osculo santo do anjo que desde muito lhe condensava a treva para que um
lampejo final lhe abrisse o dia da perpetua luz. Aquella immensa alegria
reviveu-lhe o coração, galvanisou-lhe as potencias da alma entorpecidas,
restituiu-lhe por momentos a plena vitalidade; todavia, aniquilou-lhe o
corpo subitamente arrefecido nos braços de Eduardo.
Do mosteiro de Santa Clara sahiu o cadaver sobraçado por aquelle homem
que relançava á volta de si o olhar sôffrego da posse da esposa morta.
Quando elle, vagarosamente, passava no longo dormitorio, ouviu o
murmurio das freiras que rezavam psalmos no côro. A desgraça faz
prodigios de fé, desvarios de crença que seriam galardoados com
milagres, se os actos da omnipotencia divina se pautassem pela regra do
nosso entendimento. Eduardo, accêso em ardente fé, escutava o soturno
rumor das vozes, e orava em espirito com os olhos fitos nos do cadaver
ainda não fechados. O infeliz pedia a resurreição d'aquella mulher,
dobrando os joelhos, e inclinando a face sobre os seus labios
alvacentos, como se esperasse sentir-lhe o halito dos pulmões revividos.
Instaram os officiaes, que o acompanhavam, para que lhes confiasse o
cadaver; mas, não conseguindo desabraçal-o da morta, ajudaram-o a
transportal-a ao quartel de um d'elles, que se incumbiu do enterro.
Ao descahir da noite em que D. Antonia foi sepultada, soaram os clarins
a reunir. Massena ordenára um movimento sobre Condeixa depois de se
deter em Coimbra tres dias que malograram todos os seus planos. Eduardo
Pimenta, que servia no quartel-general de Pamplona, recusou acompanhar o
exercito.
Os seus amigos propriamente lhe deram voz de preso, em nome do principe
de Esling, e o levaram á força de ao pé do cadaver já amortalhado.
Commovidos pelas supplicas, concederam-lhe que muitas vezes retrocedesse
a beijal-a no rosto, já quando a passavam para o esquife.
Fechada a sepultura, e feito o silencio do esquecimento á volta d'ella,
ninguem diria que vida assim dilacerada podésse acabar por maneira tão
singela!
Morrer! Que suave desfecho, se o desfazer-se a vida a desfibrações
lentas não custasse tanto! E, se Deus dispensasse as torturas do corpo
aos que em si já sentem o ingente supplicio da alma, a sua divina
justiça nos deixaria melhormente comprehender os liames que prendem a
terra ao céo, a creatura ao Creador, o espirito do homem perecivel á
insuflação do grande espirito immortal...
Não sejamos mais especulativos do que foram os indifferentes que viram
passar o esquife de Antonia, ao mesmo tempo que Eduardo marchava sobre
Condeixa.
Ahi fica esboçada a biographia do official que Venceslau Taveira
encontrou em Santarem.
Ai! se elle então morresse! Que tragico vulto na legenda dos amores
desgraçados! quantos anjos tristes, nascidos em almas de poetas, iriam
deplorativos esfolhar uma rosa de cada primavera na sepultura d'aquelles
vinte e quatro annos! Quem cuidára então que os dons celestiaes da alma
d'este homem se esvasiavam todos em lagrimas, e no fundo d'esse peito
germinavam os embriões de vicios que resvalariam á derradeira infamia!
V
Ah Senhor,
Amor sejais vós de nós
E não haja amor com dor.
GIL VICENTE.--_Farças._
No coração juvenil e compassivo do fidalgo beirão a historia d'estes
amores deixou a melancolia piedosa propria de animos que ainda não
padeceram.
Cuidam que a dôr experimentada afina o sentimento, e abrolha as flores
perfumadas da compaixão quando lhe orvalham lagrimas alheias? Não é
absolutamente verdade. Os muitos infelizes são por via de regra os menos
sensiveis. Os desgraçados são egoistas. Não sabem, não podem, não querem
consolar, porque se julgam credores das consolações dos outros.
Ao principiar da vida, a ignorancia do mal pende á condolencia e
amiseração dos que choram. O homem que então nos contrasta a nossa
alegria com lagrimas, e os hymnos de graças á Providencia com
blasphemias, assombra-nos. Das muitas flores e luz que nos
abrilhantam e aromatisam a vida, formamos o reverso espantoso da
escureza e avidez do desditoso que nos dá a entrever o mal, nem sequer
sonhado nas nossas noites serenas. Então é o compadecerem-se de infantil
dó umas almas predestinadas a revezes, abaladas por vaticinios lugubres
do seu destino.
Não ha pois fiar-se a gente n'aquella compaixão da heroina de Virgilio
que, recordando os seus, se pungia dos alheios males.
São peitos impenetraveis os cicatrisados de muitos golpes. O que ahi
está dentro é a sciencia da vida com a terrivel certeza de que o mal é
necessario e fatalissimo. Esta sciencia que nos vem por morgadio
herdado, obra, não sabemos se divina, se diabolica da serpente do
paraiso, dá-nos ares de philosofantes selvaticos, inflexos e frios. As
lagrimas com que intentam amollecer-nos são como outras que já choramos
sem mais utilidade que vingarmos affogar n'ellas o germen da confiança
nos homens, e--quantas vezes!--da fé em Deus. E, se esta sublime
palavra, e inenarravel sentimento, DEUS, chega a desluzir-se nos lances
em que o invocamos, os affligidos cessem de confiar em nós. Devorem-se,
salvem-se pelo despejo ou pelo suicidio, que a religião não lhes alvitra
melhores recursos que a philosophia: tanto monta Jesus como Platão. Nem
nós podemos encarecer a efficacia dos balsamos que nos coaram ao coração
apenas um torpor, a paralysia das faculdades amantes da vida,
ignorando-lhe as condições durissimas, o terrivel desdem com que
adormecemos debaixo da mancenilha, sem recear-lhe as exhalações homicidas.
Venceslau solicitou a estima de Eduardo, e affeiçoou-se-lhe com
estremecida amisade. No fervor do seu affecto, parecia ser elle a
providencial indemnisação á desventura do moço repulso dos braços do pae
para os braços da esposa moribunda. Raras horas se apartava d'elle,
velando-lhe as do repouso, e privando-se da convivencia dos alegres
mancebos que se espantavam de tamanha devoção e tão desusado sacrificio
a um desgraçado vulgar.
Por março de 1811 retirou o exercito francez de Santarem, perseguido por
Wellington. Eduardo, ao entrar em Pombal, abraçou Venceslau, e disse-lhe
tranquillamente:
--Vamos ter batalha decisiva. Heide morrer n'ella. Separa-te desde já de
mim, que não quero vêr lagrimas, nem ouvir palavras piedosas em meio dos
gritos dos agonisantes.
Pouco depois, escaramuraçaram as avançadas dos dois exercitos. Ao
primeiro recontro, Eduardo Pimenta, arrancando do pôsto muito distante
dos piquetes, embrenhou-se pela selva das bayonetas que retiniam dentro
da cerrada bruma da polvorada. Em breve lanço, o impetuoso official
cahiu cortado do ferro inimigo, e, quando a nuvem se rarefez, viu á sua
beira Venceslau, descolchetando-lhe a farda para examinar-lhe as
feridas.
Eduardo, cerrando os dentes, abafava o grito da dôr; faltava-lhe, porém,
vigor para repugnar ao curativo.
Um cirurgião francez disse a Venceslau que nenhum dos ferimentos era
mortal. O ferido então abriu um riso de raiva á desgraça de sentir-se
viver, e murmurou:
--Não sou um desgraçado vulgar...
E, rodeando a vista pelos moribundos roixos dos paroxismos, accrescentou:
--Eram talvez felizes esses que ahi morrem. Um d'elles fallou em sua
mãe, e o outro pediu a Deus que lhe amparasse os filhos... Vês, Taveira?
A providencia deixa morrer esses, e quer que eu viva, e que por nenhuma
d'estas feridas eu possa arrancar a alma da sua cruz.
. . . . . . . . . . . . . . . . .
Não é tão raro morrer quem ardentemente o deseja?
Sei de homens desesperados que se offereceram em alvo, no ponto onde a
metralha das pelejas varria as victimas a rôdo. Sei d'outros que
procuraram a morte nos focos mais ardentes da peste. Vi uns que romperam
contra as lavaredas das casas incendiadas simulando caridade heroica no
proposito do suicidio. Vi alguns que se entregaram cegamente á medicina.
E não morreram!
A morte praz-se em destillar ás gotas a peçonha do seu calix na garganta
onde fervem e affogam soluços, se as lagrimas da saudade derivam
sobre o suor gélido da agonia. Foi a morte creada á porta do paraizo,
quando a nossa archi-avó comeu o pomo. Creada como castigo, o seu
officio é matar, dilacerando; unhar com a ponta da garra um por um os
liames da vida, distendel-os devagar, descansando a intervallos, para
que a seiva da esperança os reforce, e depois a angustia lateje n'elles
em redobro. Como castigo, missão que o Creador lhe deu, a morte seria
indigna do seu officio, se nos decepasse de um golpe. As trevas subitas,
a paragem do coração, um dormir suave, um esquecermo-nos de tudo--morrer
no instante em que tudo bom d'este mundo nos sorria esmaltado de todas
as estrellas--seria supplicio condigno do affrontamento que Eva e o
logrado marido fizeram ao Creador?
Não. Á morte urgia-lhe, em cumprimento do seu encargo, maior dominio
sobre as potencias espirituaes que ella (convence-te, ó razão!) não
mata, mas tortura.
Ahi está um coração de pae a arquejar em soluços de moribundo. Ha tres
dias que se debate nas ultimas vascas. No decurso d'esses tres dias, ha
visto muitas vezes os filhos que o chamam, que lhe affastam dos olhos os
cabellos humidos, que lhe enxugam nas faces lividas umas lagrimas onde
vae diluida a derradeira claridade das pupilas baças. Pois tres dias não
bastam á maceração do holocausto e ás dilicias do sacrificador que sahiu
do paraiso com o peccado!? Não. Aquelle homem está assim penando, ha de
assim penar mais tres, mais seis, mais nove dias, porque expia pelo
corpo vibrante de nevrozes, e pela alma que se revolve em suas lagrimas.
Meu Deus, meu Deus, que triste, que procelloso, que vilipendio vos seria
o mundo, se a minha alma só podésse entender vossa força nas dôres, nos
medos, na morte, na viuvez, na orphandade, nos ricos sem caridade, nos
pobrinhos sem enxerga!
Afaça-se, leitor, obsequiosamente a este meu velho sestro de vagamundear
á volta dos assumptos, vestindo as nudezas da ideia com umas roupagens
variegadas. É pensão da velhice, e talvez desejo perdoavel de fazer
pensar as pessoas que abrem uma novella justamente para não pensarem.
VI
Aperta-lhe a sorte ingrata
O laço em que os pés lhe enreda.
THOMAZ RIBEIRO.--_A Delfina do Mal._
Eduardo Pimenta, levado em braços a casa d'um aldeão que não estremava
entre jacobino e portuguez, pensou que seria alli miseravelmente
esfaqueado logo que os patriotas lhe descobrissem a paragem.
Não se esquivou Venceslau ao perigo de ser sacrificado ao amigo que
primeiro o captivára com as dôres da alma, e agora com as da
enfermidade. Ambos se haviam despojado das fardas suspeitas e vestido á
moda dos camponezes, inculcando-se guerrilheiros fieis ao throno e altar.
Como lhes minguassem recursos, mandou o beirão a sua mãe um portador com
carta bem commovente á piedade. Respondeu-lhe a mãe que era fallecido o
pae, e accudisse elle a receber o ultimo suspiro d'ella que o já sentia
na garganta.
Sahiram os dois amigos dos arrabaldes de Pombal, e acantoaram-se na casa
dos Taveiras, onde corriam maior perigo, porque o corregedor de Lamego
perseguia os jacobinos, não com alçada morosa, mas com a justiça
summaria dos sicarios.
Além d'isto, bem que D. Antonia de Portugal, por sua parte, houvesse
dado a vida ao odio dos parentes, estes cavalheiros não eram da casta
dos máos corações que se contentam com a vingança de fazerem cahir uma
campa sobre a victima dilacerada. Duas campas é que elles queriam para
que a sua posteridade podésse apontar para ellas, quando outros
aventureiros ousassem pôr olhos no rosto defeso das mulheres de raça.
No rasto do plebeu de Braga farejavam espertos assassinos, protegidos
pela justiça. Os sustos rodeavam já a casa senhorial dos Taveiras,
atterrando a mãe de Venceslau a ponto de bastarem poucos dias de
afflicção a dar-lhe o descanço eterno.
Como filho segundo, pequena legitima cobrou Venceslau. O morgado,
receoso de compartir no perigo dos dous perseguidos, antecipou ao irmão
o valor do patrimonio, aconselhando-lhe a emigração.
Entraram os dous expatriados por Hespanha em 1813. Da Corunha passaram a
Falmouth em companhia do cruzio D. José Liberato Freire de Carvalho, que
depois em Londres aproveitou a habilidade de Taveira, contractando-o
para fazer traducções no periodico intitulado _O Investigador_.
Do seu patrimonio, e ganhos nas lettras, repartia o moço com o seu
amigo, adoçando-lhe delicadamente o agro da dependencia, com a clausula
de que eram emprestados os recursos que lhe offerecia.
Seis annos assim viveram, durante os quaes Eduardo não despiu o lucto de
sua viuvez, nem desfitou os olhos scismadores de uma estrella por onde
lhe transluzia o que quer que fosse, vago e impalpavel, semelhante a uma
alma.
N'este enlevo e lucto bastante insolito, e não vulgares em poeta seis
annos viuvo, gastava o homem sua actividade, distrahindo-a das
preoccupações dos outros emigrados.
Com o fim de o levantar de uns quebrantos quasi ridiculos, Venceslau
invocava-lhe o animo para os deveres que lhe impunham a infelicidade dos
seus conterraneos e a sua propria de desterrado. Baldados esforços.
Pimenta era sempre o inconsolavel.
São pouquissimo interessantes os pormenores da vida d'estes emigrados,
no correr de sete annos. A pobreza por vezes venceu o trabalho assiduo
de Venceslau Taveira, esponjando-lhe o fel da penuria ás chagas da
saudade da patria. A inercia do amigo, motivada pelos crepes sempre
carregados da sua paixão, aggravava as difficuldades do moço laborioso.
Eduardo distanciava-se, quanto a genio, dos martyres, que têm a acta do
seu martyrio nos romances, os quaes não sabe a gente se almoçam e jantam
com a trivial estupidez das especies carnivoras a que a leitora ideal
não desejaria pertencer, nem eu. Afóra o almoço e jantar, o viuvo
consternado de D. Antonia de Portugal ceava, e recozia tudo ao fogo
interno que o escaldava, retemperando-lhe, ao que parecia, de fino aço
as molas digestivas. Á feição d'este, ha muitos sugeitos da mesma laia
que, logo abaixo de um coração abeberado em lagrimas, vos maravilham com
um estomago de ógre. Raro conseguem estes infelizes amiserar ninguem com
suas lastimas em verso ou prosa, porque a nediez do musculo os está
sempre a desmentir de modo que o observador incauto cuida que o humor
vitreo das lagrimas é ressumação oleosa do chorume que lhes sobeja. É
mister, porém, não confundir as duas especies, a fim de que a alçada
bruta do chylo não leze os phenomenos da psyche--expressão grega que os
gregos não percebiam melhor que Venceslau quando via o seu amigo a
chorar e a comer ao mesmo tempo.
Entretanto, assim que um simulacro de liberdade em Portugal, no anno
1820, amnistiou os portuguezes que tinham servido as ideias da França, o
fidalgo da Beira com o sempre melancolico bracharense repatriaram-se.
Protegido por José Liberato, e outros liberaes, o intelligente moço e já
notavel publicista offereceu a sua penna a Joaquim Manoel Alves Sinval
que então redigia o _Astro da Lusitania_.
Notaveis artigos realçaram aquelle periodico e o nome do modesto
escriptor, cujos serviços á liberdade ainda no berço se contentavam da
gloria de lhe poetisar a infancia.
No lapso d'estes successos Eduardo Pimenta, sempre ocioso e confiado á
liberdade do amigo, ia cogitando em ganhar de salto posição que o
habilitasse a indemnisar os favores do companheiro.
Honrado empenho! suprema e unica dignidade dos ingratos.
Este proposito, porém, não significava louvavel desejo de independencia:
era antes ruim plano de se desonerar da divida de reconhecimento que o
vexava. Sentimentos d'esta especie affectam exteriores de nobreza, e
disparam em villania, se bem os esgaravatamos no barril do lixo humano
que se chama _alma_, a qual se decompõe em _lama_, se lhe trocaes as
lettras.
Começa Eduardo a enxergar os arreboes de uma estrella benigna que lhe
destece boa parte das suas escuridões. É um contentamento menos máo.
Recebe a noticia da morte do pae.
Este velho, portuguez de lei como viram, typo symbolico da Braga de
1820, patriota acrizolado no recontro com os francezes em Carvalho
d'Este, um dos Codros que tomaram parte no assassinio do general
portuguez Bernardim Freire de Andrade, tal sujeito, a não poder afogar
n'agua benta a liberdade em pessoa, devia morrer apopletico, e de feito
morreu, deixando 1:600 missas á sua alma, e tres solemnes maldições ao
filho. Infere-se d'estes legados que a sua apoplexia não foi das mais
fulminativas; foi um ramo de ar, ou estupor, como a viuva escrevia a
Eduardo.
Além das missas á alma e das maldições ao filho, o morto deixou bens
rusticos que formavam a mais rendosa lavoira de S. João de Nogueira.
O viuvo de D. Antonia não era filho unico. Erguendo-se o melhor que pôde
debaixo do pezo da maldição triple, foi a Braga fazer partilhas com o
irmão clerigo, e tão intolerante se portou por causa d'um faqueiro de
prata abafado pelo padre em beneficio de uma freira dos Remedios, que
chegaram ás ultimas, esmurraçando-se sobre o espolio do honrado defunto,
o qual tinha apanhado o faqueiro no embornal cahido do cavallo ferido de
um dragão que elle ou outros tinham matado. O pae do clerigo--Deus lhe
perdoe--gabava-se d'isso, e o filho, theologo casuista, não achou em
Bazembáo o caso da restituição da coisa roubada a ladrão! 1:600 missas
davam ensanchas para maroteiras maiores.
Regressou a Lisboa com quinze mil cruzados Eduardo Pimenta.
O dinheiro influe bastante no espirito, e no resto. Adormece e acorda
melhor quem o tem. A espinha dorsal tem outra casta de aprumo. O olfacto
fareja essencia de violetas em tudo. O coração tem azas. A fantasia é
mais allemã. Os olhos comprehendem a fabula dos Argos e dos lynces. Os
ouvidos afinam-se tão agudos que, em comparação, a lebre é surda. Cada
gaita de feira sôa-nos como a tuba de Oberon.
Sobre tudo, as faculdades do amor urdem romances, tecem-os de lhama de
oiro nas cabeças negras, castanhas e loiras das mulheres lindas, das
feias, das Philamintas, das Felizardas. Todo o pé nos intriga, toda a
botinha é de Cendrillon, todo o vestido apanhado com elegante descuido é
naça que nos pesca a alma em lago de aguas cristalinas. O dinheiro faz
isto: quando nos sobram dentes para morder pomos, sómente prohibidos a
quem não tem dentes, nem dinheiro principalmente.
Deu que scismar a Venceslau Taveira a transfiguração moral do amigo. A
linguagem mais expedita, a ideia lucida, prismatica, borboleteando por
assumptos que recendiam a rosas, a margaridas, a madrigaes. Emfim,
Eduardo fallava muito de amor, de poesia, de coração, de mulheres, de
muitas mulheres vivas, e de algumas mortas, de Fiammeta, de Fornarina,
de Collona, de Leonor, de Corinna, etc., excepto de Antonia. D'aquella
Antonia, que elle andára sete ou oito annos a procurar no crepusculo das
tardes e no diluculo das madrugadas, d'essa, que se mirrava entre os
farrapos da mortalha e as pranchas do esquife, não dizia nada.
--Que vaes fazer ao teu dinheiro, Eduardo?--perguntou-lhe o collaborador
do _Astro da Luzitania_, rodando sobre a sua banca de trabalho duas
peças que havia recebido pelo serviço de um mez.--Empregas esse capital
em officio ou beneficio que te renda um passadío modesto?
--Hei-de pensar n'isso...--respondeu desattentamente o outro.--Por ora,
assisto á renascença da minha alma, que esteve atrophiada nos regêlos da
desgraça. Estou acordando do lethargo, a reconhecer as commoções, as
alegrias do viver. O cerebro ha de funccionar, quando o coração lhe
radiar o seu calor. Depois pensarei. Mas antes de mais nada... Nós temos
contas, Venceslau. Na emigração, tiveste a delicadeza de me dizer que me
emprestavas e não davas a subsistencia. A divida principal não t'a pago,
que não posso: é a gratidão insoluvel; mas o que é dinheiro quero
pagal-o, não só porque devo, mas porque me sentirei melhor na tua
presença quando t'o não dever.
--N'esse caso, paga. Não quero que te sintas mal na minha
presença--disse Venceslau com semblante sereno e severo.
--Sabes quanto é?
--Não.
--Calcúla.
--Esse calculo pertence á tua pontualidade. É trabalho que está a cargo
d'aquelle que, depois da liquidação das contas, se sentir melhor na
presença do outro.
--Vejo-te muito sério!--atalhou Eduardo.--Offendi-te?!
--Foste apenas pouco delicado comigo. Eu não sou da especie dos credores
que apresentam a conta copiada do livro... Quando em Londres comprava
por um schilling um jantar para nós ambos, nunca lancei á tua conta seis
pence. Afiz-me a repartir com o irmão; não emprestava ao homem que havia
de ser rico. Nunca preví que houvesses de o ser... No meu trabalho não
eras tu pequena parte...
--Eu?! que fazia eu?
--Davas-me animo com a tua mesma ociosidade; redobravas-me o goso de
cumprir o dever de homem, por ti e por mim. Quanto a esperar de ti
retribuição em moeda corrente, não cabia semelhante conjectura no
conhecimento que eu tinha da tua indole...
--Ora essa!...--interrompeu pondunorosamente Eduardo.--Então figurei de
parasita aos teus olhos...
--Não: figuraste de homem engolfado por abysmos de saudade, amortalhado
em luctos de viuvez eterna...--respondeu Venceslau sorrindo.--Quem havia
de prever que sahirias do antro da tua dôr, ao fim de oito annos, com o
rosto banhado dos resplendores d'um novo dia? Eu, que então me julguei
reservado para a suprema angustia de te sepultar envolto no lençol da
nossa pobre enxerga, como sonharia esses quinze mil cruzados que te
auctorisam a perguntar quanto me deves? Quem diria que nas leiras e
montados de teu pae succederia o filho amaldiçoado? Desandou a roda
funesta, Eduardo. O teu mau anjo era a pobreza. Repelliste-o para as
trevas dos indigentes. Voga affoitamente no mar da vida, que estás em
maré de felicidade. Que tregeitos de impaciencia me fazes, meu
amigo?.... Tem paciencia; escuta-me. Volta o rosto alegre algumas vezes
para o passado. Repara nas lagrimas e angustias em que se desfizeram as
tuas illusões. Olha que está uma sepultura de mulher innocente a servir
de base ao monumento das tuas recordações. Abre o livro funebre da tua
mocidade, e lê os preceitos da experiencia. Toda a desgraça é uma raiz,
que se arreiga dolorosamente na alma; porém, lá vem um dia em que a
raiz abrolha flores que parecem de planta abençoada: essas flores são o
escarmento, o desengano, a verdade, a sciencia da vida como ella é,
vista á luz da razão.
--Mas onde vaes tu com essas praticas tão bem discursadas?!--perguntou
Eduardo Pimenta, entre risonho e enfastiado.
--Vou entregal-as á tua memoria para que te sirvam de _memento_, quando
escreveres á filha do commendador.
--A filha do commendador? Querem vêr que me entroncas na progenie de D.
Juan Tenorio! Temos, pois, uma Anna, a filha do fidalgo de Burgos!...
Venceslau Taveira pôz as mãos nos hombros do viuvo de Antonia de
Portugal, e disse-lhe com boa sombra e graça affectuosa:
--Não achas notavel a coincidencia do pae que é commendador e da filha
que é Anna?... Dize-me agora: que motivos te justificam da reserva com
um amigo de oito annos? Que tinha que eu soubesse da tua bocca esses
amores? Dizias-me, ha dois mezes, que o teu coração era o Lazaro
apodrecido na sua cova; e, como a ideia de Lazaro envolve a ideia de
Christo, o Christo do teu coração defuncto foi o dinheiro. Não dou nada
pela vida assim galvanisada por correntes electricas do metal...
Eduardo interrompeu o impertinente amigo com uma cascalhada de riso
secco; Venceslau, porém, carregando o semblante, concluiu:
--Nunca te esqueças de que fui eu quem te apresentou ao commendador
Francisco Vaz e a sua filha D. Anna. Eu disse-lhes que tu, Eduardo
Pimenta, eras homem de bem, e infeliz, sem o haver merecido.
VII
Desejas conhecer o que és? repara nos outros: tal tu és.
Desejas conhecer os outros? Olha para dentro de ti, que em ti os vês.
SCHILLER.--_Poesias._
D. Anna Vaz, a filha do commendador de Santa Christina de
Almudena--commendador, entendam, de velha estôfa, aparentado com os
descendentes dos Pelagios e Ordonhos--era creança de quinze annos, quasi
bella, mas, melhor do que perfeita belleza, era boa, candida, innocente,
e triste das saudades de sua mãe, poetica da sagrada poesia que se curva
a derramar prantos sobre a urna de umas cinzas queridas.
Venceslau conhecera em Londres um irmão d'esta menina, alferes emigrado,
compleição doentia, éthico da enfermidade nostálgica, exacerbada por
amor a uma senhora de Lisboa, com quem destinára casar-se, quando os
franceses invadiram Portugal.