Simão Botelho levou de Vizeu para Coimbra as arrogantes convicções da
sua valentia. Se recordava os chibantes pormenores da derrota em que
pozera trinta aguadeiros, o som cavo das pancadas, a queda atordoada
d'este, o levantar-se d'aquelle ensanguentado, a bordoada que abrangia
tres a um tempo, a que afocinhava dois, a gritaria de todos, e o
estrepito dos cantaros a final, Simão deliciava-se n'estas lembranças,
como ainda não vi n'algum drama, em que o veterano de cem batalhas
relembra os lourós de cada uma, e esmorece, a final, estafado de
espantar, quando não é de estafar, os ouvintes.
O academico, porém, com os seus enthusiasmos era incomparavelmente muito
mais prejudicial e perigoso que o mata-mouros de tragedia. As
recordações esporeavam-no a façanhas novas, e n'aquelle tempo a academia
dava azo a ellas. A mocidade estudiosa, em grande parte, sympathisava
com as balbuciantes theorias da liberdade, mais por presentimento que
por estudo. Os apostolos da revolução franceza não tinham podido fazer
reboar o trovão dos seus clamores n'este canto do mundo; mas os livros
dos encyclopedistas, as fontes onde a geração seguinte bebêra a peçonha
que sahiu no sangue de noventa e tres, não eram de todo ignorados. As
doutrinas da regeneração social pela guilhotina tinham alguns timidos
sectarios em Portugal, e esses de vêr é que deviam pertencer á geração
nova. Além de que, o rancor a Inglaterra lavrava nas entranhas das
classes manufactureiras, e o desprender-se do jugo aviltador de
estranhos, apertado, desde o principio do seculo anterior, com as sôgas
de ruinosos e perfidos tractados, estava no animo de muitos e bons
portuguezes que se queriam antes alliançados com a França, Estes eram os
pensadores reflexivos; os sectarios da academia, porém, exprimiam mais a
paixão da novidade que as doutrinas do raciocinio.
No anno anterior de 1800 sahira Antonio de Araujo de Azevedo, depois
conde da Barca, a negociar em Madrid e Paris a neutralidade de Portugal.
Rejeitaram-lhe as potencias alliadas as propostas, tendo-lhe em conta de
nada os dezeseis milhões que o diplomata offerecia ao primeiro consul.
Sem delongas, foi o territorio portuguez infestado pelos exercitos de
Hespanha e França. As nossas tropas, commandadas pelo duque de Lafões,
não chegaram a travar a lucta desigual, porque, a esse tempo, Luiz Pinto
de Sousa, mais tarde visconde de Balsemão, negociara ignominiosa paz em
Badajoz, com cedencia de Olivença á Hespanha, exclusão de inglezes dos
nossos portos, e indemnisação de alguns milhões á França.
Estes successos tinham irritado contra Napoleão os animos d'aquelles que
odiavam o aventureiro, e para outros deram causa a congratularem-se do
rompimento com Inglaterra. Entre os d'esta parcialidade, na convulsiva e
irriquieta academia, era voto de grande monta Simão Botelho, apesar dos
seus imberbes dezeseis annos. Mirabeau, Danton, Robespierre, Desmoulins,
e muitos outros algozes e martyres do grande açougue, eram nomes de
soada musical aos ouvidos de Simão. Diffamal-os na sua presença era
affrontarem-no a elle, e bofetada certa, e pistolas engatilhadas á cara
do diffamador. O filho do corregedor de Vizeu defendia que Portugal
devia regenerar-se n'um baptismo de sangue, para que a hydra dos
tyrannos não erguesse mais uma das suas mil cabeças sob a clava do
Hercules popular.
Estes discursos, arremêdo d'alguma clandestina objurgatoria de
Saint-Just, afugentavam da sua communhão aquelles mesmos que o tinham
applaudido em mais racionaes principios de liberdade. Simão Botelho
tornou-se odioso aos condiscipulos que, para se salvarem pela infamia, o
delataram ao bispo-conde, reitor da universidade.
Um dia proclamava o demagogo academico na praça de Sansão aos poucos
ouvintes que lhe restaram fieis, uns por mêdo, outros por analogia de
boças. O discurso ia no mais acrisolado da ideia regicida, quando uma
escolta de verdeaes lhe aguou a escandecencia. Quiz o orador resistir,
aperrando as pistolas, mas de sobra sabiam os braços musculosos da
cohorte do bispo-conde com quem as haviam. O jacobino, desarmado e
cerrado entre a escolta dos archeiros, foi levado ao carcere academico,
d'onde sahiu, seis mezes depois, a grandes instancias dos amigos de seu
pae e dos parentes de D. Rita Preciosa.
Perdido o anno lectivo, foi para Vizeu Simão. O corregedor repelliu-o da
sua presença com ameaças de o expulsar de casa. A mãe, mais levada do
dever que do coração, intercedeu pelo filho, e conseguiu sental-o á mesa
commum.
No espaço de tres mezes fez-se maravilhosa mudança nos costumes de
Simão. As companhias da ralé despresou-as. Sahia de casa raras vezes, ou
só, ou com a irmã mais nova, sua predilecta. O campo, as arvores, e os
sitios mais sombrios e êrmos eram o seu recreio. Nas dôces noites de
estio demorava-se por fora até ao repontar da alva; e aquelles que assim
o viam admiravam-lhe o ar scismador e o recolhimento que o sequestrava
da vida vulgar. Em casa encerrava-se no seu quarto, e sahia quando o
chamavam para a mesa.
D. Rita pasmava da transfiguração, e o marido, bem convencido d'ella, ao
fim de cinco mezes consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra.
Simão Botelho amava. Ahi está uma palavra unica, explicando o que
parecia absurda reforma aos dezesete annos.
Amava Simão uma sua visinha, menina de quinze annos, rica herdeira,
regularmente bonita e bem nascida. Da janella do seu quarto é que elle a
vira a primeira vez para amal-a sempre. Não ficara ella incolume da
ferida que fizera no coração do visinho: amou-o tambem, e com mais
seriedade que a usual nos seus annos.
Os poetas cansam-nos a paciencia a fallarem do amor da mulher aos quinze
annos, como paixão perigosa, unica, e inflexivel. Alguns prosadores de
romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor dos quinze annos é uma
brincadeira; é a ultima manifestação do amor ás bonecas; é a tentativa
da avesinha que ensaia o vôo fóra do ninho, sempre com os olhos fitos na
ave mãe que a está da fronde proxima chamando: tanto sabe a primeira o
que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe.
Thereza de Albuquerque devia ser, por ventura, uma excepção no seu amor.
O magistrado e sua familia eram odiosos ao pae de Thereza, por motivos
de litigios em que Domingos Botelho lhe deu sentenças contra. Afóra
isso, ainda no anno anterior dois criados de Thadeu de Albuquerque
tinham sido feridos na celebrada pancadaria da fonte. Salta aos olhos
que o amor de Thereza, declinando de si o dever de obtemperar e
sacrificar-se ao justo azedume de seu pae, era verdadeiro e forte.
E este amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se e
fallaram-se tres mezes, sem darem rebate á visinhança, e nem sequer
suspeitas ás duas familias. O destino, que ambos se promettiam, era o
mais honesto: elle ia formar-se para poder sustental-a, se não tivessem
outros recursos; ella esperava que seu velho pae fallecesse para,
senhora sua, lhe dar com o coração o seu grande patrimonio. Espanta
discrição tamanha na indole de Simão Botelho, e na presumivel ignorancia
de Thereza em coisas materiaes da vida, como são um patrimonio!
Na vespera da sua ida para Coimbra, estava Simão Botelho despedindo-se
da suspirosa menina, quando subitamente ella foi arrancada da janella. O
allucinado moço ouviu gemidos d'aquella voz que, um momento antes,
soluçava commovida por lagrimas de saudade. Subiu-lhe o sangue á cabeça;
contorceu-se no seu quarto como o tigre contra as grades inflexiveis da
jaula. Teve tentações de se matar, na impotencia de soccorrêl-a. As
restantes horas d'aquella noite passou-as em raivas e projectos de
vingança. Com o amanhecer esfriou-lhe o sangue, e renasceu a esperança
com os calculos.
Quando o chamaram para partir para Coimbra, lançou-se do leito de tal
modo desfigurado, que sua mãe, avisada do rosto amargurado d'elle, foi
ao quarto interrogal-o e despersuadil-o de ir era quanto assim estivesse
febril. Simão, porém, entre mil projectos, achara melhor o de ir para
Coimbra, e esperar lá noticias de Thereza, e vir a Vizeu occultamente
fallar com ella. Ajuizadamente discorrêra elle, que a sua demora
aggravaria a situação de Thereza.
Descêra o academico ao páteo, depois de abraçar a mãe e irmãs, e beijar
a mão do pae, que para esta hora reservara uma admoestação severa, a
ponto de lhe asseverar que de todo o abandonaria se elle recahisse em
novas extravagancias. Quando mettia o pé no estribo, viu a seu lado uma
velha mendiga, estendendo-lhe a mão aberta, como quem pede esmola, e, na
palma da mão, um pequeno papel. Sobresaltou-se o moço; e, a poucos
passos distante de sua casa, leu estas linhas:
«Meu pae diz que me vai encerrar n'um convento, por tua causa. Soffrerei
tudo por amor de ti. Não me esqueças tu, e achar-me-has no convento, ou
no ceo, sempre tua do coração, e sempre leal. Parte para Coimbra. Lá
irão dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome has de
responder á tua pobre Thereza.»
A mudança do estudante maravilhou a academia. Se o não viam nas aulas,
em parte nenhuma o viam. Das antigas relações restavam-lhe apenas as dos
condiscipulos sensatos que o aconselhavam para bem, e o visitaram no
carcere de seis mezes, dando-lhe alentos e recursos, que seu pae lhe não
dava, e sua mãe escassamente suppria. Estudava com fervor, como quem já
d'alli formava as bases do futuro renome e da posição por elle merecida,
bastante a sustentar dignamente a esposa. A ninguem confiava o seu
segredo, senão ás cartas que enviava a Thereza, longas cartas em que
folgava o espirito da canceira da sciencia. A apaixonada menina
escrevia-lhe a miudo, e já dizia que a ameaça do convento fôra mero
terror de que já não tinha mêdo, porque seu pae não podia viver sem
ella.
Isto afervorou-lhe para mais o amor ao estudo. Simão, chamado em pontos
difficeis das materias do primeiro anno, tal conta deu de si, que os
lentes e os condiscipulos o houveram como primeiro premiado.
A este tempo, Manoel Botelho, cadete em Bragança, destacado no Porto,
licenciou-se para estudar na universidade as mathematicas. Animou-o a
noticia do reviramento que se déra em seu irmão. Foi viver com elle;
achou-o quieto; mas alheado n'uma ideia que o tornava misanthropo e
intratavel n'outro genero. Pouco tempo conviveram, sendo a causa da
separação um desgraçado amor de Manoel Botelho a uma açoriana casada com
um academico. A esposa apaixonada perdeu-se nas illusões do cego amante.
Deixou o marido, e fugiu com elle para Lisboa, e d'ahi para Hespanha. Em
outro relanço d'esta narrativa darei conta do remate d'este episodio.
No mez de Fevereiro de 1803 recebeu Simão Botelho uma carta de Thereza.
No seguinte capitulo se diz minuciosamente a peripecia que forçára a
filha de Thadeu de Albuquerque a escrever aquella carta de pungentissima
surpreza para o academico, convertido aos deveres, á honra, á sociedade
e a Deus pelo amor.