Falleceu este moço nos braços de Venceslau Taveira, pedindo-lhe que, se

um dia regressasse á patria, procurasse em Lisboa seu pae, e lhe pedisse

que entregasse á sua promettida esposa o retrato que lhe confiava.

O portador do triste legado cumpriu a vontade do moribundo seis annos

depois.

O commendador acceitou o retrato, e voltando-se para uma senhora, que

estava ao lado de sua filha no canapé, disse:

--D. Julia, aqui tem o seu retrato.

Venceslau inclinou-se profundamente diante da querida do seu amigo e disse:

--Era V. Ex.ª digna da paixão de Antonio Vaz, porque, se a comparo com o

retrato, noto que a semelhança foi já apagada pelas lagrimas. A

formosura da mocidade foi substituida pela formosura da mágoa.

Julia, muito commovida, pediu ao portador do retrato que lhe referisse

as particularidades da vida e morte de Antonio Vaz. Depois, disse ella

que o seu malogrado noivo lhe contava em cartas as virtudes do seu amigo

Venceslau Taveira, e os impagaveis carinhos de irmão com que elle

tentava suavisar-lhe os espinhos da saudade, alentando-lhe com

esperanças o animo quebrantado. Terminada a sensibilisadora

reminiscencia das cartas, proferida entre soluços, D. Julia apertou a

mão de Venceslau; e, levando-a aos labios, apesar do esforço d'elle,

balbuciou:

--Beijo a mão que fechou os olhos do meu extremoso amigo!

Pouco depois, chegou uma sege á porta do commendador, e logo depois

entrou um criado a annunciar que era esperada a snr.ª D. Julia de

Miranda. Venceslau, obtida licença de Francisco Vaz, deu o braço á dama,

e levou-a á traquitana, reparando então que o cocheiro e lacaio vestiam

libré, indicativa de familia illustre.

Voltando á sala, contou-lhe o commendador estas admiraveis coisas de D.

Julia:

Era filha d'um desembargador do paço, já defuncto. Herdára trezentos mil

cruzados em propriedades rusticas e urbanas. Tinha vinte e sete annos de

idade, e deixára de ser formosissima desde que a paixão por Antonio Vaz

a desfigurou, mostrando-lhe repetidas vezes a morte no seu espelho o

semblante cadaverico. Mas contou o commendador que, sem impedimento da

decadente belleza, eram muitos os pretendentes á mão de Julia, bem que

no pensar do ironico sugeito, muitos haveria que a tomassem por esposa,

ainda que ella não tivesse mãos, tão necessarias ás formulas

sacramentaes do matrimonio.

Assim começaram as boas e logo familiares relações do escriptor com esta

excellente familia. Rara noite Venceslau deixava de visitar o agradecido

fidalgo, cujas ideias liberaes a morte do filho perseguido acrizolára.

Fugiam as horas de alegre palestra entre os dois, em quanto D. Anna

estudava as suas lições de musica, para depois, ao fim da noute,

conversar em francez com o jornalista.

Intencionado a divertir Eduardo das suas abstracções penosas, Venceslau

apresentou o amigo, depois de prevenir os hospedeiros a favor da

tristeza taciturna do homem, que parecia assombrado do raio fulminador

da sua mocidade.

Acolheram Eduardo, tanto o pae como a filha, com tanta sympathia e dó

que, a poucos dias andados, já o confundiam na familiar lhaneza com

Venceslau Taveira. E esta bella alma alegrava-se quando o via tão bem

acceito, e já tão outro do que era nas escuras melancolias, pelas quaes

elle se havia feito aborrecer de quantos o tratavam.

Algumas noites concorria tambem D. Julia de Miranda, com o seu capellão;

homem de avançados annos, e tão amigo da fidalga que dizia idolatramente

que não era capellão, mas sim sacerdote d'aquella divindade.

Em um d'esses saráos, desconfiou Venceslau que o seu amigo, abeirando-se

do piano em que Julia tocava, lhe passára uma carta. Sobresaltou-o a

suspeita, como se o caso tivesse a importancia d'um delicto contra as

regras da sã moral. Não espanta semelhante estranheza em homem que

rossava pelos vinte e oito annos sem haver entregado carta de amores,

nem sequer ter sentido a precisão de escrever uma, no intervallo de dois

artigos politicos! A virgindade epistolographica é hoje, e era então

mais rara que todas as outras.

Aconselhou-lhe a prudencia que, antes de interrogar o amigo sobre o caso

suspeito, obtivesse e certeza, para que as advertencias assentassem na

culpa incontestavel. N'este em meio, chegou a Eduardo a nova da

morte do pae, e por tanto a sahida temporaria do herdeiro para a provincia.

No espaço dos dois mezes de ausencia, espiou Venceslau o coração de D.

Anna, e tão facilmente quanto era de esperar da candura da menina,

descobriu a saudade no empenho das perguntas e desejos de vêr as cartas

de Eduardo.

Além de que, D. Julia, em pratica sósinha com o jornalista,

perguntou-lhe se o seu amigo alguma vez lhe tinha confidenciado

sentimentos amorosos.

--Muitos e profundos, minha senhora--respondeu Venceslau, despercebido

da pergunta intencional.

--A respeito de quem?

--Da sancta que ha dez annos está no céo.

--Ah! eu não perguntava isso...

--Que era então, snr.ª D. Julia?

--Já vejo que me enganei... Eu referia-me...

--Á sua amiga D. Anna Vaz? Respondo que não, minha senhora. Eduardo

Pimenta nunca me revelou, depois que D. Antonia de Portugal morreu,

affectos a outra senhora. Isto, porém, não é desmentil-o, se elle disse

o contrario. Eduardo é tão meu amigo que me não confia tal intento, se o

tiver.

--Porquê?--atalhou admirada D. Julia.--Os intentos, que um amigo esconde

de outro, são os máos. Revelar um affecto nobre, honesto e natural, é

prova de amisade. Aos inimigos e indifferentes é que taes segredos não

se communicam. O snr. Taveira, se amasse a minha amiga, duvidaria

revelar tão bom sentimento a Eduardo?

--Se Eduardo me houvesse apresentado n'esta casa, eu sahiria d'ella

pretextando um motivo acceitavel, e depois denunciaria a minha

pusillanimidade ao meu amigo.

--Santo Deus! como V. S.ª é austero!--voltou sorrindo a rica

herdeira.--Não cuidei que do estrangeiro se trouxessem regras de moral

tão rigorosas!

Venceslau fitou com desgosto o semblante ironico de D. Julia.

Penalisava-o o desconcerto da reflexão, impropria de tal dama, com o

primoroso juizo que elle compozera da sua sensatez.

E ella, que se viu encarada com estranheza, sentiu logo beliscado o amor

proprio, a fibra sensivel da vaidade de parecer moralmente perfeita.

--Não me parece--proseguiu a dama gravemente--desdourar-se um rapaz que

estima uma senhora da casa onde o apresentam. Conheço muitas amigas

minhas casadas e virtuosas, que encontraram affeições nobres e dignos

maridos em pessoas apresentadas na casa de seus paes. Póde ser que

d'outro modo se hajam casado muitas; mas eu, se fosse mãe, estimaria

conhecer os noivos de minhas filhas; e, se fosse noiva, preferiria ouvir

na sala de meu pae a ouvil-o da janella, para a rua, o homem que

houvesse de ser meu marido.

Taveira sentiu-se enredado na dialectica de D. Julia; mas, desatado dos

embaraços pouco menos de melindrosos, objectou:

--Eduardo Pimenta ha de ser sempre infeliz. A enorme desgraça da sua

mocidade foi repellão de vento que lhe apagou na alma toda a luz das

alegrias puras. A sombra d'uma martyr não consente que outra mulher,

embora seja um anjo, repouse venturosa no coração onde ella deve ter

deixado a sua imagem, como Deus deixou á porta do eden o archanjo da

espada de fogo.

D. Julia, maravilhada da ideia e da fórma, ia replicar, quando Venceslau

proseguiu, abalando-lhe o animo ás primeiras palavras:

--V. Ex.ª amou ardentemente o meu chorado amigo Antonio Vaz. Elle

morreu, e a snr.ª D. Julia, que não era sua esposa nem devia ao amor das

primeiras nupcias o honrado sacrificio das segundas, guarda á memoria do

homem amado a lealdade que eu respeito e que todos lhe admiram. Ficou V.

Ex.ª nova, bella e rica; e d'estes tres dons que raras vezes se

conciliam e tão desejados se procuram, fez V. Ex.ª realçar o merecimento

do seu holocausto ao amor unico da sua vida, querendo assim que a nobre

alma de Antonio Vaz se gose na bemaventurança da religiosidade com que

V. Ex.ª n'este mundo se lhe devota. Se a snr.ª D. Julia me permitte o

comparal-a, Eduardo Pimenta, está em ponto de maior obrigação e fineza á

alma de Antonia de Portugal. O homem que levantou nos braços o cadaver

da mulher lentamente assassinada por amor d'elle, não deve mais apertar

n'esses braços outra, se a essa tem de render os votos e palavras com

que venceu o coração da desditosa que lhe immolou mocidade, gentileza,

nascimento, parentes, contentamento, futuro, e até a memoria hoje em

dia despresada d'esses que ainda se lembram da martyr para a execrarem.

D. Julia, enternecida pelo convulso proferir d'estas vozes, não conteve

as lagrimas. Era n'este sentir grande parte o admirar, em moço tanto na

flor dos annos, um respeito assim fervoroso á consagração do primeiro

amor, e holocausto perpetuo e por tanta maneira penoso da alma á mulher

amada, primeira e unica.

Vendo-a pezarosa e absorta, Venceslau desculpou-se da crueldade de suas

tristes reminiscencias, e derivou a pratica a outros assumptos,

ageitando-se-lhe bom lanço com a entrada do commendador.

D. Julia, entretanto, foi ter com a sua amiga que de proposito se

affastára para dar logar ás averiguações que tanto interessavam ao seu

desassocego.

--Tu vens triste?!--perguntou Anna assustada.

--Triste, não; filha... Venho peor que triste... Não vês que chorei?

--Choraste!... é verdade!... Porque?

--Que rapaz é este Venceslau! Bem m'o dizia teu mano. Chamava-lhe elle o

coração de uma creança temperado pela prudencia de um velho sem manchas

na sua vida de moço. É assim... é admiravel; mas Deus nos livre que

todos os paes e noivos se parecessem com elle em escrupulos e severidade.

--Então que te disse a respeito do Eduardo?... que me não ama?

--Não lhe fiz semelhante pergunta, menina. Apenas me adivinhou a tenção

franziu a testa, mudou de aspecto, e reprovou que tu amasses um

homem nas circumstancias de Eduardo, viuvo de uma martyr, devastado por

essa grande e unica paixão da mocidade, incapaz de fazer feliz a mulher

que lhe pedisse amor impossivel; emfim, Annica, comparou-o na sua

posição com a minha, para vir a dizer, se eu bem o entendi, que não

deves arrancar o coração de Eduardo á saudade da outra desgraçada que

lhe expirou nos braços... Fallou-me de teu irmão, e fez-me chorar...

Olha, filha, é extraordinario este homem! Eu, quando o ouvia ainda

agora, sentia em mim não sei se assombro, se admiração, se profunda

sympathia por elle!

--Mas então...--interrompeu a infantil menina, como se as admirações ou

sympathias de Julia não diminuissem nada do seu alvoroço.--Disse elle

que Eduardo não me ama?

--Tal não disse, creança...

--Pois que foi? Eu não entendi...

--Nem admira que não entendas, filha. Vê se percebes o receio de

Venceslau: diz elle que o amor de Eduardo morreu com outra que elle

amou, e não póde repetir-se comtigo.

Anna fitou os seus fulgurantes olhos nos de Julia, quedou-se abysmada

longo tempo na sua contemplação, e, só depois de chamada pela amiga,

sorriu com mais tristeza do que se chorára, e murmurou:

--Para que me escreveu elle duas cartas a dizer que me adorava como os

anjos adoram a Deus?

--E eu creio bem que elle te adora, minha querida Annica...

--Não digas isso... Dize-me a verdade, porque eu...

--Tu... quê, filha?

--Eu perdi a minha alegria, ando triste, não penso senão n'elle; e antes

queria morrer que não o vêr mais...

--Pobre creança!... Não pensei que o amavas assim!--disse Julia

beijando-a e acariciando-lhe os cabellos.--Pois filha, tem esperança...

As coisas, que disse o Taveira, bem pensadas, importam pouco. Elle

entende a dignidade, o amor e o dever de um modo excepcional. Os

corações alheios hão de regular-se por preceitos mais faceis e humanos.

Se Eduardo te merecer, e teu pae consentir, que tem que cazes com um

homem que muito amou outra mulher digna d'elle? Peor seria cazares com

outro que houvesse sido mau marido, e quizesse fazer vêr isso como

virtude aos teus olhos... Mas... mas se...

--Mas se...--acudiu Anna impaciente da suspensão.

--Mas se teu pae impedir tal casamento? Ainda não pensaste n'isso?

--Não... É verdade... Se meu pae impedir... que hei-de eu fazer?...

--Eu sei lá, filha! Obedecer a teu pae; que outra coisa ha de fazer uma

menina da tua qualidade? Eu bem sei que teu pae é o fidalgo menos

vaidoso que eu conheço. Tenho-o visto ser egual com todos, e admittir em

sua casa pessoas de baixa extracção sem indagar a procedencia d'ellas;

mas tambem é certo que, uma vez, antes de cá vir o Eduardo, me disse

elle a mim que morreria feliz se te deixasse casada com um homem como

Venceslau Taveira... Ah!--esta subita exclamação de D. Julia foi

solemnisada com um bater de palmas significativo de valioso

descobrimento nos arcanos do coração.--Queres tu vêr que eu comprehendi

perfeitamente agora as repugnancias de Taveira?

--Sim? que é?

--É ciume, olha que é ciume! O Venceslau não t'o declarou; mas pensou em

te cortejar. Como tem um genio exquisito, esperava occasião de

manifestar-se a teu pae, antes de consultar a tua vontade. Mas eu que

tal não imaginava fui fallar-lhe do teu amor ao outro, e ahi tens a

razão porque elle expoz as extravagantes theorias, que eu nunca ouvi a

ninguem. Pois não é outra coisa, Annica. O Venceslau ama-te, e começa a

odiar o rival. Complicam-se as situações. Veremos o desfecho d'isto.

--Eu não caso com o Taveira, ainda que o papá me obrigue!--exclamou D.

Anna, batendo o pé, e tregeitando uns gestos de mimo, que davam a

lembrar irritações de menina por amor das bonecas.

--Pois então, creança--aconselhou Julia com o siso dos treze annos que

levava de vantagem á sua confidente--tem prudencia, não te precipites.

Parece-me que o Taveira, se teve aspirações, como creio que teve, á

tua mão, sabendo que o Eduardo te namora, é incapaz de prevalecer-se da

estima de teu pae para desviar o outro d'esta casa. Entretanto, é

preciso cuidado. Previne o Eduardo. Escreve-lhe, se não poderes

dizer-lh'o. Que se acautele; que não conte nada; que vá grangeando a

confiança de teu pae, até conseguir a intimidade que Venceslau obteve.

Depois, eu te auxiliarei, intercedendo a favor de Eduardo, se houver

resistencia.

Este dialogo precedeu a chegada do viuvo de D. Antonia.

Quando Venceslau Taveira, entre severo e jocoso, lhe feriu o melindre

com as ironias allusivas ao legendario D. Juan e á sacrificada filha do

commendador, já o mysterioso amador de D. Anna Vaz estava prevenido.

O ingrato acceitára as insinuações offensivas do caracter do seu amigo.

Não duvidou serem ciumes os brios, d'outro modo inexplicaveis, do seu

mentor gratuito. D'ahi a ancia de se desendividar a dinheiro, para assim

se emancipar da preponderancia que o seu valedor na emigração parecia

exercer-lhe na vontade, e mais que tudo no alvedrio dos seus amores.

Em meio d'isto, no animo do bracharense, transfigurado pelos quinze mil

cruzados, operavam-se curiosas perplexidades que o accusam de espirito

destragado talvez pela desgraça da sua juventude. Aconteceu, pois, que

estando elle na sala do commendador Vaz, ao mesmo tempo que D. Julia de

Miranda referia a um advogado presente o bom exito de certo pleito,

d'onde acresciam aos seus bens vinculos no valor de sessenta mil

cruzados, ouviu perguntar o pae de D. Anna ao capellão da opulenta

herdeira, em quanto orçava elle os haveres da senhora. E o padre,

recolhido alguns segundos, respondeu:

--Por morte do snr. desembargador, a snr.ª D. Julia succedeu em bens

avaliados pelo barato, em trezentos mil cruzados. Ora, como sua

excellencia não gasta os seus rendimentos, o seu dote cresceu em sete

annos dezoito a vinte mil cruzados. Ajunte-lhe V. S.ª o vinculo de

Collares, e póde sem receio de errar cem moedas, computar em quinhentos

mil cruzados a casa da snr.ª D. Julia.

--E que ha de ella fazer a tamanhos bens de fortuna?--perguntou o

commendador.

--Comigo não os levo para a cova--respondeu a dama.--Os vinculos irão a

quem tocarem; os bens livres a quem eu quizer.

Esta resposta rejubilou Francisco Vaz, esperançado que os filhos da sua

Anna viessem a herdar os bens d'aquella que vestira eterno lucto d'alma

por seu filho Antonio.

Mas, ao mesmo tempo, Eduardo Pimenta bascolejava no craneo uns

pensamentos, que não se inculcam por originaes nem torpes; mas que

merecem ser marginalmente assignalados por quem estuda a vida nos romances.

Dizia elle para dentro da sua consciencia:

--Esta mulher convinha-me. Andei muito depressa na declaração á

outra. Se Venceslau conseguir fechar-me uma porta, já sei a qual hei-de

ir bater. Anna inquestionavelmente é uma linda flôr; mas Julia de certo

é um fructo cubiçavel. Anna é um anjo de belleza; mas quinhentos mil

cruzados...

--Quinhentos mil cruzados--dizia Venceslau Taveira ao commendador, como

se désse complemento á phrase ou resposta á pergunta mental do

amigo--não bastam para comprar um dia de pura felicidade, se o possuidor

os não depõe nas mãos da Caridade, segunda mãe dos orfãos, e divindade

luminosa nas almas que a desgraça entenebreceu. Quinhentos mil cruzados

não vingam ajuntar mais uma hora de vida aos que se estorcem nas ancias

da morte, com as mesmas contorsões dos que expiram nos muladares e nas

palhas fetidas dos sótãos.

--Isso é pavoroso!--disse Eduardo Pimenta, contando com o applauso dos

circumstantes.

Riu-se apenas o capellão, talvez despeitado por vêr que um profano lhe

tomava a mão no seu direito de moralisar ácerca da inutilidade do

dinheiro. E ninguem mais applaudiu a reclamação faceta do interruptor.

Venceslau, porém, encarando-o com boa sombra, respondeu:

--Bem se vê que este meu amigo está rico!... A moral dos pobres é sempre

o pavor dos que se receiam que ao apostolado da esmola se siga a

tentativa do roubo...

VII

Franqueza e mais franqueza. Assim é que a amisade

Póde ter duração e dar felicidade.

VISCONDE DE CASTILHO--No _Avarento_.

Se as sympathias de quem lê este livro começam a divorciar-se do viuvo

de Antonia, apresso-me a divulgar um galhardo lance que deve restituil-o

á estima das familias.

Eduardo, tres dias depois dos successos contados no anterior capitulo,

procurou Venceslau, e abriu-lhe a sua alma d'este feitio:

--Volto a buscar o amigo extremoso que, depois de dez annos, me deixou

vêr que tudo n'este mundo é imperfeito, sem excepção dos amigos.

Venceslau, ouvido o esperançoso exordio, depoz a penna, recostou-se á

espalda da cadeira, fixou-o com attenção menos cordeal que admirada, e

esperou em silencio.

E o querido de D. Anna, com a firmeza e gravidade dos arrojos nobres,

proseguiu:

--Houve um tempo em que tu, Venceslau, compadecido da insulação em que

vias a minha pobre alma, raciocinavas amigavelmente reprovando a

fraqueza menos de mulheril a que a saudade me extenuára, a ponto de

inutilisar a minha aptidão para o trabalho, para o dever e para tudo que

é proprio de homem. Eu escutava-te, soffreando ora as lagrimas, ora a

indignação: as lagrimas, quando realmente me via inutil, a depender das

tuas liberalidades; a indignação, quando se me pedia esforço

incompativel com a minha amargura. Esta doença moral durou nove annos,

queimando-me nas suas febres, e lacerando nas suas roscas de fogo o

melhor da minha mocidade, introvertendo-me no devorar-se intimo da alma,

em quanto, á volta de mim, os meus companheiros de exilio se distrahiam

com o trabalho, ou se acalentavam com esperanças. Entrei na patria,

chorando, em quanto os outros jubilavam, restituidos ás familias e

recompensados com as posições e empregos de que se estão gosando. Quiz,

porém, a Providencia que um raio de luz entrasse á noite profunda do meu

coração, quando as supplicas da minha infeliz esposa alcançaram talvez

da bondade divina que desviasse dos meus labios a taça da desesperação.

Ao mesmo tempo que o desejo de viver renascia do seu sepulchro de nove

annos, o cortejo das miserias que me confrangiam a virilidade e nobreza

do meu caracter, deram-me treguas, permittindo o céo que a maldição de

meu pae não chegasse a esterilisar o meu patrimonio. A minha

felicidade parecia recomeçar, ou antes começava para mim, quando de

repente se levanta uma nuvem a negrejar no horisonte que tão claro se me

prefigurava nos sonhos; mas, ao travez d'esta nuvem, transluzia-se-me

uma imagem de mulher, formosa e innocente como ha doze annos eu vira

outra que depois a chuva das lagrimas apagou. Esta segunda, santa e ao

mesmo tempo sinistra visão, é Anna Vaz, é aquelle anjo de resgate que tu

me apontaste na via dolorosa da minha paixão. Venceslau, o teu caracter

é nobilissimo; é, mas o meu entendimento não sonda todos os seus

arcanos. Ha delicadezas reconditas nas grandes almas; ha mysterios de

abnegação que se não descortinam sem grande iniciação de virtudes que

não tenho. Bem longe estava eu de suspeitar que tu amavas a filha do

commendador; bem longe estavas tambem tu de me communicar esse segredo.

Duas maravilhas para mim: uma, a reserva, para quem a não devias ter;

outra, a renuncia para quem seria capaz de t'a acceitar. De qualquer das

fórmas considerado o teu proceder, assombras-me, porque és homem, porque

és bom, porque tens vinte e oito annos; todavia, se melhor pondero a tua

indole, isto que em mim é assombro talvez se deva considerar

incapacidade para entender o melindre da tua honradez, nas grandes e nas

pequenas coisas, na politica e na moral, nos actos da consciencia e nos

do coração. Não obstante, Venceslau Taveira, consente que eu te pergunte

porque me não disseste que amavas D. Anna Vaz?

--Porque eu não amava D. Anna Vaz--respondeu serenamente o interrogado.

--Então amaste-a depois que desconfiaste da minha dedicação?

--Nem antes nem depois.

--Amigo, abre-me a tua alma, se ainda me prezas. Não te julgues abatido

da tua dignidade com semelhante revelação. Se fui teu competidor, a

ignorancia me desculpa. Poderia accusar-te eu d'este dissabor,

culpando-te o resguardo que tens para os mais communicativos

sentimentos. Conheço o primor dos teus brios; sei que regeitarás a

mulher que não teve espirito bastante para entrar ao secreto das tuas

intenções. Não pódes arguil-a, meu amigo, porque ninguem te ouviu

palavra indicativa de affeição superior ás affeições triviaes das salas.

O commendador disse algumas vezes a D. Julia que tu deixáras o coração

onde deixaste o habito de noviço. Os amigos d'elle e teus pasmavam que

sahisse do mosteiro quem tão de molde nascera para as frialdades do

claustro e desdens da vida social. Em meio d'estas apreciações, não era

natural que a innocente Anna entendesse melhor a tua indole...

--Que desperdicio de palavras!--atalhou Venceslau Taveira, vencido da

impaciencia, que elle tantas vezes subjugava a esforços de cortezia.

--Eu já sabia que principiava a cansar a tua attenção--replicou Eduardo,

dissimulando a custo o dezar.--O que tenho que dizer-te é pouco mais,

todavia o que mais importa. Deponho nas tuas mãos a inabalavel

resolução de desviar o espirito d'essa mulher que é causa innocente dos

nossos primeiros desgostos, e peço á tua bondade que me absolvas da

culpa, se delinqui, não te adivinhando. Se eu souber ou podér descobrir

que o ausentar-me da casa do commendador te é aprazivel, mais grato me

será a mim o sacrificio do que a ti. O que eu repulso com todas as

forças da minha honra é a imputação de rival do meu maior amigo.

--Respondo--voltou Venceslau, retomando a penna para continuar o seu

artigo.--Não amei a filha do commendador. Zelei a dignidade da familia

que nos recebeu cordealmente. Demasiei-me comtigo em transcendencias de

melindres, que, melhor avisado, eram pieguices. Se Anna Vaz te ama,

paga-lhe com honrado amor a divida. Se tens coração e brios, se crês que

esse amor é luz para durar e não relampago para deslumbrar, apagar-se e

tecer-te mais espessas trevas, ama a creatura que te ama. O commendador

estima-te: se lhe pedires a filha, persuado-me que lhe será agradavel

conceder-t'a. Quanto a riquezas, ouço dizer que elle as não tem; mas

sobeja-lhe a mediania. Nunca te conheci ambicioso. O que tens sobra-te á

felicidade, se a procurares áquem da opulencia. Não sei que mais deva

dizer-te sobre o ponto.

Livro de Consolação: Romance · 第 3 / 14 段