Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
produced from scanned images of public domain material
from the Google Print project.)
BIBLIOTHECA--MORÉ
* * * * *
LIVRO DE CONSOLAÇÃO
ROMANCE
POR
CAMILLO CASTELLO BRANCO
Não nos sirva de medo ou de desvio
Vêr como vai o mundo concertado.
D. FRANCISCO MANOEL DE MELLO--_A tuba de Caliope._
PORTO
VIUVA MORÉ--EDITORA
PRAÇA DE D. PEDRO
--
1872
LIVRO DE CONSOLAÇÃO
PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA
LIVRO
DE
CONSOLAÇÃO
ROMANCE
POR
CAMILLO CASTELLO BRANCO
Não nos sirva de medo ou de desvio
Vêr como vai o mundo concertado.
D. FRANCISCO MANOEL DE MELLO--_A tuba de Caliope._
PORTO
VIUVA MORÉ--EDITORA
PRAÇA DE D. PEDRO
--
1872
A SUA MAGESTADE
O SENHOR DOM PEDRO SEGUNDO
IMPERADOR DO BRAZIL
SENHOR
Eu não solicitei licença para dedicar a VOSSA MAGESTADE IMPERIAL este
livro que representa um trabalho--palavra sagrada que nobilita e exalta
os mais futeis lavores do espirito. Vi por esta lente de ambicioso
alcance a pequenez da offerta, para que me não fallecesse a affoiteza de
ir depor na livraria de VOSSA MAGESTADE as paginas estereis da historia
d'umas paixões triviaes da vulgaridade, do mal.
Além de que, SENHOR, quando eu escrevia estas linhas, em frente da
cadeira onde VOSSA MAGESTADE se assentou, no escriptorio do operario,
esqueci-me de que é Imperador do Brazil Aquelle a quem as envio; e vejo
tão sómente o sabio, o modelo de principes que, ao descerem até aos
pequenos, deixam o diadema em altura onde mais subidos vão os respeitos.
Desde o momento que VOSSA MAGESTADE me honrou a obscuridade, fazendo-me
sentir que vinte e dous annos de incessante lidar mereciam o galardão de
alguns minutos gloriosos, tambem eu cobrei alentos para chegar até á
meza de estudo do douto Imperador, e esperar ahi uma hora muito feriada
de leituras proveitosas para então LHE offerecer com respeitosa
confiança um livro de mero desenfado, pois não tenho mais nada com que
possa significar a VOSSA MAGESTADE a minha gratidão. De VOSSA MAGESTADE
IMPERIAL
o mais reverente criado
_Camillo Castello-Branco._
INTRODUCÇÃO
Le résultat de l'art... c'est l'adoucissement des esprits et des
moeurs, c'est la civilisation même.
V. HUGO.--_Les voix intérieures._
Em uma tarde de agosto de 1867, passeava eu, com um amigo de aprazivel
tracto, nos arrabaldes de Lisboa, e comparávamos a desamena e árida
vegetação d'aquellas gándaras com os arvoredos e verdejantes valles do
Minho.
Alli por perto de Odivelas me disse o meu amigo Luiz da Silva:
--Entremos por esta azinhaga que não tem sahida. Isto vae dar áquella
casinha branca. Móra lá um velho a quem te vou apresentar. Mas quem sabe
se o homem morreu?! Ha tres annos que o não vi...
--Tem esse sujeito--perguntei eu com a minha natural magnanimidade de
immortalisador--passagens na vida dignas de chronica?
--Tem, e magnificas.
--Capazes de um volume de 250 paginas em 8.º?
--Isso não sei. A biographia d'este homem é uma infelicidade vulgar,
que, todavia, fez grande estrondo; mas os naufragios do coração
parecem-se aos do mar: abre-se um abysmo, que sorve centenares de vidas,
e d'ahi a pouco nenhum vestigio sobrenada á flor das ondas; assim
succedeu na procella que sossobrou o velho que vaes vêr.
--Fez grande estrondo, disseste ahi tu! Mas eu, attento aos escandalos
estrondosos do meu paiz, não me lembro d'isso...
--Não eras ainda nascido.
--Ah! eu não era ainda nascido? Isso então é caso muito antigo...
--Um pouco depois da edade-media--replicou Luiz da Silva.
E d'esta fórma gracejando por conta da nossa velhice, entestamos com uma
porta estreita e baixa pertencente ao quintal da casinha branca.
O meu amigo bateu duas aldravadas na porta.
--Está aberta; levante o ferrolho quem é--disse uma voz de dentro.
--É vivo o homem!--disse Luiz, entrando.
Caminhamos por debaixo de uma parreira, cujos pilares se vestiam de
festões de rozeiras vulgares e descuradas, alastrando-se por terra, e
formando alcatifa de rosas murchas. Ao cabo da fresca e assombrada
avenida, encontramos um caramanchel enverdecido de trepadeiras, e lá
dentro um ancião sentado em escabello de cortiça, afagando um gato
maltez que lhe dormitava sobre os joelhos, e com pachorrento desdem
entre-abriu os olhos á nossa chegada.
O velho formou com a mão direita um quebra-luz sobre os oculos verdes
que pareciam coar-lhe aos olhos escassa claridade, e disse com
prasenteiro semblante:
--Quem me faz a honra?...
--É Luiz da Silva e um amigo que tem a honra de ser apresentado a V. Ex.ª
Depois da apresentação, o sujeito, para quem o meu nome não era
inteiramente desconhecido, disse ao meu amigo:
--Muito ha que o não vejo, snr. Silva. Seu tio general esteve aqui ha
tempos, e me contou que V. Ex.ª andava a correr mundo. Conte o que viu.
--Vi o que Salomão via em tudo: vaidade.--Respondeu, sorrindo, o meu
companheiro.
--Então, caro senhor meu, não só viu, mas estudou muito--volveu
Venceslau Taveira, afagando o lubrico dorso do gato que, estrouvinhado
pela incommoda palestra, se remechia no regaço do dono, resmuneando, e
afofando o ninho para recomeçar o seu placido dormir.--Escusava de
sahir de si proprio, snr. Silva, para vêr o homem qual é em toda
parte--proseguiu o velho.
--E, se eu quizesse vêr um homem distincto do commum--tornou o meu
amigo--bastar-me-hia ter conhecido V. Ex.ª
--_Distincto_, quer dizer, distincto na infelicidade...--acudiu Taveira.
--Na honra e na virtude--emendou Luiz da Silva.
--Agora vejo que não estudou nada... Vaidade, tudo vaidade, e... algumas
lagrimas.
E, voltado contra mim, perguntou:
--O seu amigo disse que v. é da provincia. É minhoto?
--Tenho vivido no Porto--respondí.
--Lá viví tambem dois annos e tanto. Os suburbios são graciosos, quanto
me podiam parecel-o atravez do fumo das batalhas. Sou um dos sete mil e
quinhentos. Conservo recordações agradaveis de umas grandes arvores da
quinta do Vanzeller. Verdade é que as contemplei em posição molesta.
Havia-se-me cravado uma bala na perna direita, e assim estive duas horas
esperando a maca. Foi n'este espaço de tempo que eu, confrangido, de
dôres, admirei a serenidade das arvores, e ponderei a vantagem de ser
vegetal, estranho ás côrtes de Lamego e á constituição da monarchia. E a
impassibilidade das carvalheiras aparando as balas no seu arnez de
cortiça! Tudo é grande e forte, excepto o homem! O homem... esse é um
mixto de odios, de angustias e vaidades, segundo assevera o nosso
viajante Luiz da Silva...
Proseguiu o ancião, entremeando de discretas jocosidades a deleitosa
conversação, que durou duas fugitivas horas.
Não se me abriu ensejo de pedir a Venceslau Taveira licença de o
visitar, nem elle me offereceu a sua casa. Facil era de perceber que, se
as visitas lhe eram agradaveis, a solidão lhe era mais recreativa que as
visitas.
Convidou-nos para o seu chá, quando anoiteceu, e acompanhou-nos até á
porta do quintal.
--Quem é este homem?--perguntei ao meu amigo.
--A historia d'este homem ha de contar-t'a meu tio general que é do
tempo d'elle, e vem todos os annos da provincia de Traz-os-Montes
visitar o seu companheiro de infancia. Os lances essenciaes poderei
referir-t'os; mas as particularidades só meu tio Pedro as sabe.
--Que posição social tem elle? Ouvi-te dar-lhe excellencia.
--A «excellencia» poderia significar que elle não tem alguma posição
social; ainda assim, dou-lhe excellencia, porque o seu appellido
representa familias antiquissimas da Beira Alta; além d'isso, é do
conselho de Sua Magestade, official maior de secretaria aposentado,
gran-cruz da ordem de Christo, etc.
* * * * *
Desde Odivelas a Lisboa, me referiu Luiz da Silva as passagens capitaes
da historia de Venceslau Taveira.
Alguns mezes depois, o general Pedro da Silva chegou a Lisboa, e, a
rogos do sobrinho, contou-me circumstanciadamente successos que elle
denominava os obscuros heroismos da mais honrada e excruciada alma.
E concluiu d'esta maneira:
--Se v. quer obrigar-me, escreva estes acontecimentos; mas não os
enfeite com episodios de sua casa. Se a narrativa sahir verdadeira,
poderá ser util. Deve v. fazer um livro dulcificante para alguns
corações amargurados. Póde até denominal-o, se quizer: LIVRO DE
CONSOLAÇÃO. Dou-lhe por cada lagrima, que fizer verter, um germen de boa
acção, ou se quer de um bom pensamento. Porém, se v. adulterar a tragica
singeleza d'esta desgraça com as inverosimilhanças do genio francez, o
seu livro ficará sendo meramente uma novella. Escuso pedir-lhe--terminou
o general--que empregue tão sómente a sua phantasia nos nomes dos
personagens, em razão de estar ainda vivo o principal.
I
Historia infantil de todo o homem que sente....
LOPO DE SOUZA--_Herança de lagrimas._
Venceslau Taveira nasceu na comarca de Lamego em 1795. Como filho
segundo de casa vinculada, foi destinado desde o berço a frade cruzio ou
benedictino. Estudou humanidades em Coimbra, e entrou, portanto, a
noviciar na casa capitular de Tibães aos quinze annos.
Findo o anno de prova, o profitente interrogado manifestou que lhe
faltava genio e fé para ser frade como cumpria.
Fr. Francisco de S. Luiz, então conventual em Tibães, e, mais tarde,
bispo, ministro liberal, patriarcha e cardeal, sahiu em defeza do noviço
contra as violentas persuasões dos monges escandalisados da impiedade de
Venceslau.
Não ter fé! Era a primeira vez que um noviço ousára dizer que não tinha
fé! Que elle não tivesse virtudes, vá; que muito frade se salvou sem
ellas, graças ao habito que faz o monge e á contricção final que faz o
santo; mas não ter fé!...
Sem impedimento d'estas e outras razões dos frades escandalisados,
argumentava o sabio benedictino que era desprimor notavel para a
religião o acorrentarem-lhe ao altar os seus sacerdotes; que o
descredito das ordens monasticas havia sido motivado pelo vicioso
proceder dos frades constrangidos; e que, finalmente, ninguem esperasse
que a violencia abrisse á luz da fé corações fechados e escurecidos pela
duvida.
Com tão válido protector, o noviço despiu o habito e foi para casa.
Recebeu-o a mãe com amorosa indulgencia; mas o pae, affrontado da
insolita rebeldia, apertou-o no duro dilemma: ser frade, ou, quando não,
ir grangear sua vida onde lhe bem quadrasse.
Baldados os rogos e piedades da mãe, já ao marido para que perdoasse, já
ao filho para que obedecesse vestindo o habito, Venceslau, com algumas
moedas liberalisadas pela commiseração maternal, foi caminho de Lisboa
onde não tinha parentes nem amigos.
Principiava o anno 1811.
O mancebo chegou a Santarem no dia em que o general Massena alli
aquartellava a sua divisão. O reboliço da cidade desbordando de tropa, o
espectaculo offuscante de um exercito embriagado de victorias, aquellas
magestosas figuras dos generaes do imperio alvoroçaram o animo do rapaz
cuja imaginação verdejava as epicas fantasmagorias dos dezesseis annos.
Que farte ouvira elle em Tibães execrar Napoleão, Massena, Soult, Junot
e os outros d'aquella funesta constellação. O seu entendimento queria
duvidar da justiça das accusações; mas o patriotismo insinuava-lhe o
dever de odiar francezes, salvante Rousseau, cujas obras elle podéra lêr
clandestinamente, subtrahindo-as da gavêta defeza da livraria de Tibães,
onde talvez as recadasse com prudente cautela o esclarecido fr.
Francisco de S. Luiz.
Á conta pois do auctor do _Contracto Social_ está, por desventura de sua
alma, a grave responsabilidade de haver-se esquivado á tunica de S.
Bento aquelle rapaz que em Santarem perguntava a outros:--Depois d'este
acto de justiça quem póde negar a Massena as virtudes militares que
Plutarco refere dos varões illustres de Grecia e Roma?
O leitor vae recordar a sabida passagem que, no espirito do moço
enthusiasta, emparceirava o general francez com Themistocles ou Paulo
Emilio.
Quando os francezes retiravam de Alemquer, certa familia de notoria
fidalguia, receando insultos da plebe, acompanhou o exercito invasor com
uma escolta de dois dragões. Ora um d'estes indignos guardas, ageitada a
occasião, e vencido do impeto do sangue e dos conselhos do demonio,
maculou mais ou menos--mas é de crêr que fosse mais--a pudicicia de uma
das damas confiadas á sua vigilancia.
Eis pois um dragão indigno de aparelhar com o outro que, no jardim das
Hesperides, guardava o vélo de ouro, de certo com mais peso e
quilates, mas com muito menos direitos á nossa consternação.
E succedeu que a dama queixosa, posto que o infando desastre houvesse
sido secreto, (ave rara!) preferisse ser honrada a parecel-o. Assim
pois, logo que chegou a Santarem, D. Lucrecia (ouso chrismal-a assim em
honra da sua memoria bastante romana) expoz a Massena o affrontamento
que lhe fizera o dragão. Ordenou para logo o general que o criminoso
entrasse em conselho de guerra, e tão summario correu o processo que, no
lapso de meia hora, foi o carnalissimo réo interrogado, sentenciado,
confessado e espingardeado!
E como quer que alguem intercedesse em favor do comdemnado exorando
menos rigorosa pena, o general respondeu: «Depois de arcabuzado, requeira».
Tal foi o caso de disciplina que obteve para as aguias de Austerlitz um
acerrimo partidario.
Apresentou-se Venceslau Taveira ao marquez de Alorna, um dos generaes
portuguezes que seguiram deslumbrados o metheoro da Corsega, quando as
côres ardentes já se íam esmaiando ao visinhar-se do céo de Waterloo.
O marquez, illustrado e dadivoso, agasalhou o foragido noviço com tanta
cortezia como caridade, sentando-o á sua mesa e provendo-o das coisas
que lhe escasseavam, na crise em que a fome apalpava os portuguezes
menos protegidos.
Comprazia-se o provinciano em convivencia d'alguns fidalgos, commensaes
de Alorna, taes como o marquez de Loulé, o conde de S. Miguel e D.
Luiz de Athaide. Este ultimo foi grande parte no precoce rancor de
Venceslau aos governos absolutos.
Era D. Luiz de Athaide filho do conde de Atouguia e neto do marquez de
Tavora, ambos justiçados como regicidas sob o reinado de D. José I.
Um dos amigos de Venceslau, então adquiridos em casa do marquez,
escrevendo, quarenta e cinco annos depois, as suas _Memorias_, avaliou
ineptamente D. Luiz de Athaide com estas descaroadas linhas:
«... Não posso deixar de mencionar outro homem notavel que alli
encontrei, e que, descendente da mais alta fidalguia da nossa terra, era
um tristissimo exemplo da degradação a que póde chegar a especie humana,
decahida do explendor da grandeza e mergulhada no lodaçal da miseria e
despreso. Foi D. Luiz de Athaide filho e neto d'essas familias
desgraçadas a quem o inexoravel grande marquez de Pombal sacrificou
sobre o horroroso altar do poder absoluto e de quem até pretendeu riscar
os nomes da superficie da terra... Em verdade, era digno de ser
observado por quem podésse bem avaliar o que são e podem ser os destinos
do animal chamado homem... Quem o via, e não sabia quem era, só o podia
ter por um sordido e baixo môço de cavallariça. Na sua figura e no seu
trage trazia todas as insignias das maldições humanas, e nas suas
palavras não havia senão rancor e odio, e esse rancor e odio tão
profundos e inveterados, quantos eram os annos desde que poude conhecer
as suas mizerias. A quem lhe fallasse na casa de Bragança, respondia
com rugidos de leão; parecia que lhe saltavam os olhos pela cara fóra
estimulados pela raiva, e só socegava depois que desafogava o coração
ulcerado com imprecações horriveis. Para elle só Napoleão era o rei
legitimo de Portugal; e tal era a affeição que lhe tinha que, havendo,
não sei porque artes, ganhado uma grande porção de dinheiro a foi
entregar a Massena assim que entrou em Portugal. Este lh'a acceitou e
agradeceu, declarando-lhe ao mesmo tempo que esta lhe seria restituida
em Paris, se para lá fosse...»[1]
Apezar d'esta apreciação indicativa de escriptor e espirito menos de
ordinarios, e incapazes de alçarem-se até onde a desgraça ergue pelos
cabellos as suas preas, D. Luiz de Athaide, no conceito de Venceslau,
incutia a um tempo compaixão, respeito e assombro. Aterrava e commovia
ouvil-o vociferar contra a raça de D. José I, e de repente levar as mãos
aos olhos afogados em lagrimas, soluçando o nome de seu pae. Se alguem
lhe lembrava que elle era proximo parente da familia real, e portanto
devia cohibir-se de insultal-a no mais sensivel da honra, exasperava-se
a termos de repellar-se por não poder inventar maneira de denegrir em si
proprio as gotas de sangue real que lhe deshonravam as veias.
Tanto escogitou, porém, que descobriu facil processo de enxurdar quanto
humanamente se podia a sua progenie realenga. Foi assim.
Encontrando, mezes depois, em Paris, no derradeiro escalão social, um
vulto de mulher desfigurada pelo squalor do vicio, fêl-a sua esposa, com
o intuito de a fazer mãe dos parentes da casa de Bragança. D'este caso
tambem teve noticia José Liberato Freire de Carvalho, nas citadas
_Memorias_.
Escreve elle: «... Mas como casou! Consta-me tambem que alli em Paris
vascolejára as ultimas fezes da sociedade para encontrar uma mulher que
fosse digna d'elle e que a achára. Reduzido na sua terra á infima sorte
de um paria na India, quiz, no seu mesmo aviltamento, vêr se podia
tambem aviltar, como elle dizia, algumas gotas de sangue que lhe
circulassem no corpo, e fossem d'essas que animavam a familia real
portugueza.»
Homem de tão singular e descommunal condição tinha direito a ser
estudado e desenhado por quem tivesse vista d'alma que alcançasse o
enorme desgraçado no fundo da sua voragem. Dos seus coevos e camaradas
nenhum deu tento d'esse extraordinario martyr senão o ex-frade José
Liberato, que nunca pôde desfazer-se de tres partes de máo frade com que
fugiu aleijado do convento. O neto do brioso Tavora, o representante da
opulenta familia, cujos bens haviam sido confiscados para a casa
reinante, ou para a do valido que se pascia nas lagrimas, no sangue e no
espolio dos degolados em Belem, emfim, aquella sublime e rancorosa
desesperação de D. Luiz, que dava o ouro ganhado em azares do jogo para
derruir o throno, e trajava andrajos para que assim o vissem roubado
nas ultimas mealhas de seu pae--tal homem assim maltrapido e crucificado
no seu opprobio, figurou-se aos olhos de José Liberato o compendio «de
todas as maldições humanas»!
Com interesse de respeitoso compungimento o via Venceslau Taveira, e o
escutava nas apostrophes iracundas contra a dynastia de Bragança. Já
decrepito, o solitario da charneca de Odivelas, recordava o neto dos
Athouguias, e dizia que se a França houvesse tido um homem assim
recaldeado em fraguas de tamanhas angustias--um tão extravagante
complexo de soberba e aviltamento, de saudade maviosa e sevos odios--os
mais grados litteratos o exalçariam diante do mundo, tornando-o
interessante como historia, como philosophia, como moral, e até o poeta
se não pejaria de ir procurar nas cavallariças de Massena esse neto de
reis portuguezes, e vestil-o dos esplendores da poesia tragica, ao mesmo
passo que o seu real parente, o principe D. João de Bragança, apenas
vingaria ser dignamente cantado nas epopêas bordalengas de José Daniel.
Affeição de outra tempera, como de eguaes e de mancebos em alvorada de
esperanças, ligou Venceslau Taveira a um official de infanteria do
quartel-general de Pamplona.
II
O célestes concerts de joie et de douleur!
HENRI BLAZE.--_Matutina._
Era um rapaz de vinte e dous annos, chamado Eduardo Pimenta, natural de
Braga.
Este moço levava uma vida tanto em comêço já cortada de profundos
golpes; e, por amor d'isso, como as suas dôres não podiam ser expiação
de maus actos, a gente de coração queria suavisar-lh'as,
linimentando-lh'as com o balsamo da amizade.
Bosquejemos a historia d'esta mal estreada existencia.
D. Antonia de Portugal, famigerada formosura n'aquelle tempo, viera de
Lisboa a visitar irmãos, que tinha no Porto, alliados por casamento nas
duas casas de mais gothica estirpe. Affeiçoara-se aquella dama a um
alferes, sem discriminar os distantissimos pontos de partida em que
o Creador pozera o seu primeiro avô do avô de Eduardo Pimenta:--erro
talvez devido á insufficiente leitura que a menina tinha de Moysés.
Era orphã D. Antonia; mas a tutela de um tio que por vezes exercera o
então poderoso cargo de ministro de Estado, pesava-lhe mais oppressiva e
inflexivel que o poder paterno. Assim pois, tão depressa raspou nos
ouvidos do fidalgo o indecoroso affecto da sobrinha, que logo Eduardo
Pimenta foi chamado á capital e transferido ao Brazil em serviço
militar. Inquebrantavel em seu amor, D. Antonia incutiu no peito do
desterrado a flamma da sua coragem, accendendo-lhe esperanças temerarias
e perigosas.
Os parentes d'ella tomaram-se de espanto e ira, ao saberem que o alferes
desertára do seu regimento, desembarcára em Lisboa, e ajoelhára aos pés
do principe regente solicitando e impetrando licença para casar-se com
D. Antonia de Portugal.
O consentimento, porém, do bondoso principe não tolheu que o alferes,
acossado pela perseguição de sicarios, se evadisse da côrte,
refugiando-se nos arrabaldes de Braga, d'onde em vão implorou por
mediação de amigos a malograda protecção do principe.
No entanto, a pertinaz menina, cansada de reagir á pressão dos parentes,
acolheu-se ao mosteiro de S. Bento da Ave Maria, no Porto, onde tinha
uma tia professa; mas d'ahi ainda o braço rijo do tio ministro, mediante
o chanceller das justiças, a foi arrancar, allegando que a reclusa,
escrevendo e recebendo cartas, gosava liberdades deshonestas que em sua
casa lhe eram prohibidas.
E em verdade escrevia muitissima carta D. Antonia, e dispunha de estylo
que, relativamente á época, não era menos de romantico. Se o leitor
quizer, logo lhe darei occasião de apreciar a linguagem e a
sensibilidade extrema d'esta senhora que pagou penosamente os dons do
seu espirito.
Apartada judicialmente da indulgente freira, foi transferida para o
collegio das orphãs que n'aquelle tempo foi viveiro de meninas
lastimosas, mormente as pensionistas, as formosas, as amadas, as ricas,
as filhas segundas--e hoje em dia está sendo--graças á santa Casa da
Misericordia--um alfôbre de educação moral onde o vicio não póde coar-se
senão em parcellas diminutissimas, por onde se vê que a Misericordia
conseguiu estar-se em pleno osculo com sua irmã ou prima, a Castidade.
N'aquelles dias, pois, a urna dos divinos balsamos de Jesus caritativo
transformára-se em gral onde os corações eram pulverisados. E d'este pó
amassado com lagrimas sustentava-se a honra das familias, a dignidade
das mulheres, e nutriam-se as boas esposas que depois sahiam a repartir
affectos entre maridos, e primos e capellães, e tudo mais que convinha a
manter honesto equilibrio entre as coisas humanas e divinas.
Pois, sem impedimento das vigilantes espias que lhe espreitavam os
gemidos e os arremessos, a reclusa vingou passar na roda uma
imprudente carta que denunciava a residencia do alferes homiziado.
Guiados pelo destino da carta, os aguazis do corregedor, com auxilio de
escolta cedida pelo general da provincia, cercaram o escondrijo do
desertor, prenderam-o com affrontosas precauções, e aferrolharam-o na
mais escura masmorra do castello de S. João da Foz, onde, quarenta annos
antes, alguns padres da Companhia de Jesus haviam expirado de fome e
frio por ordem do deshumano marquez de Pombal.
Avisada do desastre causado por sua indiscrição, D. Antonia rompeu em
tamanhos desatinos que a regente, por amor á vida não votada ao
martyrio, requereu que lhe tirassem d'aquella casa mansa e quieta a
turbulenta fidalga, que ameaçava tortural-a com a roda de navalhas de
Santa Catharina, virgem e martyr. A regente, diga-se verdade liza,
parece ter tido escrupulos de mentir, e receios de não poder entrar no
reino da gloria eterna com a dupla corôa da santa anavalhada. Não lhe
pezem, todavia, as minhas suspeitas sobre os ossos que D. Antonia lhe
ameaçou tres vezes ou mais.
O certo é que a louca de amor foi d'alli passada com guardas de esbirros
para Santa Clara de Coimbra, mosteiro onde áquelle tempo se exercitavam
maleficios inquisitoriaes sobre donzellas eivadas do judaismo da ternura
por sugeitos incongruentes com suas pessoas e bens.
N'esta conjunctura, succedeu entrar em Portugal o invasor Junot, e com
elle a vanguarda de ideias livres, vestidas com as pompas da
egualdade humana--santas palavras que desafogaram corações abafados ás
mãos da tyrannia de paes e tutores. D. Antonia, alumiada na escuridade
da sua cella por lampejos de esperança, ao saber que o general estava em
Coimbra, escreveu a seguinte carta que vae textualmente copiada da que
tenho e que é a original com toda a certeza. Bem póde ser que semelhante
documento desquadre á urdidura d'esta narrativa; vá, não obstante, como
homenagem a uma dama infelicissima, a qual, ao fechar-se em sua
sepultura, abriu algumas que mais tarde se encerraram depois de
cruciantes agonias, como no discurso do livro se irá vendo.
Dizia assim a carta a Junot:
«A alta consideração que por tantos titulos é devida a V. Ex.ª, imporia
á minha triste situação o mais respeitoso silencio, se a vossa
generosidade, Senhor, a não tivesse prevenido, assegurando aos
habitantes de Portugal uma protecção que, fazendo a nossa gloria, é a
mais sublime recommendação da vossa virtude e nobreza. Estes dons tão
preciosos me animam e prestam valor de elevar minhas supplicas e
lagrimas á respeitavel presença de V. Ex.ª O illustre guerreiro que
participa da gloria do maior dos heroes que tem visto os seculos, saberá
como elle unir clemencia e piedade ao valor que no campo de Marte
immortalisa seu nome.
«É do fundo de um claustro que a mortal mais desgraçada ousa aspirar á
honra de invocar o illustre general. É a innocencia tyrannisada e os
direitos mais sagrados combatidos que se refugiam no asylo de vossos
pés.
«Tenho a infelicidade de pertencer a uma familia nobre e desde a minha
mais tenra infancia me decidi por um militar que servia com honra em um
dos regimentos do Porto. Se elle não tinha fortuna tão brilhante como
minha familia, possuia todas as boas qualidades que caracterisam as
almas nobres. Por um caprichoso orgulho, que não póde soffrer as
virtudes puras (porque lhes ignoram o preço e os encantos) oppõe-se
minha familia fortemente á minha escolha, prevenindo nossas vistas
definitivas de um casamento occulto; e, conhecendo bastante a firmeza de
nossos desejos, meus parentes solicitaram e obtiveram uma ordem para que
o meu pretendido passasse á America. Este injusto procedimento feriu
sensivelmente a minha delicadeza e reputação.
«Empreguei todo o poder que eu tinha sobre o espirito do meu esposo,
obrigando-o a voltar clandestinamente a este reino, assegurando-lhe a
minha mão e a minha fé. Apoz um anno de ausencia, chegou á côrte;
lançou-se aos pés do throno, e foi recebido pelo virtuoso principe com a
maior affabilidade; porém, o ministro de estado impediu a conclusão de
tão ditosas esperanças, forçando meu esposo á cruel necessidade de se
esconder dos seus perseguidores que o espiavam em toda a parte para
satisfazerem o seu antigo odio e incompleta vingança. Em quanto elle se
foragia no seio de sua honrada familia, eu fui por meus parentes
forçada a receber outro esposo. Resisti. Não pude. Abracei o ultimo
partido que me restava para subtrahir-me ás suas violencias. Abandonei a
casa de meus algozes e acolhi-me aos pés da cruz. Ahi mesmo a minha
desgraça amparada nos confortos da religião, foi diffamada de astucia.
Deu-se-me um Recolhimento de orfãs, onde até as lagrimas me eram
empeçonhadas pelos conselhos brutaes das minhas directoras, que me
chamavam á penitencia por ter amado um homem pobre em quem Deus influira
as virtudes mais bellas e caracteristicas do seu divino creador; mas,
Senhor, como n'aquelle Recolhimento os meus gritos de desesperação me
dessem o triste semblante de louca, a commiseração dos meus parentes
enviou-me a umas torturas novas n'este convento de Santa Clara, d'onde,
banhada em lagrimas, estou escrevendo a V. Ex.ª
«Apezar dos espiões, ameaças e insultos, eu conseguira remetter ao meu
consternado amigo uma procuração que devia servir ao nosso casamento,
consentido pelo arcebispo de Braga. Quando, porém, os meus parentes
souberam que este acto se havia praticado em uma egreja de Barcellos,
instauraram processo contra o meu esposo com o proposito de o
condemnarem a degredo. Exigiram de mim que eu negasse a minha
assignatura na procuração, com o fim de o sentencearem como falsificador
de firmas; mas eu, invocando o meu amor e a minha honra, achei pequenas
e covardes as tyrannias que se augmentaram a ponto de me ser negada a
mais necessaria e urgente subsistencia. As queixas de meus irmãos
chegaram ao throno; todavia, apesar do valimento de tão poderosos
inimigos, não quiz sua alteza real que meu esposo fosse castigado sem
ser convencido. A innocencia d'elle ia ser patenteada, e por tanto
destruida a opposição da minha familia, quando a partida do regente para
o Brazil, nos deixou outra vez expostos á furia dos nossos
perseguidores. É fortissimo o partido d'elles. O snr. Br**, nomeado
membro da regencia, e outros fidalgos parentes de minha mãe, me fazem
tremer pela nossa sorte. O nosso triumpho está sómente reservado a um
poder superior. Só um general de Napoleão, immortal como elle, poderá
salvar-nos, libertar-nos e unir-nos. Este prodigio de grandeza de alma é
proprio de V. Ex.ª; é uma das maiores victorias do Anjo que já está
gosando a immortalidade no nome que ellas lhe deram.
«Dignae-vos, pois, Senhor, em nome de tudo que ha sagrado, ser o
protector de dois amantes desgraçados, que a vossos pés imploram uma
graça que lhes será a elles a suprema felicidade. Uma palavra só que vos
digneis proferir a nosso favor, a iremos de joelhos agradecer,
beijando-vos mil vezes a mão que nos abriu o céo; ao mesmo tempo que em
nossas almas, Senhor, sereis adorado como homem a quem Deus conferiu
poder de nos resurgir da morte, se tal vida não é mais digna da vossa
commiseração...»
Esta carta foi vertida para francez por Vidal, ajudante do general
Tiebau, coadjuvado por outro que depois se fez conhecido no mundo
scientifico, chamando-se Geofroi de Saint-Hilaire. Este, egual no
talento e na sensibilidade, leu a carta a Junot, internecendo-a de
pauzas e modulações, tendentes a mover o peito do soldado pouco affeito
a commoções dramaticas.
D. Antonia de Portugal recebeu da mão de Vidal a seguinte resposta:
«Madame. A innocencia opprimida não se dirige inutilmente ao
representante do Grande Napoleão, cujo poder abrange o mundo, e cuja
justiça se distribue por vassalos e reis. Ordeno que se vos dê liberdade
e passaporte para Lisboa. Vinde alli, e de lá ser-vos-ha facil fazer
sahir dos carceres do Porto o ente que vos interessa, e que, como vós,
ha sido a victima do orgulho de um ministro. Eu vos protegerei a ambos.
Tenho a honra de ser vosso muito humilde e obediente servo--_Junot_.»[2]
III
Ton chemin est devant toi. Marche! marche!
ED. QUINET.--_Ashaverus._
Em seguimento, a prelada de Santa Clara recebeu intimação militar para
entregar D. Antonia de Portugal.
Os enviados á redempção da gentilissima captiva espavoriram as freiras,
quando marcialmente entraram ao portico do mosteiro.
As mais avançadas em edade e virtude não ficaram estranhas ao receio de
serem desbalisadas do thesouro de merecimentos que haviam amealhado á
custa de muitas violencias, renunciações, cilicios e jejuns
debilitantes. As menos jejuadas e mais propensas a crêr na malicia dos
homens, se tivessem lido o que asseveram chronicas e o snr. A. Herculano
repete no _Eurico_, a respeito de certas monjas em risco de serem presa
lasciva dos sarracenos, é bem de crêr que pedissem á prioreza que as
degolasse na crypta, antes que o bafejo pestilencial dos francezes lhes
mareasse a candura, obrigando-as a córar.
E, tantos visos de exactidão offerece a hypothese lisongeira, que, ao
saber-se que D. Antonia era reclamada pelo general Junot, todas--que
eram cento e vinte as professas--illudidas, talvez, pediram voz em grita
que as deixassem soffrer por concomitancia o mesmo martyrio. Que jubilo
iria no empyreo, se as famosas onze mil da legenda sahissem a receber no
atrio dos seus jardins eternos subsidio que lhes enviava, d'uma
assentada, Portugal--torrão bastante sáfaro para tal messe!
Não eram já, entretanto, aquelles dias os azados para tão heroicos
martyrios. A prelada, exemplificando comsigo a privação do holocausto,
forçou a commedirem-se as noviças, as noviças principalmente, que tinham
os olhos sedentos de mortificação fitos nos algozes que as remiravam do
pateo com uns olhares assaz significativos das carniceiras entranhas que
os distinguiam dos frades portuguezes. Ora estes frades da comparação
eram uns que frequentavam os locutorios, e suspiravam tão mysticamente
quanto lhes permittia a eructação da orelheira mal esmoida.
Não pude averiguar se o agiologio das franciscanas conimbricenses
commemora algumas martyres empolgadas no tempo dos francezes em que a
roupa d'elles e a virtude das mulheres portuguezas era tudo o mesmo para
tão desmedidos facinoras, segundo affirmam piedosas tradições. Do que
tenho certeza é que D. Antonia de Portugal sahiu do convento com
tanta precipitação, ou tantas lagrimas a nublarem-lhe a vista, que nem
sequer divisava, entre os officiaes francezes, Eduardo Pimenta, que
parecia ajoelhar quebrantado pelo pezo da felicidade.
Quando Venceslau Taveira conheceu este moço, mezes depois dos
acontecimentos referidos, chorava elle, e quantos viam Eduardo a braços
com a desgraça que raras vezes, em episodios amorosos, se defronta com o
coração humano tão inexoravelmente.
Um dia, o alferes promovido a capitão no exercito francez, foi mandado
servir ás ordens de La Borde na batalha do Vimieiro, em que a estrella
dos valorosos portuguezes lampejou uns clarões que davam a lembrar o
cyclo heroico de que nem sequer, para tudo se perder, nos resta já agora
uma briosa saudade.
D. Antonia estanceava então na Alhandra esperando que seu marido a
mandasse recolher a Lisboa.
N'esta anciedade a fulminou a noticia de que o general La Borde morrera
na Roliça e com elle todo o estado maior.
E, no mesmo lance em que tal nova lhe deram, uns homens, que se diziam
seus valedores no immenso infortunio, quasi a forçaram a cavalgar,
caminho de Coimbra, onde, áquelle tempo, iam chegando os inglezes
desembarcados na Figueira.
E alli, da portaria do mosteiro de Santa Clara avisinhou-se chusma de
homens, que levaram uma mulher estorcendo-se a brados afflictivos.
Depois, abriu-se a porta do mosteiro, e fechou-se logo que sobre o
escabello foi deposta D. Antonia de Portugal, que desmaiára, se é que a
morte se não amerciára d'ella.
Entretanto, nem La Borde nem o capitão Pimenta haviam morrido dos
ferimentos. Alguem vira o official portuguez n'um olivedo do Tojal
enfaixando um braço que sangrava. D'este encontro resultou o boato da
morte, ao mesmo tempo que outros juravam de vista assistirem ao enterro
do general na egreja do Carmo em Lisboa.
Como quer que fosse, os portadores da falsa noticia a D. Antonia eram
confidentes dos tios d'ella, e a bala, que raspára na espadua do
capitão, fôra-lhe apontada ao peito por um d'esses homens. N'aquelle
tempo a fidalguia d'estes reinos ainda resfolegava por taes
respiradouros o sangue brioso que se lhe emborrascava nas arterias. O
timbre das armas obrigava. Os paquifes do elmo, arcando-se sobre as
cabeças d'uns mouros, esculpturados com barbaridade digna das proezas,
obrigavam seus donos ao preceito heraldico de guardar a honra da familia
com ferocia egual ao disvelo que punham em honrar a patria nos açougues
da Asia.
Enviára Eduardo Pimenta dous soldados portuguezes que levassem D.
Antonia a Cintra onde se estavam redigindo os artigos da convenção. Como
fosse clausula antevista d'aquelle convenio sahirem os vencidos com as
honras da guerra, o official contra-pesava o infortunio do desterro
com o jubilo de passar com a esposa a França, onde os generaes
portuguezes lhe promettiam protecção.
Os enviados de Eduardo voltaram dizendo que D. Antonia sahira da
Alhandra, algumas horas antes, acompanhada por milicianos.
Alanciado por tão inesperada agonia, o official affrontou o maximo
risco, perpassando pelas guerrilhas que confluiam a Lisboa. As insignias
e a rapidez da carreira acirraram o patriotismo de alguns bravos que o
espingardiaram e feriram mortalmente.
Uns caridosos frades cruzios que seguiam para uma quinta chamada
Cadafaes, nos arrabaldes da Alhandra, transportaram o ferido. Alli, a
peito com a morte, o desgraçado venceu-a, quando lhe seria redempção de
maiores penas succumbir.
Apoz longo tratamento, vae-se aquelle homem só, pobre, cercado de
incertezas e perigos. Ninguem sabia indicar-lhe o destino de D. Antonia.
Os amigos negavam-se a acoital-o da sanha da plebe. Por sobre tantos
desamparos, a pobreza antepunha-lhe uma cadeia de adversidades, por
entre as quaes lhe transluzia a consoladora ideia do suicidio.
O pae de Eduardo era portuguez de marca maior, entranhas nacionaes,
ferventes de nacionalismo e odio ao filho amaldiçoado que se bandeára
com jacobinos.
Quando, pois, Eduardo, disfarçado em almocreve, lhe appareceu á beira do
leito onde o velho se esperguiçava nos regalos de quem dormiu somno de
justo, repulsou-o com vociferações dignas dos paes romanos que
sentenciavam os filhos á morte, e mais dignas ainda do proverbial amor
patrio dos bracharenses.
--Fóra d'ahi, herege!--exclamou o ancião, estirando os braços á cara do
filho.--Pegaste em armas contra a nação de Affonso Henriques--proseguiu
o honrado portuguez com ira azedada pelas reminiscencias historicas--tu!
jacobino! ousaste desembainhar a espada contra a tua patria! contra a
patria de Affonso Henriques, que venceu cinco reis mouros, com auxilio
de Jesus Christo, que lhe fallou no campo de Ourique! Vae-te da minha
presença, maldito, em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo! Não
me tornes a pôr o pé em casa, sem te limpares com uma confissão geral,
impio, atheu!
Aturdido pela apostrophe e coberto de lagrimas, Eduardo ajoelhou,
referindo os infortunios que o levaram por necessidade e gratidão a
servir o seu libertador. Com o soccorro da mãe compadecida, conseguiu
commover o velho até ao extremo de prometter-lhe não o denunciar á
justiça, com a clausula de que iria sumir-se nas Alturas de Barroso em
casa de parentes.
Foi; mas poucos dias permaneceu na soledade agra de uma serrania onde o
desejo de morrer o debruçava sobre os despenhadeiros, implorando á sua
desgraça a coragem do suicidio. A coragem! Porque não hei de, acostado a
moralistas de grande tomo, chamar-lhe antes cobardia? É porque ha mister
enorme coração quem dentro d'elle se abre um tumulo. É porque vae
esforçada valentia n'isto de um infeliz se aniquilar com a certeza
de que em vez de lagrimas, lhe pesará sobre a memoria a censura dos
felizes, o horror dos espiritualistas catholicos, e a nota da
demencia--suprema injuria a essas pobres almas que a divina justiça não
mandaria ás penas eternas sem lhes descontar os terribilissimos
paroxismos, aquelle tormentoso debaterem-se nas prezas da desgraça,
aquelle relanço d'olhos ao céo e o grito d'alma n'esta dilacerante
pergunta: «Quando te pedí eu a vida, ó Creador?»
Eduardo desceu um dia das Alturas de Barroso e entrou no Porto demudado
e vestido por maneira que o não poderiam suspeitar. Acercou-se do páteo
de um irmão de D. Antonia de Portugal, e conversou com os palafreneiros,
occasionando perguntar novas da fidalga. Disseram-lhe que ella estava em
um convento de Coimbra, onde a encerraram depois que o marido acabára na
batalha de Vimieiro.
Dias depois, n'aquelle anno de 1809, o marechal Soult entrou no Porto. O
capitão vestiu a farda e apresentou-se ao general.
IV
Il est plus glorieux de tomber généreuse,
D'embrasser en partant ceux qui nous font souffrir,
De fluir sans remords, comme une femme heureuse.
MAD. GIRARDIN.--_Poésies._
Prescinde o leitor que lhe historiem os sabidos desastres do exercito
francez até ao dia em que Massena, o abatido «anjo da victoria», entrou
em Coimbra.
Eduardo Pimenta correu á portaria do convento, e perguntou por D.
Antonia de Portugal, a quem desde o Porto enviára cartas repetidas que
nunca ella recebeu das religiosas, testemunhas impassiveis do lucto da
supposta viuva e dos trances de agonia tão demorada.
Quando o official perguntou por sua mulher, a porteira, tremente de
pavor, disse que a snr.ª D. Antonia estava moribunda. Lançou-se Eduardo
contra a porta, com supplicantes lagrimas, já a repellões de raiva,
bradando que lh'a abrissem. As freiras terrorisadas capitularam em
avisar a reclusa de que seu marido a procurava.
Estava D. Antonia, senão moribunda, prostrada nos ultimos esvahimentos
de pthysica. Disseram-lhe que a buscava seu marido, e ella cuidou
que ouvia uma voz a dizer-lh'o, como tantissimas vezes a ouvira nos seus
delirios, antes que as ultimas golfadas de sangue a privassem do prazer
de delirar. Mas, como aquella voz se repetisse por bocca de algumas
religiosas que mais caritativas lhe velavam a enfermidade, Antonia
sentou-se de golpe no leito, e circumvagou pelas faces de tantas
mulheres os olhos torvos, não de lagrimas, senão do véo da morte.
Entendeu-as, convenceu-se, acreditou, porque a Virgem celestial lhe
tinha segredado que seu marido não era morto. As madres, com quanto
crendeiras em raptos e visões asceticas, julgaram-n'a delirante quando a
viram ajoelhar com muita fadiga, e contemplar a imagem da Senhora das
Dores, á qual dizia com anciosas intercadencias: «Fez-se o milagre, Mãe
Santisssima! Eu bem vi que os vossos labios se moveram hontem, quando eu
me arrastei até junto de vós. Elle vive!... mas eu... vou morrer...
morro n'este instante, ó consoladora dos afflictos, se me não daes
algumas horas de vida em troca de tantas dôres, e de morte tão custosa
nos meus annos, com tanto amor e esperanças a morrerem comigo! Outro
milagre, Senhora! Deixai-me vêl-o... vêr o meu esposo!..»
E orou uma prece inaudivel, com sorriso de esperança a embellecer-lhe as
lagrimas. Depois, lançou-se do leito aos braços d'uma religiosa,
exclamando:
--Não morro... não quero morrer assim! A Virgem Santissima quer que eu
expire abençoando todos os algozes, e beijando todos os instrumentos
das minhas torturas... Chamem as pessoas que mais me despedaçaram... Eu
quero chorar nas mãos onde houver signaes de sangue do meu coração...
Vistam-me... amparem-me... E, se eu morrer agora, levem-me assim morta
onde estiver Eduardo, ouviram?
Balbuciadas poucas mais palavras inintelligiveis, D. Antonia inclinou a
face ao seio de uma noviça, e immudeceu, ressumando da fronte e das
palpebras um suor frio.
--Estará morta?!--perguntavam-se as freiras quando nos dormitorios do
convento reboava grande alvoroço de passos e gritos.
Os sacrilegos e algum tanto romanescos officiaes francezes, que tinham
acompanhado o seu camarada ao mosteiro, não lhes soffrendo o animo a
demora da reclusa e a impaciencia do esposo, intimaram arrogantemente a
porteira a franquear a porta. Como ella se negasse, esconjurando os
depravados hereges, e sacudindo o hyssope da agua benta contra as
paredes, uns francezes espadaúdos pozeram hombros contra as portadas em
quanto outros escavacavam a roda a cutiladas, ou esgarçavam á ponta de
sabre o crivo dos palratorios. Desacatos tamanhos e tanto para lastima
eram crime vulgar e habitual em taes sujeitos, vezados desde 1792 a
profanarem conventos e a matarem freiras, principalmente as velhas.
Passadas de sensato horror, as religiosas abriram a porta. Eduardo foi
quem primeiro transpoz o limiar d'aquelle pombal de aves do empyreo,
que apenas tinham de mulheres o receio de serem tratadas menos ao
espiritual do que se usa com as jerarchias celicolas. Era, ao mesmo
tempo, mavioso e compungente vêr como aquellas abelhas da divina
ambrosia volteavam e zumbiam, ao darem tento dos zangãos francezes! Se,
por mofina sorte, colmeia tão do céo, favos amellados com essencia de
quantas flores perfumam cenobios de noviças, se--diga-se ao
claro--aquellas raparigas cahissem nos colmilhos de tamanhos canibaes,
com que vergonha nacional e minha não contaria eu aqui o escandalo!
Ainda bem que o decoro d'esta minha terra, n'aquillo como no restante,
ha sempre uma providencia que o salva illeso.
As freiras, pelo menos, salvaram-se d'aquelle inferno que lhes andou a
chammejar por perto dos véos e dos escapularios; todavia, o alarido e
corrimaças que ellas faziam no claustro, accusariam de incontinentes os
gallos, (aqui a palavra _gallos_ não é contingencia de capoeira) se
ellas mesmas não confessassem depois ao bispo e ás familias que os
camaradas de Eduardo Pimenta haviam procedido mais castamente do que era
de esperar de atheus, sem lei, nem rei, nem roque.
E disseram verdade.
Vem aqui a ponto sahir com uma defeza, embora serôdia, do exercito
francez, no tocante a ominosos attentados contra mosteiros portuguezes,
segundo consta d'uns poemas calumniosos que ahi correram, quanto
javardos correm por lameiraes, e ainda sujam as bibliothecas de
alguns collectores de sordicias. Exceptuado o dragão que embaciou o
cristallino pudor da menina de Alemquer, não me chegou noticia
authentica de outro aggravo feito por parte da França á honra das nossas
patricias. É regalo--não é?--poder a gente escrever isto, e, por isto
mesmo, asseverar que na construcção das gerações sequentes a 1808 não ha
gallicismo notavel que eu saiba. Não obstante, dizem praguentos que as
joldas invasoras dos mosteiros arrebanhavam baixellas, pinturas, joias
d'arte, e pospunham com desdem joias da natureza, as esposas do
cordeiro. Aqui ha acinte menoscabador da belleza das nossas freiras,
sendo certo que n'aquelle tempo as havia peregrinas, primorosas, dignas
patricias d'aquella Marianna Alcoforado, conventual em Beja, que tão
celebrada formosura e espirito deixou na Europa em cartas ainda hoje
relidas com dó, admiração, e somnolencia.
Á imitação d'esta deviam ser as cento e vinte que esvoaçavam dos
dormitorios para a claustra e da claustra para a cêrca, do mesmo passo
que Eduardo e os seus honestos amigos seguiam a porteira em direitura á
cella de D. Antonia de Portugal.
Quando o marido da desmaiada senhora assomou á porta, as freiras
conclamaram tão rijo grito que a enferma retranziu-se espavorindo os olhos.
N'este lance, os braços, que a sustinham, eram já os d'elle, cujos
labios, crispando estremecidos de angustia, balbuciaram:
--Esposa da minha alma!... Mataram-te... Fui eu quem te matou!... Oh!
falla-me, querida filha!... Não me conheces, Antonia?...
Quando esta e outras exclamações iam avocando a razão da pavida
agonizante, a prioreza chamou fóra da cella as freiras testemunhas do
trance doloroso, e observou-lhes:
--Não assistam a essa diabrura! Venham comigo ao côro pedir ao divino
esposo que despene d'esta vida a alma da peccadora, que veiu dar
escandalo n'esta casa.
--Assim é, nossa madre!--obtemperou a escrivã, offerecendo uma vez de
simonte á madre boticaria, e olhando de esconso contra um official que
lhe careteava enviezando o beiço de baixo até cobrir a ponta do queixo.
O verso e o reverso das coisas d'este planeta, leitor philosopho!
Dentro da cella, agonias que as lagrimas afogavam no silencio; cá fóra,
a irrisão, a farça, a jogralidade que a critica descobre á beira das
grandes dôres, á beira até das sepulturas!
Mas ao pé da sepultura de Antonia de Portugal, no templo de S. Salvador
de Coimbra, se não havia preces nem olhos lagrimosos, tambem não passava
o motejo sacrilego. Ahi moravam o silencio, a soledade, e a mudez do
esquecimento que deve ser nas almas idas e saudosas d'esta vida um
chorar sem consolação no seio da eterna gloria.
Estava pois resalva das borrascas a luctadora vencida e ao mesmo
tempo victoriosa; que morrer assim é triumphar.