão simples natureza seria na
minha existencia uma phase nova, o marco erguido entre dois abysmos--o
que se fechou e outro que se abre.
--Porque?!--atalhou D. Julia.
--O presentimento, minha senhora; a vista dupla dos grandes
desgraçados...--a sombra do anjo negro que esvoaça á volta de mim, e ás
vezes me rossa no peito com a aza, como ave nocturna que bate na pedra
de uma sepultura. Agora diga-me V. Ex.ª se o meu presagio era
chimera de visionario. Entrei na sala do commendador, e vi duas
senhoras. Na face de uma desabotoavam-se em sorrisos as flores do
primeiro abril do coração; na face da outra havia uns toques de dôr, a
pallidez reflexa dos luctos do espirito, a formosura esculptural de
estatua que se curva a chorar sobre uma urna de cinzas. Esta era V.
Ex.ª; a outra, a innocencia radiando alegrias, era a snr.ª D. Anna Vaz.
Eu contemplei-as ambas com o olhar profundo de quem já viu muita alegria
de repente morta, e não viu ainda resurgir aurora de dia bonançoso para
quem uma vez sentiu anoitecer-se-lhe tudo que lhe era claridade.
Contemplei-as, e disse comigo: «Aquella que sorrí não me comprehenderia;
aquella que já chorou, e tem os vestigios de lagrimas no rosto, saberia
comprehendel-a eu.
D. Julia, n'esta passagem, abaixou os olhos, menos pudibundos que
sensiveis á fulguração penetrante dos olhares de Eduardo. E logo,
inspirado pelo mavioso gesto da dama, continuou:
--V. Exc.ª concedeu-me liberdade de irmão... recorda-se?
--Sim...
--Não me está accusando no silencio da sua alma?
--De quê?
--Nem me accusará?...
--Posso eu prever até onde irão as suas confidencias?
--Estão em principio, minha senhora... não tardo a concluil-as...
Mas...--disse elle com suspensivo receio, adocicando o aranzel á
feição de galan timido:--No semblante de V. Exc.ª ha uma alteração que
me está opprimindo...
--Isso é illusão de V. S.ª; mas não se admire, se me vê mais triste...
Eu não posso ouvir friamente referencias ás desventuras que V. S.ª não
ignora...
--Disse-m'as Venceslau. Bastou que elle me lembrasse o nosso companheiro
de emigração, aquelle gentil espirito a quem V. Exc.ª está honrando com
esses prantos, que nenhum homem, nenhum amor, nenhuma paixão fará estancar.
A este tempo, D. Julia embebia no lenço as lagrimas e abafava os soluços.
--Dôr respeitabilissima! coração fechado ao alvorejar de
esperanças!--proseguiu Eduardo enfaticamente.--Como ousaria voltar eu a
pôr olhos na face da martyr, sem medo de profanal-a! Quantos homens a
teriam visto e amado, snr.ª D. Julia! quantos labios se teriam cerrado,
afogando as temerarias revelações d'um amor vehemente! Quantos pensariam
disputar á memoria de Antonio Vaz morto o coração da sua esposa
promettida, do anjo comtemplativo de uma imagem entrevista no céo! Eu
não! e todavia...
D. Julia fez um gesto de antôjo, que eu, na minha ignorancia de traduzir
todos os gestos de senhoras, não me atrevo a certificar que fosse
enfado. Era um mover-se altivo de cabeça e um alçar de olhos com um
franzido de fronte--coisas que a gente vê nos palcos e nas salas,
sem decidir onde o movimento obedece á rubrica, ou á natureza.
Como quer que fosse, Eduardo quasi que se estupidificou e amarelleceu,
principalmente quando a filha do desembargador, abrindo um sorriso acre,
disse:
--Cuidei que o snr. Pimenta ia fallar-me da minha amiga Anna Vaz.
--Não se enganou, minha senhora...
--Já sei que me vae dizer que sentiu por ella o digno amor que lhe tem
declarado nas suas cartas...
--Sem duvida...
--E eu lhe assevero que ella o ama com toda a candura e sinceridade dos
quinze annos.
--Ignorando que me realisou o presagio dos renovados infortunios...
--Que infortunios!.. Vê tudo tão negro, senhor Eduardo!...
--Como hei-de eu dizer a V. Ex.ª que vou fugir da sua amiga, á
semelhança de quem foge d'um segundo abysmo?
--Fugir!... que ingratidão!...
--E que injustiça me faz, snr.ª D. Julia! Ingrato, eu! Se uma alma
invocada podésse descer do céo a depôr contra essa dolorosa
iniquidade!... Eu, que nem pude ser ingrato a uma sombra!...
--Se não é ingrato, que nome darei ao homem que motivou um amor extremo,
e diz que vae fugir da pobre menina que nenhum desgosto lhe deu? Quem o
obriga a fugir?
--A honra.
--Pois semelhante amor deshonra-o?
--Condemna-me aos olhos de Venceslau Taveira. V. Ex.ª sabe-o.
--Que sei eu? Que Taveira tem umas singulares theorias a respeito do
cavalheirismo...
--Sabe mais... Sabe que Taveira amava D. Anna Vaz quando eu lhe fui, em
funesta hora, apresentado.
--Não tenho a certeza de que elle a ama...
--Mas attribuiu a ciumes a má vontade com que elle me via bemquisto da
amiga de V. Ex.ª
--É verdade, suspeitei ciumes; mas V. S.ª mais de perto e com melhor
percepção lhe terá sondado o espirito...
--É insondavel... Disse-me que a não amava; mas tambem me não soube
dizer porque eu não devia amal-a.
--E em resultado d'essa conferencia enigmatica, deixa V. S.ª de amar a
minha innocente amiga!... Não sei qual dos dois é mais excentrico!
Pobres mulheres! Vá lá uma alma dar-se infantilmente a um coração frio
que traz o seu amor n'um prato da balança, e uns problematicos pontos de
honra na outra!... Acha bonito que seja sacrificada a minha amiga á
conciliação cavalheirosa de V. Sas.? Ai! felizes aquellas que não
amaram nunca!... e as que amaram e perderam um homem de coração, fechem
os olhos para o amor como elle os fechou para a vida... Acabei de
entender o fim da sua visita--continuou D. Julia com mui senhoril
compostura e gravidade.--Vem encarregar-me de avisar Anna Vaz que...
--Não, minha senhora--accudiu Eduardo--o infortunio é conciliavel com a
delicadeza. Quando me eu lembrasse de encarregar V. Exc.ª de tal
commissão, o meu logar era no pateo com os creados d'esta casa, e não
n'esta sala onde V. Exc.ª me está honrando, e soffrendo com mais que
extrema indulgencia. Vim, minha senhora, pedir-lhe que me diga até que
ponto o que devo a Venceslau e o que devo á filha do snr. commendador
Vaz podem congraçar-se sem despundonor para mim. Vim, minha senhora...
E, levantando-se de impeto melodramatico, fitou D. Julia com estranha
fixidez, e ajuntou:
--Vim pedir-lhe a sua amisade...
--Tem-n'a, sincera, profunda e inalteravel.
--Não tenho...
--Não tem? outra singularidade! Porquê?!...
--Porque V. Exc.ª, prêsa sagradamente á memoria de Antonio Vaz, não póde
ser verdadeiramente amiga do homem que, a não poder merecel-a, quereria
ser na sua alma a imagem d'um morto bem amado.
E sahiu apertando-lhe com estremecimento a mão.
D. Julia não respondeu senão palavras balbuciantes, ou porque estivesse
digerindo a substancia d'aquellas palavras abstruzas, ou porque ficasse
passada do imprevisto desfecho do dialogo.
Sei mal o que foi, e sei menos ainda que scismar era o seu com a
face encostada á palma da mão direita, relançando a espaços a vista para
um grande espelho, onde se via toda. Estaria ella perguntando á copia do
aço se o original estava nos seus momentos de formosura quando o gentil
moço lhe dizia coisas d'uma escandecencia original?
A gente sabe lá o que as senhoras dizem aos espelhos!...
IX
A desgraça não os tomará de assalto. Bom é esperal-a, para que a
alma se lhe affaça, e o supportal-a seja menos exulcerante.
LUCIANO,--_Da Astrologia._
D. Julia não se ficou todo o dia scismatica, a remirar-se no espelho. Os
cavallos ainda escarvavam as lagens apostos á traquitana. Sahiu, e foi,
como tencionava, a casa do commendador Vaz.
--Olha que estou afflicta, Lulu!--exclamou Anna, atirando-se-lhe aos
braços.
--Afflicta! que é?
--O papá, hoje depois de almoço, ficou sósinho comigo, e esteve a
dizer-me que Venceslau era muito bom rapaz, muito esperto, muito
fidalgo, e que ainda havia de ser um grande homem em Portugal.
--E depois? aposto que te fallou em casares com elle?
--Isso mesmo... Já viste infelicidade assim?
--Então o Venceslau pediu-te?
--Eu sei cá! Talvez... Não sei... O papá nada me disse, senão isto: que
eu seria a mais ditosa creatura, se casasse com elle.
--E tu, fizeste biquinho? choraste?--voltou Julia, rindo.
--Chorei muito, mas foi no meu quarto; porque o papá, vendo que eu não
respondia sim nem não, esteve a olhar para mim com os olhos mal
encarados, e disse-me: «dar-se-ha caso que a tua cabeça tenha lido
alguma leviandade? Anna, vê lá o que fazes e o que tens feito. Com teu
pae não ha segredos nem disfarces.» E, depois, disse já muito zangado:
«Respondes ou não? Se a tua boa estrella te dér por marido Venceslau,
agrada-te este casamento?» Eu que havia de responder, Lulu? Dize lá, tu
que respondias?
--Eu sei, filha!.. essas respostas só sabe dal-as quem se vê nos apertos
de taes perguntas. Respondeste que sim?
--Fiquei atemorisada... nem soube o que respondia... Respondi que fazia
o que o papá quizesse... Elle então deu-me a beijar a mão e sahiu; e eu
fui chorar para o meu quarto. D'ahi a pouco, voltou o papá, bateu-me á
porta, eu limpei as lagrimas e escondi as cartas de Eduardo que estava a
lêr. Disse-me elle então que ia dar ao Venceslau os parabens por ter
sahido deputado ás côrtes; e tornou a fazer-me a mesma prégação das
virtudes e talento do Taveira, dizendo que elle era deputado aos vinte e
oito annos, e seria ministro de estado antes de ter quarenta. Ora que me
importa a mim cá isso? não me dirás? Aqui tens, Lulu, quanto eu sou
desgraçada! Foi Deus que te trouxe. Tu has de valer-me, has de
aconselhar-me, sim?
--Socega--respondeu Julia.--Se o teu casamento com Venceslau depende da
vontade do noivo, estás tu bem.
--Sim? conta lá o que sabes!... que sabes tu, Julinha?
--Sei que Venceslau não te ama.
--Não? ai que alegria! quem t'o disse?
--O Eduardo.
--Sim? viste-o hoje?
--Esteve em minha casa.
--Esteve? que foi lá fazer? Eu não sabia que elle ia lá!
--Foi contar-me o que passára com o Taveira a teu respeito. O amigo
affirmou-lhe que não teve ideia alguma de te amar, mas elle, apezar
d'isso, desconfia que sim...
--Oh diacho! isso é máo?
--O que é máo?
--Se o papá lhe pergunta se elle quer casar comigo, e elle diz que
sim... E depois? ai! que má sorte a minha!... Que desgraça!
--Que lamuria, Deus da minha alma!--atalhou D. Julia sorrindo ás
lastimas e gesticulação da linda creança.--Não te disse eu já que
Venceslau não te ama?
--Disseste, sim.
--Pois se te não ama, que importa que teu pae lhe offereça uma esposa
que elle não quer?
--Achas, Lulu?
--Acho; mas...
--Que é?... estás com medo que elle queira? é isso?--voltou já muito
alarmada a filha do commendador alternando as ancias desabaladas com os
tregeitos jubilosos.
Em quanto o volatil espirito da menina avoejava das conjecturas risonhas
para as tristes, e D. Julia, presumindo-se interprete do coração humano,
folgava de serenar ou alvorotar as inquietações da sua candida amiga,
corria o seguinte dialogo entre o commendador e o deputado.
. . . . . . . . . . . . . . . . .
--A minha admiração--dizia Francisco Vaz--foi grande quando hoje li a
fausta nova da sua eleição, meu caro senhor e amigo...
--Admirou a grandeza do encargo em tão pequeno vulto? Tambem eu me
assombro da irreflexão do governo, que me indicou e do povo que me
elegeu, quasi sem me conhecer.
--Não foi isso que me admirou, cavalheiro que sabe tão destramente
embeber no arco da modestia a frecha da ironia. Innocente como a pomba,
com sua malicia de serpente, seu maganão!--dizia o commendador
espirrando uns sorrisos de inoffensiva perspicacia.--Sabe o que me
admirou? foi a nenhuma importancia que V. S.ª dava ás honras que
lhe estavam eminentes. Já hontem o meu amigo sabia que era representante
em côrtes e não quiz dar-me a satisfação de m'o annunciar!
--Se o ser eleito me désse gloria, V. S.ª seria o primeiro a participar
do meu desvanecimento; porém, se a missão me é penoza, como hei-de eu
suppôr que os meus amigos se regosijem?
--Ora vamos, ora vamos. Deixemos os Cincinnatos desprendidos da gloria
ao fabulario da historia romana. Eu não consinto á natureza humana tal
desapêgo, mormente se a façanha incrivel se dá em moço de vinte e oito
annos, pouco abastado em bens...
--Pouco!--interrompeu Venceslau a sorrir.--Parece-me que eu já disse ao
snr. commendador que vivo do meu trabalho, e que, se a doença me impedir
de escrever, terei de pedir um catre ao hospital.
--Ó pavorosa imaginação! ó ingrato amigo!--acudiu o commendador,
batendo-lhe no hombro com ares de affectuoso despeito.--Venceslau
Taveira, se adoecer, não vae para casa do velho Francisco Vaz; não,
senhor; Francisco Vaz é um desprezivel amigo; o doente irá para o
hospital. Com effeito, moço! paga-me generosamente!--proseguiu
severisando o aspecto.--O enfermeiro de meu filho Antonio, o caridoso
anjo que adoçou o fel da agonia do exilado, o amigo que deu lagrimas e
sepultura ao cadaver de meu filho, é o mesmo que diz ao velho pae do seu
morto companheiro: «Eu, se adoecer, não quero o teu leito, nem os teus
cuidados, nem a tua gratidão! Irei para o hospital, para que não
possas pagar-me parte da divida de teu filho, que me expirou nos braços.»
Venceslau abraçou o commendador com enthusiasta commoção, murmurando:
--Se o offendi, perdôe-me em nome de seu filho. Eu não suppuz que V. S.ª
désse tal interpretação ás minhas palavras irreflectidas.
--Está perdoado, porque peccou involuntariamente. Bem sabia eu que não
ha orgulho tamanho em homem que exercitou a caridade com tantos... Póde
ser que o amigo intimo de meu filho despreze as honras de deputado, e
acceite com vaidade o coração de pae que lhe offerece o pae do seu
defuncto amigo.
Venceslau curvou-se e beijou a mão do commendador, o qual, exultando, e
estreitando ao seio o moço, continuou;
--Quer-me parecer que ha o que quer que seja providencial na sua
intimidade com o meu Antonio!... Vou fazer-lhe uma pergunta, snr.
Taveira: O meu filho nunca lhe disse que tinha uma irmã?
--Muitas vezes me fallou d'ella, como se falla de uma creancinha muito
formosa, e d'uma irmã acariciada como filha. Quando Antonio Vaz morreu,
a snr.ª D. Anna teria, quando muito, sete annos. Recordo-me dizer-me
elle, dias antes de morrer, que seria menor a sua paixão de acabar tão
longe dos seus, se a irmã estivesse em edade de comprehender a angustia
do pae, e podésse consolal-o com os sentimentos do coração capaz de
intelligentes lagrimas. «É muito nova--dizia elle--verá chorar o
pae, terá alguns momentos de saudade, e irá logo depois distrahir-se com
os seus brinquedos.»
--Enganou-se o meu infeliz filho--disse o commendador enxugando os
olhos.--A creança tinha coração de mulher. Quando eu lhe disse «teu
irmão é morto», Anna abraçou-se a mim, debulhada em chôro,
exclamando:--Não morra, meu querido pae; deixe-me primeiro morrer a mim,
que fico sem ninguem n'este mundo. Este grito da menina que presagiava a
orphandade, deu-me forças sobre-humanas. Defendi-me da morte com a minha
filha no colo. E, quando me sentia desfallecer e estalar de saudade,
voltava-me para Deus, mostrava-lhe a creança, e dizia «Se me deixaes
morrer, Senhor, aqui a tendes, amparae-m'a!» Foi ella quem me amparou a
mim; ás suas reminiscencias estava eu sempre pedindo memorias de meu
filho; ella contava-me as pueris historias que lhe ouvira; mostrava-me
as bonecas e bugiarías que lhe elle dera. Se me via chorar, chorava, e
folgava de me vêr chorar, dizendo que eu, depois que respirava assim da
cerrada oppressão, lhe parecia mais animado. Eu cobrei alivios de muito
amargurar-me. Ha saudades que esquecem delidas por esperanças. Não pude
eu esquecel-as assim. Outras nunca esquecem, mas deixam de pungir: dóem,
mas desafogam-se no seio d'um bom anjo que nol-as leva á alma que
choramos. O meu anjo medianeiro com meu filho era Anna. Ella vinha
contar-me em sobresalto que vira em sonhos o irmão a sorrir-lhe. E eu
acreditava; e, se ella piedosamente me enganasse, ainda assim
abençoaria a sua caridade. Aqui tem, snr. Venceslau, proseguiu o
commendador restaurando o folego afadigado por soluços que, a espaços,
lhe embargavam a voz--aqui tem o que foi a minha filha em menina muito
tenra; e hoje, que ella vae nos seus dezeseis annos, peço-lhe, snr.
Taveira, que desculpe ao amor paternal, o bom conceito em que a tenho...
--Em que a temos todos os que a conhecemos.
--Alegra-me essa opinião--exclamou o velho com vehemencia--enche-me de
santa vaidade, porque vem d'uma sincera alma! Não quiz Deus que meu
filho Antonio participasse da minha alegria, encontrando a creança, que
me deixou nos braços, a amparar nos seus a minha velhice. Como elle
amaria esta irmã! como seria bem-aventurado a esta hora entre os dous
santos amores que o esperavam--o de Julia, a sua amada desde a infancia,
e o da irmã, que rivalisaria com a esposa no empenho de o cumularem de
contentamentos! E quem sabe, snr. Venceslau Taveira, quem sabe se meu
filho, tentando completar a felicidade sempre imperfeita n'esta vida,
pensaria no modo de identificar em coração á sua familia o honrado
companheiro de desterro, o consolador nos desalentos, o irmão na
soledade da terra alheia, o confidente nas saudades cruciantes, o
enfermeiro na doença, o exemplo emfim da coragem, da probidade, e do
esforço caritativo, d'essa grande virtude dos ricos, e divino prodigio
dos pobres...
--Oh snr. commendador!--atalhou Venceslau--a sua amisade vae tão adiante
do que eu fui e sou...
--Quem sabe--ajuntou Francisco Vaz, apertando convulsamente ambas as
mãos do deputado--quem sabe se meu filho, para fazer seu e da sua
querida familia o homem de bem, lhe diria um dia, mostrando-lhe a irmã:
«Venceslau, se amas esta doce creatura, sê meu irmão; sê filho de meu
pae que t'a offerece; entra no seio das nossas mais intimas alegrias;
deixa-nos afazer á ideia de que não é só a gratidão, mas tambem laços de
sangue que nos prendem.» Que responderia ao seu Antonio Vaz, snr. Taveira?
O interrogado, colhido de sobresalto, emmudeceu, enfiou, passou a mão
pela fronte, e sentiu momentos de verdadeira angustia.
Estranhando a confusão silenciosa, o commendador não podia dilucidar o
que havia aviltador ou respeitavelmente justificado n'aquella mudez,
semelhante a uma resposta negativa e indelicada.
--Impressionei-o dolorosamente!--balbuciou o velho.--Receba-me como
gracejo de louco ou de amigo essas palavras que o perturbaram,
snr. Taveira.
Venceslau abraçou-o com impetuoso fervor, e disse:
--Faça-me justiça!...