O pae de Thereza não embicaria na impureza do sangue do corregedor, se o
ajustarem-se os dois filhos em casamento se compadecesse com o odio de
um e o desprêso do outro. O magistrado mofava do rancor do seu visinho,
e o visinho malsinava de venalidade a reputação do magistrado. Este
sabia da injuriosa vingança em que o outro se ia despicando; fingia-se
invulneravel á detracção; mas de dia para dia se lhe azedava a bilis; e
é de crêr que, se o não contivessem considerações de familia, soffreria
menos, desabafando pela bôca d'um bacamarte, arma da predilecção dos
Botelhos Correias de Mesquita. Era obra sobrehumana o reconciliarem-se.
Rita, a filha mais nova, estava um dia na janella do quarto de Simão, e
viu a visinha rente com os vidros e a testa apoiada nas mãos. Sabia
Thereza que era aquella menina a mais querida irmã de Simão, e a que
mais semelhança de parecer tinha com elle. Sahiu da sua artificial
indifferença, e respondeu ao reparo de Rita, fazendo-lhe com a mão um
gesto e sorrindo para ella. A filha do corregedor sorriu tambem, mas
fugiu logo da janella, porque sua mãe tinha prohibido ás filhas de
trocarem vistas com pessoa d'aquella casa.
No dia seguinte á mesma hora, levada da sympathia que lhe causára
aquelle sorriso e aceno, tornou Rita á janella, e lá viu Thereza com os
olhos fitos na sua, como se a estivesse esperando. Sorriram-se com
resguardo, afastando-se, a um tempo, do peitoril das janellas; e assim,
ambas de pé, no interior dos quartos, se estavam contemplando. Como a
rua era estreita, podiam ouvir-se fallando baixo. Thereza, mais pelo
movimento dos labios que por palavras, perguntou a Rita se era sua
amiga. A menina respondeu com um gesto affirmativo, e fugiu,
acenando-lhe um adeus. Estes rapidos instantes de se vêrem repetiram-se
successivos dias, até que, perdido o maior mêdo de ambas, ousaram
demorar-se em palestras a meia voz. Thereza fallava de Simão, contava á
menina de onze annos o segredo do seu amor, e dizia-lhe que ella havia
de ser ainda sua irmã, recommendando-lhe muito que não dissesse nada á
sua familia.
N'uma d'essas conversações, Rita descuidara-se, e levantou de modo a voz
que foi ouvida d'uma irmã, que a foi logo accusar ao pae. O corregedor
chamou Rita, e forçou-a pelo terror a contar tudo que ouvira á visinha.
Tanta foi sua cólera, que, sem attender ás razões da esposa, que viera
espavorida dos gritos d'elle, correu ao quarto de Simão, e viu ainda
Thereza á janella.
Ólé!--disse elle á pállida menina--Não tenha a confiança de pôr olhos em
pessoa de minha casa. Se quer casar, case com um sapateiro, que é um
digno genro de seu pae.
Thereza não ouviu o remate da brutal apostrophe: tinha fugido aturdida e
envergonhada. Porém, como o desabrido ministro ficasse bramindo no
quarto, e Thadeu de Albuquerque sahisse a uma janella, a cólera
d'aquelle redobrou, e a torrente das injurias, longo tempo represada,
bateu no rosto do visinho, que não ousou replicar-lhe.
Thadeu interrogou sua fllha, e acreditou que foi causa á sanha de
Domingos Botelho estarem as duas meninas praticando innocentemente, por
tregeitos, em coisas de sua idade. Desculpou o velho a criancice de
Thereza, admoestando-a a que não voltasse áquella janella.
Esta mansidão do fidalgo, cujo natural era bravio, tem a sua explicação
no projecto de casar em breve a filha com seu primo Balthazar Coutinho,
de Castro-d'Aire, senhor de casa, e egualmenle nobre da mesma prosapia.
Cuidava o velho, presumpçoso conhecedor do coração das mulheres, que a
brandura seria o mais seguro expediente para levar a filha ao
esquecimento d'aquelle pueril amor a Simão. Era maxima sua que o amor,
aos quinze annos, carece de consistencia para sobreviver a uma ausencia
de seis mezes. Não pensava errado o fidalgo, mas o erro existia. As
excepções tem sido o ludibrio dos mais assizados pensadores, tanto no
especulativo como na sciencia positiva. Não era muito que Thadeu de
Albuquerque fosse enganado em coisas de amor e coração de mulher, cujas
variantes são tantas e tão caprichosas, que eu não sei se alguma maxima
póde ser-nos guia, a não ser esta: «Em cada mulher, quatro mulheres
incomprehensiveis, pensando alternadamente como se hão de desmentir umas
ás outras.» Isto é o mais seguro; mas não é infallivel. Ahi está Thereza
que parece ser unica em si. Dir-se-ha que as tres da conta, que diz a
sentença, não podem coexistir com a quarta, aos quinze annos? Tambem o
penso assim, posto que a fixidez, a constancia d'aquelle amor, funda em
causa independente do coração: é porque Thereza não vai á sociedade, não
tem um altar em cada noite na sala, não provou o incenso d'outros
galans, nem teve ainda uma hora de comparar a imagem amada, desluzida
pela ausencia, com a imagem amante, amor nos olhos que a fitam, e amor
nas palavras que a convencem de que ha um coração para cada homem, e uma
só mocidade para cada mulher. Quem me diz a mim que Thereza teria em si
as quatro mulheres da maxima, se o vapor de quatro incensorios lhe
estonteasse o espirito? Não é facil, nem preciso decidir; e vamos ao
conto.
Ácerca de Simão Botelho, nunca diante de sua filha Thadeu de Albuquerque
proferiu palavra, nem antes nem depois do disparate do corregedor. O que
elle fez logo foi chamar a Vizeu o sobrinho de Castro d'Aire, e
prevenil-o do seu designio, para que elle em face de Thereza procedesse
como convinha a um enamorado de feição, que mutuamente se apaixonassem e
promettessem auspicioso futuro ao casamento.
Por parte de Balthazar Coutinho a paixão inflammou-se tão depressa,
quanto o coração de Thereza se congelou de terror e repugnancia. O
morgado de Castro-d'Aire, attribuindo a frieza de sua prima a modestia,
a innocencia e acanhamento, lisonjeou-se do virginal melindre d'aquella
alma, e saboreou de antemão o prazer de uma lenta, mas segura conquista.
Verdade é que Balthazar nunca se explicara de modo que Thereza lhe désse
resposta decisiva; um dia, porém, instigado por seu tio, affoitou-se o
ditoso noivo a fallar assim á melancólica menina:
--É tempo de lhe abrir o meu coração, prima. Está bem disposta a
ouvir-me?
---Eu estou sempre bem disposta a ouvil-o, primo Balthazar.
A desplicencia enfadosa d'esta resposta abalou algum tanto as convicções
do fidalgo, respeito á innocencia, modestia e acanhamento de sua prima.
Ainda assim quiz elle no momento persuadir-se que a boa vontade não
poderia exprimir-se d'outro modo, e continuou:
--Os nossos corações penso eu que estão unidos; agora é preciso que as
nossas casas se unam.
Thereza impallideceu, e baixou os olhos.
--Acaso lhe diria eu alguma coisa desagradavel?!--proseguiu Balthazar,
rebatido pela desfiguração de Thereza.
--Disse-me o que é impossível fazer-se--respondeu ella sem turvação--O
primo engana-se: os nossos corações não estão unidos. Sou muito sua
amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lembrou que o primo
pensava em tal.
--Quer dizer que me aborrece, prima Thereza?--atalhou corrido o morgado.
--Não, senhor: já lhe disse que o estimava muito, e por isso mesmo não
devo ser esposa d'um amigo a quem não posso amar. A infelicidade não
seria só minha...
--Muito bem... Posso eu saber--tornou com refalsado sorriso o
primo--quem é que me disputa o coração de minha prima?
--Que lucra em o saber?
--Lucro saber, pelo menos, que a minha prima ama outro homem... é
exacto?
--É.
--E com tamanha paixão que desobedece a seu pae?
--Não desobedeço: o coração é mais forte que a submissa vontade de uma
filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade de meu pae; mas eu não
disse ao primo Balthazar que casava; disse-lhe unicamente que amava.
--Sabe a prima que eu estou espantado do seu modo de dizer!... quem
pensaria que os seus dezeseis annos estavam tão abundantes de
palavras!...
--Não são só palavras, primo--retorquiu Thereza com gravidade--são
sentimentos que merecem a sua estima, por serem verdadeiros. Se lhe eu
mentisse ficaria mais bem vista de meu primo?
--Não, prima Thereza; fez bem em dizer a verdade, e de a dizer em tudo.
Ora, olhe, não duvída declarar quem é o ditoso mortal da sua
preferencia?
--Que lhe faz saber isso?
--Muito, prima: todos temos a nossa vaidade, e eu folgaria muito de me
vêr vencido por quem tivesse merecimentos que eu não tenho aos seus
olhos. Tem a bondade de me dizer o seu segredo, como o diria a seu primo
Balthazar, se o tivesse em conta do seu amigo intimo?
--N'essa conta é que eu o não posso já ter...--respondeu Thereza,
sorrindo e contando, como elle, as syllabas das palavras.
--Pois nem para amigo me quer?!
--O primo não me perdoa a sinceridade que eu tive, e será de hoje em
diante meu inimigo.
--Pelo contrario...--tornou elle com mal rebuçada ironia--muito pelo
contrario... Eu lhe provarei que sou seu amigo, se alguma vez a vir
casada com algum miseravel indigno de si.
--Casada!...--interrompeu ella; mas Balthazar cortou-lhe logo a réplica
d'este modo:
--Casada com algum famoso ébrio ou jogador de páo, valentão de
aguadeiros, e distincto cavalheiro que passa os annos lectivos
encarcerado nas cadêas de Coimbra...
Visivel é que Balthazar Coutinho estava senhor do segredo de Thereza.
Seu tio, naturalmente, lhe communicara a criancice da prima, talvez
antes de destinar-lh'a esposa.
Ouvira Thereza o tom sarcastico d'aquellas palavras, e erguêra-se
respondendo assim com altivez:
--Não tem mais que me diga, primo Balthazar?
--Tenho, prima: queira sentar-se algum tempo mais. Não cuide agora que
está fallando com o namorado infeliz: convença-se de que falla com o seu
mais proximo parente e mais sincero amigo, e mais decidido guarda da sua
dignidade e fortuna. Eu sabia que minha prima, contra a expressa vontade
de seu pae, uma ou outra vez conversára da janella com o filho do
corregedor. Não dei valor ao successo, e tomei-o como criancice. Como eu
frequentasse o meu ultimo anno em Coimbra, ha dois annos conheci de
sobra Simão Botelho. Quando vim e me contaram a sua affeição ao
academico, pasmei da boa fé da priminha; depois entendi que a sua mesma
innocencia devia ser o seu anjo custodio. Agora, como seu amigo,
cumpunjo-me de a vêr ainda fascinada pela perversidade do seu visinho.
Não se recorda de ter visto Simão Botelho sociando com a infima
vilanagem d'esta terra? Não viu os seus criados com as cabeças quebradas
pelo tal varredor de feiras? Não lhe constou que elle, em Coimbra,
abarrotado de vinho, andava pelas ruas armado como um salteador de
estradas, proclamando á canalha a guerra aos nobres, e aos reis, e á
religião de nossos paes? A prima ignoraria isto por ventura?
--Ignorava parte d'isso, e não me afflige o sabêl-o. Desde que conheci
Simão, não me consta que elle tenha dado o menor desgosto á sua familia,
nem ouço fallar mal d'elle.
--E está por isso persuadida de que Simão deve ao seu amor a reforma de
costumes?
--Não sei, nem penso n'isso--replicou com enfado Thereza.
--Não se zangue, prima. Vou-lhe dizer as minhas ultimas palavras: eu hei
de, em quanto viver, trabalhar para salval-a das garras de Simão
Botelho. Se seu pae lhe faltar, fico eu. Se as leis a não defenderem dos
ataques do seu demonio, eu farei vêr ao valentão que a victoria sobre os
aguadeiros não o poupa ao desgosto de ser levado a pontapés para fóra da
casa de meu tio Thadeu d'Albuquerque.
--Então o primo quer-me governar?--atalhou ella com desabrida irritação.
--Quero-a dirigir em quanto a sua razão precisar de auxilio. Tenha
juizo, e eu serei indifferente ao seu destino. Não a enfado mais, prima
Thereza.
Balthazar Coutinho foi d'ali procurar seu tio, e contou-lhe o essencial
do dialogo. Thadeu, atonito da coragem da filha, e ferido no coração e
direitos paternaes, correu ao quarto d'ella, disposto a espancal-a.
Reteve-o Balthazar, reflexionando-lhe que a violencia prejudicaria muito
a crise, sendo coisa de esperar que Thereza fugisse de casa. Refreou o
pae a sua ira, e meditou. Horas depois chamou sua filha, mandou-a sentar
ao pé de si, e em termos serenos e gesto bem composto, lhe disse que era
sua vontade casal-a com o primo; porém que elle já sabia que a vontade
de sua filha não era essa. Ajuntou que a não violentaria; mas tambem não
consentiria que ella, sovando aos pés o pundonor de seu pae, se désse de
coração ao filho do seu maior inimigo. Disse mais que estava a resvalar
na sepultura, e mais depressa desceria a ella, perdendo o amor da filha,
que elle já considerava morta. Terminou perguntando a Thereza, se ella
duvidava entrar n'um convento, e ahi esperar que seu pae morresse, para
depois ser desgraçada á sua vontade.
Thereza respondeu, chorando, que entraria n'um convento, se essa era a
vontade de seu pae; porém que se não privasse elle de a ter em sua
companhia, nem a privasse a ella dos seus affectos, por mèdo de que sua
filha praticasse alguma acção indigna, ou lhe desobedecesse no que era
virtude obedecer. Prometteu-lhe julgar-se morta para todos os homens,
menos para seu pae.
Thadeu ouviu-a, e não lhe replicou.