um dia regressasse á patria, procurasse em Lisboa seu pae, e lhe pedisse
que entregasse á sua promettida esposa o retrato que lhe confiava.
O portador do triste legado cumpriu a vontade do moribundo seis annos
depois.
O commendador acceitou o retrato, e voltando-se para uma senhora, que
estava ao lado de sua filha no canapé, disse:
--D. Julia, aqui tem o seu retrato.
Venceslau inclinou-se profundamente diante da querida do seu amigo e disse:
--Era V. Ex.ª digna da paixão de Antonio Vaz, porque, se a comparo com o
retrato, noto que a semelhança foi já apagada pelas lagrimas. A
formosura da mocidade foi substituida pela formosura da mágoa.
Julia, muito commovida, pediu ao portador do retrato que lhe referisse
as particularidades da vida e morte de Antonio Vaz. Depois, disse ella
que o seu malogrado noivo lhe contava em cartas as virtudes do seu amigo
Venceslau Taveira, e os impagaveis carinhos de irmão com que elle
tentava suavisar-lhe os espinhos da saudade, alentando-lhe com
esperanças o animo quebrantado. Terminada a sensibilisadora
reminiscencia das cartas, proferida entre soluços, D. Julia apertou a
mão de Venceslau; e, levando-a aos labios, apesar do esforço d'elle,
balbuciou:
--Beijo a mão que fechou os olhos do meu extremoso amigo!
Pouco depois, chegou uma sege á porta do commendador, e logo depois
entrou um criado a annunciar que era esperada a snr.ª D. Julia de
Miranda. Venceslau, obtida licença de Francisco Vaz, deu o braço á dama,
e levou-a á traquitana, reparando então que o cocheiro e lacaio vestiam
libré, indicativa de familia illustre.
Voltando á sala, contou-lhe o commendador estas admiraveis coisas de D.
Julia:
Era filha d'um desembargador do paço, já defuncto. Herdára trezentos mil
cruzados em propriedades rusticas e urbanas. Tinha vinte e sete annos de
idade, e deixára de ser formosissima desde que a paixão por Antonio Vaz
a desfigurou, mostrando-lhe repetidas vezes a morte no seu espelho o
semblante cadaverico. Mas contou o commendador que, sem impedimento da
decadente belleza, eram muitos os pretendentes á mão de Julia, bem que
no pensar do ironico sugeito, muitos haveria que a tomassem por esposa,
ainda que ella não tivesse mãos, tão necessarias ás formulas
sacramentaes do matrimonio.
Assim começaram as boas e logo familiares relações do escriptor com esta
excellente familia. Rara noite Venceslau deixava de visitar o agradecido
fidalgo, cujas ideias liberaes a morte do filho perseguido acrizolára.
Fugiam as horas de alegre palestra entre os dois, em quanto D. Anna
estudava as suas lições de musica, para depois, ao fim da noute,
conversar em francez com o jornalista.
Intencionado a divertir Eduardo das suas abstracções penosas, Venceslau
apresentou o amigo, depois de prevenir os hospedeiros a favor da
tristeza taciturna do homem, que parecia assombrado do raio fulminador
da sua mocidade.
Acolheram Eduardo, tanto o pae como a filha, com tanta sympathia e dó
que, a poucos dias andados, já o confundiam na familiar lhaneza com
Venceslau Taveira. E esta bella alma alegrava-se quando o via tão bem
acceito, e já tão outro do que era nas escuras melancolias, pelas quaes
elle se havia feito aborrecer de quantos o tratavam.
Algumas noites concorria tambem D. Julia de Miranda, com o seu capellão;
homem de avançados annos, e tão amigo da fidalga que dizia idolatramente
que não era capellão, mas sim sacerdote d'aquella divindade.
Em um d'esses saráos, desconfiou Venceslau que o seu amigo, abeirando-se
do piano em que Julia tocava, lhe passára uma carta. Sobresaltou-o a
suspeita, como se o caso tivesse a importancia d'um delicto contra as
regras da sã moral. Não espanta semelhante estranheza em homem que
rossava pelos vinte e oito annos sem haver entregado carta de amores,
nem sequer ter sentido a precisão de escrever uma, no intervallo de dois
artigos politicos! A virgindade epistolographica é hoje, e era então
mais rara que todas as outras.
Aconselhou-lhe a prudencia que, antes de interrogar o amigo sobre o caso
suspeito, obtivesse e certeza, para que as advertencias assentassem na
culpa incontestavel. N'este em meio, chegou a Eduardo a nova da
morte do pae, e por tanto a sahida temporaria do herdeiro para a provincia.
No espaço dos dois mezes de ausencia, espiou Venceslau o coração de D.
Anna, e tão facilmente quanto era de esperar da candura da menina,
descobriu a saudade no empenho das perguntas e desejos de vêr as cartas
de Eduardo.
Além de que, D. Julia, em pratica sósinha com o jornalista,
perguntou-lhe se o seu amigo alguma vez lhe tinha confidenciado
sentimentos amorosos.
--Muitos e profundos, minha senhora--respondeu Venceslau, despercebido
da pergunta intencional.
--A respeito de quem?
--Da sancta que ha dez annos está no céo.
--Ah! eu não perguntava isso...
--Que era então, snr.ª D. Julia?
--Já vejo que me enganei... Eu referia-me...
--Á sua amiga D. Anna Vaz? Respondo que não, minha senhora. Eduardo
Pimenta nunca me revelou, depois que D. Antonia de Portugal morreu,
affectos a outra senhora. Isto, porém, não é desmentil-o, se elle disse
o contrario. Eduardo é tão meu amigo que me não confia tal intento, se o
tiver.
--Porquê?--atalhou admirada D. Julia.--Os intentos, que um amigo esconde
de outro, são os máos. Revelar um affecto nobre, honesto e natural, é
prova de amisade. Aos inimigos e indifferentes é que taes segredos não
se communicam. O snr. Taveira, se amasse a minha amiga, duvidaria
revelar tão bom sentimento a Eduardo?
--Se Eduardo me houvesse apresentado n'esta casa, eu sahiria d'ella
pretextando um motivo acceitavel, e depois denunciaria a minha
pusillanimidade ao meu amigo.
--Santo Deus! como V. S.ª é austero!--voltou sorrindo a rica
herdeira.--Não cuidei que do estrangeiro se trouxessem regras de moral
tão rigorosas!
Venceslau fitou com desgosto o semblante ironico de D. Julia.
Penalisava-o o desconcerto da reflexão, impropria de tal dama, com o
primoroso juizo que elle compozera da sua sensatez.
E ella, que se viu encarada com estranheza, sentiu logo beliscado o amor
proprio, a fibra sensivel da vaidade de parecer moralmente perfeita.
--Não me parece--proseguiu a dama gravemente--desdourar-se um rapaz que
estima uma senhora da casa onde o apresentam. Conheço muitas amigas
minhas casadas e virtuosas, que encontraram affeições nobres e dignos
maridos em pessoas apresentadas na casa de seus paes. Póde ser que
d'outro modo se hajam casado muitas; mas eu, se fosse mãe, estimaria
conhecer os noivos de minhas filhas; e, se fosse noiva, preferiria ouvir
na sala de meu pae a ouvil-o da janella, para a rua, o homem que
houvesse de ser meu marido.
Taveira sentiu-se enredado na dialectica de D. Julia; mas, desatado dos
embaraços pouco menos de melindrosos, objectou:
--Eduardo Pimenta ha de ser sempre infeliz. A enorme desgraça da sua
mocidade foi repellão de vento que lhe apagou na alma toda a luz das
alegrias puras. A sombra d'uma martyr não consente que outra mulher,
embora seja um anjo, repouse venturosa no coração onde ella deve ter
deixado a sua imagem, como Deus deixou á porta do eden o archanjo da
espada de fogo.
D. Julia, maravilhada da ideia e da fórma, ia replicar, quando Venceslau
proseguiu, abalando-lhe o animo ás primeiras palavras:
--V. Ex.ª amou ardentemente o meu chorado amigo Antonio Vaz. Elle
morreu, e a snr.ª D. Julia, que não era sua esposa nem devia ao amor das
primeiras nupcias o honrado sacrificio das segundas, guarda á memoria do
homem amado a lealdade que eu respeito e que todos lhe admiram. Ficou V.
Ex.ª nova, bella e rica; e d'estes tres dons que raras vezes se
conciliam e tão desejados se procuram, fez V. Ex.ª realçar o merecimento
do seu holocausto ao amor unico da sua vida, querendo assim que a nobre
alma de Antonio Vaz se gose na bemaventurança da religiosidade com que
V. Ex.ª n'este mundo se lhe devota. Se a snr.ª D. Julia me permitte o
comparal-a, Eduardo Pimenta, está em ponto de maior obrigação e fineza á
alma de Antonia de Portugal. O homem que levantou nos braços o cadaver
da mulher lentamente assassinada por amor d'elle, não deve mais apertar
n'esses braços outra, se a essa tem de render os votos e palavras com
que venceu o coração da desditosa que lhe immolou mocidade, gentileza,
nascimento, parentes, contentamento, futuro, e até a memoria hoje em
dia despresada d'esses que ainda se lembram da martyr para a execrarem.
D. Julia, enternecida pelo convulso proferir d'estas vozes, não conteve
as lagrimas. Era n'este sentir grande parte o admirar, em moço tanto na
flor dos annos, um respeito assim fervoroso á consagração do primeiro
amor, e holocausto perpetuo e por tanta maneira penoso da alma á mulher
amada, primeira e unica.
Vendo-a pezarosa e absorta, Venceslau desculpou-se da crueldade de suas
tristes reminiscencias, e derivou a pratica a outros assumptos,
ageitando-se-lhe bom lanço com a entrada do commendador.
D. Julia, entretanto, foi ter com a sua amiga que de proposito se
affastára para dar logar ás averiguações que tanto interessavam ao seu
desassocego.
--Tu vens triste?!--perguntou Anna assustada.
--Triste, não; filha... Venho peor que triste... Não vês que chorei?
--Choraste!... é verdade!... Porque?
--Que rapaz é este Venceslau! Bem m'o dizia teu mano. Chamava-lhe elle o
coração de uma creança temperado pela prudencia de um velho sem manchas
na sua vida de moço. É assim... é admiravel; mas Deus nos livre que
todos os paes e noivos se parecessem com elle em escrupulos e severidade.
--Então que te disse a respeito do Eduardo?... que me não ama?
--Não lhe fiz semelhante pergunta, menina. Apenas me adivinhou a tenção
franziu a testa, mudou de aspecto, e reprovou que tu amasses um
homem nas circumstancias de Eduardo, viuvo de uma martyr, devastado por
essa grande e unica paixão da mocidade, incapaz de fazer feliz a mulher
que lhe pedisse amor impossivel; emfim, Annica, comparou-o na sua
posição com a minha, para vir a dizer, se eu bem o entendi, que não
deves arrancar o coração de Eduardo á saudade da outra desgraçada que
lhe expirou nos braços... Fallou-me de teu irmão, e fez-me chorar...
Olha, filha, é extraordinario este homem! Eu, quando o ouvia ainda
agora, sentia em mim não sei se assombro, se admiração, se profunda
sympathia por elle!
--Mas então...--interrompeu a infantil menina, como se as admirações ou
sympathias de Julia não diminuissem nada do seu alvoroço.--Disse elle
que Eduardo não me ama?
--Tal não disse, creança...
--Pois que foi? Eu não entendi...
--Nem admira que não entendas, filha. Vê se percebes o receio de
Venceslau: diz elle que o amor de Eduardo morreu com outra que elle
amou, e não póde repetir-se comtigo.
Anna fitou os seus fulgurantes olhos nos de Julia, quedou-se abysmada
longo tempo na sua contemplação, e, só depois de chamada pela amiga,
sorriu com mais tristeza do que se chorára, e murmurou:
--Para que me escreveu elle duas cartas a dizer que me adorava como os
anjos adoram a Deus?
--E eu creio bem que elle te adora, minha querida Annica...
--Não digas isso... Dize-me a verdade, porque eu...
--Tu... quê, filha?
--Eu perdi a minha alegria, ando triste, não penso senão n'elle; e antes
queria morrer que não o vêr mais...
--Pobre creança!... Não pensei que o amavas assim!--disse Julia
beijando-a e acariciando-lhe os cabellos.--Pois filha, tem esperança...
As coisas, que disse o Taveira, bem pensadas, importam pouco. Elle
entende a dignidade, o amor e o dever de um modo excepcional. Os
corações alheios hão de regular-se por preceitos mais faceis e humanos.
Se Eduardo te merecer, e teu pae consentir, que tem que cazes com um
homem que muito amou outra mulher digna d'elle? Peor seria cazares com
outro que houvesse sido mau marido, e quizesse fazer vêr isso como
virtude aos teus olhos... Mas... mas se...
--Mas se...--acudiu Anna impaciente da suspensão.
--Mas se teu pae impedir tal casamento? Ainda não pensaste n'isso?
--Não... É verdade... Se meu pae impedir... que hei-de eu fazer?...
--Eu sei lá, filha! Obedecer a teu pae; que outra coisa ha de fazer uma
menina da tua qualidade? Eu bem sei que teu pae é o fidalgo menos
vaidoso que eu conheço. Tenho-o visto ser egual com todos, e admittir em
sua casa pessoas de baixa extracção sem indagar a procedencia d'ellas;
mas tambem é certo que, uma vez, antes de cá vir o Eduardo, me disse
elle a mim que morreria feliz se te deixasse casada com um homem como
Venceslau Taveira... Ah!--esta subita exclamação de D. Julia foi
solemnisada com um bater de palmas significativo de valioso
descobrimento nos arcanos do coração.--Queres tu vêr que eu comprehendi
perfeitamente agora as repugnancias de Taveira?
--Sim? que é?
--É ciume, olha que é ciume! O Venceslau não t'o declarou; mas pensou em
te cortejar. Como tem um genio exquisito, esperava occasião de
manifestar-se a teu pae, antes de consultar a tua vontade. Mas eu que
tal não imaginava fui fallar-lhe do teu amor ao outro, e ahi tens a
razão porque elle expoz as extravagantes theorias, que eu nunca ouvi a
ninguem. Pois não é outra coisa, Annica. O Venceslau ama-te, e começa a
odiar o rival. Complicam-se as situações. Veremos o desfecho d'isto.
--Eu não caso com o Taveira, ainda que o papá me obrigue!--exclamou D.
Anna, batendo o pé, e tregeitando uns gestos de mimo, que davam a
lembrar irritações de menina por amor das bonecas.
--Pois então, creança--aconselhou Julia com o siso dos treze annos que
levava de vantagem á sua confidente--tem prudencia, não te precipites.
Parece-me que o Taveira, se teve aspirações, como creio que teve, á
tua mão, sabendo que o Eduardo te namora, é incapaz de prevalecer-se da
estima de teu pae para desviar o outro d'esta casa. Entretanto, é
preciso cuidado. Previne o Eduardo. Escreve-lhe, se não poderes
dizer-lh'o. Que se acautele; que não conte nada; que vá grangeando a
confiança de teu pae, até conseguir a intimidade que Venceslau obteve.
Depois, eu te auxiliarei, intercedendo a favor de Eduardo, se houver
resistencia.
Este dialogo precedeu a chegada do viuvo de D. Antonia.
Quando Venceslau Taveira, entre severo e jocoso, lhe feriu o melindre
com as ironias allusivas ao legendario D. Juan e á sacrificada filha do
commendador, já o mysterioso amador de D. Anna Vaz estava prevenido.
O ingrato acceitára as insinuações offensivas do caracter do seu amigo.
Não duvidou serem ciumes os brios, d'outro modo inexplicaveis, do seu
mentor gratuito. D'ahi a ancia de se desendividar a dinheiro, para assim
se emancipar da preponderancia que o seu valedor na emigração parecia
exercer-lhe na vontade, e mais que tudo no alvedrio dos seus amores.
Em meio d'isto, no animo do bracharense, transfigurado pelos quinze mil
cruzados, operavam-se curiosas perplexidades que o accusam de espirito
destragado talvez pela desgraça da sua juventude. Aconteceu, pois, que
estando elle na sala do commendador Vaz, ao mesmo tempo que D. Julia de
Miranda referia a um advogado presente o bom exito de certo pleito,
d'onde acresciam aos seus bens vinculos no valor de sessenta mil
cruzados, ouviu perguntar o pae de D. Anna ao capellão da opulenta
herdeira, em quanto orçava elle os haveres da senhora. E o padre,
recolhido alguns segundos, respondeu:
--Por morte do snr. desembargador, a snr.ª D. Julia succedeu em bens
avaliados pelo barato, em trezentos mil cruzados. Ora, como sua
excellencia não gasta os seus rendimentos, o seu dote cresceu em sete
annos dezoito a vinte mil cruzados. Ajunte-lhe V. S.ª o vinculo de
Collares, e póde sem receio de errar cem moedas, computar em quinhentos
mil cruzados a casa da snr.ª D. Julia.
--E que ha de ella fazer a tamanhos bens de fortuna?--perguntou o
commendador.
--Comigo não os levo para a cova--respondeu a dama.--Os vinculos irão a
quem tocarem; os bens livres a quem eu quizer.
Esta resposta rejubilou Francisco Vaz, esperançado que os filhos da sua
Anna viessem a herdar os bens d'aquella que vestira eterno lucto d'alma
por seu filho Antonio.
Mas, ao mesmo tempo, Eduardo Pimenta bascolejava no craneo uns
pensamentos, que não se inculcam por originaes nem torpes; mas que
merecem ser marginalmente assignalados por quem estuda a vida nos romances.
Dizia elle para dentro da sua consciencia:
--Esta mulher convinha-me. Andei muito depressa na declaração á
outra. Se Venceslau conseguir fechar-me uma porta, já sei a qual hei-de
ir bater. Anna inquestionavelmente é uma linda flôr; mas Julia de certo
é um fructo cubiçavel. Anna é um anjo de belleza; mas quinhentos mil
cruzados...
--Quinhentos mil cruzados--dizia Venceslau Taveira ao commendador, como
se désse complemento á phrase ou resposta á pergunta mental do
amigo--não bastam para comprar um dia de pura felicidade, se o possuidor
os não depõe nas mãos da Caridade, segunda mãe dos orfãos, e divindade
luminosa nas almas que a desgraça entenebreceu. Quinhentos mil cruzados
não vingam ajuntar mais uma hora de vida aos que se estorcem nas ancias
da morte, com as mesmas contorsões dos que expiram nos muladares e nas
palhas fetidas dos sótãos.
--Isso é pavoroso!--disse Eduardo Pimenta, contando com o applauso dos
circumstantes.
Riu-se apenas o capellão, talvez despeitado por vêr que um profano lhe
tomava a mão no seu direito de moralisar ácerca da inutilidade do
dinheiro. E ninguem mais applaudiu a reclamação faceta do interruptor.
Venceslau, porém, encarando-o com boa sombra, respondeu:
--Bem se vê que este meu amigo está rico!... A moral dos pobres é sempre
o pavor dos que se receiam que ao apostolado da esmola se siga a
tentativa do roubo...
VII
Franqueza e mais franqueza. Assim é que a amisade
Póde ter duração e dar felicidade.
VISCONDE DE CASTILHO--No _Avarento_.
Se as sympathias de quem lê este livro começam a divorciar-se do viuvo
de Antonia, apresso-me a divulgar um galhardo lance que deve restituil-o
á estima das familias.
Eduardo, tres dias depois dos successos contados no anterior capitulo,
procurou Venceslau, e abriu-lhe a sua alma d'este feitio:
--Volto a buscar o amigo extremoso que, depois de dez annos, me deixou
vêr que tudo n'este mundo é imperfeito, sem excepção dos amigos.
Venceslau, ouvido o esperançoso exordio, depoz a penna, recostou-se á
espalda da cadeira, fixou-o com attenção menos cordeal que admirada, e
esperou em silencio.
E o querido de D. Anna, com a firmeza e gravidade dos arrojos nobres,
proseguiu:
--Houve um tempo em que tu, Venceslau, compadecido da insulação em que
vias a minha pobre alma, raciocinavas amigavelmente reprovando a
fraqueza menos de mulheril a que a saudade me extenuára, a ponto de
inutilisar a minha aptidão para o trabalho, para o dever e para tudo que
é proprio de homem. Eu escutava-te, soffreando ora as lagrimas, ora a
indignação: as lagrimas, quando realmente me via inutil, a depender das
tuas liberalidades; a indignação, quando se me pedia esforço
incompativel com a minha amargura. Esta doença moral durou nove annos,
queimando-me nas suas febres, e lacerando nas suas roscas de fogo o
melhor da minha mocidade, introvertendo-me no devorar-se intimo da alma,
em quanto, á volta de mim, os meus companheiros de exilio se distrahiam
com o trabalho, ou se acalentavam com esperanças. Entrei na patria,
chorando, em quanto os outros jubilavam, restituidos ás familias e
recompensados com as posições e empregos de que se estão gosando. Quiz,
porém, a Providencia que um raio de luz entrasse á noite profunda do meu
coração, quando as supplicas da minha infeliz esposa alcançaram talvez
da bondade divina que desviasse dos meus labios a taça da desesperação.
Ao mesmo tempo que o desejo de viver renascia do seu sepulchro de nove
annos, o cortejo das miserias que me confrangiam a virilidade e nobreza
do meu caracter, deram-me treguas, permittindo o céo que a maldição de
meu pae não chegasse a esterilisar o meu patrimonio. A minha
felicidade parecia recomeçar, ou antes começava para mim, quando de
repente se levanta uma nuvem a negrejar no horisonte que tão claro se me
prefigurava nos sonhos; mas, ao travez d'esta nuvem, transluzia-se-me
uma imagem de mulher, formosa e innocente como ha doze annos eu vira
outra que depois a chuva das lagrimas apagou. Esta segunda, santa e ao
mesmo tempo sinistra visão, é Anna Vaz, é aquelle anjo de resgate que tu
me apontaste na via dolorosa da minha paixão. Venceslau, o teu caracter
é nobilissimo; é, mas o meu entendimento não sonda todos os seus
arcanos. Ha delicadezas reconditas nas grandes almas; ha mysterios de
abnegação que se não descortinam sem grande iniciação de virtudes que
não tenho. Bem longe estava eu de suspeitar que tu amavas a filha do
commendador; bem longe estavas tambem tu de me communicar esse segredo.
Duas maravilhas para mim: uma, a reserva, para quem a não devias ter;
outra, a renuncia para quem seria capaz de t'a acceitar. De qualquer das
fórmas considerado o teu proceder, assombras-me, porque és homem, porque
és bom, porque tens vinte e oito annos; todavia, se melhor pondero a tua
indole, isto que em mim é assombro talvez se deva considerar
incapacidade para entender o melindre da tua honradez, nas grandes e nas
pequenas coisas, na politica e na moral, nos actos da consciencia e nos
do coração. Não obstante, Venceslau Taveira, consente que eu te pergunte
porque me não disseste que amavas D. Anna Vaz?
--Porque eu não amava D. Anna Vaz--respondeu serenamente o interrogado.
--Então amaste-a depois que desconfiaste da minha dedicação?
--Nem antes nem depois.
--Amigo, abre-me a tua alma, se ainda me prezas. Não te julgues abatido
da tua dignidade com semelhante revelação. Se fui teu competidor, a
ignorancia me desculpa. Poderia accusar-te eu d'este dissabor,
culpando-te o resguardo que tens para os mais communicativos
sentimentos. Conheço o primor dos teus brios; sei que regeitarás a
mulher que não teve espirito bastante para entrar ao secreto das tuas
intenções. Não pódes arguil-a, meu amigo, porque ninguem te ouviu
palavra indicativa de affeição superior ás affeições triviaes das salas.
O commendador disse algumas vezes a D. Julia que tu deixáras o coração
onde deixaste o habito de noviço. Os amigos d'elle e teus pasmavam que
sahisse do mosteiro quem tão de molde nascera para as frialdades do
claustro e desdens da vida social. Em meio d'estas apreciações, não era
natural que a innocente Anna entendesse melhor a tua indole...
--Que desperdicio de palavras!--atalhou Venceslau Taveira, vencido da
impaciencia, que elle tantas vezes subjugava a esforços de cortezia.
--Eu já sabia que principiava a cansar a tua attenção--replicou Eduardo,
dissimulando a custo o dezar.--O que tenho que dizer-te é pouco mais,
todavia o que mais importa. Deponho nas tuas mãos a inabalavel
resolução de desviar o espirito d'essa mulher que é causa innocente dos
nossos primeiros desgostos, e peço á tua bondade que me absolvas da
culpa, se delinqui, não te adivinhando. Se eu souber ou podér descobrir
que o ausentar-me da casa do commendador te é aprazivel, mais grato me
será a mim o sacrificio do que a ti. O que eu repulso com todas as
forças da minha honra é a imputação de rival do meu maior amigo.
--Respondo--voltou Venceslau, retomando a penna para continuar o seu
artigo.--Não amei a filha do commendador. Zelei a dignidade da familia
que nos recebeu cordealmente. Demasiei-me comtigo em transcendencias de
melindres, que, melhor avisado, eram pieguices. Se Anna Vaz te ama,
paga-lhe com honrado amor a divida. Se tens coração e brios, se crês que
esse amor é luz para durar e não relampago para deslumbrar, apagar-se e
tecer-te mais espessas trevas, ama a creatura que te ama. O commendador
estima-te: se lhe pedires a filha, persuado-me que lhe será agradavel
conceder-t'a. Quanto a riquezas, ouço dizer que elle as não tem; mas
sobeja-lhe a mediania. Nunca te conheci ambicioso. O que tens sobra-te á
felicidade, se a procurares áquem da opulencia. Não sei que mais deva
dizer-te sobre o ponto.